quinta-feira, 13 de junho de 2019

A lista



Não escrevi a lista no papel.

Mas tenho-a vindo a escrever na minha cabeça.

São aquelas coisas. As coisas que precisamos de fazer antes que a morte nos leve, talvez se as tivermos ela seja piedosa e espere. E podemos sempre acrescentar mais coisas, piscando-lhe o olho: olha esta tinha-me esquecido, mas preciso de a fazer...espera lá aí mais um bocado!

É verdade que foi a sua aproximação em tempos recentes que me fez criar a lista. Mas agora acho que faz sentido por si própria, mesmo sem termos a morte à espreita (se bem que de certa forma está sempre aí à espera e à espreita de todos nós, afinal só um bocadinho mais do uns do que de outros).

E depois dos 50 até me dou ao luxo de integrar na lista coisas menos preciosas, menos interessantes e mais tontas. Foi assim que comprei o bilhete do Maré Vivas para ir ver o Sting (bem sei que vem imensas vezes a Portugal mas o que querem, passei mais de metade da vida só a estudar e a trabalhar).

~CC~

terça-feira, 11 de junho de 2019

Um cabelo fora do lugar



Talvez seja eu que não a estou a ver bem.

Todos os produtos que procura promover com o seu sorriso perfeito são biológicos e saudáveis. As receitas um menu de cores que pauta pelo equilíbrio, conduzindo-nos a acreditar que se as fizermos, o nosso sangue se tornará mais vivo, mais puro, respiraremos enfim melhor. Fala de modo suave.

E é por isso que reparo naquele pormenor das pestanas postiças. Aquele bocadinho de negro que lhe prolonga o olhar mas a coloca no lugar do fútil e do acessório. Já não a imagino a vir da horta sem luvas. E nada do que apresenta me parece realmente verdadeiro, falta-lhe um bocadinho de sujidade, um dente mais torto, um cabelo fora do lugar. A natureza é bela mas não é perfeita. 

~CC~

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Liberdade



Foi ontem, na biblioteca da Assembleia da República. Nunca tinha entrado na biblioteca e é bastante bonita. Não era uma homenagem à Natália Correia mas o lançamento de uma revista em que ela é a personagem escolhida (Faces de Eva). Acho que ela, que acreditava em Deus e não sei se na vida para além da morte mas acho que foi ela quem enviou a chuva que inundou a tarde. Nunca poderia ter sido uma vulgar tarde de Junho, com sol de Verão e cheiro a sardinha. Foi uma tarde molhada, caótica, com o que resta do cheiro a terra no interior de uma cidade. Tive uma genuína vontade de chorar que consegui conter pois não me apetecia fazê-lo ali, entre tantos estranhos. 

A tristeza e a revolta da Natália tornaram-se matéria ainda mais verdadeira e mais humana no interior do táxi. É fácil, falávamos sobre Lisboa. E o condutor contou as histórias, as dele e as de quem se senta naquele banco. As histórias das pessoas que perdem os bens por deverem à banca menos de 80 mil euros que não conseguem pagar e que vêm negadas todas as hipóteses de negociação, assistindo assim a vendas em hasta pública que rapidamente são tomadas por grandes fundos imobiliários previamente avisados. As histórias das pessoas acossadas pelos proprietários das casas que alugam, não poderei esquecer a da velhota que o senhorio deslocou de Alfama para uma casa minúscula em Chelas, dizendo-lhe que era em Lisboa e numa zona muito mais calma. 

Natália Correia teria escrito sobre isto poemas de farpas e sangue. E teria cantado, como a ouvi ontem fazer com Amália,  quem se não ela não teria medo de cantar a meias com a fadista...

Hei-de requisitar na biblioteca mais próxima o Botequim da Liberdade.

~CC~










quinta-feira, 6 de junho de 2019

Identidade(s)



A paisagem molda-me.

Por isso fico quieta com o coração a bater suave junto ao chaparro e ao monte de pequenas roseiras bravas vermelhas, com os olhos presos em tudo o que dali avisto e é apenas o céu, as árvores, algumas aves.

Sinto a relatividade de todas as coisas como se cada uma ficasse mais pequena e nenhuma importasse assim tanto. Isso traz-me paz e a paz faz com que o meu sangue circule devagar e os meus olhos se fechem na indolência, saboreando o sol. Nestas alturas sei que preciso de uma aldeia e de uma casa no campo para que a minha vida possa seguir um outro rumo.

Depois volto.

E tudo acelera e se torna numa vertigem.

Qual delas sou mais eu?!

~CC~

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Espelho



A Bea e o Joaquim puseram-me a pensar.

Afinal qual é o meu risquinho no mundo? O que lhe acrescentei eu? O que quis dar ou deixar aos outros?

Olho-me ao espelho da segunda forma mais difícil que há: em fato de banho (nua, seria a primeira). Não sou magra nem gorda, não sou loira nem morena, não sou bonita nem feia, não sou alta nem baixa (para a geração de agora serei baixa), herdei curvas e um bocadinho de celulite da mãe, uma pitadinha de loucura do pai (para esta não precisaria do espelho). Fiz de tudo um pouco mas sobretudo estudei, estudei muito, como tantas outras pessoas. Como me interesso por muitas coisas não aprofundei nenhuma a ponto de me tornar uma especialista de referência ou sequer uma cientista de renome, publiquei umas coisinhas, fiz uma conferências, falei para muita gente, com muita gente, às vezes talvez tenha brilhado um bocadinho mas outras nem tanto. Não tenho encantos nem especiais talentos. Sou assim uma pessoa vulgar. Tenho quase vontade de chorar quando me confronto com esta realidade nua e crua, esta pessoa eu no espelho.

Depois chega até mim uma única palavra, uma única coisa minha que é forte, é boa, é poderosa. Resiliência, poder para enfrentar dificuldades, contornar obstáculos, vencer abismos, amar a vida. 

Mais uma vez venci as lágrimas que estavam a querer encher-me os olhos de uma tristeza tão tonta.

~CC~