sexta-feira, 27 de março de 2026

Aconteceu(me) o Teatro

 

Não, eu não vinha de um grupo de teatro amador.

Não, eu não vinha de um grupo de teatro da escola.

Não, eu não ia com os meus pais ao teatro.

Algures na infância, lembro-me das pequenas peças de teatro feitas em família, não sei de onde vinha o gosto ou como começou, nem quem nos apoiava, vagas memórias de uns tios e tias alinharem com os miúdos. 

Por isso entrei na sala escura por um acaso delirante, diretamente do subúrbio, adolescente tímida e ignorante. E lá dentro encontrei quase tudo, foi como um labirinto onde cada corredor levava a um outro e mais outro, passava duas vezes no mesmo lugar para perceber melhor e a saída não importava. Deslumbrei-me com as sonoridades das palavras, a textura possível de colocar em cada gesto, o formato dos rostos e das suas máscaras, as diferentes formas que um corpo podia ter.

O choro e o riso não eram mais algo a esconder no interior do ser, eram tão bem vindos.

Aconteceu-me o Teatro, foi vida, nunca profissão.

~CC~


domingo, 22 de março de 2026

Passeio de Domingo (I)

 

A minha mãe suplicava ao meu pai: vamos levar os miúdos a passear, hoje é Domingo! O meu pai era um boémio, lia muito, fumava ainda mais, gostava de cafés e de jornais. Nunca o vi pôr o pé na praia, fugia do campo e da natureza. Amava a noite, suportava os dias. Tolerava as crianças e ia gostando sempre mais de nós à medida que crescíamos e podia falar connosco como quase adultos. De quando em quando, ela convencia-o, ele metia-nos no carro e dava uma voltinha pela cidade, janelas abertas, com o braço com o cigarro de fora. Às vezes parávamos e comíamos um gelado (ou melhor, um baleizão). Quando regressávamos a casa ela dizia: lá demos a voltinha dos tristes. Toda a vida a minha mãe quis passear aos Domingos, às vezes quando eu dizia que tinha que trabalhar, ela lamentava-se: mas é Domingo. Nos últimos três anos da vida dela guardei muitos Domingos para almoçar com ela no restaurante como gostava e, por fim, já em casa.

Metade da minha infância foi passada no quintal da minha casa, um terço nessa mesma rua. Creio que consigo contar os passeios pelos dedos da minha mão. O quintal era ainda assim bastante cheio, vinha muita família, às vezes havia festa, não me sentia infeliz. Mas não tinha absolutamente noção de quase nada, muito menos do tamanho que tinha a terra. Quando me comparo com as crianças atuais, acho-as incomparavelmente mais espertas e sábias do que eu era.

Talvez resida, assim, na infância a minha fome de mundo, o que comporta natureza, arte e cultura, podendo usar apenas um termo para todos três: resistência.

Chegada a Primavera essa fome vem à flor da pele. Uso, contudo, o termo Domingo como um apelo metafórico que vem do lamento da minha mãe. Significa que o passeio pode tomar forma num outro dia da semana, até porque inevitavelmente alguns fins de semana são tomados pelo trabalho.

Abram então a porta, venham, é Domingo. 

~CC~

sábado, 21 de março de 2026

Ptilonorhynchus violaceus

 


Cetim azul, regresso aos pássaros. 

Conheci esta espécie numa oficina que escolhi fazer sem saber bem o que seria, gosto tanto de ir por ai a descobrir coisas, lugares em que não sabem quem sou, tão pouco o que faço. 

Era uma oficina de relação entre as artes plásticas e a natureza e dedicada à cor azul, mas com designação metafórica que não deixava adivinhar. Curiosamente eu também ia vestida de azul, as formadoras perguntaram se eu sabia, obviamente não. Tiraram-me fotos: eu azul entre as muitas coisas azuis que elas levaram.

Mas o meu fascínio focou-se nas histórias que contaram, entre elas a do pássaro Cetim azul, do qual nada sabia. Têm olhos azul violeta, a única coisa comum entre machos e fêmeas. Eles têm uma plumagem azul escura brilhante, elas penugem verde oliva, com algumas pontuações de cinzento.

Os machos constroem estruturas (caramanchão) com ramos e raminhos para o ritual de acasalamento, enfeitam-nos com tudo o que apanham de cor azul, seja natural ou artificial. Com o seu bico pontiagudo apanham penas, bagas e flores, mas também tampas e tampinhas, palhinhas e bocados de plástico azul. Cada um deles é um criador, não há duas estruturas iguais. Esta orgia de azul é uma oferta à fêmea, acompanhada de uma dança bastante ostensiva de chamamento em que há chilreios e assobios. Não sabemos se ela avalia a riqueza das tonalidades de azul, a intensidade do brilho, a estrutura da peça ou mesmo a qualidade da dança, mas se gosta entra. O amor, mesmo na natureza, tem o seu mistério. Elas escolhem. Mas eles estão disponíveis e esforçam-se na conquista. Mas sabemos que se corre bem, haverá pelo menos dois ovos grandes, às vezes três, e serão em tons de terra, dos quais sairão novos apreciadores de azul. 

Os poetas são mestres nas palavras, mas a poesia vive em nós e nas coisas, é preciso descobri-la e vivê-la.







quarta-feira, 18 de março de 2026

Escolho, sem dúvida, os pássaros

 


Trabalhar nos cafés fez sempre parte do meu quotidiano, assim como reunir com colegas ou estudantes adultos nos seus processos de pós graduação. Mas ontem o barulho da televisão num qualquer jogo de futebol era ensurdecedor. Contudo, não havia clientes a ver, creio que já toda a gente os acompanha em casa, a não ser que haja promessa de cerveja e festa. A memória mais extraordinária que tenho de uma plateia inebriada de futebol e álcool foi a de uma esplanada em Angola, curiosamente jogava o Benfica. 

Ontem o ruído do jogo perturbou-me muito, fiz um grande esforço para me concentrar nos passos de dança que a estudante trazia. As televisões sempre ligadas nos cafés e restaurantes, quase sempre nos piores canais, perturbam-me muito, já os evito ou procuro em função disso.

Quando saí do café para a cidade, atravessei a grande praça. O barulho dos pássaros nas três grandes árvores era também um festim, mas aí soaram-me divinais os diferentes tons e alturas dos seus cantos, uma natureza vibrante que ecoava como vida, como resistência, como caminho. 

Escolho, sem dúvida, os pássaros. 

~CC~

domingo, 15 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 


Vestiu-se de rosa e disse que os homens podem estar tristes e até mesmo chorar. Fui ver o concerto e algumas canções prenderam-me mais do que outras, esta fui uma delas. Se repararem, as Olaias também já florescem em tons rosa. Significa isso que embora ainda se preveja chuva e frio e o mundo nos pareça cinzento, temos que abrir os portões, sair de casa, respirar.

É assim o último domingo de musiquinha. 

~CC~

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando tu chegaste

 

Logo ao primeiro olhar, quando tu chegaste, o mundo ficou diferente ou então fui eu própria que ganhei outros olhos. Mas pouco a pouco é que se foi transformando mais e mais, quase a ponto de não o reconhecer ou de não me reconhecer. 

Dizem que acontece a todas as mães e uma parte de mim tende a concordar e outra a discordar. A parte que é corpo, genes e pele diz que sim; é igual em todas nós mulheres mães. A parte que é cérebro, coração, situação, diz que não; somos todas diferentes e que cada uma reage de um modo muito próprio, fruto também da sua circunstância. Não tenho, por exemplo, a certeza que a minha mãe me tenha amado, como eu te amei, assim ao primeiro olhar. 

