quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A rádio



Era a caixinha nas tardes no meu quintal em Angola. A caixinha das vozes, um soar de sons mágicos que aliviava a solidão da minha infância. Não percebia quase nada do que diziam, era bailarina em todas as músicas.

Ainda hoje me faz sonhar algumas vezes.

~CC~

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Belo e difícil como o mar


Há uma alegria intensa quando entramos no território de um lugar amado e dele bebemos até nos embriagarmos de azul. O conforto de conhecermos alguém e de alguém nos conhecer elimina a artificialidade que tantas vezes está presente quando nos queremos apresentar a alguém, dispensam-se frases feitas e poses de espelho, somos quem somos. Ao contrário do que tantas vezes pensei posso gostar da mesma pele que toca a minha com a dose de eternidade com que gosto de caril, de manga, de sol. Não preciso do novo, preciso que o que é velho se renove. Não preciso de outro, preciso de que sejas outro e que eu, sendo a mesma, seja já outra. Ter um passado pode pesar ou ser um legado, um património de lugares vividos.
 
Este território amado que habito é, no entanto, tão belo e assutador como o mar. Gosto tanto de um banho salgado mas receio cada onda que se eleva mais com receio de que me puxe para baixo, que me tire o ar, me sufoque. E olho para aquela água salgada em que me banho e sinto-lhe outra densidade, talvez mesmo outra riqueza, mas receio que a ausência da pureza, da limpidez do mergulho inicial, me transtorne os dias a ponto de fugir do mar, de viver em terra seca, de me impedir de ser. Sopra ao meu ouvido a voz da maturidade e não sei se sou capaz de a ouvir e crescer assim, afinal toda a vida fui fiel a uma poética adolescente, parte integrante de uma moral que amo e não quero perder. Como fazer a síntese de dois mundos em mim?
 
~CC~

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Homens vagueando



O ócio devia ser a experiência de saber realmente o que fazer do tempo. Um saber feito sabor de cada coisa encontrada, vivida.
 
Estes homens que vi esta manhã, dois com cerca de cinquenta anos, alguns mais os esperando no café ao lado, são o contrário disso. Pelas 10h na papelaria de um centro comercial escuro e sombrio, compravam raspadinhas em série. Por cada euro ganho a mais do que gasto, bebiam uma cerveja. Nisto gastam as suas manhãs sem emprego e esvaziam a sua vida de qualquer sentido. Riam-se muito e estamos habituados a ver no riso um sinal de felicidade mas o riso deles era escuro e pastoso, um sinal de decadência de vidas que não consigo sequer pensar como eram antes.
 
Nas ruas desta minha cidade há muitos homens assim vagueando, saíndo de casa para palmilhar as avenidas, como último recurso para esgotar uma energia que se ficar presa se tornará uma bomba. Não choram como as mulheres, não ficam em casa a tratar da roupa, não imaginam ementas de um euro. Os estudos dizem-no: o desemprego masculino é duas vezes mais dramático do que o feminino. É verdade que isso pode ser sinónimo de uma sociedade onde os papéis ligados ao género são ainda o que são. Sabermos isso não resolve a vida destes homens presos à raspadinha e à cerveja. Este país que nos entristece é o destes homens demasiado novos para serem já gastos e velhos.
 
~CC~


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Do medo



Na Insustentável leveza do ser do Milan Kundera há durante todo o tempo um casal em desiquíbrio permanente, quando finalmente eles parecem alcançar a paz e sentimos que vão ser felizes, estão dentro de um jipe e na estrada, no momento seguinte já não estão neste mundo.

Eu ainda cá estou.

Não há contudo melhor forma de explicar o terror do que quando ele invade como uma nódoa um sorriso que tinha vindo a crescer mais e mais em mim.

Aconteceu-me.

Em plena estrada nacional a caminho do meu Sado, feliz como há muito não me sentia. O coração cheio daqueles miúdos que eu tinha conhecido naquela tarde, meninos e meninas ainda, mas já com tanta vontade de mudar as coisas, de ajudar, de fazer mais pelos outros. Dispostos a ser tutores dos mais novos, dos mais problemáticos, dos mais difíceis. Eu e o educador social ali com eles de corpo inteiro, ele meu parceiro e eu parceira dele.

Vinha a caminho de casa depois de uma semana intensa de trabalho e de conversas muito boas olhos nos olhos, essa história de quando os olhos finalmente aceitam olhar-se.

A noite estava escura e o trânsito intenso, permitindo usar apenas os médios. Um bicho grande e branco atravessou o meu caminho sem que o travão a fundo pudesse evitar o embate. Dispenso-vos da descrição de um momento negro. Estou aqui, o bicho não existe mais, o carro não sei se voltará a andar ou a ser o que era. Agora varro o medo dentro de mim e esta sensação de que as estrelas de vez em quando se conjugam para me tentar levar deste mundo.

Inesquecíveis todos os que estiveram comigo nesta ocasião e foram muitos. As certezas das coisas nascem nestes momentos de aflição profunda.

Aconteceu-me e foi a segunda vez que foi grave.

Mas quero viver, quero muito viver.

~CC~