domingo, 13 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas nada amadas

 

Não tenho pressa, é verdade, o Verão poderia só ir acabando devagarinho, diminuindo o calor, a quantidade de luz por dia e, sobretudo, a indolência que comporta. Mas reconheço que há coisas no Verão que não são nada interessantes e muito menos confortáveis, e com isto vou pedindo, ainda que com moderação, que venha lá o Outono. Deixo cinco coisas que não gosto, aposto que os amantes de Outono acrescentariam com afinco esta lista (cá vos espero), enquanto que os amantes do Verão por certo as consideram de relativa ou nenhuma importância (também podem dizer).

1º - Os preços sobem bastante, sobretudo em zonas turísticas e perto do mar, assinalo que paguei no Verão o dobro do preço do que paguei no Inverno por uma água com gaz. A fruta, mesmo aquela que é denominada como fruta da época, como por exemplo, os pêssegos, assumiu este ano valores como nunca tinha visto.

 2º - A hipermania de festas e festivais por todo o lado e a toda a hora, já não se aguenta. Antes convivíamos com festinhas de aldeia populares e dois ou três festivais de música de grande produção, agora já perdi a conta, a imaginação delirante tomou conta de tudo e de todos, desde as coisas mais alternativas, às artísticas, às gastronómicas, às de luz, cor, religião e afins, muitos afins...isto é uma moda que incomoda porque já não se consegue sossego em lado nenhum. Por causa disto, não fui a único festival ou festa este ano, e não é que algumas não me chamassem, mas já não suportava a ideia em si. Há demasiado ruído no Verão, nesse aspeto prefiro o silêncio do Inverno.

3º - A ideia que nos é transmitida que temos que estar felizes, quase tão irritante como a que temos que estar bonitos ou usar todos o mesmo. Olhei para os pés das mulheres este ano, mais de 50% tinham o mesmo tipo de sandálias, assim percebi que eram moda, nem é um modelo especialmente bonito nem torna os pés elegantes, mas é como se te dissessem que se não sabes que é aquilo que se calça estás fora da comunidade. As outras estações comportam, apesar de tudo, maior variabilidade, ou talvez andemos mais ocupados com outras coisas.

4º - Estes malditos golpes de calor, a temperatura não sobe ou desce gradualmente, há uma espécie de picos infernais a que se convencionou chamar onda. Não gosto do termo porque as ondas são bonitas. Deixam-nos não só com falta de ar como com a sensação que o mundo não dura muito mais e que ninguém quer seriamente saber disso.

5º - O lixo, consideravelmente em maior quantidade, mais desordenado e por vezes com um cheiro insuportável quando o calor abrasa nas cidades. Não me convenço que este sistema não tem que ser radicalmente alterado, não tenho soluções já feitas, mas estamos há demasiado tempo a fazer o mesmo da mesma forma, a questão é que sabemos perfeitamente que temos que diminuir a quantidade de lixo que produzimos mas o cidadão comum não sabe como. 

Que tal esta preparação para a mudança de Estação?! Chamo, contudo, devagarinho...porque o banho matinal, devidamente salgado e gelado, nesta Arrábida linda, ainda soube muito bem.

~CC~



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

No escurinho do cinema (lá fora)

 

Às vezes vejo filmes com uma história algo linear e até expectável mas gosto por um pormenor ou por evidenciar esta ou aquela faceta humana, histórica ou social ou simplesmente pela beleza. África minha não é um filme linear?! É, e no entanto, como não gostar dele?! Também gosto bastante de documentários, quase todos.

Um filme pode ser bom, mas se mostra a violência de forma frontal e óbvia, mesmo que seja no retrato de uma realidade, afasta-me, não sei nem consigo lidar com a agonia que me provoca, ecoa no meu próprio corpo. Sim, fecho os olhos até o pior passar se o filme valer a pena, saio se assim não for.

Mas são os filmes estranhos, poéticos, ambíguos, com finais abertos que me apaixonam. Os que de alguma forma me desconcertam e não têm uma mensagem óbvia, aqueles que me deixam a pensar e ficam muito tempo comigo, levando-me a questionar, a procurar saber mais, ficam a pairar na minha vida muito tempo, sem que saiba explicar inteiramente aquele efeito.

