domingo, 14 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIII)

 

Por vezes a agenda contrai o Domingo e o desejo de expansão esbarra nas tarefas inadiáveis, no cansaço da semana e na antevisão de muita gente em lugares desejados. Sobra-nos o que é próximo, seguro e familiar. Certos lugares são mesmo como a extensão da minha casa e assemelham-se assim à voltinha de Domingo da qual a minha mãe falava com uma certa tristeza, ela a querer ver mundo e ele a mostrar-lhe o quintal. Conforto-me mais do que ela porque sei que depois haverá uma volta maior, ela passava a vida à espera desse alargar do círculo.

Este largo é o dos meus lugares favoritos e esta janela abre-se para outro deles, acresce que em junho há cinema naquele terraço, já lá vi belíssimos filmes, por vezes resistindo a um frio de rachar. Este ano o programa é curtinho, e já vi pelos menos um dos deles (o espantoso Valor Sentimental), mas recomendo-vos estes lugares que no Verão nos oferecem um tecto debaixo das estrelas. 

Fiquei quase no meu sofá, se bem que um domingo em que me deixe ficar literalmente nele só pode ser por duas razões: doença ou tempestade. 

~CC~





quarta-feira, 10 de junho de 2026

Hei-de voltar para comprar um fato de banho

 

Com a idade ganhamos manias, pequenas coisas que nunca pensámos condizer connosco. Eu gosto de comprar soutiens sempre na mesma loja e preferencialmente do mesmo feitio e da mesma marca, desde que me senti confortável com aqueles nunca mais quis outros. Mas estou sempre em pânico que a loja feche, a senhora já é idosa, é uma retrosaria pequena, na baixa da cidade, não é fácil lá ir. Já procurei noutras lojas e não encontrei.

Finalmente, num pequeno rasgo de tempo, consigo lá ir. Quando chego e vejo a loja ainda aberta, sinto uma grande alegria e desta vez exprimi-o alto: ah, ainda bem que não fechou! Ora a senhora, para quem eu não olhei bem ao entrar, começou a lacrimejar. Só depois reparei que estava toda de preto e que tinha encarado a minha frase como se eu soubesse de tudo. Tinha perdido o filho em quinze dias, quando assim é, já sabemos que é o maldito pâncreas que, sem avisar, resolve claudicar. Lá lhe disse que não sabia, que tinha só receio porque as lojas da baixa estão sempre a fechar. Fiquei ali de mão dada com a senhora, a ouvir a sua história, marido e filho perdidos para a mesma doença que, no caso específico, dizem não ser hereditária. Já nem sabia como voltar à compra do soutien. Optei antes por lhe contar em versão resumida minha história para ouvir dela aquelas palavras que me fazem sempre muito bem, que não parecia nada, que ninguém diria. Mas o que importava mesmo era elogiá-la, estar ali aos 82 anos depois de ter perdido dois entes tão queridos, isso é que era mesmo heroico. Estamos vivas, conclui: a minha mão na mão dela. 

E por fim: hei-de voltar, disse-lhe, para ver os fatos de banho, mas hoje só queria mesmo um soutien daqueles...e ela, pois claro, pois claro, sabia perfeitamente o que eu queria...2 minutos tinha o soutien, provavelmente também uma multa de estacionamento, mas que importa, dei por bem gastos os 45m que lá passei.

~CC~


domingo, 7 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XII)

 

Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.

Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.

Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.

Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.

De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.

E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.

Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.

~CC~

sábado, 6 de junho de 2026

Breves do Sul (III)

 


Sim, sou eu na foto. Tal e qual eu.

~CC~

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Breves do Sul (II)

 

Para entrar no mar, neste sul, há uma faixa de pedras e pedrinhas a ultrapassar. Não há conchas, não sei o que lhes aconteceu. Não é muito agradável pisá-las, mas também não ferem os pés. Mas há ali uma clareira, talvez de uns 3 metros, sem qualquer pedra, aproximo-me para ver. Alguém as apanhou e juntou todas num monte, obra de paciência. 

Não vi nada nem ninguém, por isso tento imaginar quem seria e porque razão o fez. Hesito entre o altruísmo e a ociosidade, e por momentos foge-me o pensamento para amor. Imaginem alguém a tirar as pedras do caminho do seu amado ou amada para que pudesse entrar em pleno na água, sem o mínimo desconforto. Também poderia ser amor filial, uma mãe e um pai, que no seu desvelo, quisessem que a criança brincasse sem tropeços na orla do mar. 

Tendo, porém, a considerar a ociosidade da praia um aspeto mais provável, há nesta altura muitas pessoas que parecem estar aposentadas e que poderão encontrar labor alternativo, preenchendo o seu tempo nas artes efêmeras da areia, das pedras, das conchas, pessoas engenhosas. Ou alguém de coração grande, criando um corredor para uma entrada na água mais veloz ou mais tranquila, sem destinatário específico.

Estão ali as pedras e não me contam nada, por mais que lhes pergunte.

~CC~

quarta-feira, 3 de junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Breves do Sul (I)

 

Vejo-o ao longe, é branco e azul, belo carrinho de bolas de berlim. Atrás dele vem uma senhora, talvez entre os 50 e os 60 anos, por certo não é nova no ofício, até porque o carrinho ostenta o seu nome em versão de diminuitivo, creio que é um marketing doce muito antigo, quando esse nome talvez nem se desse às coisas. A primeira paragem é junto ao nadador salvador, penso se ele, estando em funções, irá inaugurar assim a sua manhã, talvez não tenha tomado o pequeno almoço.

Mas não, apenas se cumprimentam efusivamente, dois beijinhos e um abraço. Mais um Verão, dizem ambos alto e riem assim juntos, em pleno reencontro. 

~CC~

domingo, 31 de maio de 2026

Passeio de Domingo (XI)

 

Já vos falei da estrada para o Sul?!

