sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Namoro astral


Tenho trabalho redobrado durante as férias. Dois trabalhos importantes.

Há que ver o sol a pôr-se e a lua a nascer. Nestes últimos dias as cores têm sido deslumbrantes, ele despede-se vermelho fogo e ela nasce com a cor que ele deixou, talvez apenas ligeiramente mais clara. Quando isto se passa entre o sol a mergulhar no mar e a lua a nascer na ria, as águas ajudam a que todos os brilhos ganhem luz.

Tão bela que é a terra neste namoro com os astros em pleno Verão. Tremo ligeiramente só de pensar que um dia o homem pode interromper esta harmonia.

~CC~


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Paninho branco bordado


Os seus gestos tinham uma mímica única e a voz um ciciar lento, falando muito perto de nós e olhando-nos por breves momentos nos olhos. Falava muito dos seus meninos, das missões, do modo como fazia o seu trabalho, curiosamente nunca usando a palavra Deus. Como estava de férias e em casa de família não usava o hábito, por isso não sei se a conhecerei quando trajada a rigor. Assim que acabávamos de comer, levantava-se para nos tirar os pratos, não queria deixar-nos levantar para ir buscar alguma coisa ou para arrumar o que quer que fosse. Era talvez das únicas coisas que me incomodava verdadeiramente, como se servir os outros nas suas necessidades lhe estivesse entranhado até às células. Calava-se quando se contavam as histórias indecorosas dos padres da terra, ligeiramente incomodada, mas por breves momentos acho que lhe vi quase um sorriso. Apreciava-lhe a tranquilidade, a doçura, a paz. Às vezes parecia ficar triste, por exemplo quando falava de como a obrigaram a deixar o lar e o trabalho que a tinha ocupado durante onze anos, mas para logo resignar-se a uma nova morada, outra cidade, outro trabalho, afinal era mesmo assim, o normal era mudarem de sete em sete anos.

Interrogava-me amiúde como é que se aprendem gestos, um modo de falar, de estar, de pensar, que educação é aquela que penetra tão fundo. Nunca tinha vivido três dias na mesma casa do que uma freira. 

Guardo o paninho branco bordado que me deu, aquele abracinho terno e um respeito grande por quem é quem quis ser, ainda que me interrogue também se não tinha que ser quando se é uma de oito numa aldeia dos anos quarenta do século passado, em Trás os Montes.


~CC~

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Prova de fogo


O amor é uma coisa que demora tempo e tem que ser aprendida. O amor dá trabalho, as relações longas são uma prova de fundo, só digna de alguns corredores que aguentam nas subidas, embalam nas descidas e conseguem apanhar o ritmo durante as rectas. As desistências são muitas, também já desisti algumas vezes. E além disso a paixão, as relações breves, têm o seu poder de atracção. Mas desgastam-nos mais, consomem-nos. É claro que há quem prefira. Mas esta prosa é para os outros, para quem quer permanecer.

O amor muda porque nós também mudamos e precisamos de acompanhar as nossas e as mudanças do outro. Nesse caminho, é muito fácil que nos percamos. É muito fácil que tudo se torne um lago de águas paradas, uma busca de conforto e segurança, apenas o laço que se tem para impedir a solidão. Nesse caso só se precisa de coragem, desistir da corrida é o melhor, não porque não se é capaz, mas porque a prova não vale a pena, ou já não vale a pena.

O tempo de férias é muitas vezes a prova de fogo. Há tempo, o dia todo com o outro por perto, às vezes longe de casa onde não há os cantos habituais de refúgio, não há como evitar-lhe os olhos, as manias,  o que deslumbra e o que irrita. Como tantas mulheres e tantos homens, saí sem intenção de voltar depois de umas férias. E pensei muito sobre isso. 

Como justamente potenciar o encontro e não o desencontro, aproveitar o tempo maior, descobrir ainda coisas do outro ou nos descobrirmos a ambos em certos e outros lugares?