E agora, que já lá vão mil bilhões de olhares, ainda me surpreendo com o amor que te tenho, agora transformado em coisa de gente grande.

~CC~

domingo, 8 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XV)

 

Tenho uma grande admiração por esta mulher e o documentário sobre a vida dela foi das coisas mais bonitas que vi no cinema.




Hoje com acompanhamento da crónica de Lobo Antunes na revista Visão (cujos trabalhadores andam na luta para ver se não acaba).

As mulheres têm os fios desligados.

"Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto.
Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes


sábado, 7 de março de 2026

Continuo a pasmar com as sombras do mundo

 

- Mãe, compra-me este brinquedo.

- Não, tens muita coisa e não brincas com tudo.

- Já não sou teu fã! Ouviste?! Já não sou teu fã!

A criança teria talvez uns quatro anos, mas sem dúvida já domina os circuitos de comunicação atuais, traduzidos em números de likes e afins. 

A mesma lógica que os presidentes destes países poderosos empregam ao falar da guerra, parece não ser mais do que uma série ou um jogo de computador. Para eles não morre gente, são bonecos. Siga a construção do mega salão de baile.

Como só temos uma vida, erguemos barreiras para que este sofrimento não nos derrube, mas espero que nos indigne sempre, eu continuo a pasmar com as sombras do mundo.

~CC~


quinta-feira, 5 de março de 2026

Podemos adiar para um dia de sol

 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia de sol. Não é bom acordar num dia cinzento e triste. Vou tratar disso. Farás anos logo que o sol esteja disponível, não ainda demasiado quente, com aquela frescura das manhãs primaveris. Os deuses com os quais falei afirmaram ser possível. 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia sem guerra, ou pelo menos sem guerras conhecidas. Não é bom acordar com o eco, mesmo abstrato de sirenes, o cheiro a queimado nas cidades e inocentes a morrer. Vou tratar disso, contudo, os deuses não me atenderam pela linha habitual, assim que premi o assunto no botão 5, destinado a "outros assuntos" e falei no termo "Guerra", o assistente virtual desligou, não reconheceu a palavra.

Arranjo-te assim mais adiante um dia com sol, papoilas vermelhas a eclodir pelos passeios, o sabor do mar e a ternura que pode correr dentro de um abraço. Coisas simples mas tão boas.

~CC~

terça-feira, 3 de março de 2026

O cheiro a mangas maduras do quintal

 

Acontecem as coisas e tocam-me. Apetece-me dizê-las mas a falta de tempo prende-me a garganta e as mãos.

Tantas pessoas se sentaram à mesa grande a dizer a que cheiravam os seus livros, aqueles que levaram. O velho e o novo do papel. Mas mais do que isso, os cheiros que não estavam no objeto em si, mas no que estava lá dentro, o cheiro na mais pura das abstrações. 

A convidada, alquimista de perfumes, era uma boa contadora de histórias e factos científicos, explicou longamente que a mudança da matéria prima do papel ocasionou ao longo dos séculos a mudança do  cheiro dos livros. Por vezes foi excessivamente opinativa e crítica quanto ao abuso público das fragrâncias, combinando tal tendência com as características dos povos, coisa que compreendo mas não me parece tão generalizada. Creio que só nos conquistou verdadeiramente quando  nos deu a palavra para finalmente falarmos dos nossos livros (uma hora depois do início) e depois quando abriu os frascos das essências e nos passou tirinhas de mão em mão. Gostei tanto dos cheiros que as pessoas trouxeram dentro dos livros, desde a água às violetas da avó, foi muito bonito. Do meu livro saiu o cheiro às mangas maduras do meu quintal.

Mas trouxe um outro cheiro, queria fazer um perfume só com ele (não obstante isso não ser vulgar), talvez assim me apetecesse colocá-lo, coisa que raramente acontece. Flor de murta, que arbusto mais bonito, que cheiro mais doce e fresco. 

