Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.
Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.
Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.
Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.
De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.
E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.
Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.
~CC~
Ignoro se alguma vez fui a Lagos para lá de uma viagem de colégio; do que me lembro é mesmo de um museu que não era esse - ficou-me a imagem de um gato com duas cabeças metido num frasco de formol.
ResponderEliminarLagos mudou, mas o seu interpelar os nossos grandes das letras e que amaram o Algarve e o cantaram em verso ou prosa, é tão bonito que, passe o exagero, quase valea pena a mudança só para lê-la assim contristada, mas sempre disposta à resistência. Não vai ganhar. Porém, quem resiste só o faz por convicção e força de carácter.
Pessimismo meu, dirá, mas parece-me cada vez mais que este país e este povo não têm conserto. Contudo acredito a pés juntos que ainda há gente boa, honesta, de princípios. Mas o facto de serem poucos retira-lhes a força, perdem-se na multidão dos que querem e são outra coisa.
Boa noite, CC
Dos sonhos de juventude pouco realizamos, a vida vai-nos dando na cabeça e muda-nos o percurso.
Estou certa que o Turismo massificado e descontrolado não é uma boa solução económica para os territórios, mas as autarquias senhores...porque continuam a viabilizar mais e mais hotéis?! Pois é Bea, sentimos muitas vezes que o conserto não parece possível...mas enfim, a humanidade às vezes recupera à beira do abismo...um beijinho e obrigada por vir.
EliminarÉ em Lagos que mora um meu amigo de juventude, o mais antigo, o primeiro.
ResponderEliminarUm abraço.
Acredito que guardar esses amigos é mesmo muito importante, creio que só tomamos consciência disso depois...porque às vezes a voragem da vida esgota-nos e não nos deixa dar-lhes tempo.. Mas vejo que a geração da minha filha valoriza as amizades, conserva-as a par da família...um abraço
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