Foi que aconteceu com  Amiga Silenciosa. Levei muito tempo a digerir o filme, a pensar nele, pior que isso, a investigar os gerânios e a Ginkgo Biloba, uma das poucas árvores que se reproduz de forma primitiva (ou seja, há um macho e uma fêmea). E não há dúvida, tenho uma pontinha de loucura. Imaginam-me a mapear os exemplares em Portugal?! A procurar o mais perto de mim? A ficar feliz porque existia e depois a procurá-lo num jardim com mais de cinquenta árvores? Como descobri-lo? Como é que alguém vai de árvore em árvore sem que alguém nos estranhe? Confesso que houve uns quantos olhares. E descobri-a, um exemplar na primeira infância da sua vida, atendendo a que pode durar entre 2000 e 3500 anos, ou seja há na terra exemplares que estão cá antes de Jesus Cristo...as folhas em leque são deslumbrantes e vivem todas as estações do ano.

Não contei a história do filme, pois não?! Acho que não a sei contar, a sinopse como sempre é redutora e eu não quero ser como a sinopse.

~CC~





quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas amadas

 

É verdade que a despedida ainda não é efetiva, mas já se anuncia. Fiquei em choque ontem ao olhar uma montra cheia de camisas de manga comprida, casacos de lã e até uma gabardine. É matéria séria portanto, está a chegar o fim do Verão. Como os meses de Junho e de Julho me são roubados pelo trabalho, fica apenas Agosto e esta primeira semana de Setembro, é pouco. Sabe-me cada vez a menos. É que há coisas muito amadas que se tornam (quase) impossíveis noutras estações. Eis seis delas ou meia dúzia (gosto desta expressão).

1º- Tomar o banho da manhã no mar, é um primeiro banho de sal e água fresca, deixa-me contente para o resto do dia, ainda que por vezes mole, sonolenta e, sobretudo, preguiçosa (e que boa é a preguiça, dantes não sabia). Por vezes fui a primeira pessoa a tomar banho numa praia, há silêncio, as gaivotas ainda por ali andam e o mar é todo meu.

2º - Andar descalça em casa, é tão bom, parece-me que me liga à terra, ainda que seja apenas um apartamento, mas também gosto de pisar relva, terra e areia (ainda que com um bocadinho de receio da bicharada).

3º-  Ver cinema ao ar livre, com tecto de estrelas, lua e até um avião ou outro, isto liga-me à minha infância e às matinés a que o meu pai me levava, o meu primeiro cinema foi em Luanda, ao ar livre, chamava-me Miramar e parece que já não existe como tal.

4º - Comer gelados, e atenção que gelados é um cone que se leva pela rua e se saboreia, em manobra de constante equilíbrio, não algo que nos sentamos a comer num copo ou numa taça enfeitada.

5º- Ler só por prazer, apesar de tentar noutras épocas do ano e às vezes conseguir, não se compara ao desfrutar do Verão, sem pressas, sem culpas, sem objetivo.

6º -  Comer sem cozinhar, qualquer coisa se mistura e se torna comida, basta inventar um pouco entre conservas, queijos, saladas, fruta, ovos cozidos (que cozo à meia dúzia e deixo no frigorifico) às vezes uma refeição leva 5 minutos e é boa, sabe bem.

Não posso, porém, entristecer ou tudo será ainda mais difícil. Talvez me possa lembrar de seis coisas menos boas, será uma boa manobra para receber o Outono com menos fel.


~CC~






segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Pessoas que esperam o pôr do Sol

Há muito que queria conhecer a Escola da Bordeira em Aljezur, dinamizada pela Associação Lavrar o Mar. Um sonho antigo meu, encontrar uma dessas escolas primárias de Plano Centenário e torná-la um lugar de Cultura e Comunidade. Ver que outros o conseguem deixa-me feliz, mostra que era possível o que acalentei muitos anos. Tentei no lugar errado, na ocasião errada, já pouco importa.

O título do livro em discussão e elaboração gastronómica foi-me assaz apetitoso: Somos animais poéticos. Gostei bastante do ensaio. Fiz assim muitos quilómetros. Escapou-me, porém, alguma coisa, talvez a própria poesia.

E só a encontrei depois, na volta, enquanto esperava o por do sol. Reparei que não apenas eu o esperava, outros aguardavam pacientemente, contemplando, fotografando, filmando, conversando. Porque aguardamos que o sol se ponha no mar num entardecer azul de Verão? Porque somos animais poéticos.  Todos nós, os que aguardamos.



~CC~

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Neste cuidado reconheço-me inteira.

