Luanda, minha laranja sempre em flor.
O que interessa não é que mude o poder, mas a substância de que se faz o povo. Uma substância que não pode ser mais a admiração pela esperteza, a subjugação ao poder, a atracção imensa pela riqueza fácil, o desprezo por quem é pequeno e pobre.
Há uns anos numa feira de rua, quando na Europa a crise já se adivinhava, um angolano baixou-me o preço de uma peça por eu ter cara de portuguesa pobre, comentando que os portugueses eram agora mais pobres que os angolanos, com um ar trocista e orgulhoso. Não obstante a sua própria condição de feirante, na verdade devia ganhar mais do que eu. Os aviões, esses iam cheios de estrangeiros no alcance do lucro fácil, mais de metade americanos. Agora parece que vão quase vazios. O escândalo é muito maior do que estes papéis e estas personagens.
Vi outras coisas deste povo e deram-me esperança. Da última vez uma mulher pediu-me ajuda para os problemas da filha, uma menina de 14 anos que quase não falava. Na verdade era sua filha adoptiva, resguardada na sua casa depois de ter sido abusada por membros da família, nenhum preso ou sequer acusado. Uma mulher que era um tesouro de humanidade e bondade. Pensei muito nela e na sua coragem nestes últimos dias. Uma laranja sempre em flor, que Luanda e toda a Angola se pudesse encher delas, livrando-se de princesas.
~CC~