quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Talvez tenha ficado uma pequena ferida



Tenho tendência a pensar que ultrapassei isto sem quase ter ficado com nenhuma marca, nenhuma ferida. Às vezes acho que já me esqueci de quase tudo, ou pelo menos isso não se atravessa no meu quotidiano. Não me vejo, não me encaro como uma pessoa doente ou incapacitada, não obstante ter aquele papelinho.

Mas depois há isto, hoje é a terceira vez. Morrem familiares de amigos e eu não consigo lá ir. Quero a morte a uma distância muito grande de mim, temo aproximar-me. Logo eu que que brinquei em cemitérios e que nunca tive qualquer medo de entrar num. Até os acho lugares de boas histórias.

Hoje o arrepio foi ainda maior, nem conhecia a pessoa, era apenas familiar de um funcionário do lugar onde trabalho. Mas ela já me tinha contado várias vezes e sempre para me dar esperança: a minha mãe teve o mesmo e está viva e bem. Agora já não me poderá soprar tal alento. 

Talvez tenha ficado uma pequena ferida.

~CC~

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Lugar de palavra



Olho para ela, é só uma delas.

Desinteressada, alheada, sempre calada.  Quantas delas passaram por aquelas cadeiras.

Agora há um lugar de palavra nas aulas. Toma o lugar quem quer e fala, conta-nos alguma coisa, o que quiser.

A morte do pai, a mãe ligada à máquina, a profunda solidão. Bati no fundo disse ela. E houve alguém que lhe entregou um papel, uma professora. Foi um passaporte para algo mudar. Hoje caminha num equilíbrio instável, baloiça o corpo para um lado e para o outro, conquista cada dia.

Estes dias têm sido tristonhos para mim. Mas hoje ao ouvi-la senti que afinal tudo ainda faz sentido. Que eu ainda faço sentido.

~CC~

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Mas cabe perguntar...



Ele fez uma das canções da minha vida. Poesia maior, músico gigante. Algumas das suas questões nesta música foram, são e serão sempre minhas, se calhar vossas.

Em tudo que já fomos está o que seremos
No fundo desta noite tocam-se os extremos
E se soubermos ver nos sonhos o processo
Os passos para trás não são um retrocesso 

A noite é um sinal de tudo quanto fomos
Dos medos, dos mistérios, das fadas e dos gnomos 
Da ignorância pura e da ciência irmã 
Em que, sendo passado, já somos amanhã 

A noite é o espaço vago, o tempo sem história 
Em que as perguntas nascem dentro da memória 
Em tudo que já fomos está o que seremos 
Mas cabe perguntar: foi isto que quisémos? 

Em tudo que já fomos está o que deixamos
No fundo das marés, nos portos que tocamos
O rumo desvendado, o preço da bagagem
É tudo quanto resta para seguir viagem

A noite é parideira da contradição
Que existe em cada sim que nos parece não
Olhando para nós, os grandes dissidentes
No meio da luta entre lemes e correntes

Será esta viagem feita pelo vento
Será feita por nós, amor e pensamento
O sonho é sempre sonho se nos enganamos
Mas cabe perguntar:como é que aqui chegámos? 

Em tudo que já fomos estão os nossos mortos
E os vivos que ficaram entram nos seus corpos
Na noite do amor, na noite do sinal
Naufrágio de fantasmas na pia baptismal

A noite é o impreciso e escuro purgatório
Que alinha as nossas almas no seu dormitório
A culpa dos heróis é serem sempre poucos
Acaso somos mais, ou tão somente loucos

Temos que descasar a culpa e o prazer
No que fizemos ou deixamos de fazer
Para reconstruir os corações cativos
Mas cabe perguntar: acaso estamos vivos ?

Em tudo que já fomos há um sonho antigo
Conversa universal de cada um consigo
São sombras e brinquedos, tudo misturado
E o vago sentimento de nascer culpado

Será um sonho absurdo este olhar p'ra dentro
E o nosso destino, só, servir de exemplo
Andamos a fugir à frente desta vida

Mas cabe perguntar:existe uma saída ?

José Mário Branco

domingo, 17 de novembro de 2019

Coisas perdidas



Se encontrares um brinco cheio de missangas branco, comprei-o numa loja de artesanato em Monchique e é pouco provável que volte lá tão cedo, além disso, sendo um produto artesanal, não há outro igual. Gosto de usar coisas brancas no Inverno. Esse brinco faz parte da minha fortuna pessoal, era importante que o devolvesses.

Se encontrares a minha luva preta, com capa dupla de lã, são as mais quentes que alguma vez tive e suporto muito mal o frio nas mãos. Não sei onde a comprei mas não foi em nenhuma loja comum, dessas que há em todos os centros comerciais, era importante que a devolvesses, sem ela a minha fortuna pessoal está incompleta.

Mas se encontrares a minha indignação, não a devolvas, guarda-a para ti. Eu tenho-a em dose tão excessiva que por vezes me é letal, tira-me o sono e a alegria. Sem ela a minha fortuna pessoal também estará incompleta, mas como está sempre a nascer, haverá sempre uma boa dose para deixar como herança.

~CC~

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

O meu manual de auto-ajuda


A mim não me chateia nada o facto de me tentarem impingir produtos na rua, à excepção talvez das duas senhoras das bíblias que encontro à cadência de uma vez por semana. Desmemoriadas da última vez que lhes disse não tenho interesse, aproximam-se sempre.

Os parques de estacionamento à beira Sado são uma espécie de bazares, como não, ao preço que custa a travessia, é gente com poder de compra. E inevitavelmente à medida que envelheço as palavras Ó menina têm mais musicalidade. Por isso a menina recusou com um sorriso aberto os óculos de sol de marca tão conceituada vendidos a um preço irrisório e produto de boa qualidade, só não esperou ouvir a resposta: então assim, ó menina, como é que o cigano vai comprar o Ferrari?! Ele riu-se e eu ri-me com ele, divertidos.

Digo-vos com quase toda a certeza de uns anos que passei a estudar a psique, o meu manual de auto-ajuda só tem uma frase de jeito: ria de si próprio. Não dará grande edição, nem ficarei minimamente rica. Mas olhem que me tem dado jeito. 

~CC~