domingo, 10 de março de 2013

Mapas (microconto)



M tinha sido um dedicado empregado dos correios, acompanhara a lenta mudança dos sacos de sarrapilha para as fardas de design e as maletas todas iguais e repletas de publicidade da agora denominada empresa. Tinha estudado lentamente, também ao sabor das mudanças das designações que o ministério da educação caprichosamente tinha encontrado; da simples educação de adultos ao ensino recorrente e depois ao pomposo nome de novas oportunidades. A sua melhor escola tinham sido, no entanto, as reuniões do partido. Aprendera o que significava a palavra sociedade, patronato, operariado e todo o amplo sentido da palavra luta. Os poetas chegaram muito depois dos neo-realistas, primeiro os que o partido recomendava, depois os outros e muito depois até os que o partido nunca recomendaria.
 
M pouco se lembra da sua vida para além dos desígnio que traçou para si próprio: deixar de ser analfabeto, na verdade só tinha aprendido a ler aos treze anos, depois de deixar a aldeia natal dos pais e se tornar moço de recados em Lisboa. M precisava como ninguém de saber os nomes das ruas e essa foi a sua motivação princípal, apontou as principais onde tinha que ir num caderninho, mesmo sem as saber decifrar, decorou-as. Também foi assim que começou a desenhar mapas.
 
Agora reformado M dedica-se a uma actividade completamente diferente e ainda assim muito semelhante. M ainda desenha mapas de Lisboa mas para localizar todas as paredes onde estão escritas frases de poetas. Perguntem-lhe por Fernando Pessoa e ele leva-vos lá, é de facto o poeta mais escrito nas paredes. Mas também há frases de Natália Correia, de Alberto, de Mário Cesariny, de Almada Negreiros. M sabe onde estão todas elas mas não pode descurar o seu novo ofício porque as frases aparecem e desaparecem e o seu trabalho nunca está acabado, completo.
 
M traça os mapas de si nestas frases, nelas cabem partes da sua vida, bocados do seu coração, dos nossos é provável que também.
 
~CC~
 
 
 

sábado, 9 de março de 2013

Andando por aí



Os empresários viajam muito, os grandes capitalistas imaginamos que também, talvez mais encapotados. Ou talvez nem precisem de viajar, basta um telemóvel e um portátil para deslocar capitais.
 
Estes últimos dias estive quase na pele deles, embora sem apanhar aviões, apenas comboios e taxis, domindo uma noite em cada cidade e ficando apenas no hotel sem nada ver da geografia dos rostos. Não ver as pessoas é fundamental em certos negócios. O hotel é uma especíe de território de ninguém, são quase indistintas as fardas dos funcionários e as suas frases, mais ou menos iguais as cores dos tapetes e dos cortinados e os plasmas de tamanho médio. Deve ser necessário não ver as ruas, os rostos, os olhos das pessoas para se exercer determinadas profissões, ou direi antes, funções.
 
No entanto, nós fomos a Trás os Montes. Seria impossível não ver as pessoas, eles dão mais ou menos abraços à moda de áfrica e apertos de mão vigorosos. O guião foi assim inevitavelmente quebrado. No final do dia, em vez de regressarmos ao hotel e à sua refeição inodora e incolor, levaram-nos entre vento e chuva pelas curvas e curvas da serra até uma aldeia. Parecia, à partida, ser um restaurante mas a luz estava apagada e ninguém lá dentro. Nós estavámos mais ou menos incrédulos por nos terem levado a um restaurante fechado depois do cansaço do dia e das curvas terríveis, ainda assim silenciosos como é conveniente a visitantes. Foi então que se abriu a porta de uma casa que ficava ao lado do restaurante e entrámos. A lareira estava acesa e uma criança brincava no sofá com a sua boneca. Ofereceram-nos a sua mesa de jantar e trouxeram umas maravilhosas entradas. Enquanto comiámos podíamos ver a senhora na cozinha preparando o prato seguinte com a ajuda da nora, enquanto o filho nos trazia a broa, o vinho, o sorriso. A senhora, maravilhosa cozinheira, talvez tenha respondido com três ou quatro palavras aos elogios que lhe dirigimos, contudo, manteve um sorriso quente permanente, um sorriso igual à comida que trouxe para a mesa.
 
Na volta um telefonema: vai lá ter e leva quatro copos, já sabes que és o aguadeiro. E ali brindámos com água quente a uma boa digestão e a que a vida nos trouxesse sempre gente tão simpática como esta. 
 
Creio que tal como na sala de aula quando se é professor, o afecto não prejudica em nada o objectivo do nosso trabalho, podemos ser e fomos critícos e elogiosos como seria desejável. A memória é, no entanto, traçada com o mapa dos rostos olhados, em vez de ser feita de geografia de hotel. No entanto, ainda assim, gostaria de ter visto mais cidade, mais gente.
 
~CC~
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Notas soltas




Os dias correm mais velozes do que os dedos para a escrita. A vida também, tantas são as coisas descobertas nestes últimos tempos, acasos dentro dos acasos numa composição de sangue quente, a abrir caminhos cujo fim desconheço. Tenho tanto para dizer, tenho sempre tanta vontade de escrever. Não é esse, no entanto o meu ofício e por isso o tempo rouba-me para todas as outras coisas, esta fica sempre no fim do caminho. Quando o coração quase rebenta, venho aqui. Se escrevesse mais, talvez este coração não desatasse a dar sinais súbitos de cansaço quando sobe as encostas. Antes de poder transbordar voltarei por aqui para fazer correr os rios.
 
A minha certeza do dia 2 de Março é qualquer coisa estranha, quase apolítica. Vou construindo cada vez mais a certeza de que só as pessoas valem a pena e de que todo o investimento que fazemos fora disso pouco vale.
 
Talvez seja por isso que a memória destes dias é também feita da tua pele na minha, do modo como vamos superando uma a uma cada coisa que nos distancia e jogando a mão a tudo o que nos aproxima e nos consolida para um futuro. Não há futuro certo hoje para ninguém, isso sabemos. Por isso só as pessoas podem ser o nosso terreno seguro, o único campo não minado, o último reduto de um mundo que vemos acabar sem saber bem o que fazer. Tu és o meu futuro e eu sou do teu futuro e assim o seremos na exacta medida em que depositarmos em nós essa crença. Metade da vida que acontece é feita da nossa vontade, a outra metade é a poeira que aparece para ajudar ou atrapalhar.
 
As pessoas, eis tudo o que se tem desperdiçado de mais valioso.
 
~CC~
 
 

domingo, 3 de março de 2013

Notícias da insatisfação (I)



Ligou-me a minha mãe no dia 2 de Março, por volta das 12h. Estava quase pronta e devia ir lindamente arranjada como sempre. Desta vez não ia ao café com a amiga, mas sim à Manifestação em Faro. Tem só 84 anos e nenhuma das filhas a levou, ela foi pelo seu próprio pé. Como muitas avós há muito que não vê o neto arquitecto, depois de dois anos no Japão e um ano e meio miserável por aqui fez as malas e lá partiu de novo. Há que lutar e viver o tempo suficiente para o receber com o arroz doce que ela faz e ele adora.
 
~CC~

sexta-feira, 1 de março de 2013

Rua mais linda...


Vamos para a rua amanhã?

Pendurar as nossas vozes nos caminhos da cidade?

Gritar novas cores para a vida?



Eu quero.

~CC~