O congresso organizou-se no país interior neste fim de semana de frio e chuva intensos, muito nevoeiro também. Fiz pelo menos 300km pouco habituais, felizmente com mais colegas. Queria ter-me deixado contaminar mais pela pedra escura da cidade, pelos olhos das pessoas, pela beleza das árvores grandes que só mais a Norte se encontram, mas o desconforto do corpo não deixou.
Calhou-nos aquela moderadora que aposta na diferença. Nada de CV triviais, enviou-nos perguntas mais difíceis do que as que constam no questionário da última página do semanário Expresso. Fui deixando por responder até receber a mensagem de aviso, precisamente na noite anterior à minha comunicação.
Percebi que para metade das perguntas podia socorrer-me dos poetas que se infiltraram na minha pele. Para responder à pergunta sobre uma citação de um livro que dissesse algo sobre mim, era só viajar até aos bocadinhos da Sophia que sabia de cor. E ocorreu-me aquele de toda uma vida: quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que vivi longe do mar. E de repente um arrepio. Não era capaz de dizer isto num lugar tão longe do mar, o que sentiriam as pessoas dali, como encarariam isto? Risquei. Escrevi: terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. Também era verdade. E assim, se ofendesse alguém, era logo o mundo todo.
~CC~