~CC~

domingo, 1 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XIV)

 

O mundo muda, nada muda realmente ou pelo menos o suficiente. Ontem, como hoje, grandes sombras negras. Até este homem morreu sem sentido. Outros homens morrem sem sentido. Mas morrem sobretudo crianças, essa é uma agonia, uma vida interrompida de alguém que nunca fez mal.



~CC~

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois

 


Diz ele que há vinte anos não pisava aquela cidade. Então eu estava lá quando ele a pisou, comprei-lhe um livro e ele assinou-o, é coisa que não costumo fazer, as longas filas, a falta de jeito para dizer alguma coisa, aquela proximidade ao escritor...costumo desistir. Mas lembro-me da minha irmã mais nova a insistir, a brincar com aquela minha insegurança...a empurrar-me devagarinho, vai lá, vai lá...

Na verdade, uns anos antes ele já tinha estado na minha escola, eu estava lá há pouco tempo ainda mas tínhamos feito algo que ele adorou: retirámos frases do primeiro livro dele e distribuímos aos estudantes que a partir delas construíram micro histórias, dois ou três dispuseram-se a ler naquela sessão pública. Ele emocionou-se.

O José Luís Peixoto, vinte anos antes era muito bonito, assim o achava eu, tinha uns olhos cheios de luz, um cabelo meio encaracolado e um sorriso tímido. Talvez a fama o tenha levado aos piercings, às viagens, às biografias de homenagem, talvez se tenha perdido um pouco, mas até isso lhe dá graça, não tem um caminho linear, nem se deixa enredar no estilo único. Vinte anos depois... li alguns dos livros, não todos, gostei mais de uns e menos de outros. Já não corro a comprar-lhe os livros, nem o coração estremece por estar perto dele. Mas continuo a gostar da sua sinceridade, da forma como se apresenta sem pudor nem vedetismos, continuo a encontrar-lhe a ternura, isso que tanto me encanta num homem. A melhor parte: a forma como ama a sua família e o seu Alentejo, como quer estar nesse colo ao mesmo tempo o larga para procurar outros lugares. Mais velho, menos bonito, mas mais velho, mais bonito. Talvez ainda compre a Montanha.

Absolutamente rendida às conversas com a sua mãe. Que maravilha a menina Alzira

~CC~



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXIII)


 

Atravessei-o ontem. O Alentejo desta canção é ainda o mesmo e ainda assim tão diferente. Outras mãos, outra explorações agrícolas, o mesmo tormento, outro tormento. O cante é tão belo para quem se deixa tocar por ele, tão bonita esta interpretação com várias gerações, gosto de nós misturados.

No meu olhar terra quente, agora coberta de água, já com andorinhas. Vastidão de horizontes que me comove sempre.

~CC~

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A cada vinda me tornar mais leve

 


A chave colocada na fechadura foi o extremo do erro. Um erro persistente uma e outra vez. O botão no terceiro andar em vez de no quarto, não sei se chamar-lhe automatismo ou amor. Habituei-me a pensar que estão nas antípodas um do outro mas se calhar não é assim tanto. A dor da sua ausência amorteceu, é agora ténue, diluída, levou a patine do tempo. Mas a mão continua a dirigir-se ao botão do terceiro andar, ao lugar da casa dela. Noutras ruas deixei de passar há mais tempo, circundo-as como se nada tivessem dentro, como se fossem um buraco que o tempo tapou com a sua areia de esquecimento, já há muito não estremecem à minha chegada, nem à minha partida. Aqui já não choro mais, já chorei tudo o que perdi, mas ainda me falta rir, é como se o riso estivesse ainda preso dentro de mim.

Este Sul tem um cheiro único e reconheço-o, é parte integrante do meu passado, renegar lugares é renegar parte de nós. Aqui a água varreu também tudo, mas não deixou cheiro a bolor e a mofo, há um leve perfume de que mais adiante irá acontecer Primavera, gelados, mar suave e quente.

