terça-feira, 3 de março de 2026

O cheiro a mangas maduras do quintal

 

Acontecem as coisas e tocam-me. Apetece-me dizê-las mas a falta de tempo prende-me a garganta e as mãos.

Tantas pessoas se sentaram à mesa grande a dizer a que cheiravam os seus livros, aqueles que levaram. O velho e o novo do papel. Mas mais do que isso, os cheiros que não estavam no objeto em si, mas no que estava lá dentro, o cheiro na mais pura das abstrações. 

A convidada, alquimista de perfumes, era uma boa contadora de histórias e factos científicos, explicou longamente que a mudança da matéria prima do papel ocasionou ao longo dos séculos a mudança do  cheiro dos livros. Por vezes foi excessivamente opinativa e crítica quanto ao abuso público das fragrâncias, combinando tal tendência com as características dos povos, coisa que compreendo mas não me parece tão generalizada. Creio que só nos conquistou verdadeiramente quando  nos deu a palavra para finalmente falarmos dos nossos livros (uma hora depois do início) e depois quando abriu os frascos das essências e nos passou tirinhas de mão em mão. Gostei tanto dos cheiros que as pessoas trouxeram dentro dos livros, desde a água às violetas da avó, foi muito bonito. Do meu livro saiu o cheiro às mangas maduras do meu quintal.

Mas trouxe um outro cheiro, queria fazer um perfume só com ele (não obstante isso não ser vulgar), talvez assim me apetecesse colocá-lo, coisa que raramente acontece. Flor de murta, que arbusto mais bonito, que cheiro mais doce e fresco. 

~CC~

8 comentários:

  1. A minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos.

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  2. "Flor de murta, dá-me um abraço.", é original. Murta, planta para mim desconhecida. Mas o google e suas imagens - presumo que terá sido docemente afectada pela murta-de-cheiro, CC. Lembrou-me a flor do muguet escolhida por Sofia, embora não sejam a mesma flor.
    Os cheiros e odores impregnam em pessoas, e ocasiões, e lugares como pertença sua. "Minha flor, presa a meus dedos como se fora pele sua" - é assim que nos ficam os cheiros floridos; não basta que nos existam aleatórios, precisam ser ratificados por alguma realidade que nos implicou e, ganhando história, intensificam, enraízam: repugnam ou atraem. Tudo o mais são agrados ou desagrados olfactivos. É o que penso. Esse encontro mais que mereceu uma crónica deste teor:).
    Um dia vi um escritor a cheirar os seus livros antigos; pareceu-me agradado. Todos os livros cheiram ao sabor geral do conteúdo, a uma ideia, e não apenas ao tipo de papel e ao que o tempo nele deixou. Interpretei que o escritor cheirou o si mesmo do passado embrulhado no tempo em que o escreveu. Pareceu-me que o tempo parou, circunscrito a esse acto em que, em simultâneo, ele se recuperava naquelas páginas e transbordava surpreendida e amorável gratidão pelo leitor que lhos trouxera. Coisa de poeta que faz o tempo de ser, mesmo que escrito em prosa.
    Bom Dia, CC.

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    1. Foi lá... no nosso sítio, deve saber, quem sabe esteve:). Comentário tão bonito e poético Bea, dava um post, agradeço-lhe isso.

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  3. Os livros têm o seu próprio aroma.
    Um abraço.

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    1. Qual seria o aroma do seu livro de poesia? (não sei se tem mais do que um). Fiquei curiosa. Um abraço

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  4. Só tenho um. O aroma dos livros é todo igual (exceptuando os que têm gravuras a cores) como o aroma dos carros novos que também é todo igual.

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  5. SIm?! Creio que aqui é o cheiro ou cheiros que o livro evoca para além do cheiro do papel, depressa no workshop passámos do cheiro real ao cheiro abstracto.

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