quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Pequenos monstros




Fiquei a olhar os teus cabelos escuros, compridos e encaracolados, e o maravilhoso tom de pele moreno. Achei-te mil vez mais bela que a mais bela loura de olhos azuis. 

Mas se todas fossem iguais a ti, a tua beleza seria banal e vulgar. 

E se todas fossem louras de olhos azuis, o enjoo seria idêntico. Lembrei-me daquela terra em que fiquei maravilhada com a primeira mulher loura, alta, magra e de olhos claros que vi. Depois vi outras tantas e tantas iguais e quando vi a última a minha admiração era já pouca, não por não serem belas mas porque aquela beleza era a única que havia para ver.

Lembrei-me depois da menina gordinha que tenho dentro da família, vitima da mais tonta discriminação que há. Um dia combinaram com ela almoçar na cantina, coisa que ela destestava, mas pensou que com as amigas conseguiria. Mas nenhuma delas apareceu. Sabem, não se esquece uma coisa destas.

Quando aprenderemos que por sermos tão desiguais somos tão interessantes e belos? Falhámos já quantas vezes como humanidade? Quando aprenderemos?

Até quando suportaremos cantilenas que nos diminuem e nos tornam pequenos monstros?

~CC~

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Abraço-te


Hoje é dia de ter orgulho em ti. Orgulho pelo livro em que sai o (teu) poema.

Ou sobretudo porque o envelhecimento fez de ti, de algum modo, uma pessoa melhor. Ou foste tu a fazer isso a ti próprio enquanto tecias os anos.

Abraço-te.

~CC~

Estatueta



Já vi Parasitas, confesso que só depois do Óscar, aliás Óscares. Tinha visto há tempos atrás um filme coreano muito enaltecido pela crítica e não tinha gostado nada, estava reticente.

O filme é um conjunto de agulhas fininhas a entrar-nos na pele, vai causando incómodo sem nos ferir, um aperto no coração enquanto rimos, um ligeiro sabor amargo vai-se instalando. Ninguém se salva, ninguém é belo, não há ninguém para amar no filme, antes cada um tem o seu quinhão de ridículo, um ponto fraco, são todos reféns, prisioneiros no seu próprio mundo. E ao mesmo tempo que admiro a crueza daquele olhar lúcido, aquele banho de realidade, apetecia-me ter um ponto de fuga, alguém que fosse capaz de romper o cerco. 

Compreendo o pessimismo mas no fundo sou uma optimista, mas não pode ser o optimismo açucarado, tolo, tonto. A bondade e a compaixão comovem-me e gostaria de as ver enaltecidas, não raro vejo-as caricaturadas. Talvez aquele miúdo a acampar debaixo da chuva no quintal, deslocado de qualquer realidade pudesse ser o ponto de fuga, pelo menos tinha uma lanterna a iluminar a noite e sabia descodificar código morse.

~CC~





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Esperança



O miúdo contou detalhadamente como escondia debaixo do casaco os pedaços de cartão que nas aulas de EVT o professor deitava para o lixo normal e os levava para os deitar no contentor certo. Mas desculpando o professor que não fazia por mal, só não pensava bem no que estava a fazer.

Contou como os colegas o achavam maluco, dizendo-lhe que as funcionárias, no final do dia, juntavam no mesmo recipiente os diferentes resíduos provenientes dos contentores separados que havia na escola, enquanto dizia, estranhamente calmo, que não se podia fazer as coisas a fingir, tinham que ser a sério.

Apontou com clareza coisas muito boas e outras menos boas, sentidas por ele, mas também ditas pela voz dos colegas que tinha estado a ouvir antes de os representar. Disse tudo sem usar um papel, ou um telemóvel, fazendo gestos demorados e com voz clara. E quando eu já tendia para o categorizar como um sobredotado, quiçá um bocadinho autista, recusou-se a responder a uma pergunta (que não fui eu a fazer) sobre um comportamento dos colegas pois gostava muito deles e estava ali a representá-los, não para os criticar fosse pelo que fosse.  Agradeci-lhe tanto, pela enorme esperança que me deu.

~CC~



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Escuta



Que sede de calar as vozes discordantes. Que pena que assim seja. A mais leve critica é transformada em grande crítica por quem a ouve. Que pena que assim seja.

Continuo a achar possível construir caminhos com aquelas vozes que aqui e ali colocam questões pertinentes, críticas construtivas, olhares atentos. Lideranças que se fortificam são fracas e pouco interessantes. É da indiferença que todos devíamos fugir.

Escutar, eis algo de que continuo a gostar muito.

~CC~