E é por isso que volto, pela possibilidade de, a cada vinda, me tornar mais leve.

~CC~



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contrastes

 

Tirando um miúdo mascarado de abelhinha, vi muito poucos mascarados na rua este ano. Os pais, sem paciência, dinheiro ou mestria (nos quais também já me incluí) recorrem à loja dos chineses mais perto, pelo que as crianças ficam todas mais ou menos iguais.

Já a vida está cada vez mais contrastante. No mesmo dia assisti a um senhor, visivelmente com dificuldades financeiras, a comprar no supermercado apenas uma lata de leite condensado, o preço foi 1,48 euros e ele contou as moedas. Fico sempre muito triste a pensar que provavelmente só comerá aquilo o dia inteiro e que a levou pelo seu alto teor açucarado. Nesse mesmo dia vi uma senhora a regar as suas plantas de casa com água engarrafada, usou duas garrafas de litro e meio. Sei muito bem que as plantas gostam de água sem cloro, mas eu deixo a agua da torneira uns dois dias no regador e depois rego as mais sensíveis. Compreendo que a água engarrafada, se ela a poupasse, não enchia a barriga do senhor com mais proteína e menos açúcar, mas custa-me, há dias em que viver custa. 

~CC~

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXII)

 



Este balancear que vem de um lugar tão perto.

A saudade pode ser um lugar impreciso onde apenas moram sabores e cheiros.


~CC~

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nove anos

 

Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.

Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou. 

A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo. 

A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar. 

~CC~



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Afinal era simples

 

Estava a vê-lo intrigada há um bom bocado. Um homem talvez da minha idade, talvez mais velho. Não consegui distinguir-lhe as feições pois mantinha o capuz colocado. Estava parado a olhar para a bancada dos bolos de aniversário, quase com o nariz colado à vitrine. Eram bonitos os bolos, com muitas cores,  texturas e brilhos, também fico sempre maravilhada com essa arte de quem os confecciona. Mas tanto tempo?! Quereria um e não teria dinheiro? Planeava fazer ir pelos ares aquela vitrine? Estava com algum problema e não era capaz de sair dali, nem de se sentar?

Acabei o café e já não tinha tempo de prolongar mais a minha observação e muito menos de obter resposta para as minhas questões. A chuva intensa (ainda me lembro de quando não se saia de casa por causa dela) tinha subitamente parado. Saí, já ia na rua e instantaneamente voltei-me para trás, ali estava, mesmo perto de mim, o homem da vitrine. 

Ri-me de mim própria, afinal era simples. 

~CC~

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Somos humanos, não deuses.

 

Uma docente competente, sempre pronta, sempre empenhada. Não lhe faltarão muitos anos para a reforma, não consigo exactamente calcular.

A reunião hoje era bem cedo, com entidades externas, eu uma delas, ainda que eu tenha (quase sempre) um estatuto hibrido. E ela não chegou. Não, ela chegou, cerca de uma hora e meia depois, aquela reunião em específico já tinha acabado. Um enorme desalento, uma tristeza na voz, mas sem desculpas tontas, simplesmente o despertador não tinha tocado e ela tinha adormecido, cansada. Penalizava-se, pedia perdão pela falha, estava inconsolável. Coloquei-lhe a mão no ombro e lembrei-a de que somos humanos, não deuses. Sorriu timidamente, agradeceu. Eu tenho receio é das pessoas que não falham ou que ocultam as suas falhas em mentiras e artifícios. 

Pensei em quanto tempo eu demorei a saber perdoar-me pelas minhas falhas, muitos anos certamente. Talvez ainda mais do que a perdoar as falhas dos outros. 

~CC~

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Entre flores

O homem das tatuagens de aspeto muito másculo, sempre de T-shirt, move-se entre flores. Tenho ideia de já o ter visto lá muitas vezes, mas só hoje reparei bem. Trata-se de um maravilhoso contraste.

