sexta-feira, 27 de março de 2026

Aconteceu(me) o Teatro

 

Não, eu não vinha de um grupo de teatro amador.

Não, eu não vinha de um grupo de teatro da escola.

Não, eu não ia com os meus pais ao teatro.

Algures na infância, lembro-me das pequenas peças de teatro feitas em família, não sei de onde vinha o gosto ou como começou, nem quem nos apoiava, vagas memórias de uns tios e tias alinharem com os miúdos. 

Por isso entrei na sala escura por um acaso delirante, diretamente do subúrbio, adolescente tímida e ignorante. E lá dentro encontrei quase tudo, foi como um labirinto onde cada corredor levava a um outro e mais outro, passava duas vezes no mesmo lugar para perceber melhor e a saída não importava. Deslumbrei-me com as sonoridades das palavras, a textura possível de colocar em cada gesto, o formato dos rostos e das suas máscaras, as diferentes formas que um corpo podia ter.

O choro e o riso não eram mais algo a esconder no interior do ser, eram tão bem vindos.

Aconteceu-me o Teatro, foi vida, nunca profissão.

~CC~


domingo, 22 de março de 2026

Passeio de Domingo (I)

 

A minha mãe suplicava ao meu pai: vamos levar os miúdos a passear, hoje é Domingo! O meu pai era um boémio, lia muito, fumava ainda mais, gostava de cafés e de jornais. Nunca o vi pôr o pé na praia, fugia do campo e da natureza. Amava a noite, suportava os dias. Tolerava as crianças e ia gostando sempre mais de nós à medida que crescíamos e podia falar connosco como quase adultos. De quando em quando, ela convencia-o, ele metia-nos no carro e dava uma voltinha pela cidade, janelas abertas, com o braço com o cigarro de fora. Às vezes parávamos e comíamos um gelado (ou melhor, um baleizão). Quando regressávamos a casa ela dizia: lá demos a voltinha dos tristes. Toda a vida a minha mãe quis passear aos Domingos, às vezes quando eu dizia que tinha que trabalhar, ela lamentava-se: mas é Domingo. Nos últimos três anos da vida dela guardei muitos Domingos para almoçar com ela no restaurante como gostava e, por fim, já em casa.

Metade da minha infância foi passada no quintal da minha casa, um terço nessa mesma rua. Creio que consigo contar os passeios pelos dedos da minha mão. O quintal era ainda assim bastante cheio, vinha muita família, às vezes havia festa, não me sentia infeliz. Mas não tinha absolutamente noção de quase nada, muito menos do tamanho que tinha a terra. Quando me comparo com as crianças atuais, acho-as incomparavelmente mais espertas e sábias do que eu era.

Talvez resida, assim, na infância a minha fome de mundo, o que comporta natureza, arte e cultura, podendo usar apenas um termo para todos três: resistência.

Chegada a Primavera essa fome vem à flor da pele. Uso, contudo, o termo Domingo como um apelo metafórico que vem do lamento da minha mãe. Significa que o passeio pode tomar forma num outro dia da semana, até porque inevitavelmente alguns fins de semana são tomados pelo trabalho.

Abram então a porta, venham, é Domingo. 

~CC~

sábado, 21 de março de 2026

Ptilonorhynchus violaceus

 


Cetim azul, regresso aos pássaros. 

Conheci esta espécie numa oficina que escolhi fazer sem saber bem o que seria, gosto tanto de ir por ai a descobrir coisas, lugares em que não sabem quem sou, tão pouco o que faço. 

Era uma oficina de relação entre as artes plásticas e a natureza e dedicada à cor azul, mas com designação metafórica que não deixava adivinhar. Curiosamente eu também ia vestida de azul, as formadoras perguntaram se eu sabia, obviamente não. Tiraram-me fotos: eu azul entre as muitas coisas azuis que elas levaram.

Mas o meu fascínio focou-se nas histórias que contaram, entre elas a do pássaro Cetim azul, do qual nada sabia. Têm olhos azul violeta, a única coisa comum entre machos e fêmeas. Eles têm uma plumagem azul escura brilhante, elas penugem verde oliva, com algumas pontuações de cinzento.

