quinta-feira, 6 de junho de 2013

Os sagrados exames


Não tenho uma posição assumida sobre as greves e tenho simpatizado muito pouco com elas nos últimos anos, são medidas de luta já velhas e de pouco impacto, rodeadas quase sempre de um discurso igualmente gasto. Mas tem sido um exagero esta quase criminalização da greve dos professores, numa estratégia clara de colocar uns contra os outros.
 
De facto parece que os sindicatos dos professores marcaram uma greve para coincidir  com um dos dias dos exames do ensino secundário. Tenho falado com os alunos que encolhem os ombros, afirmando que se não for nesse dia, é daqui a um ou dois. Não os vejo muito preocupados, aliás não se estuda à última da hora e o que foi estudado deve ter validade para daí a uns dias. Falo cá por casa também, em que o estudo é frenético e intenso mas a preocupação com a greve dos professores é mínima.
 
No exame do 4º ano de escolaridade a direita reclamou que a esquerda tratava os meninos como coitadinhos, agora são eles a tratar os bem mais crescidos dessa forma. Um ai jesus que coitadinhos acordam nesse dia muito nervosos e depois voltam para casa sem fazer exame. Ficam prejudicadíssimos...o que não se faz num dia faz-se noutro e os calendários arranjam-se, ajustam-se.
 
Tudo isto se resume no seguinte: tocaram no ponto fraco do ministro, para ele não é sagrado o ensino o ano inteiro, só os exames são verdadeiramente importantes, é claramente essa a mensagem que passa. Estive há pouco tempo numa escola em que no 9º ano, nas disciplinas em que há exame, os alunos treinaram exames dos anos anteriores o mês inteiro. Treino, é a palavra usada e dá que pensar.

~CC~

O alfabeto do amor



Em geral quando se apaixonam as pessoas têm noção da importância das palavras, usam-nas como verdadeiro fermento do que está para nascer, inventam-nas como parte do reportório do (seu) amor. Em alguns casos que conheço o primeiro amor foi também o primeiro livro de poesia. A primeira grande admiração que tive por outro ser humano (o meu pai) foi recheada de escrita e de leitura. Noutros amores, as palavras foram um mero jogo de sedução, poeminhas copiados para a troca, dolorosamente artificiais. Esses morrem como borboletas chamuscadas nas lâmpadas de Verão.
 
Mas mesmo o amor que foi amor porque perde tão facilmente o alfabeto? São os tachos, as compras no supermercado, a conta da luz, o choro dos filhos? Ou simplesmente esse hábito de considerarmos conquistado o que nunca será, de ganharmos vergonha de quem está ao nosso lado, de acharmos que sabe o que sentimos só porque sabe e se sabe não é preciso dizer. Lembro-me dolorosamente de como disse ao meu ex.marido que não era necessário ligar-me todos os dias à hora de almoço porque as colegas comentavam e eu tinha vergonha. Como pude ter vergonha do que era tão bonito? Nunca sabemos quando é que um casamento começa a morrer, mas às vezes acho que foi nesse dia que o meu começou a morrer, nesse dia matei algumas letras do alfabeto do amor.
 
Quando imagino um quotidiano poético não é por romantismo piegas, é por sentir que, como José Gomes Ferreira, devíamos ser capazes de imaginar as musas sentadas ao nosso lado nos elétricos em direcção a Alfama e todo o amor devia ser claramente um fogo a ver-se arder.
 
 
~CC~

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Montanha russa


Dantes tinha a certeza absoluta de que ensinar era a minha vida. Hoje duvido. Vivo numa montanha russa, por um lado a grande alegria que me dá ver alguém aprender, evoluir, pensar. Tenho dias em que venho de alguns contextos de estágio verdadeiramente grata por ver um trabalho sério e bem feito. Noutros dias é só desalento por constatar como não aproveitam as oportunidades que os pais criaram para eles.
 
Hoje estive nessa montanha russa. Recebi via mail umas fotos lindas de uma ex. aluna minha, o modo como ela se fotografa grávida ao lado do marido e intitula as fotos como " a nossa gravidez" é todo um programa de vida. Foi minha aluna no primeiro ano em que leccionei a tempo inteiro no ensino superior e emociona-me que as envie, que ainda se lembre de mim (já lá vão 13 anos).
 
Também hoje uma orientadora de estágio disse-me, olhos nos olhos, que os alunos estavam continuamente com o telemóvel ligado e enviavam com frequência mensagens. Estes estudantes efectuam estágio no serviço de pediatria de um hospital e imagino-os a enviar mensagens enquanto os meninos e as meninas brincam. São meninos doentes e internados, apesar de não serem doenças graves, exigiriam deles sobretudo a atenção de quem está ali, pronto para uma conversa, uma brincadeira, um abraço. Não ser capaz de desligar o telemóvel ou colocá-lo no silêncio é uma doença dos nossos dias, infelizmente não só dos estagiários.
 
 
Uma luta, uma vida na montanha russa.
 
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Cinema junto ao meu rio



Quando não se tem nem bem uma pátria, nem bem uma cidade e muito menos um rio que corra na nossa aldeia, adopta-se ou co-adopta-se. Eu adoptei o rio Sado por correr ao contrário, nascer no Alentejo (quem diria que há rios que nascem no Alentejo) e abraçar o Atlântico. Gostaria de o radiografar bocadinho a bocadinho como se faz aos corpos amados. E depois há o Festróia (começa já na Sexta).  O Festróia nunca desilude, este ano o país de homenagem é a Bélgica (é sempre dedicado a um país que tenha uma produção anual inferior a 25 filmes) e o tema... Que atrevimento num tempo de desilusão como este ter como tema o amor.
 
~CC~
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Cada um luta como pode


As pessoas ficaram tristes com a menor adesão às manifestações do dia 1 de Junho. Para mim não foi uma surpresa, quem não tem FB vive a indignação de outra maneira, a maior parte das vezes só sabe o que se vai passar quando já está (quase) a acontecer e desta vez  o destaque da imprensa tradicional foi consideravelmente menor. As vezes os revolucionários do FB confundem o que lá se passa com a realidade. Gosto de pensar que as pessoas não foram porque foram resgatar a Primavera depois deste Inverno tão duro.

Animem-se, as pessoas continuam a lutar, vejam como todos os dias ficamos a saber que há algures numa terra pequenina uma população que tenta fazer com que a estação dos CTT não feche. Talvez essa seja a sua luta e é tão justa e digna como outra qualquer.
 
 
 
Esta é a estação de correios de Boticas. Não sei se está ou não ameaçada, mas vale bem a pena lutar por ela.