Na pequena banca no meio do centro comercial mais periférico e pobre da cidade aquela banca está sempre colorida e com  flores que não parecem de estufa. 

Esta manhã escolheu três gérberas amarelas para o velhote de boina, mas não ficou contente, armou-as com três rosas vermelhas mescladas de amarelo e uns raminhos verdes. Era um ramo de encher o olho, exótico, muito vivo e tão contrastante com aquele a quem o vendia, que por momentos pensei que o recusasse. Mas o velhote fez um pequeno sorriso e levou-o. Não consegui visualizar a destinatária daquelas flores. Estou certa, porém, que para ela, por momentos, a chuva parou.

~CC~



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XX)

 




Até à Primavera os Domingos terão música, depois abrirei as janelas e salto por uma baixinha para as manhãs verdes. Espero trazer nos bolsos vestígios de flores a despontar.

Deixo-vos com estes murmúrios, vozes inspiradoras enchem as igrejas do calor que elas deviam sempre ter. 

~CC~




sábado, 31 de janeiro de 2026

Os choros de perto ecoam mais alto

 

O cansaço silencia a voz e toma-me o corpo como se fosse um boneco preso entre as suas mãos, não abre um espaço e é preciso a custo escavá-lo para que entre a música. Faltar ao Clube de Leitura quando estava a gostar do livro, custa-me. 

Mais me custa o silêncio das árvores tombadas pelas ruas e jardins, elas que não têm voz para nos apelar. Já as pessoas, a essas ouvimos os choros, os lamentos, os gemidos e ficamos ora tristes, ora inquietos, ora revoltados. Agora é aqui perto que choram, os choros de perto ecoam mais alto, cortam mais o coração.

Esta é uma ténue faixa de terra à beira do mar, a consciência que disso temos é diminuta, estamos tão mais impreparados quanto mais deixarmos crescer as palavras de grandiosidade que insuflam os egos do povo.

Volto a mim para absorver este pequeno risco de sol que entrou agora pela janela, talvez seja o único que vem visitar-me nestes próximos dias. 

~CC~


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tricotar janelas

 O que se faz com um dia menos bom? Ou devo dizer mau? 

Embrulha-se devagar, rolando-o na sua sombra para o dia seguinte. Talvez o cinzento não largue ainda o dia seguinte, ainda te lembrarás por mais alguns de que a notícia má te atingiu no cerne do teu orgulho profissional. 

Mas virá uma pequena luz e sabes que a deves beber, afinal não é tao importante assim e ficará cada vez menos se souberes deslocar o peso para fora do teu coração. Sabes, em segredo, que só há três ou quatro coisas na vida realmente más. O que te custará realmente são as condolências, sobretudo se chegarem disfarçadas de sorrisos e terás que lhes dizer que ganhar e perder são coisas que a vida tem. E que há dia adiante e já estás a tricotar janelas.

~CC~

domingo, 25 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XIX)


 Coisas que ficam, às quais se volta, ouvindo a força de cada palavra.

~CC~

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (II)

 

Há amor que nasce sem paixão.

Os nossos amigos são como um tapete de malmequeres, uma rede de apoio e conforto. Por vezes não conseguimos destacar nenhum deles. Mas por vezes há alguém que se evidencia. Aproxima-se mais, passamos mais tempo, sentimos que precisamos mais. Dessa necessidade maior, surge aqui e ali um toque mais prolongado, uma pele que parece precisar da outra, é uma mão que se dá, um abraço que se aperta e sentimos o corpo do outro. Às vezes duvidamos, hesitamos, temos medo de estragar aquela amizade. Mas aquele malmequer já não é igual, ganhou outra cor. E já não podemos mais ignorá-lo. Não houve paixão mas a transformação da amizade em amor. E o desejo chega com uma roupagem diferente da paixão, vem com a luz das coisas conhecidas, não com a incandescência das desconhecidas. Há amor sem incêndio, há amor que é lume e fica muito tempo a arder até termos a certeza que aquela temperatura é boa, é a do clima ameno das ilhas.