 

Deixei-me simplesmente ir nestas férias, sem grandes planos, nem projetos. A expetativa, tantas vezes gorada, de tirar delas um deslumbramento capaz de me recarregar baterias para um novo ano, deixou de existir. Fiz coisas vulgares, à medida do que me apetecia, e nem sequer me obriguei a ir onde supostamente seria expectável ir como à festa de teatro da minha cidade, eu que tanto amo essa arte e que costumo tudo fazer para conseguir estar presente quando ela acontece. A cabeça precisava de se esvaziar, não podia conter mais nada, nem sequer uma obra de arte de qualquer natureza ou mais um espetáculo. Percebi a exaustão a consumir-me e que ela me poderia arruinar e parei de ver, de ir, de planear, de querer. Li pouco, apenas um ensaio e comecei um outro livro. Vi dois ou três filmes. Depositei energia, contudo, em coisas que costumo detestar, como arrumações e limpezas. Em caminhar sem plano nem destino.

E precisava de estar mais tempo assim a flutuar, noto isso a cada tentativa de regresso às tarefas que se acumulam à minha espera, faço-as muito devagar, resistindo. Nem a chuva ajudou.

E depois ele pediu ajuda, e só não farei por um amigo algo se não puder mesmo. Acabei assim nesta cidade tão mais a norte, à qual trouxe tantas vezes a minha mãe, no mesmo hospital ao qual a acompanhei regularmente para fazer a injeção que durante uns bons anos lhe salvou a visão. Nada previsto, nada suposto, nem sabia onde iria ficar, ele programou, não eu, uma raridade, toda a vida eu planeei tudo, excepção às últimas férias com a minha filha onde as coisas já não eram, nem são bem assim.

Ao mesmo tempo isto devolveu-me a mim, ainda sou eu, aquela que gosta de cuidar e tem jeito para o fazer, não tanto pelo cuidado do corpo do outro, mas pela capacidade de escuta, de fala, de humor. Alguém que acompanha, alguém que é companhia, sou capaz, ainda sou capaz. Neste cuidado reconheço-me inteira.

~CC~




terça-feira, 25 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz rir (III)

 

Eis o que não esperamos que um vendedor do Leroy Merlin nos pergunte, depois de nos dizer que não tem, nem é capaz de executar o nosso pedido, não obstante toda uma grande encenação com hora marcada e comercial designado.

- Já foram ao Ikea?

~CC~

domingo, 23 de agosto de 2026

Domingo de Saudade

 

Não me lembro dela festejar os anos, a não ser na época mais tardia da sua vida, talvez nos últimos vinte anos.

Não sei se era exatamente assim com todos os adultos das famílias pobres, festejar anos com bolo e parabéns em voz alta era uma coisa de crianças, só o fazíamos até à adolescência. 

Depois ela tornou-se um pouco menos pobre ou fomos nós que nos tornámos e com isso a tornámos também. Envelheceu, enterneceu-se, tornou-se mais frágil, mais doce. Com isso vieram as festas de anos, por fim, cada ano era também uma vitória sobre a morte. Queria sempre ficar bonita, sair, bolo de anos e prendas, queria festa e queria família. Tive duas mães, uma até aos 60 e outra que foi nascendo gradualmente dessa, cada vez mais diferente da anterior. Claro que transportava algumas coisas, a acutilância, a ausência de rodeios, o gosto pela beleza, o desprezo por quem não se cuidava, a vontade de viver, sempre ela, cada vez mais forte.

Hoje é Domingo de saudade, faria 98 anos.

~CC~

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

No escurinho caseiro



Este ano vi bons e menos bons filmes em ciclos de cinema ao ar livre que muitas cidades, mercê desses maravilhosos cineclubes que no tempo resistiram, ajudaram a criar.

Mas o mais comovente acabou por acontecer no escurinho caseiro. Primeiro apenas vislumbrei uma Fanny Ardant na RTP 2, bastante mais velha, mas tão bela ainda. Como sempre gostei muito dela, guardei o nome do filme: Jovens Amantes.  Não fui ver a sinopse e ainda bem, só agora a procurei e é tão banal, talvez não tivesse procurado ver o filme se a tivesse lido. Se não conseguirem ver na RTP 2, poderão encontrá-lo na RTP Play.

O título, não sei se igual em francês, ilumina tudo. Todo o amor é sempre jovem, independentemente da idade de cada um dos protagonistas, de ambos ou se têm idades muito diferentes. E é jovem porque implica uma coragem para saltar barreiras e medos, tudo o que aprendemos a reter com a idade, a barricar-nos, a não nos deixarmos ir, a não nos deixar surpreender. Compreensível o cansaço, o medo da doença, a repugnância do próprio corpo, a falta de paciência, com a idade já nada nos parece apaixonar, não há borboletas que acordem dentro de nós e, mal pretendem esvoaçar, tentamos afugentá-las. Na pressa de apagar o incêndio, apagamos o fogo. 

