sexta-feira, 3 de maio de 2019
Meses depois
Abre os teus braços para que os envolva na minha saudade e a faça desaparecer num ápice.
Depois é só ir contigo perceber os caminhos dos teus passos.
~CC~
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Memórias de Pemba
Somos de todos os lugares por onde passámos? Ou só dos que nos ficam agarrados à pele?
Olho para as imagens de Pemba e não as reconheço. Sim, é verdade que apanhei lá uma das grandes chuvadas da minha vida e fiquei molhada da cabeça aos pés, mas bastou uma hora para o sol voltar.
Foram as melhores mangas que já comi, a única estrela do mar que nadou comigo, os risos mais transparentes e alegres que vi dos meninos ao fim da tarde na praia, os entardeceres mais belos mas também rápidos, o calor que me foi mais difícil de suportar por causa da humidade. Os formandos mais educados que alguma vez tive, falando um português correctíssimo, mas também algo distantes, formais, quase todos homens, as mulheres professoras eram quase todas cubanas. Sabiam de cor textos, autores, teorias, em comparação com outros países, notava-lhes mais apetência pelo saber, mas dificuldade em debater. Os dois colegas com os quais viajava e trabalhava eram praticamente dois desconhecidos.
Foi também em Pemba que convivi pela primeira vez com muçulmanos, os proprietários da pensão em que estava. Convivi é um modo de dizer, os homens baixavam os olhos quando me falavam e as mulheres eram sombras que via ao longe, coladas às paredes.
A cidade era um aglomerado de bairros completamente diferentes uns dos outros, havia uma parte de casas coloniais, grandes bairros africanos construídos em terra mas bem feitos, alguns bonitos, bem diferentes dos bairros de lata alguns subúrbios e uma orla junto às praias de casas novas, grandes resorts, alguns luxuosos, cheios de jardins muito verdes e frescos. Era grande, dispersa, nem bonita, nem feia, mas a praia, o mar, essa parte era pura beleza. E o mercado, o grande mercado onde tudo, mesmo tudo se vendia, era África pura.
O azul do Indico, a temperatura quente do mar, o meu primeiro amanhecer em África no meio de uma picada, os macacos que pulavam à frente do carro, em grande algazarra. Nesse amanhecer, as mulheres a caminharem , de enxada aos ombros, directas às machambas, eram sobretudo elas que as trabalhavam. Dificilmente saberiam que o primeiro de Maio era um dia seu.
O teu telefonema chegava sempre ao fim da tarde e lembrava-me que do outro lado do mundo alguém me esperava. E ao mesmo tempo que aquele lugar me agarrava, não sabia ainda o que me ficaria dele. Desejei depois muitas vezes voltar a Moçambique, pensei sempre que se algum milagre monetário me acontecesse, o partilharia com esse país, mais do que com aquele em que tinha nascido, é tão diferente. Agora, mais que nunca, como o precisam.
~CC~
sexta-feira, 26 de abril de 2019
Males que trazem bem
O carro, com avaria, fazia com que andasse muito mais lentamente que o costume na minha auto estrada preferida, esses 250km que separam os meus dois lugares de vida.
A velocidade de 90 km/hora foram cruciais para salvar a pata e os cinco filhotes que se atravessaram à minha frente, cruzando pachorrentamente a via, ela à frente e eles rigorosamente em fila atrás. Estremeci de horror ao pensar que os podia ter matado a todos. Juro-vos, não foi uma alucinação, mas um vislumbre grande de beleza.
~CC~
terça-feira, 23 de abril de 2019
Querido amigo
Nada substituirá o cheiro do papel impresso, as letras pretas no contraste do branco amarelado, o suave ruído das folhas a passarem, o desenho do título e do nome do autor, a imagem escolhida para a capa.
Somos amigos para a vida até quando te procuro pouco, falo menos contigo ou quase te esqueço. Estiveste lá nas horas menos felizes e nas mais felizes também. Não morras nunca, fica comigo e com os outros que virão depois de mim. Continua assim a escancarar as portas do mundo para nos levar onde nunca chegaríamos de outro modo.
~CC~
quarta-feira, 17 de abril de 2019
cinco ovos e um bode (para a Susana)
Eram tão iguais que ninguém adivinharia que eram de sexo diferente. Duas gotinhas de água, dois anjos, dois belos diabos.
A mãe já sabia que eram dois, mas havia dúvidas se seriam dois meninos, duas meninas, um menino e uma menina. Para baralhar o mundo como os gémeos gostam de fazer, se um deixava o cabelo crescer, o outro deixava também, se um o cortava, o outro também queria. E havia o pacto de ela nunca usar saias, o que aliás combinava com a sua personalidade, feita de paixão por subir árvores, correr atrás dos animais, atirar pedras para a água e deitar-se na erva a imaginar de que seriam feitas as nuvens. Ele só ia atrás, como se os dois centímetros de altura que tinha a menos, o tornassem refém dela. Mas quando ele começava a desenhar o mundo à sua volta, era ela que se rendia ao seu talento, pasmada de lhe faltar aquele jeito, não obstante serem tão iguais.
Ela esperava sempre pelas férias com o coração ansioso pela liberdade de poder correr nos terrenos da aldeia em que a avó morava. Ele deixava-se ir, tranquilo, pelos caminhos, a tentar reter no olhar o que havia de desenhar e pintar.
Quando a avó os mandou ir ver se havia ovos nos ninhos das galinhas, ele arrepiou-se um pouco, não era coisa que lhe agradasse. Ela puxou-o rápida: vamos, vamos!! Eram cinco maravilhosos ovos, bem grandes. Ela rapidamente propôs que ficassem com eles, não os levassem à avó, podiam escondê-los num sítio, aquecê-los e ver os pintos nascer. Ele só abanou a cabeça em sinal de discórdia. Ela estava zangada: não os levo! E ele, bem firme: isso é que levas!
Como é que dois seres que se amam tanto, com oito anos de idade, se podem zangar assim?
(continua)
~CC~
(oh Susana, mas eu ainda tenho dúvidas se isto é para crianças)
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