Deixei-me simplesmente ir nestas férias, sem grandes planos, nem projetos. A expetativa, tantas vezes gorada, de tirar delas um deslumbramento capaz de me recarregar baterias para um novo ano, deixou de existir. Fiz coisas vulgares, à medida do que me apetecia, e nem sequer me obriguei a ir onde supostamente seria expectável ir como à festa de teatro da minha cidade, eu que tanto amo essa arte e que costumo tudo fazer para conseguir estar presente quando ela acontece. A cabeça precisava de se esvaziar, não podia conter mais nada, nem sequer uma obra de arte de qualquer natureza ou mais um espetáculo. Percebi a exaustão a consumir-me e que ela me poderia arruinar e parei de ver, de ir, de planear, de querer. Li pouco, apenas um ensaio e comecei um outro livro. Vi dois ou três filmes. Depositei energia, contudo, em coisas que costumo detestar, como arrumações e limpezas. Em caminhar sem plano nem destino.
E precisava de estar mais tempo assim a flutuar, noto isso a cada tentativa de regresso às tarefas que se acumulam à minha espera, faço-as muito devagar, resistindo. Nem a chuva ajudou.
E depois ele pediu ajuda, e só não farei por um amigo algo se não puder mesmo. Acabei assim nesta cidade tão mais a norte, à qual trouxe tantas vezes a minha mãe, no mesmo hospital ao qual a acompanhei regularmente para fazer a injeção que durante uns bons anos lhe salvou a visão. Nada previsto, nada suposto, nem sabia onde iria ficar, ele programou, não eu, uma raridade, toda a vida eu planeei tudo, excepção às últimas férias com a minha filha onde as coisas já não eram, nem são bem assim.
Ao mesmo tempo isto devolveu-me a mim, ainda sou eu, aquela que gosta de cuidar e tem jeito para o fazer, não tanto pelo cuidado do corpo do outro, mas pela capacidade de escuta, de fala, de humor. Alguém que acompanha, alguém que é companhia, sou capaz, ainda sou capaz. Neste cuidado reconheço-me inteira.
~CC~
Haver ainda alguém que precisa de nós pode ser uma espécie de salvação, inscreve-nos na necessidade quando já pensamos que ela prescindiu de nós. Afinal, a rotina é o que de mais substituível existe, precisa a mão e o esforço de alguém, sem descriminar. Acompanhar um amigo/a, julgo eu, joga noutra liga; será dever de cada um, mas nunca tomado como tal já que se apresenta como deliberação originada na espontaneidade do sentimento. E é benefício para os dois intervenientes. Se o corpo o permita, admito ser essa uma das poucas coisas que nos ficam até ao fim.
ResponderEliminarDê graças porque o corpo e a vida lhe permitem a deslocação. E por poder ainda contrariar os hábitos de férias sem ressentimentos, sentindo antes que isso é satisfação da necessidade. Existirá muita gente a quem o mesmo acontece e resta apenas um chão desiludido.
Um abraço, CC
O sentimento de ser capaz implica todas essas componentes: a física e a psicológica e isso dá-nos uma noção de que a força ainda nos habita, assim como a coragem e a generosidade. Termos sentimentos positivos, nomeadamente empatia, faz-nos acreditar mais em nós mesmos, não somos apenas alguém que apregoa e defende valores, somos capazes de os praticar. Creio que a Bea viu isso muito bem.
EliminarHá cuidados que oferecemos aos outros e que, sem esperarmos, nos devolvem a nós próprios. Que bonito reconhecer-se inteira nesse lugar.
ResponderEliminarAbraço
Há quem diga que aquilo que damos volta para nós em dobro, não acredito muito, mas acredito que sob qualquer outra forma, que às vezes nem é a mesma ou da mesma pessoa, alguém nos dará o que precisamos porque também fomos capazes de o dar.
EliminarA chegada à idade do cansaço reserva-nos o impensável reencontro onde só vigora o que de bom ficou. Nunca pensámos chegar ao tempo em precisamos de uma mão para atravessar uma noite da vida um pouco mais longa e dolorosa. Que pena não podermos voltar ao tempo que passou.
ResponderEliminarUm abraço.
Não sei se compreendi totalmente o que queria dizer. Este meu amigo é mesmo um amigo, nunca foi um amor. É claro que a sociedade está de tal forma moldada pela ideia de casal que no hospital me chamaram várias vezes de "mulher de" e de "companheira", não obstante termos dito logo que erámos primos-irmãos (porque é dessa forma que sinto os meus amigos e amigas mais próximos). Do que diz, não tenho dúvidas de que precisamos de uma mão para atravessar uma "noite mais..." e para que isso não pese excessivamente sobre os nossos filhos, temos que ir construindo outras redes, eu acredito nas redes de amizade.
EliminarCompreendi que não são um casal, o que torna tudo ainda mais "incómodo" quando precisamos de uma mão.
EliminarOlá, CCF
ResponderEliminarPor vezes acontece. As férias nem sempre satisfazem, especialmente
quando temos de fazer algumas tarefas a que não podemos fugir.
Tratar de alguém que precisa de nós dá-nos especial gosto.
Beijinhos
Olinda
O peso que colocamos nas férias decorre de trabalharmos em excesso e de não usufruirmos o suficiente dos fins de semana e outros períodos de descanso durante o ano e por isso colocamos ali, naquele mês ainda por cima caro, propício à balbúrdia e onde todos procuram ansiosamente ser felizes as nossas expectativas. Acho que é isso que tenho vindo a mudar, procuro ter em cada mês um fds diferente, com sabor de férias. E dentro de cada fds, um dia para mim, para não trabalhar. Pode isto parecer estranho mas houve épocas em que trabalhei de fio a pavio, fds incluídos. E não foi pelo dinheiro, na Educação pública não se ganha dinheiro. Beijinhos e quero ir um dia a S. Vicente, se tiver algumas sugestões interessantes, pode enviar para o meu mail.
Eliminaro que importa retirar desta escrita que me deixa sempre feliz pela leitura é que é tão bom sermos nós mesmos.
ResponderEliminarObrigado
Eu é que agradeço!
EliminarLi e reli e senti-me comovida.
ResponderEliminarComo é bom haver pessoas assim como a autora.
Felizes quem tem uma amiga assim.
Boa semana.
Beijo
:)
Todo o amor e amizade precisam de chão e de alimento. Estou certa que a Pity também sabe e também iria caso a chamassem. Beijinho
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