Há nela três nuances de paisagem. Até Grândola, os pinheiros mais pequenos ou mais altos e o terreno arenoso combinam com a proximidade do mar, não obstante ali nada se adivinhar e há tantos pinheiros novos este ano, devo ter sido do Inverno chuvoso. Depois de Grândola e até Aljustrel, é planície, com o aproximar do Verão e o calor das últimas semanas, desapareceram as flores amarelas e roxas que vi em Fevereiro,  aquelas altas giestas de encher os olhos. Nesse ondular suave e sereno de cor dourada, sobressaem aqui e ali os sobreiros, chaparros que abrigam pessoas e animais, árvores casa. Depois de Ajustrel a paisagem é serrana, crescem as curvas, os barrancos, há mais arbustos, mais mato. 

Contei apenas dois rios, um deles, o Sado que se repete duas vezes e numa delas diz em letras pequeninas Sul, fico sem saber se o que corre na minha terra é Norte. Há várias ribeiras, mas nunca nelas vi correr água, apetece-me segui-las, ir ver se algures mais adiante a ribeira do Roxo e a da Messajana são mais do que meras tabuletas que se anunciam na estrada, lavar o rosto nelas. Mais tarde diria: era quase Verão e fui lavar os olhos na Ribeira do Roxo. Estes desvios, queria ter tempo para eles, imagino que um dia sigo estas vontades, perco mapas e destinos. As cegonhas também parecem já ter partido, não as vejo ao longo de todo o caminho.

Ao Km 141 há um vislumbre de um novo Alentejo, cheira intensamente a azeitona e adivinham-se os olivais intensivos. Reconheço este cheiro, já lá vão uns bons anos que se atravessa no meu atravessar.

A estrada para o Sul não é um passeio, é um anunciar de passeios, ou mesmo um estado de espírito, e a sê-lo, é algo que combina com o canto das cigarras. Uma metade de mim já está com elas, a outra não pode.

~CC~


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre a fragilidade dos laços humanos

 

Desde que Bauman lançou o livro "O amor líquido", instalou-se, com alguma clareza, a similitude entre a sociedade de consumo e o modo como se encaram na modernidade as relações afetivas, vulgo consumir o produto até haver produto melhor. Escuto os mais criativos nomes para essas relações, há quem lhes chame leves, coloridas, descomprometidas, voláteis, nomes até bonitos para outros que possam soar mais feios. 

E, contudo, a mim só me parecem nomes para colocar a uma coisa: não há amor.

Quem ama sabe da cola que une, do abraço que protege, do desejo que assoma à pele, da vontade do outro que é semelhante à fome que nunca se sacia completamente. Sabe que o amor é uma prisão mas não é aprisionar o outro, é querê-lo livre perto de nós.

Prefiro os que amam, os que sabem que o amor acaba, os que sofrem porque o amor acaba, os que esperam que o amor volte, os que desistem do amor, os que não querem amar, os que querem amar.

Só os seres generosos amam e eu amo os seres generosos.

~CC~

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Três jacarandás

 

Vi-as pequeninas e duvidei que crescessem, durante muito tempo eram só uns arbustos sem graça, poucas folhas, nenhumas flores.

Mas são agora três belos jacarandás, estão em flor, e o maior está mesmo por baixo da minha janela. Bebo o seu lilás como se a sua cor mitigasse o meu corpo fatigado, há coragem em florir.

E vejo agora que devia ter acreditado que um dia seriam belas árvores, em vez de duvidar do que ainda é pequeno, frágil e hesitante. Deixar ganhar a descrença é fácil, o caminho inverso é mais árduo, penoso e com muitas curvas. 


~CC~

domingo, 24 de maio de 2026

Passeio de Domingo (X)

 Não é que tenha passeado muito, saia cedo, chegava tarde e passava o dia a ouvir pessoas a falar, tendo que tomar notas de tudo (ou quase) o que diziam. Valeu-me o lugar ser bonito, aquele intenso verde ao sair e ao chegar aliviava tudo. 

Mas passei a semana fora de casa, pelo que sinceramente, no regresso, só queria ninho. É claro que com este calor uma imagem de mar era apelativa, mas só de pensar na confusão inerente, aliada à mala por desfazer e tanto por organizar, fez com que o passeio possível fosse curto e a um lugar meu. Sei que quando vou lá é também ir a uma parte de mim, ali respirei tantas vezes no tempo da pandemia, e muito antes, quando estava longe de ser o que hoje é, era apenas um sitio escondido, mal conhecido, quase secreto. Quando o conheci, antes da obra, que foi tudo menos museológica, ainda funcionava como moinho de maré e ainda conheci o seu último moleiro, apesar de estar há anos desativado. Ainda é um lugar muito bonito, não obstante poder ter sido feito melhor e diferente naquela recuperação e relativamente ao projeto que hoje é.  Acresce que o terreno sofreu consideráveis estragos este inverno e esteve muito tempo interdito.

Se vierem às terras do Sado, procurem o Moinho de Maré da Mourisca, falem um bocadinho com as garças, se tiverem sorte avistarão ao longe os flamingos. Gosto de me imaginar assim livre, que abro asas e voo. E sinto que estou cada vez mais perto ou que já estive mais longe.

~CC~













quinta-feira, 21 de maio de 2026

Também há pão quente com manteiga

 


É aqui, às 8h quando passo já abriu, lá em cima as duas cerejas que à casa dão nome, gostam assim delas tanto como eu. Quando volto, já estão em arrumações para fechar, mas sempre sem pressa. As pessoas passam e cumprimentam, assim já já sei os nomes do casal. De uma simpatia impar, hoje comprei apenas uma banana pedindo desculpa por só levar uma. De volta um "a menina leva a quantidade que quiser, se é só uma que precisa...". E os preços nem são exagerados, atendendo ao lugar em que se está. Já cá tinha vindo muitas vezes em visita mas sinto que nunca vi o mais importante, não que os palácios não sejam lindos e as magnólias um espanto, mas agora conheço a senhora brasileira que me serve o pão quentinho com manteiga derretida (ah quanto tempo não comia isto ao pequeno almoço) e sei que o sonho dela é morar no (meu) Algarve. E que o menino, o menino que ainda mal anda, gosta muito de praia.

~CC~


terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.

sábado, 16 de maio de 2026

Trio de Eclipses

 


Leio que chegará muito em breve um trio de eclipses inigualável. Imagino os caça eclipses de mochila às costas prontos a invadir a península ibérica para ver o dia se tornar noite.

