quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Entre o fogo fátuo e o gelo frágil



Ela ligou só para elogiar, para dizer que a sessão tinha sido boa e útil. E eu que tinha sentido exactamente o contrário, que me tinha faltado a luz. Há pessoas generosas, capazes de coisas pequeninas que fazem bem aos outros, que têm esse dom de exprimir afecto. Outras, são incapazes de um abraço. O que nos torna quem somos? O que nos molda desta forma tão oposta? E como é que a vida nos muda? Que acontecimentos, pessoas e/ou experiências actuam na nossa mudança?

Lembro-me do meu pai, adorava andar abraçado a nós na rua, lembro-me de adolescente lhe tirar delicadamente o braço dos meus ombros, cheia de vergonha. Da minha mãe, hei-de lembrar o abraço quase só como o amparo que lhe dou na sua velhice, para a ajudar a caminhar. Entre o gelo e o fogo, cresci assim. Um fogo fátuo, um gelo frágil.

Não me lembro de telefonar a alguém apenas para lhe dar um elogio. Mas já fui capaz, embora tardiamente, de ligar para saber apenas como a pessoa se sentia e estava.

~CC~

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Frágil



Tenho uma dolorosa consciência da fragilidade de tudo. Não me assombra mas às vezes assusta-me. Ainda hoje um pássaro morreu contra o vidro do meu carro em plena auto-estrada do sul, afastou-se apenas ligeiramente do bando mas não subiu a tempo de evitar o embate enquanto os outros o fizeram. Estava demasiado vento e isso deve ter atrapalhado os seus cálculos. Apeteceu-me parar e chorar copiosamente a sua morte injusta. Nesse momento tive consciência também da minha própria fragilidade. Fechei os olhos sem os fechar verdadeiramente, parei para um café, e agarrei-me à vida como sempre faço.


~CC~

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A cor do ano

Resultado de imagem para cor do ano 2020

Esta cor divide-me. 

Mergulho nela como num manto infinito de paz e silêncio e consigo respirá-la, insuflá-la, senti-la a preencher-me lentamente o peito, a dirigir-se para o ventre, a espalhar-se pelas minhas pernas e braços, sobe-me à cabeça e os meus cabelos tornam-se azuis. Acho que consigo ficar tão leve que posso voar.

Mergulho nela e sinto-a gelada, quero fugir-lhe, mas é como um nada que me apanha e me tolhe os movimentos, é como o vazio da morte quando ela nos ronda. Ganho-lhe medo.

Creio que o problema está no clássico, o clássico tem sobre mim este duplo efeito de atracção e afastamento. Penso em como será toda a cambiante de azuis não clássicos, hei-de descobri-los. 

~CC~


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Aldeia poema




Foi em Dezembro que localizei um círculo no mapa, já são poucos os que consigo traçar no mapa do nosso país, correspondendo a lugares desconhecidos. A muitos fui só para encher os olhos de lugares não vistos, a muitos, muitos outros, fui em trabalho. Gosto de ir dos dois modos, são duas formas de estar diferentes. Desta vez precisava de ir sem tarefas, estava exausta. Procurava apenas duas coisas: horizonte e silêncio. Não sabia nada desta aldeia que escolhi no Alentejo interior, detectei a hipótese de ficar numas casinhas da própria terra, fora de unidades hoteleiras mais comuns e massificadas e simplesmente marquei. Logo nas primeiras casas à entrada comecei a ver as frases escritas nas paredes. Uma e mais outra e outra, acabei por as detectar todas no passeio posterior, já a pé. Depois a conversa com as pessoas desvendou mais e mais. Tinha encontrado uma aldeia poema. Há ocasiões de sorte ou talvez seja eu que ainda me apaixono com facilidade.

~CC~

domingo, 12 de janeiro de 2020

Mães e filhas



Olho para a sua condição de fragilidade e crescente falta de autonomia e revejo o curto período da minha vida em que também eu estive naquela condição, lembro-me de todos os pensamentos negros que então tive, mas havia alguma esperança de recuperar, coisa que nela é mais ténue, embora tenha havido lentos progressos.

Só há uma coisa que me distancia totalmente dela. Enquanto para ela a imagem é muito importante, recusando sair à rua porque o cabelo não está arranjado, porque não quer que a vejam de andarilho ou de cadeira de rodas, eu saí muitas vezes de carequinha e se fosse preciso ir ver o mar de cadeira de rodas, iria. Enquanto para ela a velhice foi o perder de uma magnífica beleza sem nada em troca de substantivo, eu não tenho assim tanta beleza para perder e espero ganhar alguma paz e mais saber. Não posso prometer não ficar algo implicativa, por vezes injusta, por vezes sombria. Terei ganho por ter lidado com este processo, espero poder lembrar-me e fazer o meu melhor, sobretudo por ti, menina que vens depois de mim.

~CC~