E se não correr bem, pode ficar menos um malmequer no nossa verde manta, isso pode custar, mas também custa não arriscar.

~CC~



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (I)

 

Fomos com a Bea e pela mão de Gonçalo M. Tavares à Grécia antiga, na verdade um tempo tão reduzido na história da civilização, quanto marcante. Forjando-se entre deuses e filósofos era genuína a sua sede de explicar o universo, o mundo e os homens. E do tanto que já se explicou, está tudo ainda por explicar.

A paixão.

A paixão é a flor do maracujá. Hipnotizante nas suas matizes e formas complexas, podemos ficar presos lá dentro como numa armadilha. Também é designada como a Flor da Paixão ou Passiflora, dizem que atordoa pelo cheiro  e que a sua morfologia simboliza o martírio de jesus.

É uma luz incandescente que ao vir do outro na nossa direcção nos impele e nos atrai sem que saibamos explicar porquê, queremos só ir e mergulhar. E fazemo-lo vezes sem conta, numa bebedeira feita de pele e sucos. Pode durar dias, pode duras meses, até mais. Mas um dia tudo o que nos parecia só luz mostra uma pequena sombra. Ou a sede que parecia inesgotável mata-se mais rápido. Ou a vida cava um fosso pela distância ou por projetos que não se conciliam. Ou surge uma zanga que não se consegue sanar. E de repente tudo acaba sem remédio, sem modo de voltar ao início, de conseguir evoluir para outra coisa, amor ou amizade, com sorte não acaba em ódio. É o pássaro que esbarrou contra o vidro, a borboleta que se colou à planta, a mosca que entrou na garrafa. Morreu, é já nada, passou. E é assim que para muitos se transita de paixão em paixão, presos da força de Eros, do impulso que gera entusiasmo. Até pode haver paixões em simultâneo já que ela não se faz de compromisso mas de fome.

Mas pode acontecer que essa luz, a princípio incandescente, se torne mais ténue, mais consonante com o crepúsculo e essa transição, se não apaga o fogo dos corpos, deixa que ardam mais lentamente, está-se a caminho do amor. O amor é lúcido, é já casa em construção. Alimentá-lo em simultâneo com luz e com sombra, com desejo e com compromisso, com cuidado e com exigência, saber caminhar em todas as cores do arco-íris sem cair, é algo muito difícil e muito belo. Entramos na dinâmica do Girassol, saber virar o caule para beber a luz que mantém o amarelo da flor.

~CC~

(cont)


domingo, 18 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVII)

 


Imaginem quando foi gravado?!

Quando tínhamos muito medo...e não é que ele volta, pouco a pouco, o bicho papão anda à solta e já não se denomina vírus. A vacina é bem mais difícil de criar.

~CC~




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Alguns também são poetas

 

Um raio de sol matinal espreitou no meio das nuvens, tornando o céu numa mescla mais bonita de azul e branco.

Creio que uma parte dele entrou dentro das dores persistentes na parte lombar da coluna que há cerca de um mês se decidiram instalar e não me deixam dormir uma noite plena, atrapalham a condução e os dias e até, por vezes, me secam a voz. Não que tenham passado, mas creio que esta promessa de Primavera será um factor fortemente adjuvante da medicação e talvez atenuante do retrato fiel que o instrumento científico trará em breve. Imagino um neurocirurgião que receitará caminhadas, leituras e banhos de mar ou mesmo termas com piscinas de água quente, talvez tocado por aquela pequena dose de magia que faz com que alguns médicos também sejam poetas. Mas há uns que não: olham direito nos olhos, com o bisturi bem perto de entrar na nossa pele, apontando a solução que consideram ser a certa, desprezando a nossa relação com o universo e os factores adjuvantes do clima. 