Contudo, parece-me que eles já foram chegando, os tempos são de chumbo, parece possível a luz que criou as democracias se ir apagando.

E eu tenho dias cheios de eclipses, nem sei se são só um trio, há um apagão que por vezes me invade e uma vontade tão grande de encontrar um buraquinho onde me esconder do ruído das coisas, às vezes ensurdece.

Mas um buraquinho com sol, sem eclipses, em uno, duo ou trio.

~CC~

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~

domingo, 10 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VIII)

 O trabalho agarrou-me ao território.

O vento, de tão forte, colou-me às paredes. E elas falaram. Há, nos vossos lugares, paredes que falam?

~CC~








sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~


terça-feira, 5 de maio de 2026

Como numa dança

 

A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.

Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem  pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.

~CC~

domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre

terça-feira, 28 de abril de 2026

Roubam-me Maio

 


Se por acaso Maio me calar, não é pelo pólen que me invadiu os olhos e o nariz, pelo sabor dos morangos ou pelo apelo a entrar por dentro do verde num passeio sem fim. É apenas por ser o mês mais intenso de trabalho ao longo de todo o ano, é um paradoxo que assim seja, uma antítese à poética do mais belo dos meses, um teste à minha paciência, um tormento que tento aligeirar com a promessa que virá Junho e depois Julho e em Agosto o corpo se entregará a qualquer dormência que o chame.

Para cortar o lamento desta difícil coexistência do chamamento das flores com a labuta do computador, penso em coisas risíveis, minimamente divertidas. Hoje lembrei-me dessa senhora chamada Agatha Christie. Dizia ela que toda a mulher devia ser casada com um arqueólogo, pois eles apreciam-nos cada vez mais à medida que envelhecemos. E ela sabia do que falava, que sabedora.

Preciso de rir para esquecer que me irão roubar Maio. 

~CC~


domingo, 26 de abril de 2026

Passeio de Domingo (VI)

 


O Domingo foi ao sábado e o passeio só podia ser um: descer a Avenida da Liberdade gritando 25 de Abril sempre, enchendo o peito da alegria. E que alegria havia ali, era espessa, colorida, vibrante, irei retirá-la em micro doses quando dela precisar. Este ano impressionou-me a presença de tantos jovens e, entre eles, de tantas mulheres. O corpo que acorda moído do cansaço desta festa é um corpo renovado.


~CC~

Nota: difícil captar fotos sem rostos e sem permissão não me arrisco a trazê-los, não partilho da ideia de que quem está no espaço público se sujeita a ser fotografado/a  e a foto tornada pública. Contudo, muitos aqui ofereciam sem receio e até com orgulho o seu rosto à câmara e até isso era bonito.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Maçã Mágica

 

Deslumbra-me o amor mesmo quando não o vivo. Aprecio as histórias em que ele brota como um pequeno regato e tem a coragem de crescer e rebolar até se tornar rio. Ainda mais quando as pessoas já não são novas e carregam vários desencantos. E dessas histórias que vejo nascer não tenho nenhuma inveja, pelo contrário, contento-me com o contentamento dos outros, sobretudo se deles gosto. Por isso perguntei-lhes se podia escrever a história deles, riram-se, mas sei que sabem que escrevo, não sabendo onde.

Tudo começa com uma maçã. Não se riam já, é verdade.

A. cultiva um pouco de tudo, tem maravilhosas macieiras, uma delas dá maçãs grandes e saborosas, sem químico algum. Essas maçãs foram levadas por uma amiga próxima, guardava uma na mala todos os dias para os momentos de fome ou gula. Mas eram maçãs grandes e ela conseguiu comer apenas metade. Ele estava por perto e ela deu-lhe a outra metade, costuma ser muito convincente e conseguiu porque a anunciou como a maravilhosa maçã de A. E ele sabia quem era A, tinham sido colegas há muitos anos, mas nunca tinham estreitado relações, eram distantes. Enviou-lhe uma mensagem curta agradecendo a metade da maravilhosa maçã que comera. E ela disse que se quisesse podia vir buscar mais, que a fruta das árvores era para os amigos e só uma vez por mês ia ao mercado.

Maçã mágica.

Parece que este Domingo A. as venderá no mercado, na companhia dele, rendido.

~CC~


domingo, 19 de abril de 2026

Passeio de domingo (V)

 

Pratiquei com tanta alegria a capacidade de não me deixar condicionar pela pilha de coisas em atraso que às vezes me arrisco a pensar que estou em processo de mudança de personalidade. Conseguirei deixar para trás o meu peso formiga? É verdade que mal abri a porta de casa, impôs-se a pergunta: como é que vou recuperar durante a semana todo o trabalho que não fiz no fim de semana? Mas ao mesmo tempo perdoei-me porque não é justo ter que pensar assim, ter que sentir tanto aperto no peito já lá vão tantos anos.

Juntei sábado e domingo como uma coisa só, destinada a viver de manhã à noite o gosto da Primavera, dos amigos, das artes. Sinto em mim o cheiro do campo, é como se toda a serra de Montejunto se tivesse impregnado com a sua beleza dentro dos meus olhos. De serra em serra talvez ainda consiga perder o medo das alturas, o medo dos planos inclinados.

O conselho desta semana é assim muito simples. Sabe onde moram os seus amigos? Procure-os, passeie com eles, abrace-os, faça-lhes perguntas que revelem o seu interesse por eles, deixe também que eles perguntem. Peça que lhe mostrem os lugares deles, os que tratam pelo nome. Foi assim que fui ver representar uma amiga que faz teatro amador numa cidade que não pisava há muitos anos. E já tinha sido cidade abrigo para mim logo no inicio da minha carreira.

Tanta é a luz que mora nas noites quentes.

~CC~








sexta-feira, 17 de abril de 2026

Das coisas dos dias

 

Sou avessa às aulas online, apesar de ter compreendido o seu valor nos tempos pandémicos. Obrigada a fazer um curso na área por força do que aí vem para a instituição, creio aquilo que o formador designa como inovação poderia ser designado apenas como poupança de custos. Ele é mesmo muito aborrecido apesar do que apregoa, nada nele me prende ou motiva, pelo contrário, esvazia-me. 