A protagonista deslumbra-se de tal modo que não resiste a ir, que brilho ganham os seus olhos negros. Mas volta depressa atrás quando o corpo lhe mostra a idade que tem e a doença que está já a dar sinais. Está ali, contudo, um homem que sabe cuidar, que quer cuidar, que sempre cuidou de tudo e de todos. E diz-lhe que enquanto estão vivos respiram o mesmo ar e isso é tudo o que importa, não o que virá depois. Para uma mulher bela, um homem belo, é isto que é deslumbrante no filme, não conseguimos escolher de qual deles gostamos mais.

~CC~


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz rir (II)

 

Mercado do Livramento, 16 de agosto.

- O melão é bom?

- Acho que sim...

- Acha que é mesmo?! Ainda não comi nenhum bom...

- Então, só comeu estragados?!


~CC~

domingo, 16 de agosto de 2026

Vida de planta marinha

 

As férias de nós connosco, estes momentos de interrogar o ar que respiramos, o que já passou, o que aí vem, o que ainda pode ser futuro tornando-o presente. 

Comparo este ano com o outro. Nas montanhas mágicas estranho-as, não lhes pertenço nem elas a mim, mas o desconforto é enrolado naquela paz única de um lugar cheio de histórias, fontes, pequenos recantos, muita arte, pessoas maravilhosas, tão seguras e fortes como as pedras grandes e roladas. Os olhos regressam verdes e emocionados. É o norte, esse lugar que me é estranho mas que permito que se entranhe.

Este ano esta segunda casa, esta cidade que conheço quase de cor como a minha, à qual pensei que nunca mais regressaria com gosto. 

E o mar, sobretudo o mar. Entrar logo sem hesitar, o primeiro banho da manhã ser de sal, o regresso fazer-se pela areia ainda cheia das pegadas das gaivotas que lá passaram a noite. A areia enrolada em mim, sem que me isso me importune. Não sou um peixe, tão pouco uma concha, talvez seja como as algas, ali soltas para cá e para lá, ondulando simplesmente, deixando-se planar, 

A ser, serei planta, talvez sim, planta marinha, às vezes escura e profunda, outras leve, solar, ondulante. As pessoas daqui não são tão bonitas, salvo algumas excepções, nunca me liguei muito a elas, para além de que um terço são turistas. É o sul, o lugar com aquele crepúsculo alaranjado no céu quente, trazendo na brisa um desejo de felicidade. Podia deixar-me um dia ficar, ou talvez não, seja sempre só este poiso de passagem.

Regresso sem dor, mas já com nostalgia, tão cedo não farei vida de planta marinha.

~CC~



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz...rir (I)

 

- Então, já tem os óculos?

- Para quê?! Eu vejo bem!


Conversa às 16h20m num dos cafés do bairro. Há sempre quem não corra atrás...ou porque não quer, ou porque não pode, ou por simplesmente por não se importar.

(a propósito do Eclipse de 12 de agosto do ano de 2026).


~CC~


domingo, 26 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XIX)

 

Bem sei que é estranho acabar em dezanove, normalmente o fim de uma rubrica acerta com um número par. Os passeios de Domingo iniciaram-se com a Primavera e terminam com o estio, este tempo seco e quente que nos amarra a um lugar outro e nos desata das teias que nos prendem aos lugares virtuais. Durmo mal no Verão, em contrapartida leio livros em papel e esqueço-me de quase tudo, deixo-me flutuar. Não sei se virei, se estarei ausente, prefiro deixar-me ir por esse veraneio, como se tivesse uma 125 azul. 

Este é oficialmente o último passeio de Domingo, por muito que eu queira refazê-los sempre, até quando a chuva chegar. Mas provavelmente outras vontades acontecerão, talvez música, livros ou cinema, ou apenas estados do corpo ou estadias da alma. É em setembro que tudo recomeça, mesmo que aqui venha antes.

Este passeio de domingo foi um revisitar do que é a família construída, 44 anos de amizade. Para combinar com isso uma praia de família, à moda antiga, com a barraquinha às riscas e o gelado na esplanada (quem adivinha?)



.

