terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Dia de aeroporto



Antes chamaria a isto um desfasamento perfeito entre o coração e a cabeça. Isto antes de saber que o coração é só um músculo que não alberga sentimentos. O que se passa é pior, visto que é uma luta no interior do cérebro. 

Uma parte a lamentar, a chorar, a entristecer. A outra a rir, a festejar, a orgulhar-se.

Será que é isto que todas as mães sentem quando os filhos saem para fora do país para uma estadia mais ou menos prolongada, mesmo que com um objectivo perfeitamente compreensível? O que será prolongada para cada mãe? São cerca de seis meses, à partida. Confiante que no fim deles virá com a saudade de um banho de mar, do sol, da comida, do namorado, dos amigos, de nós. Quando saiu de casa não foi fácil mas estava a 40km de distância, uma barreira bem possível de ultrapassar, ainda que com as nossas vidas itinerantes não fosse fácil. Mas nunca passei mais de um mês sem a ver.

Irá ver o mundo, alargar horizontes, arrepiar-se com o frio, aprender palavras noutra língua, maravilhar-se com novas paisagens. Sorrio com isso. Poderá sentir-se triste, doente, não gostar, precisar de nós e estaremos longe, não a poderei proteger, fazer-lhe comida, levar-lhe de quando em quando as coisas que gosta. Não só entristeço com isso, como fico ansiosa. Chego a sentir saudade em antecipação, é como se já sentisse saudades hoje, no dia em que parte.

É que ela é toda sol, ainda que com uma pontinha de embirração matinal que enuncia o seu bocadinho de mau feitio, além de alguma intolerância para com mézinhas e rezas. Espero que esse seu sol interior a possa acompanhar e brilhar lá nos quase menos 20 graus. 

~CC~




sábado, 26 de janeiro de 2019

Uma formiguinha



Encarar a adversidade como um desafio. Encarar a derrota como o primeiro motor de qualquer vitória. Encarar a verdade como um ponto de partida.

Pois é.

Poderia ter feito uma carreira brilhante dizendo estas coisas. É o que me ocorre quando leio a reportagem sobre o psicólogo da moda que ganha fortunas e enche as plateias dos auditórios dos hotéis de luxo por todo o mundo. Até tinha um certo jeito para empolgar plateias e graças ao teatro visto bem uma personagem. Não sei se conseguiria, contudo, escrever um capítulo de um livro chamado "se encontrares um gato, faz-lhe uma festa". É por aí que a dúvida me assalta. Uma certa honestidade a mais para ser uma cigarra.

Escolhi ou calhou-me ser uma formiguinha, tirando o facto de ainda por cima trabalhar muito e amealhar pouco. 

~CC~

domingo, 20 de janeiro de 2019

Arqueologia do amor



Parte da minha vida é imaginar o que eu poderia ter sido. As muitas vidas que me habitam.  Gostaria de ter sido arqueóloga do amor. Perguntarão pelo conteúdo funcional da minha profissão. Eu procuraria nas pedras os vestígios, as marcas, as provas da existência do amor desde a idade da pedra até hoje.

Parece que Darwin esbarrou nos gestos do amor, tudo o que não se destinava a escolher o melhor ou a melhor para procriar e perpetuar a espécie. O que aparecia como acessório e aparentemente inútil. Dar as mãos, por exemplo. Quem inventou esse gesto? Não há nele quase nenhum apelo sexual. O que há então? Para quê fazê-lo?

Como é que os romanos, esses brutamontes que inventaram os circos de feras, as lutas corpo a corpo, o domínio do outro e o império, tendo as mulheres em tão má conta que as sentavam no coliseu no anel mais incómodo e distante da arena, como é que entre eles um homem e uma mulher mostram a sua união através das mãos que se tocam? Olhando de frente para o mundo mostram que já não são apenas um e são dois, não é apenas um número a juntar-se a outro, não é um dois que anula cada um, mas é uma junção que forma um universo comum. Deste andar juntos pelo mundo como dois se faz a minha noção de amor. E não tem sido fácil.



Museu Romano de Mérida.

~CC~

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

É para mim mesmo!



- Embrulho-o para presente?!

- Não, não é preciso?

- Mas quer talão de troca? É que a menina pode querer trocar?

É certo que o pijama era cor de rosa e tinha cinco bolinhas felpudas a enfeitar a argola do fecho. Já não vou tão longe que possa colocá-la a equacionar a hipótese de ser para um rapaz, não pela cor, mas pelo facto da loja não vender roupa masculina. Mas como não pensou que pudesse ser para mim?! Há mais preconceitos para além do género e creio que a conotação de certas coisas com determinadas faixas etárias é uma delas, não obstante termos melhorado muito. Li há uns tempos que tal preconceito até tem a designação de idadismo.

Gosto de cor de rosa, sobretudo o rosa velho, sempre gostei, não deixarei de o fazer por uma questão de género ou idade. Também gosto de amarelo e de todos os tons entre este e o castanho. O preto, esse é que se calhar abandonarei com o envelhecimento. 

Fico a pensar também na formação que estes funcionários terão ou não para o atendimento ao público. É que esta foi uma aberração pequena comparada com outras que já presenciei. Mas a que mais me revolta é a tentativa que já vi muitas vezes de vender tudo e mais alguma coisa aos velhotes, sobretudo nas farmácias quando eles vão lá queixar-se e muito raramente e por iniciativa deles lhes perguntarem se querem genéricos.

~CC~








segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cabeça versus coração a Km à hora



Vinha da A2 Sul a 136Km/hora, às vezes distraio-me, nem costumo conduzir muito depressa. Atrás de mim um carro da brigada de trânsito da GNR.

Primeiro pensamento: é agora, vão mandar-me encostar e multar-me.

Constatação: Olha, ultrapassaram-me e já seguem bem à minha frente, devem ir a mais de 140Km/hora.

Alívio e estupefacção. O coração contente, a cabeça a abanar: ai este país.

~CC~