Ao mesmo tempo gostaria muito que ele tivesse vindo à minha aula online ontem para perceber como tudo pode ser interessante nas antípodas do que sugere. De facto, a colega do riso grande conseguiu mostrar-me muito mais do que ele que o online pode ser social, alegre, divertido e um lugar de partilha. Fez uma bela sessão de Sociodrama online, algo que sempre me pareceu quase impossível. Imaginar uma roda num lugar em que vemos uma filinha de quadrados e trazer tanto de nós quando a distância se impõe.

Ainda assim, cansaço muito maior do que numa aula presencial, o corpo sentado é um corpo sempre dormente. E as pessoas são só uma metade.

~CC~

domingo, 12 de abril de 2026

Passeio de Domingo (IV)

 

Às vezes o vento sopra com excessiva intensidade, o trabalho pesa sobre a mesa e os ténis ficam arrumados, sem possibilidade de uso. A vontade de ir mais longe guarda-se para depois.

Sobra-nos o passeio nos lugares que já vimos, se possível com olhos que nunca usámos. Fica-nos assim a rua próxima de casa, a avenida central da nossa cidade, as árvores cujo nome conhecemos, as esculturas que já não são novas, as portas e as janelas das casas que um dia descobrimos que eram belas.

E apesar da falta de novidade, da ausência da emoção que acompanha o desconhecido, da certeza de não termos o deslumbramento para onde nos levam os novos caminhos, percebemos que é bom ver o que já vimos, gostar do que já gostámos, olhar para o que já olhámos. E mesmo no já visto encontramos o encanto das coisas exploradas, que por o serem, são também muito nossas, como se parte do nosso próprio corpo.

Foi assim esta semana, apenas a Avenida, a grande avenida que existe na minha cidade. E lembrei-me do Rui Veloso. 

E a vossa avenida, como é? Guardem para ela um Domingo em que não possam ir mais longe.

~CC~








sábado, 11 de abril de 2026

A mão esquerda

 

Quando algo nos acontece a uma mão ou a um abraço, segue-se a pergunta imediata, receosa, e o desejo afável: espero que não tenha sido na mão direita.

A mão direita é um bem precioso e a esquerda, a que ajuda, apoia, está lá discretamente. É como algo silencioso, aquilo que não damos conta, a que não atribuímos valor. É igual a um amigo a quem não dizemos de quanto gostamos, a um amor que tomamos por garantido.

Há meses com umas bolhas estranhas no meu polegar esquerdo, fiz de tudo para que sarassem sem necessidade de recurso médico. Simplesmente colocava um penso por cima. Sabia que tinha feito ali uma queimadura há uns tempos atrás e achava que a pele tinha ficado irritada, sensível. Depois tudo piorou e o diagnóstico apontou a infiltração do vírus e o tratamento, algo radical e doloroso, que parecia estar a resultar, parece agora inverter-se, o vírus resiste. Nunca tinha avaliado o valor incrível de um polegar. A falta que ele me faz para tanta coisa. A forma como a ausência de um dedo afecta toda a mão e como a falta de uma mão me deixa mais lenta, mais incapaz, mais vulnerável. Parece um mero pormenor, uma coisa sem importância, uma vírgula no texto. E, contudo, é tanto.

~CC~

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Saudade do inteligível

 


A miúda teve cinco negativas e por isso é preciso cortar alguma coisa, acabaram assim as séries e a autorização para as dormidas ao sábado à noite na casa das amigas. Encontro amiúde isto, um castigo não só deslocado do problema como sem nenhuma análise do mesmo. 

Mas devia espantar-me pouco, se os os adultos poderosos no topo do mundo são incapazes de analisar problemas e pensar em estratégias adequadas para os resolver, como poderá fazê-lo aquela mãe, a educar uma filha sozinha, a sair às 7h todos os dias no comboio Fertagus e a regressar às 19h.

A racionalidade é decididamente uma coisa fora de moda, como se todos tivéssemos deixado de saber que 2 + 2 são quatro e todos estivéssemos autorizados a dizer que a soma dá qualquer outro número, a verdade é uma coisa relativa e a mentira afinal não existe, tudo é uma coisa que pode ser afinal uma outra. 

Moldada no paradigma positivista da Psicologia que tanto trabalho me deu a desmontar e a criticar, nunca pensei ter disso alguma saudade. O caos que tanto me pareceu fascinante em tempos, agora só me parece sombrio, e tenho vontade da ordem, não como limite da liberdade, mas no que ela permite explicar e iluminar caminhos e dizer coisas inteligíveis. 

~CC~

domingo, 5 de abril de 2026

Passeio de Domingo (III)

 

É uma terra estranha esta a de Mira d´Aire.

Já foi um ponto forte do turismo por causa das suas grutas, vieram excursões e fizeram-se parques de estacionamento junto a cada entrada, agora quase sempre a menos de metade da sua capacidade de ocupação. O interesse pelas grutas foi passando, ainda que se mantenham abertas e ainda venha gente curiosa. Nunca lá entrei, não obstante as muitas vezes que vim, tiram-me a possibilidade de ver o céu e a rejeição nasce.

Já foi um lugar de indústria forte, aqui se teciam tapetes e mantas e havia uma fábrica em cada esquina, a maior parte estão abandonadas e os edifícios devolutos ou  tornados outra coisa. Não resistiram à invasão da mercadoria muito mais barata, ao decréscimo dos rebanhos, à mão de obra emigrada para paragens onde se pagava melhor. Guardo com muita ternura a visita a uma pequena fábrica que ainda há uns anos estava em funcionamento, os teares são arquiteturas magníficas de sentido e engenho humano, gostava de saber tecer.

A vila em si é pouco atrativa, na esteira do desenvolvimento dessas épocas áureas vieram os prédios de má qualidade e derrubaram-se as casinhas de pedra. Mas há, sobretudo entre a serra e dentro do concelho de Porto de Mós (a serra está dividida em dois concelhos), aldeias ainda bonitas, revitalizadas e reconstruídas, algumas por estrangeiros. 

