segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Narciso



Em vez das duas vezes de semana de yoga tenho feito duas aulas por mês. Esta minha irregularidade faz com que nunca conheça bem os parceiros de jornada, em regra bem mais sérios e regulares. E alguns deles parecem conhecer-se há anos, combinam coisas entre eles e mostram fotos do fim de semana. Sou uma estranha.

Nunca tinha visto o homem que ficou tão perto de mim que quase quebrava a bolha dos 20 cm, o que me tornou a aula especialmente difícil. Primeiro, o senhor ligava o turbo sempre que a posição era complexa, ou seja, ouvia-se-lhe a respiração em grande esforço, o que não é comum nestas aulas que primam pelo silêncio. Depois trazia uma tshirt cheia de bonecos e frases, o que também não é vulgar na indumentária desta frequência quase zen. O pior é que estava tão perto que conseguia ler as frases. O título era "narcisismo" e por baixo coisas dos género "eu só me amo a mim", " eu sou o melhor", etc. Ainda por cima era de cavas. Estava espantada, passei o tempo a tentar concentrar-me.

Só no final da aula consegui ler as letras miudinhas que estavam por baixo das frases maiores a enaltecer o narcisismo, dizia "tudo tem tratamento". Ainda assim questionei-me sobre a utilidade de usar tal coisa. Só lhe perdoo se foi uma prenda do dia do pai, sabemos que mesmo que sejam pirosas, as amamos sempre. 

~CC~

domingo, 27 de outubro de 2019

Fuga



Ele diz-me que não sabe qual foi o dia mas foi de certeza no Outono. Foi nesse tempo em que a luz diminui e o frio chega, quando as primeiras chuvas assustam as flores e os pássaros.

Diz que também não sabe a idade da menina, embora eu lhe responda que isso é impossível. Não se pode ter esquecido, então ele aponta um intervalo, aí entre os 6 e os 8.

Digo-lhe que tem que saber as razões para a partida dela e ele fecha os olhos, posso então ser eu a ver que ainda há um vestígio de dor. Nega-me essa dor, afirma que até foi bom ter criado sozinho a filha, hoje mulher adulta e próxima.

As mães que deixam as filhas ao cuidado dos pais são para mim o maior mistério da humanidade. Não as consigo condenar, não as consigo simplesmente entender. E por não as conseguir entender faço-lhes a cartografia do abandono e da fuga.

~CC~

sábado, 26 de outubro de 2019

O milagre



Ela chegou à minha escola com o avental de todos os dias, coxeando ligeiramente, mas aos 85 com o mesmo brilho no olhar que deve ter desde menina. No saco, uma dúzia das suas plantas e muitas mais nas mãos dos três companheiros. Foi às 9h15m que nos encontrámos mas disse-me que de manhã já tinha andado a plantar, o que seria de manhã...

Os companheiros das plantas, um agrupamento informal e meio anárquico que resiste a ter mais do que um endereço de contacto, tem mais homens que mulheres mas é a ela que eles recorrem sempre que há dúvidas. E assim aconteceu naquela sessão, ela sabe tudo de cor, é uma enciclopédia. Cada planta tem uma função, um bem e às vezes um mal, é preciso amá-las e ter-lhes respeito. Tudo o que ela aprendeu foi com os antigos, pois como me disse mais do que uma vez, é analfabeta.

Mas foi o seu saber que curou as feridas de muita gente. É preciso que me mantenha por perto e a vá visitar um dia destes. Há pessoas que não fazem milagres, são elas próprios o milagre.

~CC~


domingo, 20 de outubro de 2019

O mundo todo



O congresso organizou-se no país interior neste fim de semana de frio e chuva intensos, muito nevoeiro também. Fiz pelo menos 300km pouco habituais, felizmente com mais colegas. Queria ter-me deixado contaminar mais pela pedra escura da cidade, pelos olhos das pessoas, pela beleza das árvores grandes que só mais a Norte se encontram, mas o desconforto do corpo não deixou.

Calhou-nos aquela moderadora que aposta na diferença. Nada de CV triviais, enviou-nos perguntas mais difíceis do que as que constam no questionário da última página do semanário Expresso. Fui deixando por responder até receber a mensagem de aviso, precisamente na noite anterior à minha comunicação.

Percebi que para metade das perguntas podia socorrer-me dos poetas que se infiltraram na minha pele. Para responder à pergunta sobre uma citação de um livro que dissesse algo sobre mim, era só viajar até aos bocadinhos da Sophia que sabia de cor. E ocorreu-me aquele de toda uma vida: quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que vivi longe do mar. E de repente um arrepio. Não era capaz de dizer isto num lugar tão longe do mar, o que sentiriam as pessoas dali, como encarariam isto? Risquei. Escrevi: terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. Também era verdade. E assim, se ofendesse alguém, era logo o mundo todo.

~CC~

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Sim, já é Outono


Qual foi o dia exacto em que calcei meias? Em que tive frio de noite? Em que não consegui tirar os sapatos e andar descalça pela casa? Quando comecei a fechar a janela da sala?

Também tento dizer a mim própria que é bom. Tento agarrar-me à cor das árvores para amar a mudança de estação.

Mas a minha pele rejeita a lã, os pés rejeitam o aperto dos sapatos, perco os guarda-chuvas. E agora dói-me absurdamente o ouvido, latejando.

Custa-me, custa-me a habituar-me a esta transição. E não é propriamente pela chuva, pela chegada da chuva, em algures lugares de África chove muito.

É uma sombra, a chegada de uma sombra. É a minha luta para que não me engula, não me absorva, não me entristeça.

~CC~