sábado, 12 de janeiro de 2019

Mãe



De 15 em 15 dias estou com ela, levo-a a sair e a almoçar fora. Desta vez achava que eu já não vinha há muito tempo e que a última vez que tínhamos ido àquele restaurante (gosta de vegetariano) tinha sido há muito tempo, quando não tinha passado mais de uma quinzena. Os primeiros passos na rua foram cambaleantes, só no regresso pareceu acertar melhor o passo. Quando tirou os óculos escuros que invariavelmente usa por causa dos olhos doentes, pude ver os imensos círculos vermelhos que os rodeavam e um brilho baço. Não estava nos seus dias e diz que tem cada vez menos dias com luz, cada vez tudo é mais escuro, mais difícil, mais pesado. Como tantos filhos e filhas não sei o que fazer, moro a mais de 200km, não a quero ver num lar, não tenho condições para tomar conta dela na minha casa pois moro sozinha e ainda estou a recuperar da minha própria doença. O apoio domiciliário que tem é claramente insuficiente. Hoje tentei, como há um ano atrás tentei com a bengala (e só consegui depois de um ano), que usasse sempre consigo o telemóvel, preferencialmente colocado ao peito, em bolsinha própria. Recusou. Que o seu Deus a levasse a aguentar até à chegada do seu filho brasileiro foi o único clarão de hoje, nem se riu, quando lhe perguntei se seria Deus ou o seu santo Sousa Martins, creio que nem me ouviu. Já só ouve mesmo o que quer.

~CC~

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Primeira



Falar delas à medida que as vou conseguindo concretizar.

Ontem a primeira resolução.

Guardar uma noite por semana para ler ou escrever. Confesso que a leitura foi inspirada por inúmeros blogues que publicam listas incríveis de livros lidos num ano ou por resoluções do mesmo tipo. Contribuíram para que tomasse consciência de que, tirando os jornais e revistas, leio sobretudo nas férias, o que se resume a dois/três livros por ano. Posso sempre invocar o tempo pois quando estive doente li mais, muito mais. Mas se o tempo é um garrote, há que saber desapertá-lo, mesmo que devagar.

Escrever se não à moda antiga em papel e lápis, em modo reservado. Ainda tive a tentação de abrir a minha Ardósia Azul, era o meu blogue de escrita, nasceu amarrado a esse formato e acabei com ele exactamente por não querer estar amarrada a nada. Mas tive, tenho saudades dele. A Rua da Índia nasceu e vive sem a preocupação da escrita, da arrumação da palavra, da mensagem, é só o que apetece. Isso também me fez bem, me faz bem.

Vamos ver o que consigo. Para já começou o detox do que interessa menos: séries ou filmes, às vezes sem grande qualidade, apenas para minimizar o cansaço do dia.

~CC~




domingo, 6 de janeiro de 2019

Todas as cores



Parece que a palavra do ano é "enfermeiro" não obstante ser uma profissão maioritariamente feminina. Ainda duvidaram se seria "professor", não obstante a profissão ser maioritariamente feminina. Não, não vou tão longe que pense que temos que ser "presidentas", uma vez que a designação "presidente" não tem um "género" definido, já o mesmo não se passa com as que acima referi. 

Ainda hoje, depois de mais de 30 anos de profissão, costumo acrescentar o "a" quando me dão coisas para assinar em que me chamam professor. Será que eles aceitariam assinar alguma coisa em que os tratassem por professoras e enfermeiras?

E claro, vistam-se (eles e elas) de todas as cores!

~CC~

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Conversa de ano novo?!



Nunca percebi muito bem se certas conversas que, em modo de referência do século passado se chamariam conversas de engate, o são. É claro que há quem lhe chame apenas sedução, é um modo um bocadinho mais intelectual de dizer o mesmo, mas com o charme de uma determinada classe social e/ou visão do mundo. Não sei que termos usam os mais jovens para referir tal coisa, desconfio que simplesmente eles não conversam e passam à acção, mas pode ser uma ideia enviesada. Ontem ouvi esta:

Ela: Então, que tal a passagem do ano?
Ele: Sozinho
Ela: Sozinho?! Então e a tua mulher?
Ele: Pois, eu e ela.
Ela: Então estiveste acompanhado?
Ele: Achas?
Ela: Deixa-te disso.
Ele: E tu, com o teu namorado?
Ela: Sabes que não tenho.
Ele: Como é possível?! 
 (Risos dos dois)

Será ou não?! Ou seria simplesmente uma conversa de ano novo?!

~CC~





sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Verde esperança





Que desejos tinha eu em criança? Com o meu parco conhecimento do mundo desejava coisas simples. Desejava que o meu tio me trouxesse um chocolate da TAP de todas as vezes que o seu avião chegasse. Que quando o meu pai chegasse a casa me pusesse no colo e me contasse uma história. Que o meu vizinho do lado quisesse sempre brincar comigo. Que a minha mãe deixasse as meninas da escola virem apanhar as mangas ao meu quintal. Que os meus irmãos mais velhos me deixassem andar por perto. Que as minhas amígdalas não voltassem a inchar doentes, quase me impedindo de respirar. Que a minha bola de sabão, soprada na cana do mamoeiro, fosse cada vez maior sem se rebentar. Nunca mais consegui querer estas coisas tão simples. E às vezes gostava. Assim como na canção " leva-me ao jardim, mostra-me numa flor, o verde esperança".  Só isso para 2019, ter sempre alguém que me possa mostrar o verde esperança.

~CC~