E há o céu grande lá em cima, cortado por grandes aves, muitas de rapina. E há sempre algo que não tinha visto antes, na visita anterior. Desta vez foi o curioso miradouro da Azelha. Fosse só um miradouro e eu já gostaria. Mas tem uma seta que diz a que distância estou do lugar em que nasci. E distâncias de outros lugares. Fiquei ali algum tempo a observar as setas, os países e as direcções. Mas nada constava sobre a ideia subjacente. Só pesquisando soube. Trata-se de uma homenagem e que bonita. S. Bento é uma comunidade espalhada pelo mundo e a sinalética aponta para os 14 destinos com gente da terra e a respetiva distância. 

É preciso persistir nessa memória, também nós partimos em busca de melhores condições de vida, talvez isso se nos indigne mais quando ouvimos alguém a dizer a um outro que vá para a sua terra.

~CC~








quarta-feira, 1 de abril de 2026

Paeonia broteroi

 

São as minhas rosas da Páscoa. Um ritual que cumpro com a invariância de todos os meus rituais, uma vezes sim, outras não. Mas assim que cheguei à aldeia fui à procura delas. E encontrei-as. São belas, esquivas, selvagens e muito frágeis. Tento datá-las na minha memória, talvez tenha sido em 2014 ou em 2015 que delas ouvi falar, pela voz das crianças que moravam nesta serra e às quais perguntámos por aquilo que nela era genuíno e identitário e elas nos disseram: a rosa albardeira. Tecemos então uma história e depois um teatro e elas representaram-no, creio que só hoje temos noção de quão felizes fomos.

Estas rosas que em nada são rosas, numa improvável combinação que resulta bela de cores rosa e amarela. Gostam de altitude, não amam o sol nem a sombra, gostam de solos siliciosos, de se abrigar nos bosques com azinheiras junto às quais nascem. O seu habitat natural não são os jardins, embora haja quem as consiga ter. Se as apanharmos, depressa morrem. 

O nome Péon é a de um deus que é médico dos deuses, entre os dons curativos da planta está a de curar pesadelos, deve ser por isso que nesta aldeia o meu sobressalto noturno se vai tranquilizando. Tal como as rosas albardeiras, só consigo chegar na Primavera, antes dela este frio e humidade afasta-me daqui para Sul. 

Somos flores, sou flor, sou esta flor.

~CC~


Alvados, 1 de abril de 2026

domingo, 29 de março de 2026

Passeio de Domingo (II)

 

É bom ir longe à procura do desconhecido. 

Mas o desconhecido pode morar bem perto. É uma placa de rua que não reparámos mas que esconde o nome de alguém com uma maravilhoso percurso de vida, é uma mesquita escondida atrás de um muro que não a deixava ver, é uma árvore num jardim onde tanto passamos mas que descobrimos é afinal classificada, impossível de abater. 

No fim de semana passado o tempo estava instável e o passeio previsto foi anulado. Ainda assim marcámos encontro numa das adegas da Quinta do Anjo, em geral mantêm o nome da casa agrícola da família e têm a marca de muitas gerações. A proprietária é uma mulher notável que estudou engenharia agrícola e esteve na reforma agrária antes de regressar ao seu território, não é pessoa de muitas falas, é preciso puxar-lhe pelas histórias, mas está sempre disponível para acolher uma diversidade de iniciativas. Desta vez era o lançamento de um livro sobre plantas. Mas assim que nos encontrámos, o livro ficou para depois, era ir vê-las, saber-lhes os nomes e as propriedades. Vamos subir aos sepulcros, disseram. Todos pareciam conhecer. E eu nada disse sobre a minha ignorância, pronta para o espanto. Quando passeamos com as pessoas que são do território abrem-se portas, visitam-se quintais, demora-se a cumprimentar este e aquele, fazem-se perguntas, há alguém que sabe uma coisa, outro acrescenta.

E por fim os sepulcros, enormes buracos onde os corpos repousavam no meio de oferendas. Idade do Cobre, taça campaniforme muito em uso na Península Ibérica mas desenho típico de Palmela, como é que não sabia, como é que não tinha nunca reparado?! Mais história dentro da história, mais espanto atrás do espanto.

~CC~






sexta-feira, 27 de março de 2026

Aconteceu(me) o Teatro

 

Não, eu não vinha de um grupo de teatro amador.

Não, eu não vinha de um grupo de teatro da escola.

Não, eu não ia com os meus pais ao teatro.

Algures na infância, lembro-me das pequenas peças de teatro feitas em família, não sei de onde vinha o gosto ou como começou, nem quem nos apoiava, vagas memórias de uns tios e tias alinharem com os miúdos. 

Por isso entrei na sala escura por um acaso delirante, diretamente do subúrbio, adolescente tímida e ignorante. E lá dentro encontrei quase tudo, foi como um labirinto onde cada corredor levava a um outro e mais outro, passava duas vezes no mesmo lugar para perceber melhor e a saída não importava. Deslumbrei-me com as sonoridades das palavras, a textura possível de colocar em cada gesto, o formato dos rostos e das suas máscaras, as diferentes formas que um corpo podia ter.

O choro e o riso não eram mais algo a esconder no interior do ser, eram tão bem vindos.

Aconteceu-me o Teatro, foi vida, nunca profissão.

~CC~


domingo, 22 de março de 2026

Passeio de Domingo (I)

 

A minha mãe suplicava ao meu pai: vamos levar os miúdos a passear, hoje é Domingo! O meu pai era um boémio, lia muito, fumava ainda mais, gostava de cafés e de jornais. Nunca o vi pôr o pé na praia, fugia do campo e da natureza. Amava a noite, suportava os dias. Tolerava as crianças e ia gostando sempre mais de nós à medida que crescíamos e podia falar connosco como quase adultos. De quando em quando, ela convencia-o, ele metia-nos no carro e dava uma voltinha pela cidade, janelas abertas, com o braço com o cigarro de fora. Às vezes parávamos e comíamos um gelado (ou melhor, um baleizão). Quando regressávamos a casa ela dizia: lá demos a voltinha dos tristes. Toda a vida a minha mãe quis passear aos Domingos, às vezes quando eu dizia que tinha que trabalhar, ela lamentava-se: mas é Domingo. Nos últimos três anos da vida dela guardei muitos Domingos para almoçar com ela no restaurante como gostava e, por fim, já em casa.