A garganta rouca do tanto que tínhamos para dizer um ao outro, já não nos víamos há 3 anos. Entre nós nunca houve nada escondido e tudo é esquartejado na mesa de operações, sobretudo as nossas almas doridas e os nossos corpos com esperança de vida. Apontamos os erros um ao outro com sublime cortesia, noutros tempos usávamos a navalha, e somos gentis nos conselhos que damos, na expetativa de que o outro se os seguir cure com sabedoria as feridas que expõe.

~CC~

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Se me disseres que morreste não acredito, não posso" (Adeus Luís Represas)

 

Cantou a luta, o protesto e o desalento...

Mas para nós, as miúdas dos anos 80, ele foi o nosso John Lennon e os Trovante os nossos Beatles. Quando o Represas cantava canções de amor havia um arrepio coletivo no feminino e ia dos 15 aos 25. Os nossos rapazes não escondiam uma pontinha de ciúme e embora nos dessem a mão e até um beijo, não entoavam com tanto entusiasmo como nós as canções. Sabíamos várias de cor e os concertos dos Trovante foram a primeira grande festa, a vontade de estar quanto mais perto do palco melhor pois eram todos lindos, mas um deles, com aquela voz meiga, era o mais lindo. Desfiz-me algumas vezes da minha timidez para entoar a preceito, certa de que no coro das amigas, mal se ouviria o tom fora de tom.

Tudo isto se passou antes dos mil festivais que há agora e da respetiva banalização das vestimentas a levar e das pulseirinhas, antes dos bilhetes serem escandalosamente caros. 

E dentro do possível o Luís Represas soube reinventar-se, não perdeu o sorriso, não azedou. Mas tudo já tinha mudado e eu também, por isso não fui aos últimos concertos, não percebi que provavelmente eram uma despedida. Saudosismo também não é o meu forte.

Finalmente alguém disse que morreu de cancro e não de doença prolongada, um termo que detesto, até porque o cancro pode ser fulminante. 

O sentimento matinal foi igual ao da canção (Sorriso) que mais amo dos Trovante, "não acredito, não posso". Certo é que envelheci outra vez, com ele também desparece um bocadinho da minha adolescência. Mas só me apetece dizer: Obrigada pelas borboletas. 

~CC~




domingo, 19 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVIII)

 

Hoje seria passeio de protesto, estava planeado.


 

Porém a dor de cabeça, seguida de dores articulares intensas, ligeira dor de garganta e muito cansaço instalaram-se como algo que não consigo designar correctamente e espero que passe nos 3/5 dias estipulados para não ter que procurar profissional específico para algo tão pouco específico. 

O meu coração esteve lá.

~CC~



 


sábado, 18 de julho de 2026

Seis pistácios e um gelado

 

Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.

O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.

Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho  de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.

~CC~

domingo, 12 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVII)

 

No último dia de estadia em Barcelona, consegui finalmente visitar o mercado mais conhecido da cidade. A variedade e tipologia dos presuntos e dos múltiplos fritos é o seu traço cultural mais original, ilustrando de forma clara que os mercados resistem à globalização, não obstante uma ou duas bancas de frutos secos iguais às que se encontram em todo o lado.

Entrar no mercado da minha cidade é assim viajar por si só na história, metade do espaço é ocupado pelas bancas de peixe e é lá que se respira o que é esta pertença ao lugar. É também prova de que é possível que o deslumbramento não seja uma coisa volátil e exclusiva da primeira vez, que possa acontecer uma e outra vez, sempre que levamos os olhos da alma a passear. Saio com os sacos repletos de beleza e os bolsos mais vazios mas também com um contentamento que estou longe de sentir quando saio de um supermercado. E nem me importo com os dez minutos que esperei porque o vendedor discorreu longamente sobre o tamanho descomunal das cerejas com o casal que estava à minha frente, apenas aguçou a minha vontade de as provar.

Poderão considerar que isto não é bem um passeio, mas se caminho, apanho sol, vejo cores e trago renovação e ainda resisto, isto deve se poder classificar nesta categoria. Perto de vós há certamente um mercado, não o deixem morrer, nem transformar-se num gigantesco recinto de restaurantes e casas de comida de uma cadeia qualquer,  uma coisa é poder comprar-se um acepipe, outra é transformar todos os mercados à imagem do Mercado da Ribeira (uma mostra de bancas de chef promovida por uma revista de Turismo).