E de cada vez que regresso feliz, não isenta de sobressaltos e pequenos momentos infelizes, mas ainda assim mais rica e com histórias vividas a dois, acho que aprendo, vou aprendendo, vamos aprendendo.


~CC~





domingo, 28 de julho de 2019

Veja com o coração que tem



Cada um vê uma cidade com o coração que tem.

É linda a vieira que simboliza a cidade de Santiago e para mim ela é água e mar e o arrepio de beleza que me provoca é fruto da minha rendição à natureza, do meu respeito por ela. São também belas as construções medievais, a pedra escura que respira entre os parques verdes cheios de Camélias. O modo como as múltiplas igrejas escuras se intrometem no céu azul.

Vejo que para eles a emoção é outra e procuro entendê-la nos muitos rostos que esperam e esperam para dar um abraço ao apóstolo dentro da catedral. Mas sinto dificuldade em perceber o que encontram e porque se comovem assim. A cidade deles é outra, mas igualmente bela, intensa e comovente. E todos cabem cá, cada um com a sua emoção, se nos respeitarmos.

Uma cidade vê-se com o coração que se tem. Eu vi-a comovendo-me com os símbolos e frases que por todo o lado se afirmam contra a violência machista, com a vontade de me deitar nos muitos tapetes de relva dos parques, com a admiração pelos múltiplos museus de arte contemporânea em que se afirmam exposições que são gritos de revolta pelas misérias da humanidade. Vi-a admirando o modo como falam e escrevem a sua identidade por todo o lado, sem sufocar com ela.

Sabemos que o turismo faz viver e que o turismo mata. E não há um turismo mau e um bom, por mais que gostássemos de ser os do lado bom. Mas o turismo pode ser mais inteligente do que é agora. Andámos por ruas apinhadas e andámos por bairros lindos quase desertos, parques vazios e museus sem ninguém. 

Podemos levar de cada lugar não o que todos querem ver, o que é preciso ver, o que nos dizem para ver, ou não apenas isso. Podemos levar o que o nosso coração escolhe.

~CC~





quinta-feira, 25 de julho de 2019

Chuva de Verão


Os dias têm um acordar cinzento e levemente molhado e poderia facilmente ficar triste, não fora ter decidido que quero ser feliz.

Pode parecer estranho tomar esta decisão. Mas conheço pessoas que parecem ter tomada uma decisão contrária e tudo ou quase tudo as parece tornar infelizes. Em alguns casos talvez não sejam bem elas, é uma derrota a puxá-las sempre para baixo, um interior que fica facilmente mais cinzento que estas manhãs do norte. Dizemos-lhes que são bonitas mas elas acham que troçamos delas. Dizemos que têm valor mas elas desdenham desse nosso olhar. E tudo o que lhes dizemos tem que ser bem medido, pois sabemos que a mais leve das críticas abre um poço fundo. Então, já nem sabemos bem que dizer-lhes.

Os dias de verão costumam nascer luminosos e azuis no sul que conheço bem. Mas aqui não nascem  ou não nascem tantas vezes e aceito-o com a naturalidade de quem escolheu estar noutro lugar e tem que o aceitar como ele é. Mas conheço pessoas que querem estar sempre noutro lugar, estão sempre a pensar em mudar para um lugar que por ser perfeito só existe na imaginação delas, pois quando lá chegarem quererão outro. Cansam-se e cansam os outros nesse caminho.

A decisão de ser feliz foi acontecendo em mim e materializou-se com os anos, à medida que ia valorizando o facto de só ter esta vida. Se tenho mais desconheço-o e por isso não posso trazê-lo à minha consciência como ingrediente de felicidade. A chuva desta manhã é só uma chuva de Verão, apagará fogos, molhará a terra, deixará meninos tranquilamente em casa com os seus brinquedos e mudará os planos de algumas famílias, reinventarei os meus.