quinta-feira, 6 de junho de 2019

Identidade(s)



A paisagem molda-me.

Por isso fico quieta com o coração a bater suave junto ao chaparro e ao monte de pequenas roseiras bravas vermelhas, com os olhos presos em tudo o que dali avisto e é apenas o céu, as árvores, algumas aves.

Sinto a relatividade de todas as coisas como se cada uma ficasse mais pequena e nenhuma importasse assim tanto. Isso traz-me paz e a paz faz com que o meu sangue circule devagar e os meus olhos se fechem na indolência, saboreando o sol. Nestas alturas sei que preciso de uma aldeia e de uma casa no campo para que a minha vida possa seguir um outro rumo.

Depois volto.

E tudo acelera e se torna numa vertigem.

Qual delas sou mais eu?!

~CC~

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Espelho



A Bea e o Joaquim puseram-me a pensar.

Afinal qual é o meu risquinho no mundo? O que lhe acrescentei eu? O que quis dar ou deixar aos outros?

Olho-me ao espelho da segunda forma mais difícil que há: em fato de banho (nua, seria a primeira). Não sou magra nem gorda, não sou loira nem morena, não sou bonita nem feia, não sou alta nem baixa (para a geração de agora serei baixa), herdei curvas e um bocadinho de celulite da mãe, uma pitadinha de loucura do pai (para esta não precisaria do espelho). Fiz de tudo um pouco mas sobretudo estudei, estudei muito, como tantas outras pessoas. Como me interesso por muitas coisas não aprofundei nenhuma a ponto de me tornar uma especialista de referência ou sequer uma cientista de renome, publiquei umas coisinhas, fiz uma conferências, falei para muita gente, com muita gente, às vezes talvez tenha brilhado um bocadinho mas outras nem tanto. Não tenho encantos nem especiais talentos. Sou assim uma pessoa vulgar. Tenho quase vontade de chorar quando me confronto com esta realidade nua e crua, esta pessoa eu no espelho.

Depois chega até mim uma única palavra, uma única coisa minha que é forte, é boa, é poderosa. Resiliência, poder para enfrentar dificuldades, contornar obstáculos, vencer abismos, amar a vida. 

Mais uma vez venci as lágrimas que estavam a querer encher-me os olhos de uma tristeza tão tonta.

~CC~






quarta-feira, 29 de maio de 2019

Fim do ano


Transmitimos a ideia de que à sua maneira são únicos, que terão que deixar a sua marca no mundo, por mais pequena que seja. Acho que é a única coisa que fazemos mais ou menos bem. Este ano emocionaram-me duas vezes pelo valor do seu trabalho e correram-me lágrimas. Ontem foi uma delas. É o alento que vale, o que fica para além do ordenado ao fim do mês, o trabalho pelo pão necessário. É a poesia, mesmo quando servida em doses pequenas, ela é o outro sustento e, sem dúvida, o mais maravilhoso.

~CC~

domingo, 26 de maio de 2019

Desalinhados


As coisas estão de tal maneira que nos sentimos isolados se não tivermos um life style. Quase metade das prateleiras das livrarias já são dedicadas ao assunto, seja em modo de regime alimentar, de exercício físico, de cura para a alma ou de terapia comportamental. Foi por isso que quando em deparei com um livro de capa bonita intitulado "Faz o que te apetece", pensei que se tratava de um manual de auto ajuda, mas afinal é apenas o livro da Bimby. Afinal ter Bimby é um estilo de vida...

Gosto muito do Desafinado de João Gilberto e Tom Jobim e se pudesse pedia-lhes agora um hino para os desalinhados desta vida, para gente como eu que não tem life style, vai alinhando ali e acolá, conforme a geometria variável dos dias, dos sentidos, dos apetites. Ou será que não ter alinhamento é por si só já um estilo e posso elaborar um manual de auto ajuda? 

Quero acreditar que não, que os desalinhados não compram manuais de nada, deixem-nos estar assim, ao sabor do vento, de cada estação, do que vamos captando com as nossas antenas interiores, gigantescos motores de desalinhar.

~CC~


domingo, 19 de maio de 2019

Ser onda



Não fora a viagem de avião de 4 horas para cá e para lá e há muito que não tinha nenhum livro sobre o qual falar. Não ter tempo nenhum para ler é coisa que me faz ansiar pelos tempos da reforma, se é que ela esperará por mim ou eu por ela. Levei a "Vegetariana", do qual muito já tinha ouvido falar e se tornou reconhecido a nível mundial.

Leio muito rápido e o livro era absolutamente estranho. Proporcionou-me algo que me tem acontecido nos últimos tempos e não era vulgar em mim: não sei se gostei ou não. Tenho um amigo que me disse sempre que eu era das únicas pessoas que era capaz de usar a palavra detestar. E era verdade, ao longo da vida usei muitas vezes a expressão: detesto isso! Ele diz que a usava com tal força que ele até tremia (aí era um bocadinho exagerado). Lentamente esse poder de rejeição tem me vindo a abandonar, talvez seja a patine dos anos, a tendência para ver mais do que um lado em cada coisa. Só tenho pena que isso talvez me leve a amar menos também, detesto menos mas também amo menos. Falta-me a paixão. 

Mas há uma coisa que sei sobre o livro: não se esquece e um livro que não se esquece é sempre poderoso pois há muitos livros que li e sobre os quais não me lembro de quase nada, a história desapareceu no pó dos anos. Mas jamais esquecerei a história dos Cem anos de Solidão, dos Capitães de Areia ou dos Sinais de Fogo. Trago agarrada a mim a história de um livro pequenino e pouco conhecido: " Quem me dera ser onda", é de facto um dos livros da minha vida. E isso ainda me faz viver, quero muitas vezes ser onda.


~CC~