Metade da minha infância foi passada no quintal da minha casa, um terço nessa mesma rua. Creio que consigo contar os passeios pelos dedos da minha mão. O quintal era ainda assim bastante cheio, vinha muita família, às vezes havia festa, não me sentia infeliz. Mas não tinha absolutamente noção de quase nada, muito menos do tamanho que tinha a terra. Quando me comparo com as crianças atuais, acho-as incomparavelmente mais espertas e sábias do que eu era.

Talvez resida, assim, na infância a minha fome de mundo, o que comporta natureza, arte e cultura, podendo usar apenas um termo para todos três: resistência.

Chegada a Primavera essa fome vem à flor da pele. Uso, contudo, o termo Domingo como um apelo metafórico que vem do lamento da minha mãe. Significa que o passeio pode tomar forma num outro dia da semana, até porque inevitavelmente alguns fins de semana são tomados pelo trabalho.

Abram então a porta, venham, é Domingo. 

~CC~

sábado, 21 de março de 2026

Ptilonorhynchus violaceus

 


Cetim azul, regresso aos pássaros. 

Conheci esta espécie numa oficina que escolhi fazer sem saber bem o que seria, gosto tanto de ir por ai a descobrir coisas, lugares em que não sabem quem sou, tão pouco o que faço. 

Era uma oficina de relação entre as artes plásticas e a natureza e dedicada à cor azul, mas com designação metafórica que não deixava adivinhar. Curiosamente eu também ia vestida de azul, as formadoras perguntaram se eu sabia, obviamente não. Tiraram-me fotos: eu azul entre as muitas coisas azuis que elas levaram.

Mas o meu fascínio focou-se nas histórias que contaram, entre elas a do pássaro Cetim azul, do qual nada sabia. Têm olhos azul violeta, a única coisa comum entre machos e fêmeas. Eles têm uma plumagem azul escura brilhante, elas penugem verde oliva, com algumas pontuações de cinzento.

Os machos constroem estruturas (caramanchão) com ramos e raminhos para o ritual de acasalamento, enfeitam-nos com tudo o que apanham de cor azul, seja natural ou artificial. Com o seu bico pontiagudo apanham penas, bagas e flores, mas também tampas e tampinhas, palhinhas e bocados de plástico azul. Cada um deles é um criador, não há duas estruturas iguais. Esta orgia de azul é uma oferta à fêmea, acompanhada de uma dança bastante ostensiva de chamamento em que há chilreios e assobios. Não sabemos se ela avalia a riqueza das tonalidades de azul, a intensidade do brilho, a estrutura da peça ou mesmo a qualidade da dança, mas se gosta entra. O amor, mesmo na natureza, tem o seu mistério. Elas escolhem. Mas eles estão disponíveis e esforçam-se na conquista. Mas sabemos que se corre bem, haverá pelo menos dois ovos grandes, às vezes três, e serão em tons de terra, dos quais sairão novos apreciadores de azul. 

Os poetas são mestres nas palavras, mas a poesia vive em nós e nas coisas, é preciso descobri-la e vivê-la.







quarta-feira, 18 de março de 2026

Escolho, sem dúvida, os pássaros

 


Trabalhar nos cafés fez sempre parte do meu quotidiano, assim como reunir com colegas ou estudantes adultos nos seus processos de pós graduação. Mas ontem o barulho da televisão num qualquer jogo de futebol era ensurdecedor. Contudo, não havia clientes a ver, creio que já toda a gente os acompanha em casa, a não ser que haja promessa de cerveja e festa. A memória mais extraordinária que tenho de uma plateia inebriada de futebol e álcool foi a de uma esplanada em Angola, curiosamente jogava o Benfica. 

Ontem o ruído do jogo perturbou-me muito, fiz um grande esforço para me concentrar nos passos de dança que a estudante trazia. As televisões sempre ligadas nos cafés e restaurantes, quase sempre nos piores canais, perturbam-me muito, já os evito ou procuro em função disso.

Quando saí do café para a cidade, atravessei a grande praça. O barulho dos pássaros nas três grandes árvores era também um festim, mas aí soaram-me divinais os diferentes tons e alturas dos seus cantos, uma natureza vibrante que ecoava como vida, como resistência, como caminho. 

Escolho, sem dúvida, os pássaros. 

~CC~

domingo, 15 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 


Vestiu-se de rosa e disse que os homens podem estar tristes e até mesmo chorar. Fui ver o concerto e algumas canções prenderam-me mais do que outras, esta fui uma delas. Se repararem, as Olaias também já florescem em tons rosa. Significa isso que embora ainda se preveja chuva e frio e o mundo nos pareça cinzento, temos que abrir os portões, sair de casa, respirar.

É assim o último domingo de musiquinha. 

~CC~

quinta-feira, 12 de março de 2026

Quando tu chegaste

 

Logo ao primeiro olhar, quando tu chegaste, o mundo ficou diferente ou então fui eu própria que ganhei outros olhos. Mas pouco a pouco é que se foi transformando mais e mais, quase a ponto de não o reconhecer ou de não me reconhecer. 

Dizem que acontece a todas as mães e uma parte de mim tende a concordar e outra a discordar. A parte que é corpo, genes e pele diz que sim; é igual em todas nós mulheres mães. A parte que é cérebro, coração, situação, diz que não; somos todas diferentes e que cada uma reage de um modo muito próprio, fruto também da sua circunstância. Não tenho, por exemplo, a certeza que a minha mãe me tenha amado, como eu te amei, assim ao primeiro olhar. 

E agora, que já lá vão mil bilhões de olhares, ainda me surpreendo com o amor que te tenho, agora transformado em coisa de gente grande.

~CC~

domingo, 8 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XV)

 

Tenho uma grande admiração por esta mulher e o documentário sobre a vida dela foi das coisas mais bonitas que vi no cinema.




Hoje com acompanhamento da crónica de Lobo Antunes na revista Visão (cujos trabalhadores andam na luta para ver se não acaba).