~CC~


sexta-feira, 10 de julho de 2026

As meninas Gaudi

 

É verdade que as construções de Gaudi são abraço intenso entre arte e natureza, um desafio permanente ao equilíbrio das formas e uma ode às cores do universo, uma oração à capacidade onírica, um conto de fadas, ogres e de monstros entrelaçados nos nossos sonhos, um retrato de como as emoções circulam em nós. Tudo em absoluto contraste com a cama modesta e minimalista em que o arquitecto dormia e com o abrigo em que se escondeu, por fim, na Sagrada Família, em fusão com a excentricidade do templo que queria erguer. Infelizmente os apontamentos imersivos, feitos à medida do turista, com poesia fácil e efeitos de inteligência artificial,  estragam o que queremos ver e sentir só por nós. 

Assim, a minha imersão mais bela e genuína aconteceu com duas meninas, gémeas, saídas do universo Gaudim, banhando-se na praia, em frente à Barcelonete. Vestidas como dois seres fantásticos, fatos de banho rosa, azul e branco, com brilho ligeiro, toucas cor de rosa com longa crista de bicho, óculos de mergulho pretos, elas não eram bem seres humanos, mas quase animais marinhos. As meninas entravam na água, mergulhavam e emergiam em longos bailados exóticos, enquanto a jovem mãe (suponho) as fotografava com desvelo. Quando a mãe desistiu das fotografias, a festa tornou-se mais livre, mais surpreendente e mais autêntica, contudo nenhuma delas se livrou da vestimenta, como se a tivessem incorporado no seu modo de ser. Entre os seus mergulhos e as ondas do muro do pátio principal do parque Guel tudo se alinhava nessa homenagem ao mediterrâneo que eu própria senti pela primeira vez.

~CC~ 

domingo, 5 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVI)

Desta vez o voo, aquele desejo de não ir. E ao mesmo tempo de ir.

Depois o deslumbramento de uma nova cidade, de um outro país. Barcelona, quase quarenta anos depois.

É uma cidade vibrante e resistente e os habitantes querem que ela lhes pertença. Pela segunda vez não consegui bilhetes para a Sagrada família, pela segunda vez não me importei, o que eu mais gosto nos lugares são os lados avessos ou os monumentos incríveis que estão nos rodapés dos guias turísticos. 

Amanhã o roteiro desvia-se para a universidade, deve ser também um coração que bate com força mas não venho com a capacidade de me entregar o suficiente a essa vibração.

Mas a cidade e a companhia lavaram-me de outros cansaços. Doem-me os pés de tanto caminhar e os olhos estão cheios de beleza, metade da pele já se renovou, a outra metade é uma obra demorada.

~CC~

terça-feira, 30 de junho de 2026

Largar a pele

 

Hoje, um estudante, numa troca de mensagens, acabou a sua comunicação com um "ah, ah, veja se descansa". Não faz o estilo bom aluno, é reservado, às vezes parece não estar lá, e vive num mundo muito particular, do qual sai com esforço para interagir connosco, mas quando o faz é normalmente acertado, e muitas vezes até contesta as coisas. Achei, por isso, muita graça que ele terminasse a comunicação comigo assim, não apenas pela audácia mas pelo conhecimento que parece ter revelado sobre um momento muito particular da minha vida.

É difícil explicar-vos porque é difícil explicar a mim própria, hesito em dar nome ao que se tem atravessado dentro de mim. Numa visão optimista, considero que é apenas o cansaço do final de um ano letivo, numa visão pessimista tendo a pensar que há algo mais. Às vezes tento a explicação do cansaço pela biologia, devo estar com uma anemia como aqui há alguns anos em que mal conseguia subir uma escada, mas depois acho que não é, ou não é apenas. Aconteceu-me no outro dia algo absolutamente estranho, estavam muitas pessoas sentadas à mesa, muito animadas e a falar e a opinar pelos cotovelos. E eu não conseguia dizer nada, não conseguia que me saísse da boca uma única palavra, como se de repente tivesse ficado muda. E só desejava que todos se calassem para eu poder ouvir os pássaros. Levantei-me e fui até um sítio em que não podia ouvir a voz humana, fiquei lá um bom bocado, mas não completamente tranquila, com receio que viessem à minha procura. Era outra vez a adolescente que se escondia do mundo, como era isso possível?!  Eu, em geral, costumo descrever-me como alguém que gosta muito de pessoas, achava mesmo que era o traço mais consistente da minha personalidade.

