De 15 em 15 dias estou com ela, levo-a a sair e a almoçar fora. Desta vez achava que eu já não vinha há muito tempo e que a última vez que tínhamos ido àquele restaurante (gosta de vegetariano) tinha sido há muito tempo, quando não tinha passado mais de uma quinzena. Os primeiros passos na rua foram cambaleantes, só no regresso pareceu acertar melhor o passo. Quando tirou os óculos escuros que invariavelmente usa por causa dos olhos doentes, pude ver os imensos círculos vermelhos que os rodeavam e um brilho baço. Não estava nos seus dias e diz que tem cada vez menos dias com luz, cada vez tudo é mais escuro, mais difícil, mais pesado. Como tantos filhos e filhas não sei o que fazer, moro a mais de 200km, não a quero ver num lar, não tenho condições para tomar conta dela na minha casa pois moro sozinha e ainda estou a recuperar da minha própria doença. O apoio domiciliário que tem é claramente insuficiente. Hoje tentei, como há um ano atrás tentei com a bengala (e só consegui depois de um ano), que usasse sempre consigo o telemóvel, preferencialmente colocado ao peito, em bolsinha própria. Recusou. Que o seu Deus a levasse a aguentar até à chegada do seu filho brasileiro foi o único clarão de hoje, nem se riu, quando lhe perguntei se seria Deus ou o seu santo Sousa Martins, creio que nem me ouviu. Já só ouve mesmo o que quer.
~CC~