domingo, 20 de outubro de 2019

O mundo todo



O congresso organizou-se no país interior neste fim de semana de frio e chuva intensos, muito nevoeiro também. Fiz pelo menos 300km pouco habituais, felizmente com mais colegas. Queria ter-me deixado contaminar mais pela pedra escura da cidade, pelos olhos das pessoas, pela beleza das árvores grandes que só mais a Norte se encontram, mas o desconforto do corpo não deixou.

Calhou-nos aquela moderadora que aposta na diferença. Nada de CV triviais, enviou-nos perguntas mais difíceis do que as que constam no questionário da última página do semanário Expresso. Fui deixando por responder até receber a mensagem de aviso, precisamente na noite anterior à minha comunicação.

Percebi que para metade das perguntas podia socorrer-me dos poetas que se infiltraram na minha pele. Para responder à pergunta sobre uma citação de um livro que dissesse algo sobre mim, era só viajar até aos bocadinhos da Sophia que sabia de cor. E ocorreu-me aquele de toda uma vida: quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que vivi longe do mar. E de repente um arrepio. Não era capaz de dizer isto num lugar tão longe do mar, o que sentiriam as pessoas dali, como encarariam isto? Risquei. Escrevi: terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. Também era verdade. E assim, se ofendesse alguém, era logo o mundo todo.

~CC~

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sim, já é Outono


Qual foi o dia exacto em que calcei meias? Em que tive frio de noite? Em que não consegui tirar os sapatos e andar descalça pela casa? Quando comecei a fechar a janela da sala?

Também tento dizer a mim própria que é bom. Tento agarrar-me à cor das árvores para amar a mudança de estação.

Mas a minha pele rejeita a lã, os pés rejeitam o aperto dos sapatos, perco os guarda-chuvas. E agora dói-me absurdamente o ouvido, latejando.

Custa-me, custa-me a habituar-me a esta transição. E não é propriamente pela chuva, pela chegada da chuva, em algures lugares de África chove muito.

É uma sombra, a chegada de uma sombra. É a minha luta para que não me engula, não me absorva, não me entristeça.

~CC~

domingo, 13 de outubro de 2019

Folia



Gosto desses lugares onde os escritores se mostram ao mundo. Mas respeito imenso também quem não se mostra. E há quem cante as letras dos escritores, dando-lhes ainda mais sentido. Por isso vou ao Fólio sempre que posso. Raramente dou o tempo por perdido. Magnífico, por exemplo, ver o presidente cabo verdiano que é poeta também a ler um texto denominado "A banquinha" (assim chamada em Cabo Verde, mas é "mesa de cabeceira" em português de Portugal e "criado mudo" em português do Brasil). Um presidente que esteve muitas vezes presente, não foi lá só ler os poemas dele, esteve várias vezes na plateia só a ouvir. Uma raridade nos dias de hoje em que as pessoas só vão às coisas para se ouvir a si próprias.

Ouvir ler alto quando quem o faz bem é muito bonito, as palavras soltam-se sonoras, saborosas, um encanto. 


Mas às vezes há limites, há exageros. E há autores que lêem mal a sua própria poesia. E há autores muito novinhos que já falam de si como se fossem um prémio Nobel. E mostram a sua agenda intensa como se a vida já lhes tivesse mostrado muito mais do que mostrou. Como diriam os nossos irmãos de além mar, o que é bom de repente fica ruim. Também há disso e é pena. E folia, folia eles têm pouca, parecem já ter nascido sérios e empertigados.

Gosto de escritores que para além de nos contarem a tristeza profunda que os habita, sabem rir.

~CC~





terça-feira, 8 de outubro de 2019

Podia ser outra



Quanto eu queria aprender a não dizer tão assertivamente o que penso. Quanto eu queria aprender a não ser tão transparente relativamente ao que sinto. Teria outro conforto, outra tranquilidade, a soberba da indiferença.

~CC~

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Notas breves da noite longa


Na Rua da Índia podemos falar de política se nos apetecer. Não amarrar este blogue a um formato foi uma decisão em prol da  minha liberdade. Se aprecio blogues temáticos e os que são bem focados numa linha editorial? Sim, claro. Mas não tenho vida para criar vários, se assim fosse, teria este e outro(s).

Breves notas da noite:

Discursos dos líderes da esquerda em geral equilibrados e bem construídos, excepção à nota da Catarina Martins sobre a Inclusão, uma indirecta ao Livre de que não gostei. Não sei se a coragem de uma nova gerigonça se irá sobrepor aos egos individuais.

Um PSD que com este líder resiste ao populismo, que ele não saia nem se renda à direita liberal e populista. É moderado e simpático, mas de quando em quando hesita e falha em questões relevantes.

Pena que seja uma mulher a sair da liderança de um partido político pois necessitamos de mulheres na liderança política, contudo, isso não pode falar mais alto, é mulher mas também pessoa e como pessoa disse-me muito pouco. O perigo é que o partido se vire para a extrema direita.

Gostaria de ver surgir um verdadeiro partido ambientalista, este não está preparado. Por isso não consigo festejar o seu crescimento. Na minha terra cresceu imenso, foi praticamente o único a lutar contra as dragagens no Sado, enquanto outros não apareceram, estiveram contra ou envergonhadamente a favor.

Triste ver chegar partidos de extrema direita populista ao parlamento, mostra que não somos imunes ao que se passa na Europa em termos de racismo e xenofobia. Afinal basta fazer uns cartazes insultuosos ou/e falar mal dos ciganos.

A abstenção não será toda igual, no outro dia ouvi uma crónica na rádio de um abstencionista confesso que quase me fez vacilar, extremamente bem feita e coerente. Quando a estudaremos?


~CC~