Sou neste momento um liquido com demasiado sal e/ou demasiado açúcar, a densidade do que em mim circula está a fazer-me implodir, não consigo conter mais informação, mesmo quando ela é boa e preciosa, necessito de uma espécie de purga para voltar a ser água límpida, transparente. Acontecem coisas demais ou sou eu que as faço acontecer em excesso. Se calhar é de mim própria que estou cansada e tenho que largar a pele como fazem os bichos.

~CC~




domingo, 28 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XV)

 

A de Alentejo, A de Alvito.

Todo o cante inteiro, o que ainda nasce na Taberna da Associação.

O Alentejo que ainda não morreu, não cedeu, não se vergou, o que não está intocado mas mexe como um corpo vivo. Uma parte igual, uma parte reinventada, uma vontade tão grande das pessoas em permanecer e fazer renascer, umas que nasceram lá a primeira vez, outras que nasceram lá a segunda vez.

Aprendi tanto sobre o lugar, desde a história, à arqueologia, à comida e ao cante, que poderia encher muitas e muitas páginas, sei que voltarei às palavras que de lá trago pois é demasiada beleza para guardar só para mim. Pensava saborear o vagar mas só provei o pulsar e cheguei exausta do muito que ouvi e vi porque escutar com todos os poros é intenso. Há coisas que parecem uma coisa e depois são outra e segredos que só se sabem quando se priva com quem os quer partilhar. Diria até como legenda para as três fotos que vos deixo: uma gruta não é uma gruta e uma ermida não é uma ermida e alguém que descansa pode não estar a descansar.


 






~CC~

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tirar apenas metade do mel

 


Hoje, ontem, amanhã, sempre com os que sofrem, dores que estão lá e podiam estar aqui. Sabemos que a terra tem as suas iras, manhas e rugidos, mas nós não queremos saber ou ouvir e por isso colocamo-nos à sua mercê, com habitações em leitos de cheia, falhas sísmicas, falésias e barrancos de terras instáveis. Esgotamo-la e com isso nos vamos esgotando também. O azar existe, mas não é apenas o azar que faz os mortos nas catástrofes, são anos e anos de indiferença e de ganância.

Neste filme lindíssimo, a mulher sabe que só deve tirar metade do mel e deixar a outra metade para que as abelhas se alimentem. 


 


Vivem anos nesse equilíbrio mágico. Mas um dia chega alguém que a querendo imitar não o consegue fazer, não tem a sabedoria ancestral e não ouve quem a tem. Torna-se presa fácil do primeiro comerciante que quer vender mais e mais. E quebra o equilíbrio, destrói a fonte e o recurso e com isso chega a fome, a tristeza. 

Aguentei o frio do terraço (este terraço do Cineteatro S. João arrefece até nas noites mais quentes) para saborear um filme que nem julguei próprio e possível para pessoas que têm medo de abelhas. 

~CC~




domingo, 21 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIV)

 


São 19km a partir da estrada principal, mas se tomar essa estrada sei duas coisas. Uma é que terei que ir mesmo muito devagar, contornando os buracos e as crateras. Outra é que dada a velocidade lenta, demorarei o dobro do tempo do que seria expectável. Como recompensa terei a paisagem verde dos arrozais, as cegonhas a debicar minhocas, os pinheiros mansos verdíssimos em diversos tamanhos, uns a despontar e outros já a contarem vidas antigas. Cruzarei apenas dois ou três carros neste caminho. E chegarei pelo lado mais improvável à vila que uma associação dedicada à leitura* decidiu colocar no mapa, assinalando em murais e árvores todos os nomes dos escritores que por lá passam a falar da sua obra, num desfile de temas que os agrupa de forma interessante. Já não temos apenas Óbidos, agora temos a Cabrela. O tempo dirá se apenas teremos um desfile de glórias que mercê de boas doses de conhecimentos no meio e saber de relações públicas consegue atrair públicos de vilas e cidades próximas, ou se mais alguma coisa se enraizará por dentro desta vila. Oxalá se trate de diálogo e de imersão e cresça como um rizoma, sustentando e sustentável.

Hoje houve um piano ao final da tarde, muito bonito o relvado intergeracional e o bilhete, ainda assim, acessível. Foi um bom modo de comemorar o dia mais longo do ano, mas ao mesmo tempo que é o mais luminoso, anunciando o começo do verão, mas também já o leve declínio que virá dia a dia roubar-nos um pouco de luz. Mas é assim quando nos sentimos felizes, temos receio que acabe ou não volte e apetece-nos emoldurar para desfrutar nos dias mais sombrios.



~CC~

* Lar, doce ler.