As mulheres têm os fios desligados.

"Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto.
Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me."

António Lobo Antunes


sábado, 7 de março de 2026

Continuo a pasmar com as sombras do mundo

 

- Mãe, compra-me este brinquedo.

- Não, tens muita coisa e não brincas com tudo.

- Já não sou teu fã! Ouviste?! Já não sou teu fã!

A criança teria talvez uns quatro anos, mas sem dúvida já domina os circuitos de comunicação atuais, traduzidos em números de likes e afins. 

A mesma lógica que os presidentes destes países poderosos empregam ao falar da guerra, parece não ser mais do que uma série ou um jogo de computador. Para eles não morre gente, são bonecos. Siga a construção do mega salão de baile.

Como só temos uma vida, erguemos barreiras para que este sofrimento não nos derrube, mas espero que nos indigne sempre, eu continuo a pasmar com as sombras do mundo.

~CC~


quinta-feira, 5 de março de 2026

Podemos adiar para um dia de sol

 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia de sol. Não é bom acordar num dia cinzento e triste. Vou tratar disso. Farás anos logo que o sol esteja disponível, não ainda demasiado quente, com aquela frescura das manhãs primaveris. Os deuses com os quais falei afirmaram ser possível. 

Sim, podemos adiar o teu aniversário para um dia sem guerra, ou pelo menos sem guerras conhecidas. Não é bom acordar com o eco, mesmo abstrato de sirenes, o cheiro a queimado nas cidades e inocentes a morrer. Vou tratar disso, contudo, os deuses não me atenderam pela linha habitual, assim que premi o assunto no botão 5, destinado a "outros assuntos" e falei no termo "Guerra", o assistente virtual desligou, não reconheceu a palavra.

Arranjo-te assim mais adiante um dia com sol, papoilas vermelhas a eclodir pelos passeios, o sabor do mar e a ternura que pode correr dentro de um abraço. Coisas simples mas tão boas.

~CC~

terça-feira, 3 de março de 2026

O cheiro a mangas maduras do quintal

 

Acontecem as coisas e tocam-me. Apetece-me dizê-las mas a falta de tempo prende-me a garganta e as mãos.

Tantas pessoas se sentaram à mesa grande a dizer a que cheiravam os seus livros, aqueles que levaram. O velho e o novo do papel. Mas mais do que isso, os cheiros que não estavam no objeto em si, mas no que estava lá dentro, o cheiro na mais pura das abstrações. 

A convidada, alquimista de perfumes, era uma boa contadora de histórias e factos científicos, explicou longamente que a mudança da matéria prima do papel ocasionou ao longo dos séculos a mudança do  cheiro dos livros. Por vezes foi excessivamente opinativa e crítica quanto ao abuso público das fragrâncias, combinando tal tendência com as características dos povos, coisa que compreendo mas não me parece tão generalizada. Creio que só nos conquistou verdadeiramente quando  nos deu a palavra para finalmente falarmos dos nossos livros (uma hora depois do início) e depois quando abriu os frascos das essências e nos passou tirinhas de mão em mão. Gostei tanto dos cheiros que as pessoas trouxeram dentro dos livros, desde a água às violetas da avó, foi muito bonito. Do meu livro saiu o cheiro às mangas maduras do meu quintal.

Mas trouxe um outro cheiro, queria fazer um perfume só com ele (não obstante isso não ser vulgar), talvez assim me apetecesse colocá-lo, coisa que raramente acontece. Flor de murta, que arbusto mais bonito, que cheiro mais doce e fresco. 

~CC~

domingo, 1 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XIV)

 

O mundo muda, nada muda realmente ou pelo menos o suficiente. Ontem, como hoje, grandes sombras negras. Até este homem morreu sem sentido. Outros homens morrem sem sentido. Mas morrem sobretudo crianças, essa é uma agonia, uma vida interrompida de alguém que nunca fez mal.



~CC~

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois

 


Diz ele que há vinte anos não pisava aquela cidade. Então eu estava lá quando ele a pisou, comprei-lhe um livro e ele assinou-o, é coisa que não costumo fazer, as longas filas, a falta de jeito para dizer alguma coisa, aquela proximidade ao escritor...costumo desistir. Mas lembro-me da minha irmã mais nova a insistir, a brincar com aquela minha insegurança...a empurrar-me devagarinho, vai lá, vai lá...

Na verdade, uns anos antes ele já tinha estado na minha escola, eu estava lá há pouco tempo ainda mas tínhamos feito algo que ele adorou: retirámos frases do primeiro livro dele e distribuímos aos estudantes que a partir delas construíram micro histórias, dois ou três dispuseram-se a ler naquela sessão pública. Ele emocionou-se.

O José Luís Peixoto, vinte anos antes era muito bonito, assim o achava eu, tinha uns olhos cheios de luz, um cabelo meio encaracolado e um sorriso tímido. Talvez a fama o tenha levado aos piercings, às viagens, às biografias de homenagem, talvez se tenha perdido um pouco, mas até isso lhe dá graça, não tem um caminho linear, nem se deixa enredar no estilo único. Vinte anos depois... li alguns dos livros, não todos, gostei mais de uns e menos de outros. Já não corro a comprar-lhe os livros, nem o coração estremece por estar perto dele. Mas continuo a gostar da sua sinceridade, da forma como se apresenta sem pudor nem vedetismos, continuo a encontrar-lhe a ternura, isso que tanto me encanta num homem. A melhor parte: a forma como ama a sua família e o seu Alentejo, como quer estar nesse colo ao mesmo tempo o larga para procurar outros lugares. Mais velho, menos bonito, mas mais velho, mais bonito. Talvez ainda compre a Montanha.

Absolutamente rendida às conversas com a sua mãe. Que maravilha a menina Alzira

~CC~



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXIII)


 

Atravessei-o ontem. O Alentejo desta canção é ainda o mesmo e ainda assim tão diferente. Outras mãos, outra explorações agrícolas, o mesmo tormento, outro tormento. O cante é tão belo para quem se deixa tocar por ele, tão bonita esta interpretação com várias gerações, gosto de nós misturados.

