sábado, 16 de março de 2019

Antes gritar



O ódio, como ele se infiltra nos adolescentes em São Paulo que massacram colegas inocentes, como ele se instala num adulto na Nova Zelândia, como ele é servido sem pudor nem análise aprofundada nas televisões e nas redes sociais. Não sei se há agora mais ódio do que havia antes mas há muito mais formas de o disseminar. E nunca os inocentes me pareceram tão inocentes e nunca fomos tão vulneráveis. E neste adoecer do mundo, os nossos quatro canais inventam os programas mais estúpidos de sempre, quando pensava que com a casa dos segredos já tínhamos chegado ao pior dos patamares. Mas não há uma forma de parar com isto? Eu também sei assobiar para o lado mas há dias em que não me apetece mesmo, antes gritar.

~CC~

terça-feira, 12 de março de 2019

Um beijo de sol



São vinte e três anos de um amor que foi mudando mas cuja intensidade permaneceu igual. Não há como ele, qualquer coisa que nasce no interior de nós, se distribui pelo nosso corpo entrando nas próprias células e nos invade, às vezes com uma calma feliz, outras com uma ansiedade gritante. Não há dúvida que primeiro é qualquer coisa animal, um desejo intenso de agarrar, cuidar e respirar. Nos primeiros anos é como se fosse ainda uma extensão da nossa pele, um ser que ainda não se separou totalmente de nós e que amamos com a ferocidade da paixão. Devagar vamos percebendo que sem autonomia não poderá crescer, ganhar as suas asas, conquistar o seu mundo. E vamos amando de outra forma, deixando respirar, dominando anseios de agarrar, encher de beijos, cuidar. Um dia descobrimos que não é apenas um ser autónomo mas que é capaz de nos contestar, de pensar de forma diferente de nós, que tem saberes próprios e a sua própria forma de ver o mundo. E se isso nos pode custar, é também o melhor de tudo. É perceber que criámos um ser com vida própria, capaz dos seus próprios voos. Esse amor por alguém adulto é já um outro amor e é ainda o mesmo amor.

Parabéns filha minha, um dia bom no país em que neva nos teus anos, envio daqui um beijo de sol.

~CC~

domingo, 10 de março de 2019

País de sonhos desfeitos...



Ali, no pulsar daquela casa dentro da pequena aldeia respirei profundamente, deixando-me invadir pelo cheiro das estevas. Lá fora, muito perto, o rio a correr. Uma ideia maravilhosa que não tinha tido êxito, o de tornar aquela aldeia um lugar de acolhimento de visitantes, abrindo as portas das casas, dos pequenos quartos, das cozinhas desarrumadas, do que resta das hortas. Os mais velhos, os guardiões da memória, poderiam enxotar a solidão praticando formas de se fazerem entender e contar coisas.

Tivesse eu mais vidas.

Uma delas poderia gastar ali, a falar com os mais velhos, dizendo-lhes que há modos de lutar contra o medo do estranho. O que é uma aldeia turística sem habitantes? Apenas um casario enfeitado por camadas de tinta.

A casa grande está ali bela mas quase vazia, ela é tudo o que os museus não podem ser, tão ou mais vazia do que quando partiu a sua última habitante. Um dia a autarquia contará os números de visitantes, fará contas ao ordenado do técnico, acrescentará a luz, a água, a manutenção...e mais uma vez algo fechará morrendo no pó dos tempos.

Este é um país de maravilhosos projectos mortos, associações decrépitas, empresas goradas, sonhos desfeitos. Cada vez que uma coisa boa fecha, sinto um aperto no coração. 


~CC~





quinta-feira, 7 de março de 2019

Luto de lutar sim



Gosto do luto de lutar e não do luto como choro da morte.

Não quero chorar as mulheres mortas, quero lutar para que fiquem vivas.

E toda a luta é grito, alegria, poesia. A mão segurando o cravo. O punho erguido num céu de chumbo. Um riso solto sem pudor. Um corpo feito de curvas dançando no baile.

Celebremos a luta das mulheres.


~CC~


sexta-feira, 1 de março de 2019

Falta



O cansaço melhorou ligeiramente desde que senti a tua pele a aproximar-se da minha.

Sei, contudo, que ainda falta respirar-te.

A ti e a ao ar do mar.

A ti e ao cheiro que as árvores deitam quando chamam a Primavera.

~CC~