domingo, 12 de maio de 2019

Essa saudade



Na hora de fazer o jantar para as amigas Erasmus, houve beringela recheada, caril de camarão e cheesecake. Ou seja, não nos ocorreu nenhum prato tipicamente português. Não sei se é por ser oriunda de uma família da Diáspora, não faz parte do meu ADN o cozido à portuguesa, um bom salpicão ou sequer um pastel de nata. 

Mas no regresso houve um sinal. Aquela vontade de um peixe fresco sem molhos, apenas grelhado, quase sem azeite. E a nossa luz, a luz das nossas cidades. Mas foi apenas uma pontinha de saudade, como ela, podia ainda seguir mais viagem. Saudade forte, essa é sempre um rosto.


~CC~

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Periferia outra




Somos como eles, somos diferentes deles. 


É esta a geometria do estrangeiro, esta lógica do que se nos assemelha e do que nos distancia, do que nos fascina e do que nos afasta. E ao mesmo tempo que nos confirmamos mais nós também nos tornamos um pouco eles. É o sabor de certas coisas, as cores fascinantes das flores, o vento frio, o andar apressado, um certo modo de desviar o olhar. E a história, um povo que sofre para se tornar independente é sempre um povo épico, embora um pouco triste, há fado neste sangue, toda a proximidade que é possível criar com as periferias, os lugares periféricos, na beira dos mares que limitam a Europa. A distância resume-se no silêncio do mercado, parece impossível que um mercado possa ser assim calmo. 

É preciso ir com vontade de ver, de estar, ir a todos os lugares onde todos vão mas também fugir deles. Ir ao encontro de alguém também é muito bom, alguém que já lá vive, que é de lá ou que se tornou um pouco de lá, caso contrário habitaremos as margens, o centro do postal turístico, os não lugares. 

Sei agora o caminho dos teus passos. És tu, a mesma. E, contudo, alguma coisa será sempre diferente depois disto, nunca te bastou mas agora jamais te bastará mais o perímetro do quintal em que vivemos. O mundo não é nem nunca será a minha casa, para ti, outra geração, é-o muito mais. Nisso também reside a minha esperança, na luta que sinto que travarão para barrar o fechar das fronteiras.

~CC~






sexta-feira, 3 de maio de 2019

Meses depois


Abre os teus braços para que os envolva na minha saudade e a faça desaparecer num ápice.

Depois é só ir contigo perceber os caminhos dos teus passos.

~CC~

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Memórias de Pemba



Somos de todos os lugares por onde passámos? Ou só dos que nos ficam agarrados à pele?

Olho para as imagens de Pemba e não as reconheço.  Sim, é verdade que apanhei lá uma das grandes chuvadas da minha vida e fiquei molhada da cabeça aos pés, mas bastou uma hora para o sol voltar.

Foram as melhores mangas que já comi, a única estrela do mar que nadou comigo, os risos mais transparentes e alegres que vi dos meninos ao fim da tarde na praia, os entardeceres mais belos mas também rápidos, o calor que me foi mais difícil de suportar por causa da humidade. Os formandos mais educados que alguma vez tive, falando um português correctíssimo, mas também algo distantes, formais, quase todos homens, as mulheres professoras eram quase todas cubanas. Sabiam de cor textos, autores, teorias, em comparação com outros países, notava-lhes mais apetência pelo saber, mas dificuldade em debater. Os dois colegas com os quais viajava e trabalhava eram praticamente dois desconhecidos.

Foi também em Pemba que convivi pela primeira vez com muçulmanos, os proprietários da pensão em que estava. Convivi é um modo de dizer, os homens baixavam os olhos quando me falavam e as mulheres eram sombras que via ao longe, coladas às paredes. 

A cidade era um aglomerado de bairros completamente diferentes uns dos outros, havia uma parte de casas coloniais, grandes bairros africanos construídos em terra mas bem feitos, alguns bonitos, bem diferentes dos bairros de lata alguns subúrbios e uma orla junto às praias de casas novas, grandes resorts, alguns luxuosos, cheios de jardins muito verdes e frescos. Era grande, dispersa, nem bonita, nem feia, mas a praia, o mar, essa parte era pura beleza. E o mercado, o grande mercado onde tudo, mesmo tudo se vendia, era África pura.

O azul do Indico, a temperatura quente do mar, o meu primeiro amanhecer em África no meio de uma picada, os macacos que pulavam à frente do carro, em grande algazarra. Nesse amanhecer, as mulheres a caminharem , de enxada aos ombros, directas às machambas, eram sobretudo elas que as trabalhavam. Dificilmente saberiam que o primeiro de Maio era um dia seu.

O teu telefonema chegava sempre ao fim da tarde e lembrava-me que do outro lado do mundo alguém me esperava. E ao mesmo tempo que aquele lugar me agarrava, não sabia ainda o que me ficaria dele. Desejei depois muitas vezes voltar a Moçambique, pensei sempre que se algum milagre monetário me acontecesse, o partilharia com esse país, mais do que com aquele em que tinha nascido, é tão diferente. Agora, mais que nunca, como o precisam.

~CC~










sexta-feira, 26 de abril de 2019

Males que trazem bem



O carro, com avaria, fazia com que andasse muito mais lentamente que o costume na minha auto estrada preferida, esses 250km que separam os meus dois lugares de vida.

A velocidade de 90 km/hora foram cruciais para salvar a pata e os cinco filhotes que se atravessaram à minha frente, cruzando pachorrentamente a via, ela à frente e eles rigorosamente em fila atrás. Estremeci de horror ao pensar que os podia ter matado a todos. Juro-vos, não foi uma alucinação, mas um vislumbre grande de beleza. 

~CC~