Os machos constroem estruturas (caramanchão) com ramos e raminhos para o ritual de acasalamento, enfeitam-nos com tudo o que apanham de cor azul, seja natural ou artificial. Com o seu bico pontiagudo apanham penas, bagas e flores, mas também tampas e tampinhas, palhinhas e bocados de plástico azul. Cada um deles é um criador, não há duas estruturas iguais. Esta orgia de azul é uma oferta à fêmea, acompanhada de uma dança bastante ostensiva de chamamento em que há chilreios e assobios. Não sabemos se ela avalia a riqueza das tonalidades de azul, a intensidade do brilho, a estrutura da peça ou mesmo a qualidade da dança, mas se gosta entra. O amor, mesmo na natureza, tem o seu mistério. Elas escolhem. Mas eles estão disponíveis e esforçam-se na conquista. Mas sabemos que se corre bem, haverá pelo menos dois ovos grandes, às vezes três, e serão em tons de terra, dos quais sairão novos apreciadores de azul. 

Os poetas são mestres nas palavras, mas a poesia vive em nós e nas coisas, é preciso descobri-la e vivê-la.







quarta-feira, 18 de março de 2026

Escolho, sem dúvida, os pássaros

 


Trabalhar nos cafés fez sempre parte do meu quotidiano, assim como reunir com colegas ou estudantes adultos nos seus processos de pós graduação. Mas ontem o barulho da televisão num qualquer jogo de futebol era ensurdecedor. Contudo, não havia clientes a ver, creio que já toda a gente os acompanha em casa, a não ser que haja promessa de cerveja e festa. A memória mais extraordinária que tenho de uma plateia inebriada de futebol e álcool foi a de uma esplanada em Angola, curiosamente jogava o Benfica. 

Ontem o ruído do jogo perturbou-me muito, fiz um grande esforço para me concentrar nos passos de dança que a estudante trazia. As televisões sempre ligadas nos cafés e restaurantes, quase sempre nos piores canais, perturbam-me muito, já os evito ou procuro em função disso.

Quando saí do café para a cidade, atravessei a grande praça. O barulho dos pássaros nas três grandes árvores era também um festim, mas aí soaram-me divinais os diferentes tons e alturas dos seus cantos, uma natureza vibrante que ecoava como vida, como resistência, como caminho. 

Escolho, sem dúvida, os pássaros. 

~CC~

domingo, 15 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 


Vestiu-se de rosa e disse que os homens podem estar tristes e até mesmo chorar. Fui ver o concerto e algumas canções prenderam-me mais do que outras, esta fui uma delas. Se repararem, as Olaias também já florescem em tons rosa. Significa isso que embora ainda se preveja chuva e frio e o mundo nos pareça cinzento, temos que abrir os portões, sair de casa, respirar.

É assim o último domingo de musiquinha. 

~CC~

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando tu chegaste

 

Logo ao primeiro olhar, quando tu chegaste, o mundo ficou diferente ou então fui eu própria que ganhei outros olhos. Mas pouco a pouco é que se foi transformando mais e mais, quase a ponto de não o reconhecer ou de não me reconhecer. 

Dizem que acontece a todas as mães e uma parte de mim tende a concordar e outra a discordar. A parte que é corpo, genes e pele diz que sim; é igual em todas nós mulheres mães. A parte que é cérebro, coração, situação, diz que não; somos todas diferentes e que cada uma reage de um modo muito próprio, fruto também da sua circunstância. Não tenho, por exemplo, a certeza que a minha mãe me tenha amado, como eu te amei, assim ao primeiro olhar. 

E agora, que já lá vão mil bilhões de olhares, ainda me surpreendo com o amor que te tenho, agora transformado em coisa de gente grande.

~CC~

domingo, 8 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XV)

 

Tenho uma grande admiração por esta mulher e o documentário sobre a vida dela foi das coisas mais bonitas que vi no cinema.




