Já vos falei da estrada para o Sul?!
Há nela três nuances de paisagem. Até Grândola, os pinheiros mais pequenos ou mais altos e o terreno arenoso combinam com a proximidade do mar, não obstante ali nada se adivinhar e há tantos pinheiros novos este ano, devo ter sido do Inverno chuvoso. Depois de Grândola e até Aljustrel, é planície, com o aproximar do Verão e o calor das últimas semanas, desapareceram as flores amarelas e roxas que vi em Fevereiro, aquelas altas giestas de encher os olhos. Nesse ondular suave e sereno de cor dourada, sobressaem aqui e ali os sobreiros, chaparros que abrigam pessoas e animais, árvores casa. Depois de Ajustrel a paisagem é serrana, crescem as curvas, os barrancos, há mais arbustos, mais mato.
Contei apenas dois rios, um deles, o Sado que se repete duas vezes e numa delas diz em letras pequeninas Sul, fico sem saber se o que corre na minha terra é Norte. Há várias ribeiras, mas nunca nelas vi correr água, apetece-me segui-las, ir ver se algures mais adiante a ribeira do Roxo e a da Messajana são mais do que meras tabuletas que se anunciam na estrada, lavar o rosto nelas. Mais tarde diria: era quase Verão e fui lavar os olhos na Ribeira do Roxo. Estes desvios, queria ter tempo para eles, imagino que um dia sigo estas vontades, perco mapas e destinos. As cegonhas também parecem já ter partido, não as vejo ao longo de todo o caminho.
Ao Km 141 há um vislumbre de um novo Alentejo, cheira intensamente a azeitona e adivinham-se os olivais intensivos. Reconheço este cheiro, já lá vão uns bons anos que se atravessa no meu atravessar.
A estrada para o Sul não é um passeio, é um anunciar de passeios, ou mesmo um estado de espírito, e a sê-lo, é algo que combina com o canto das cigarras. Uma metade de mim já está com elas, a outra não pode.
~CC~
Admirei o pormenor com que observou a paisagem e como conseguiu anotar. Saber ver é uma qualidade.
ResponderEliminarBoa semana.
Um abraço.
É uma das coisas que mais gosto, observar paisagens, às vezes até parece que as oiço falar. Mas os seres humanos também me interessam muito, só que por vezes desiludem. Obrigada por ter passeado comigo:)
Eliminar"Ao sul"(não tenho precisão no título) é uma canção cantada por Nuno Guerreiro; a canção inda existe, o Nuno é que não. E não há em mim voz que melhor a cante. Ninguém como ele para a nostalgia imensa que a melodia carrega. Enfim... Lembro-me de assistir a um dos seus últimos espectáculos a solo (talvez mesmo o último) e havia nele uma vibração de diferença, aquela entrega quase esfuziante que nos levava pelos caminhos da alma - como disse Salvador Sobral num certo programa e a propósito de outra pessoa, "a sua voz vai direitinha à alma". O sul do Nuno era talvez o seu, CC, o Algarve, certamente. E por isso o caminho tem as tonalidades da saudade de percorrê-lo; sabe-se quase de cor em todas as nuances, as novidades são mais notadas, avança-se para os cambiantes conhecidos com ternura expectante e alegria no reencontro. Que possa brevemente percorrer o caminho eleito.
ResponderEliminarO meu "ao sul" é atravessar a ponte; não aprecio os regressos sempre nocturnos imaginando que desaguo noutros lugares porque de noite, os faróis iluminam o alcatrão e o resto é breu e o contributo da imaginação a torná-lo outra coisa. Mas tenho como toda a gente, o meu sul. A um deles não voltei mais, era caminho por mim tão desejado que o coração se agitava no peito desde o início da viagem, a distância a encurtar na proporção directa do galope do coração. Perdi e não perdi no tempo esse caminho onde me parece que fui feliz.
Quando me dirijo para a ponte lembro sempre uma amiga que ali separa as águas e um dia me disse, "afinal é tão fácil ir a tua casa, basta virar à direita e não à esquerda". Mas nem tudo o que parece fácil se faz muita vez, tão escassamente ela vira o volante.
Boa semana!
Que beleza de comentário, fui logo ouvir e ler a letra da música. Que o sul a visite muitas vezes e permaneça o tempo suficiente para a fazer feliz.
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