terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

16 comentários:

  1. CC, que coisa bonita, estou a imaginá-la toda compostinha, vestida de importância e com um saquinho plástico na mão a comer cerejas rua fora. Ficou pelo menos uns minutos de férias, diga lá se não foi bom. Já disse, não é ?
    Uma peixeira da praça depois de me atender dizia, "Ó filha quer que ponha já o sal?" Era uma querida. E fez-me uma visita quando estive doente. Um dia escrevo um post sobre ela, acho que nos queríamos bem.
    Boa noite

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    1. Que maravilha essa peixeira...algumas são mesmo engraçadas, tinham um humor muito particular que se foi perdendo...fico à espera desse post! Resto de boa semana!

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  2. O "engano“ de fingir que não pertencemos àquela correria, quando a verdade do quotidiano nos puxa de volta à realidade.

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    1. Gosto destas saídas em trabalho porque não obstante serem intensas e pouca margem me darem para outras coisas, respiro outro ar, tomo café noutro sítio, passeio o olhar por outras coisas...e sobretudo desafio-me.

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  3. felizmente ainda encontramos a antítese (e logo com cerejas) de toda esta correria que nos vai derrubando

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    1. Descobri depois que a própria mercearia se chama "Pé de Cereja"...acho que encontrei um daqueles lugares...há que lutar contra a morte que vem de fora e às vezes...com aquela que nos vem de dentro. Um abraço

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  4. "... não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos..." aprecio esse despojamento.
    Um abraço.

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  5. Mimos que nos fazem felizes.
    Adorei a simplicidade e a grandeza do texto.
    Bom fim-de-semana.
    :)

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  6. atravesso todos os dias uma cidade a abarrotar de turistas e a sensação que tenho, embora nã seja crente, é de que cometi um pecado e estou a pagar no purgatório... nunca experimentei comer, já tentei com musica e melhorou um pouco...

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  7. Mau tempo, não me diga que mora em Veneza?! Saia desse purgatório enquanto é um moço ainda novo...agora a sério, até a minha cidade já fica irreconhecível aos domingos...filas para almoçar?! É difícil encontrar soluções adequadas mas se não se encontrarem as cidades irão agonizar.

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    1. moro no fim da rua de uma aldeia que é de uma quase pacatez, paredes meias com o mais sossegados dos vizinhos (cemitério) mas o trabalho obriga-me a atravessar o purgatório... gostava de ser melhor pessoa, mas desconfio que pra isso tenho de mudar de emprego!

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    2. Sem dúvida a vizinhança é boa:) E essa moda do trabalho online não é possível mo seu caso? Mudar de trabalho é boa hipótese mas numa aldeia as chances não são assim tantas...eu estava a vê-lo a abrir uma pequena livraria ou até uma horta da poesia...tenho esta mania de querer ver as pessoas felizes, até porque se ficar vai moderar nas tempestades, certo? Não se deixe ficar...

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  8. Os locais onde mora, quer em permanência, quer temporariamente, são muito bonitos e em geral com vista mar ao fundo. É uma sortuda CC.
    Imagino-a a procurá-los, com o detalhe de quem faz um programa de viagens.

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    1. Este por acaso não tinha mar, mas era bem bonito sim. Nem sempre sou eu a escolher, às vezes são eles que me escolhem:)

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