Hoje com acompanhamento da crónica de Lobo Antunes na revista Visão (cujos trabalhadores andam na luta para ver se não acaba).

As mulheres têm os fios desligados.

"Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto.
Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes


sábado, 7 de março de 2026

Continuo a pasmar com as sombras do mundo

 

- Mãe, compra-me este brinquedo.

- Não, tens muita coisa e não brincas com tudo.

- Já não sou teu fã! Ouviste?! Já não sou teu fã!

A criança teria talvez uns quatro anos, mas sem dúvida já domina os circuitos de comunicação atuais, traduzidos em números de likes e afins. 

A mesma lógica que os presidentes destes países poderosos empregam ao falar da guerra, parece não ser mais do que uma série ou um jogo de computador. Para eles não morre gente, são bonecos. Siga a construção do mega salão de baile.

Como só temos uma vida, erguemos barreiras para que este sofrimento não nos derrube, mas espero que nos indigne sempre, eu continuo a pasmar com as sombras do mundo.

~CC~


quinta-feira, 5 de março de 2026

Podemos adiar para um dia de sol

 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia de sol. Não é bom acordar num dia cinzento e triste. Vou tratar disso. Farás anos logo que o sol esteja disponível, não ainda demasiado quente, com aquela frescura das manhãs primaveris. Os deuses com os quais falei afirmaram ser possível. 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia sem guerra, ou pelo menos sem guerras conhecidas. Não é bom acordar com o eco, mesmo abstrato de sirenes, o cheiro a queimado nas cidades e inocentes a morrer. Vou tratar disso, contudo, os deuses não me atenderam pela linha habitual, assim que premi o assunto no botão 5, destinado a "outros assuntos" e falei no termo "Guerra", o assistente virtual desligou, não reconheceu a palavra.

Arranjo-te assim mais adiante um dia com sol, papoilas vermelhas a eclodir pelos passeios, o sabor do mar e a ternura que pode correr dentro de um abraço. Coisas simples mas tão boas.

~CC~

terça-feira, 3 de março de 2026

O cheiro a mangas maduras do quintal

 

Acontecem as coisas e tocam-me. Apetece-me dizê-las mas a falta de tempo prende-me a garganta e as mãos.

Tantas pessoas se sentaram à mesa grande a dizer a que cheiravam os seus livros, aqueles que levaram. O velho e o novo do papel. Mas mais do que isso, os cheiros que não estavam no objeto em si, mas no que estava lá dentro, o cheiro na mais pura das abstrações. 

A convidada, alquimista de perfumes, era uma boa contadora de histórias e factos científicos, explicou longamente que a mudança da matéria prima do papel ocasionou ao longo dos séculos a mudança do  cheiro dos livros. Por vezes foi excessivamente opinativa e crítica quanto ao abuso público das fragrâncias, combinando tal tendência com as características dos povos, coisa que compreendo mas não me parece tão generalizada. Creio que só nos conquistou verdadeiramente quando  nos deu a palavra para finalmente falarmos dos nossos livros (uma hora depois do início) e depois quando abriu os frascos das essências e nos passou tirinhas de mão em mão. Gostei tanto dos cheiros que as pessoas trouxeram dentro dos livros, desde a água às violetas da avó, foi muito bonito. Do meu livro saiu o cheiro às mangas maduras do meu quintal.

Mas trouxe um outro cheiro, queria fazer um perfume só com ele (não obstante isso não ser vulgar), talvez assim me apetecesse colocá-lo, coisa que raramente acontece. Flor de murta, que arbusto mais bonito, que cheiro mais doce e fresco. 

~CC~

domingo, 1 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XIV)

 

O mundo muda, nada muda realmente ou pelo menos o suficiente. Ontem, como hoje, grandes sombras negras. Até este homem morreu sem sentido. Outros homens morrem sem sentido. Mas morrem sobretudo crianças, essa é uma agonia, uma vida interrompida de alguém que nunca fez mal.



~CC~