domingo, 6 de janeiro de 2019

Todas as cores



Parece que a palavra do ano é "enfermeiro" não obstante ser uma profissão maioritariamente feminina. Ainda duvidaram se seria "professor", não obstante a profissão ser maioritariamente feminina. Não, não vou tão longe que pense que temos que ser "presidentas", uma vez que a designação "presidente" não tem um "género" definido, já o mesmo não se passa com as que acima referi. 

Ainda hoje, depois de mais de 30 anos de profissão, costumo acrescentar o "a" quando me dão coisas para assinar em que me chamam professor. Será que eles aceitariam assinar alguma coisa em que os tratassem por professoras e enfermeiras?

E claro, vistam-se (eles e elas) de todas as cores!

~CC~

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Conversa de ano novo?!



Nunca percebi muito bem se certas conversas que, em modo de referência do século passado se chamariam conversas de engate, o são. É claro que há quem lhe chame apenas sedução, é um modo um bocadinho mais intelectual de dizer o mesmo, mas com o charme de uma determinada classe social e/ou visão do mundo. Não sei que termos usam os mais jovens para referir tal coisa, desconfio que simplesmente eles não conversam e passam à acção, mas pode ser uma ideia enviesada. Ontem ouvi esta:

Ela: Então, que tal a passagem do ano?
Ele: Sozinho
Ela: Sozinho?! Então e a tua mulher?
Ele: Pois, eu e ela.
Ela: Então estiveste acompanhado?
Ele: Achas?
Ela: Deixa-te disso.
Ele: E tu, com o teu namorado?
Ela: Sabes que não tenho.
Ele: Como é possível?! 
 (Risos dos dois)

Será ou não?! Ou seria simplesmente uma conversa de ano novo?!

~CC~





sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Verde esperança





Que desejos tinha eu em criança? Com o meu parco conhecimento do mundo desejava coisas simples. Desejava que o meu tio me trouxesse um chocolate da TAP de todas as vezes que o seu avião chegasse. Que quando o meu pai chegasse a casa me pusesse no colo e me contasse uma história. Que o meu vizinho do lado quisesse sempre brincar comigo. Que a minha mãe deixasse as meninas da escola virem apanhar as mangas ao meu quintal. Que os meus irmãos mais velhos me deixassem andar por perto. Que as minhas amígdalas não voltassem a inchar doentes, quase me impedindo de respirar. Que a minha bola de sabão, soprada na cana do mamoeiro, fosse cada vez maior sem se rebentar. Nunca mais consegui querer estas coisas tão simples. E às vezes gostava. Assim como na canção " leva-me ao jardim, mostra-me numa flor, o verde esperança".  Só isso para 2019, ter sempre alguém que me possa mostrar o verde esperança.

~CC~





sábado, 22 de dezembro de 2018

A outra família



Acho que já passou o tempo em que a nossa família era apenas aquela que tinha connosco laços de sangue. Os outros laços avançam e ganham terreno, ainda bem, pois essas outras famílias são uma opção.

Eu tenho uma família blogosférica. São aqueles que me fazem falta, que visito com frequência, que também passam às vezes nesta rua, quer deixem ou não os seus vestígios, se calhar alguns deles nem nunca passaram por cá. Depois há aqueles que também espreito, com menos frequência, mas dos quais gosto, esses que me perdoem por não lhes deixar já um presente, quem sabe um dia entram no meu coração e ficam por cá a morar. Às vezes basta um post para os colocar na barra dos favoritos. 

Envio-vos assim os meus presentes, sem qualquer ordem de importância ou prioridade:)

Para a Miss Smile um pacote de chá de botões de rosas, pois as histórias dela chegam sempre com perfume.
Para Xilre, " Aos ombros de Gigantes" de Umberto Eco, porque, como o autor, nos faz sempre pensar mais além.
Para a Alexandra, qualquer um de Elena Ferrante, pois não há escritora que fale tão bem das pessoas com pipi.
Para a Testisq uma caixa de filmes do Woody Allen, pois é corrosiva mas também ternurenta como a maior parte dos filmes do autor (sendo que o meu preferido é a Rosa Púrpura do Cairo).
Para a Isabel, o livro Génesis, de Sebastião Salgado, pois escolhe a dedo e muito bem as fotos com que nos traz as suas palavras. Imagino este livro na casa dela, em cima de uma mesa "fora da caixa".
Para a Teresa, escolho bilhetes para a próxima festa do cinema Francês, no local que se encontre mais perto dela, pois acho é cinema que condiz com o ritmo das suas palavras (parece que os seus Atalhos do Campo passaram a ser só para leitores convidados, que pena!)
Para a Ana, o CD Mati, de Selma Uamusse, pois ela faz viagens sem sair do lugar e faz-nos viajar com ela.
Para Impontual, um bilhete para o "Concerto para Dois Pianos", pois não raro as suas palavras chegam com música.
Para a Susana, duas agulhas e umas lãs bonitas, pois assim pode ocupar o tempo nas suas viagens e ainda fazer camisolas quentinhas para usar na aldeia. Se não tiver jeito, está tudo algures na WEB.
Para a Laura, uma viagem à Argentina, para conhecer o melhor o Teatro Comunitário que por lá se faz, acho que se sentiria ainda mais inspirada.
Para o JVT, um concerto do Brel pelo Afonso Dias,  que tem vindo este ano a homenagear o cantor, sobretudo pelos Algarves.
Para o Luís, "Nadar na piscina dos pequenos" de Golgona Anghel, pois os poetas devem se entender uns aos outros e não sei se a conhece.
Para a Deep, vinho do Pico, pois tal como eu, tem a ilha cravada no coração.
Para a Luísa, a primeira mensalidade do JAT (Janela Aberta ao Teatro) para poder experimentar e ficar, caso goste.
Para o Eurico, vinho do Chile, para saborear com uma página de Pablo Neruda.
Para a Cuca, as fábulas do Luís das Novas Cartas de Marear.
Para a Helena uma assinatura para a temporada 2019 dos concertos de música da Gulbenkian, mas atendendo a que cá teria que vir todos os meses, substituir pelo equivalente em Berlim.

Um Bom Natal!

~CC~







quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Roma



Há um bairro a preto e branco no México que se chama Roma.

Fui lá no outro dia, demorei menos de meia hora a lá chegar e a voltar e custou-me a viagem pouco mais de três euros.

Saí de lá com os olhos marejados de lágrimas.

É uma das mais belas homenagens às mulheres e às crianças que alguma vez vi. Se pudesse escolher alguma imagem da solidariedade feminina seria esta, a de duas mulheres culturalmente e socialmente distintas que se apoiam num afecto contido, o ombro de uma e o ombro da outra acolhem à vez a dor da rejeição, da perda, da falta do amor dos homens. Uma e outra mostram-nos os seus olhos mais tristes, os seus sorrisos abertos, a sua luz a nascer no interior da sombra. Os filhos de uma são também os filhos da outra e aqueles meninos têm duas mães, a que os fez nascer e brinca com eles e a que os cuida, protege e canta canções.

O filme retrata os anos setenta no México mas não parece feito neste tempo, é lento, é demorado, tem muito silêncio, música espantosa que foge aos estereótipos sobre a musicalidade do país, pessoas que não costumam aparecer nos filmes. Tem uma mulher tão pequenina mas tão pequenina que é tão, mas tão grande.

E é feito por um homem, a mostrar que apesar dos homens do filme, há também homens bons e sensíveis, homens que naquele altura eram os meninos do bairro de Roma, ainda bem que aquele menino cresceu e fez este filme. 

Não deixem de ir a Roma, esta Roma.

~CC~