domingo, 31 de maio de 2026

Passeio de Domingo (XI)

 

Já vos falei da estrada para o Sul?!

Há nela três nuances de paisagem. Até Grândola, os pinheiros mais pequenos ou mais altos e o terreno arenoso combinam com a proximidade do mar, não obstante ali nada se adivinhar e há tantos pinheiros novos este ano, devo ter sido do Inverno chuvoso. Depois de Grândola e até Aljustrel, é planície, com o aproximar do Verão e o calor das últimas semanas, desapareceram as flores amarelas e roxas que vi em Fevereiro,  aquelas altas giestas de encher os olhos. Nesse ondular suave e sereno de cor dourada, sobressaem aqui e ali os sobreiros, chaparros que abrigam pessoas e animais, árvores casa. Depois de Ajustrel a paisagem é serrana, crescem as curvas, os barrancos, há mais arbustos, mais mato. 

Contei apenas dois rios, um deles, o Sado que se repete duas vezes e numa delas diz em letras pequeninas Sul, fico sem saber se o que corre na minha terra é Norte. Há várias ribeiras, mas nunca nelas vi correr água, apetece-me segui-las, ir ver se algures mais adiante a ribeira do Roxo e a da Messajana são mais do que meras tabuletas que se anunciam na estrada, lavar o rosto nelas. Mais tarde diria: era quase Verão e fui lavar os olhos na Ribeira do Roxo. Estes desvios, queria ter tempo para eles, imagino que um dia sigo estas vontades, perco mapas e destinos. As cegonhas também parecem já ter partido, não as vejo ao longo de todo o caminho.

Ao Km 141 há um vislumbre de um novo Alentejo, cheira intensamente a azeitona e adivinham-se os olivais intensivos. Reconheço este cheiro, já lá vão uns bons anos que se atravessa no meu atravessar.

A estrada para o Sul não é um passeio, é um anunciar de passeios, ou mesmo um estado de espírito, e a sê-lo, é algo que combina com o canto das cigarras. Uma metade de mim já está com elas, a outra não pode.

~CC~


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre a fragilidade dos laços humanos

 

Desde que Bauman lançou o livro "O amor líquido", instalou-se, com alguma clareza, a similitude entre a sociedade de consumo e o modo como se encaram na modernidade as relações afetivas, vulgo consumir o produto até haver produto melhor. Escuto os mais criativos nomes para essas relações, há quem lhes chame leves, coloridas, descomprometidas, voláteis, nomes até bonitos para outros que possam soar mais feios. 

E, contudo, a mim só me parecem nomes para colocar a uma coisa: não há amor.

Quem ama sabe da cola que une, do abraço que protege, do desejo que assoma à pele, da vontade do outro que é semelhante à fome que nunca se sacia completamente. Sabe que o amor é uma prisão mas não é aprisionar o outro, é querê-lo livre perto de nós.

Prefiro os que amam, os que sabem que o amor acaba, os que sofrem porque o amor acaba, os que esperam que o amor volte, os que desistem do amor, os que não querem amar, os que querem amar.

Só os seres generosos amam e eu amo os seres generosos.

~CC~

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Três jacarandás

 

Vi-as pequeninas e duvidei que crescessem, durante muito tempo eram só uns arbustos sem graça, poucas folhas, nenhumas flores.

Mas são agora três belos jacarandás, estão em flor, e o maior está mesmo por baixo da minha janela. Bebo o seu lilás como se a sua cor mitigasse o meu corpo fatigado, há coragem em florir.

E vejo agora que devia ter acreditado que um dia seriam belas árvores, em vez de duvidar do que ainda é pequeno, frágil e hesitante. Deixar ganhar a descrença é fácil, o caminho inverso é mais árduo, penoso e com muitas curvas. 


~CC~

domingo, 24 de maio de 2026

Passeio de Domingo (X)

 Não é que tenha passeado muito, saia cedo, chegava tarde e passava o dia a ouvir pessoas a falar, tendo que tomar notas de tudo (ou quase) o que diziam. Valeu-me o lugar ser bonito, aquele intenso verde ao sair e ao chegar aliviava tudo. 

Mas passei a semana fora de casa, pelo que sinceramente, no regresso, só queria ninho. É claro que com este calor uma imagem de mar era apelativa, mas só de pensar na confusão inerente, aliada à mala por desfazer e tanto por organizar, fez com que o passeio possível fosse curto e a um lugar meu. Sei que quando vou lá é também ir a uma parte de mim, ali respirei tantas vezes no tempo da pandemia, e muito antes, quando estava longe de ser o que hoje é, era apenas um sitio escondido, mal conhecido, quase secreto. Quando o conheci, antes da obra, que foi tudo menos museológica, ainda funcionava como moinho de maré e ainda conheci o seu último moleiro, apesar de estar há anos desativado. Ainda é um lugar muito bonito, não obstante poder ter sido feito melhor e diferente naquela recuperação e relativamente ao projeto que hoje é.  Acresce que o terreno sofreu consideráveis estragos este inverno e esteve muito tempo interdito.

Se vierem às terras do Sado, procurem o Moinho de Maré da Mourisca, falem um bocadinho com as garças, se tiverem sorte avistarão ao longe os flamingos. Gosto de me imaginar assim livre, que abro asas e voo. E sinto que estou cada vez mais perto ou que já estive mais longe.

~CC~













quinta-feira, 21 de maio de 2026

Também há pão quente com manteiga

 


É aqui, às 8h quando passo já abriu, lá em cima as duas cerejas que à casa dão nome, gostam assim delas tanto como eu. Quando volto, já estão em arrumações para fechar, mas sempre sem pressa. As pessoas passam e cumprimentam, assim já já sei os nomes do casal. De uma simpatia impar, hoje comprei apenas uma banana pedindo desculpa por só levar uma. De volta um "a menina leva a quantidade que quiser, se é só uma que precisa...". E os preços nem são exagerados, atendendo ao lugar em que se está. Já cá tinha vindo muitas vezes em visita mas sinto que nunca vi o mais importante, não que os palácios não sejam lindos e as magnólias um espanto, mas agora conheço a senhora brasileira que me serve o pão quentinho com manteiga derretida (ah quanto tempo não comia isto ao pequeno almoço) e sei que o sonho dela é morar no (meu) Algarve. E que o menino, o menino que ainda mal anda, gosta muito de praia.

~CC~


terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.

sábado, 16 de maio de 2026

Trio de Eclipses

 


Leio que chegará muito em breve um trio de eclipses inigualável. Imagino os caça eclipses de mochila às costas prontos a invadir a península ibérica para ver o dia se tornar noite.

Contudo, parece-me que eles já foram chegando, os tempos são de chumbo, parece possível a luz que criou as democracias se ir apagando.

E eu tenho dias cheios de eclipses, nem sei se são só um trio, há um apagão que por vezes me invade e uma vontade tão grande de encontrar um buraquinho onde me esconder do ruído das coisas, às vezes ensurdece.

Mas um buraquinho com sol, sem eclipses, em uno, duo ou trio.

~CC~

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~

domingo, 10 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VIII)

 O trabalho agarrou-me ao território.

O vento, de tão forte, colou-me às paredes. E elas falaram. Há, nos vossos lugares, paredes que falam?

~CC~








sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~


terça-feira, 5 de maio de 2026

Como numa dança

 

A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.

Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem  pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.

~CC~

domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre