domingo, 17 de novembro de 2019

Coisas perdidas



Se encontrares um brinco cheio de missangas branco, comprei-o numa loja de artesanato em Monchique e é pouco provável que volte lá tão cedo, além disso, sendo um produto artesanal, não há outro igual. Gosto de usar coisas brancas no Inverno. Esse brinco faz parte da minha fortuna pessoal, era importante que o devolvesses.

Se encontrares a minha luva preta, com capa dupla de lã, são as mais quentes que alguma vez tive e suporto muito mal o frio nas mãos. Não sei onde a comprei mas não foi em nenhuma loja comum, dessas que há em todos os centros comerciais, era importante que a devolvesses, sem ela a minha fortuna pessoal está incompleta.

Mas se encontrares a minha indignação, não a devolvas, guarda-a para ti. Eu tenho-a em dose tão excessiva que por vezes me é letal, tira-me o sono e a alegria. Sem ela a minha fortuna pessoal também estará incompleta, mas como está sempre a nascer, haverá sempre uma boa dose para deixar como herança.

~CC~

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O meu manual de auto-ajuda


A mim não me chateia nada o facto de me tentarem impingir produtos na rua, à excepção talvez das duas senhoras das bíblias que encontro à cadência de uma vez por semana. Desmemoriadas da última vez que lhes disse não tenho interesse, aproximam-se sempre.

Os parques de estacionamento à beira Sado são uma espécie de bazares, como não, ao preço que custa a travessia, é gente com poder de compra. E inevitavelmente à medida que envelheço as palavras Ó menina têm mais musicalidade. Por isso a menina recusou com um sorriso aberto os óculos de sol de marca tão conceituada vendidos a um preço irrisório e produto de boa qualidade, só não esperou ouvir a resposta: então assim, ó menina, como é que o cigano vai comprar o Ferrari?! Ele riu-se e eu ri-me com ele, divertidos.

Digo-vos com quase toda a certeza de uns anos que passei a estudar a psique, o meu manual de auto-ajuda só tem uma frase de jeito: ria de si próprio. Não dará grande edição, nem ficarei minimamente rica. Mas olhem que me tem dado jeito. 

~CC~


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Terra fria


Podia ser eu, podias ser tu.

Só em certa parte podia ser eu, se calhar não podias ser tu.

Às vezes tive muita vontade de chorar como ele o faz numa cena do filme, ri-me muitas outras vezes. É um filme doce, comovente, hilariante, a viajar entre o documentário e a ficção.

Aquele Portugal que achamos que não existe mais está ali inteiro, vibrante, ao mesmo tempo triste e intensamente alegre. E frio, sente-se o vento a soprar entre as pedras. O mais bonito, porém, é que o realizador, também protagonista do filme, nos mostra esses montes áridos onde o vento gela a pele sem ter qualquer intenção declaradamente política. Que bonitas são aquelas pessoas a falar, a esconder, a encolher os ombros, a não julgar, a interrogar deus e o diabo na terra. Daquelas mãos saíram, por certo, os nacos de broa que salvaram as crianças de morrer à fome. 

É isto Bosto Frio, ou para mim foi isto.

Fiquei com muita vontade de procurar o meu avô, enterrado algures num cemitério em Luanda. Sei tão pouco sobre ele.

E no fim, generosamente, o jovem realizador veio falar connosco.

~CC~


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Indignações



São artistas amadores e queriam dizer poemas em público em homenagem à autora, espectáculo gratuito é claro. Meia dúzia de jovens a querer ou pelo menos convencidos a dizer poesia é uma bênção. Mas não puderam, ou melhor, para o fazer teriam que pagar uma quantia avultada à família da autora. Percebo que a família cuide de homenagear os seus mortos, não deixando que tudo possa ter o nome deles e velando por alguma qualidade, mas que se agarre assim à autoria, cobrando-a, é uma coisa que me custa a aceitar. Mais ainda quando é uma família que percebemos que não precisa desse dinheiro. 

Jovens a dizer poesia para mim estariam sempre autorizados, como não se percebe que a luta passa por não a deixar morrer, sobretudo a de qualidade. Imagino-a viva, contente no meio deles, ela que queria a poesia na rua, é isso que mais dói. 

~CC~

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Aguardando pelas minhas asas


Novembro está traçado para mim no formato da formiguinha, indo e vindo no caminho sem quase descanso, por inevitabilidade de poder escapar ao meu destino. Constato, contudo, que me é cada vez mais difícil o percurso pelo carreiro, o esforço, o transporte da carga, o cumprimento do objectivo. O que me resta de brio é aplicado a tentar fazer com que a tarefa tenha um mínimo de brilho e encanto. Sei, porém, que é o possível nascimento das asas, que de momento estão recolhidas, que fará de mim a outra formiga que na verdade já sou.

~CC~