~CC~



 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 



"Onde houver amor, o mal não pode acontecer"


(como a Márcia, sempre fui dos pequenos brilhos, nunca dos incandescentes, sempre a sonhar manhãs belas)

~CC~

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

De tirar da própria terra

 

Trata-se de um espaço amplo, uma casa antiga que a autarquia recuperou e abriu ao público, com uma bonita esplanada interior. Duas mulheres entraram com duas jovens, estava eu a tentar beber do pouco sol que o dia tinha. Uma das mulheres apontou a parede pintada de motivos marinhos ao fundo, considerando que era bonita. Mas a outra mulher retorquiu que nada ali tinha grande interesse, que as miúdas queriam era ver lojas. E as jovens riram, abanaram a cabeça em concordância, ao que as mulher retorquiu alegremente: vamos, vamos!

E assim se enchem os centros comerciais e se compram mais e mais coisas das quais pouco ou nada precisamos. E eu que cada vez gosto menos de comprar, até comida, coisa que por muitos anos comprei em abundância e atafulhei o armário, perdoei-me muitas vezes desse excesso pela exiguidade de alimento na infância e na adolescência. Consciente dos meus mecanismos de compensação, fui procurando corrigi-los. Ainda assim não estou curada, quando um recipiente de detergente vai a meio, se não tiver outro comprado, sinto-me desconfortável. Gostava de saber viver com menos ainda e, sobretudo, de tirar da própria terra uma parte do meu alimento.

~CC~

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guardo todos os meus gestos

 

A minha mão é um pássaro que se quer aninhar no teu cabelo. Mas mal levanta voo percebe que tem que iniciar o trajecto de volta e assim faz, recolhe-se. Sei que me agradeces pelo gesto que queria fazer e não fiz, pelo que não seremos, por todos aqueles que não magoaremos. Não voltemos às lágrimas que um dia conhecemos tão bem nos olhos um do outro. A renúncia do amor é ainda o amor, diz-se é de outra forma, escolho morar com a luz doce dos Invernos amenos, por isso guardo todos os meus gestos que incendeiam. Arrefeço a mão com o gelo destes dias e assim morna ela é já só o carinho que te tenho. Quero-te, ainda assim, por perto, para poder beber do brilho dos teus olhos que tanto tempo esteve oculto, isso basta-me.

~CC~

domingo, 4 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo(XV)


 Pelos homens bons que sabem o que é a dignidade humana. É só uma cancão, é mais do que uma canção.

~CC~



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

As 12 passas

Nascida nos anos e nos dias pares, sempre preferi os ímpares. Mas analisando os anos ímpares foram afinal dos mais tormentosos e os pares mais cheios de acontecimentos felizes. Tudo isso me mostra a irracionalidade das coisas e a minha própria. E só essa pequena dose de irracionalidade que em mim mora me permite perceber como ela é capaz de dominar as pessoas. Esperam ganhar o Euromilhões para concretizar os seus sonhos, fazem conjecturas de vida a partir de folhas de chá, acreditam na justiça divina e até que organizar um simples esquema de vacinação coletiva as torna competentes para presidirem ao destino de um país.

E se antes esta dose de irracionalidade tinha tendência a combinar-se com falta de instrução, vulnerabilidades pessoais ou sociais, credos e estilos alternativos que apenas levavam alguns consigo, parece agora que a irracionalidade alastra alegremente como se tudo fosse possível de dizer e permitido de ser.

Somos todos presas fáceis da magia, afinal comemos 12 passas, colocando em cada uma um desejo. Só a admissão de que somos todos um pouco tontos nos permite perceber a tontice que em todos reside. Ainda assim é bom mantê-la numa dose pequenina.

Desejo-vos assim que se mantenham lúcidos e de olhos bem abertos, os tempos estão difíceis. Mas não se tornem amargurados, também é preciso saber rir.

~CC~