Ela ligou só para elogiar, para dizer que a sessão tinha sido boa e útil. E eu que tinha sentido exactamente o contrário, que me tinha faltado a luz. Há pessoas generosas, capazes de coisas pequeninas que fazem bem aos outros, que têm esse dom de exprimir afecto. Outras, são incapazes de um abraço. O que nos torna quem somos? O que nos molda desta forma tão oposta? E como é que a vida nos muda? Que acontecimentos, pessoas e/ou experiências actuam na nossa mudança?
Lembro-me do meu pai, adorava andar abraçado a nós na rua, lembro-me de adolescente lhe tirar delicadamente o braço dos meus ombros, cheia de vergonha. Da minha mãe, hei-de lembrar o abraço quase só como o amparo que lhe dou na sua velhice, para a ajudar a caminhar. Entre o gelo e o fogo, cresci assim. Um fogo fátuo, um gelo frágil.
Não me lembro de telefonar a alguém apenas para lhe dar um elogio. Mas já fui capaz, embora tardiamente, de ligar para saber apenas como a pessoa se sentia e estava.
~CC~


