quinta-feira, 7 de março de 2019
Luto de lutar sim
Gosto do luto de lutar e não do luto como choro da morte.
Não quero chorar as mulheres mortas, quero lutar para que fiquem vivas.
E toda a luta é grito, alegria, poesia. A mão segurando o cravo. O punho erguido num céu de chumbo. Um riso solto sem pudor. Um corpo feito de curvas dançando no baile.
Celebremos a luta das mulheres.
~CC~
sexta-feira, 1 de março de 2019
Falta
O cansaço melhorou ligeiramente desde que senti a tua pele a aproximar-se da minha.
Sei, contudo, que ainda falta respirar-te.
A ti e a ao ar do mar.
A ti e ao cheiro que as árvores deitam quando chamam a Primavera.
~CC~
domingo, 24 de fevereiro de 2019
A tua voz
A voz dela tão fresca, que bom ouvi-la. E quando a vejo lá no meio da neve, acho-a ainda mais bonita do que quando partiu.
Não ligo muitas vezes, só quando ocorre no coração um súbito aperto.
Maravilha que é esta nossa palavras saudade, tão bela.
~CC~
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Bom dia
Já o vi algumas vezes por ali a arrumar carros e a vender óculos. É já um homem de meia idade, um pouco gordinho e sempre razoavelmente vestido, escapando claramente ao estereótipo do arrumador de carros.
Arrumei o carro sozinha, pois ainda havia muitos lugares, por isso ele não se aproximou logo, talvez com a sensação de que não merecia uma moeda. Mas como demorei a sair, ele lá se foi aproximando, mais para me perguntar se queria uns óculos de sol. Reparei, no entretanto, que tinha arrumado o meu carro de tal forma distante do do lado direito que impedia que alguém estacionasse do meu lado esquerdo e por uma margem pequena, com um jeitinho, tal seria possível. Disse-lhe: acho que vou voltar a tirar o carro, é melhor não acha, assim sempre fica um lugar aqui ao lado e pode fazer muita falta a alguém. Vi-lhe um enorme sorriso e agradeceu-me muito. Disse-me que a maior parte das pessoas nem sequer lhe diz bom dia e que se afasta a correr mal ele se aproxima, como se ele tivesse uma doença. Disse-me que nunca pedia dinheiro, que isso era com cada um, e que às vezes um bom dia teria sido suficiente.
Fiquei a pensar nas razões pelas quais temos tanto receio de alguém que não vive uma vida convencional e que na maioria das vezes o faz de forma inofensiva. O que nos faz fugir de um arrumador mal se aproxima? Estamos num espaço público, na maior parte dos casos com gente a circular. De onde nos vem o incómodo, o medo? Na maior parte das vezes as discussões que os vejo ter são entre eles e não com potenciais clientes. Também nunca fui insultada por nenhum deles e já me aconteceu dar e não dar dinheiro, em função das circunstâncias (ter ou não moedas, por exemplo).
E um bom dia, o que custa dizê-lo?
~CC~
sábado, 16 de fevereiro de 2019
Leva-me
Esgotamento.
Eis um termo do senso comum que a psicologia não usa. Mas acho-o muito bom, é a incapacidade quase total de pensar, que iremos sucumbir se alguém nos perguntar mais alguma coisa, se tivermos que ler mais um bocado ou que falar. À beirinha hoje.
O cansaço extremo. Dormir pouco porque a cabeça continua noite dentro a trabalhar, a ver trabalhos, a falar com os estudantes, em reuniões com colegas, em projectos.
Reconhecer o perigo, os sinais de perigo.
Esvaziar-me de tudo um bocadinho ao sol, vendo as pessoas passar de lá para cá.
Pensar no Verão, nas férias, em ir à Galiza. Explorar virtualmente os lugares, embeber-me deles.
Fechar os olhos. Descansar. Por favor leva-me contigo a ver as amendoeiras em flor antes que todas as pétalas caiam com este vento primaveril.
~CC~
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