No meu olhar terra quente, agora coberta de água, já com andorinhas. Vastidão de horizontes que me comove sempre.

~CC~

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A cada vinda me tornar mais leve

 


A chave colocada na fechadura foi o extremo do erro. Um erro persistente uma e outra vez. O botão no terceiro andar em vez de no quarto, não sei se chamar-lhe automatismo ou amor. Habituei-me a pensar que estão nas antípodas um do outro mas se calhar não é assim tanto. A dor da sua ausência amorteceu, é agora ténue, diluída, levou a patine do tempo. Mas a mão continua a dirigir-se ao botão do terceiro andar, ao lugar da casa dela. Noutras ruas deixei de passar há mais tempo, circundo-as como se nada tivessem dentro, como se fossem um buraco que o tempo tapou com a sua areia de esquecimento, já há muito não estremecem à minha chegada, nem à minha partida. Aqui já não choro mais, já chorei tudo o que perdi, mas ainda me falta rir, é como se o riso estivesse ainda preso dentro de mim.

Este Sul tem um cheiro único e reconheço-o, é parte integrante do meu passado, renegar lugares é renegar parte de nós. Aqui a água varreu também tudo, mas não deixou cheiro a bolor e a mofo, há um leve perfume de que mais adiante irá acontecer Primavera, gelados, mar suave e quente.

E é por isso que volto, pela possibilidade de, a cada vinda, me tornar mais leve.

~CC~



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contrastes

 

Tirando um miúdo mascarado de abelhinha, vi muito poucos mascarados na rua este ano. Os pais, sem paciência, dinheiro ou mestria (nos quais também já me incluí) recorrem à loja dos chineses mais perto, pelo que as crianças ficam todas mais ou menos iguais.

Já a vida está cada vez mais contrastante. No mesmo dia assisti a um senhor, visivelmente com dificuldades financeiras, a comprar no supermercado apenas uma lata de leite condensado, o preço foi 1,48 euros e ele contou as moedas. Fico sempre muito triste a pensar que provavelmente só comerá aquilo o dia inteiro e que a levou pelo seu alto teor açucarado. Nesse mesmo dia vi uma senhora a regar as suas plantas de casa com água engarrafada, usou duas garrafas de litro e meio. Sei muito bem que as plantas gostam de água sem cloro, mas eu deixo a agua da torneira uns dois dias no regador e depois rego as mais sensíveis. Compreendo que a água engarrafada, se ela a poupasse, não enchia a barriga do senhor com mais proteína e menos açúcar, mas custa-me, há dias em que viver custa. 

~CC~

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXII)

 



Este balancear que vem de um lugar tão perto.

A saudade pode ser um lugar impreciso onde apenas moram sabores e cheiros.


~CC~

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nove anos

 

Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.

Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou. 

A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo. 

A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar. 

~CC~



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Afinal era simples

 

Estava a vê-lo intrigada há um bom bocado. Um homem talvez da minha idade, talvez mais velho. Não consegui distinguir-lhe as feições pois mantinha o capuz colocado. Estava parado a olhar para a bancada dos bolos de aniversário, quase com o nariz colado à vitrine. Eram bonitos os bolos, com muitas cores,  texturas e brilhos, também fico sempre maravilhada com essa arte de quem os confecciona. Mas tanto tempo?! Quereria um e não teria dinheiro? Planeava fazer ir pelos ares aquela vitrine? Estava com algum problema e não era capaz de sair dali, nem de se sentar?

Acabei o café e já não tinha tempo de prolongar mais a minha observação e muito menos de obter resposta para as minhas questões. A chuva intensa (ainda me lembro de quando não se saia de casa por causa dela) tinha subitamente parado. Saí, já ia na rua e instantaneamente voltei-me para trás, ali estava, mesmo perto de mim, o homem da vitrine. 

Ri-me de mim própria, afinal era simples. 

~CC~

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Somos humanos, não deuses.

 

Uma docente competente, sempre pronta, sempre empenhada. Não lhe faltarão muitos anos para a reforma, não consigo exactamente calcular.

A reunião hoje era bem cedo, com entidades externas, eu uma delas, ainda que eu tenha (quase sempre) um estatuto hibrido. E ela não chegou. Não, ela chegou, cerca de uma hora e meia depois, aquela reunião em específico já tinha acabado. Um enorme desalento, uma tristeza na voz, mas sem desculpas tontas, simplesmente o despertador não tinha tocado e ela tinha adormecido, cansada. Penalizava-se, pedia perdão pela falha, estava inconsolável. Coloquei-lhe a mão no ombro e lembrei-a de que somos humanos, não deuses. Sorriu timidamente, agradeceu. Eu tenho receio é das pessoas que não falham ou que ocultam as suas falhas em mentiras e artifícios. 

Pensei em quanto tempo eu demorei a saber perdoar-me pelas minhas falhas, muitos anos certamente. Talvez ainda mais do que a perdoar as falhas dos outros. 

~CC~

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Entre flores

O homem das tatuagens de aspeto muito másculo, sempre de T-shirt, move-se entre flores. Tenho ideia de já o ter visto lá muitas vezes, mas só hoje reparei bem. Trata-se de um maravilhoso contraste.

Na pequena banca no meio do centro comercial mais periférico e pobre da cidade aquela banca está sempre colorida e com  flores que não parecem de estufa. 

Esta manhã escolheu três gérberas amarelas para o velhote de boina, mas não ficou contente, armou-as com três rosas vermelhas mescladas de amarelo e uns raminhos verdes. Era um ramo de encher o olho, exótico, muito vivo e tão contrastante com aquele a quem o vendia, que por momentos pensei que o recusasse. Mas o velhote fez um pequeno sorriso e levou-o. Não consegui visualizar a destinatária daquelas flores. Estou certa, porém, que para ela, por momentos, a chuva parou.

~CC~



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XX)

 




Até à Primavera os Domingos terão música, depois abrirei as janelas e salto por uma baixinha para as manhãs verdes. Espero trazer nos bolsos vestígios de flores a despontar.

Deixo-vos com estes murmúrios, vozes inspiradoras enchem as igrejas do calor que elas deviam sempre ter. 

~CC~