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Todo o amor é atenção

 


Ele disse duas vezes: tem que ser aqueles queques com nozes, a minha mulher só gosta desses...e quando veio embrulhado, repetiu bem alto para todos nós que lhe levava um de surpresa, sorriso na cara: é para a minha mulher.

Tenho para mim que um dos sinais do amor é esse apontar do que o outro gosta e que, quando se esboroa, é como se se perdesse também a memória dos pequenos gestos que podem fazer o outro feliz. Mas nem é preciso que seja amor entre homem e mulher, de forma genérica todo o amor é atenção. Lembro-me do chocolate que a minha mãe gostava mais, de lhe levar várias vezes esse bocadinho de felicidade, enquanto o pode comer.

Na fila do supermercado o senhor, por sinal bem obeso, elogiou a funcionária: cada vez mais elegante! Ela sorriu meio envergonhada, e notando a mulher ao lado dele disse: a sua mulher também está bem. Ao que o homem respondeu: não, ela está cada vez mais gorda! Por mim, teria ali acabado um casamento. Mas há sinais semelhantes, não tão ostensivos, entre muitos casais. A falta constante de atenção, de elogio, de consolo, é isto a morte do amor.

Os gestos que guardamos são estes pequenos, sinais de que o outro nos vê.

~CC~


domingo, 14 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIII)

 

Por vezes a agenda contrai o Domingo e o desejo de expansão esbarra nas tarefas inadiáveis, no cansaço da semana e na antevisão de muita gente em lugares desejados. Sobra-nos o que é próximo, seguro e familiar. Certos lugares são mesmo como a extensão da minha casa e assemelham-se assim à voltinha de Domingo da qual a minha mãe falava com uma certa tristeza, ela a querer ver mundo e ele a mostrar-lhe o quintal. Conforto-me mais do que ela porque sei que depois haverá uma volta maior, ela passava a vida à espera desse alargar do círculo.

Este largo é o dos meus lugares favoritos e esta janela abre-se para outro deles, acresce que em junho há cinema naquele terraço, já lá vi belíssimos filmes, por vezes resistindo a um frio de rachar. Este ano o programa é curtinho, e já vi pelos menos um dos deles (o espantoso Valor Sentimental), mas recomendo-vos estes lugares que no Verão nos oferecem um tecto debaixo das estrelas. 

Fiquei quase no meu sofá, se bem que um domingo em que me deixe ficar literalmente nele só pode ser por duas razões: doença ou tempestade. 

~CC~





quarta-feira, 10 de junho de 2026

Hei-de voltar para comprar um fato de banho

 

Com a idade ganhamos manias, pequenas coisas que nunca pensámos condizer connosco. Eu gosto de comprar soutiens sempre na mesma loja e preferencialmente do mesmo feitio e da mesma marca, desde que me senti confortável com aqueles nunca mais quis outros. Mas estou sempre em pânico que a loja feche, a senhora já é idosa, é uma retrosaria pequena, na baixa da cidade, não é fácil lá ir. Já procurei noutras lojas e não encontrei.

Finalmente, num pequeno rasgo de tempo, consigo lá ir. Quando chego e vejo a loja ainda aberta, sinto uma grande alegria e desta vez exprimi-o alto: ah, ainda bem que não fechou! Ora a senhora, para quem eu não olhei bem ao entrar, começou a lacrimejar. Só depois reparei que estava toda de preto e que tinha encarado a minha frase como se eu soubesse de tudo. Tinha perdido o filho em quinze dias, quando assim é, já sabemos que é o maldito pâncreas que, sem avisar, resolve claudicar. Lá lhe disse que não sabia, que tinha só receio porque as lojas da baixa estão sempre a fechar. Fiquei ali de mão dada com a senhora, a ouvir a sua história, marido e filho perdidos para a mesma doença que, no caso específico, dizem não ser hereditária. Já nem sabia como voltar à compra do soutien. Optei antes por lhe contar em versão resumida minha história para ouvir dela aquelas palavras que me fazem sempre muito bem, que não parecia nada, que ninguém diria. Mas o que importava mesmo era elogiá-la, estar ali aos 82 anos depois de ter perdido dois entes tão queridos, isso é que era mesmo heroico. Estamos vivas, conclui: a minha mão na mão dela. 

E por fim: hei-de voltar, disse-lhe, para ver os fatos de banho, mas hoje só queria mesmo um soutien daqueles...e ela, pois claro, pois claro, sabia perfeitamente o que eu queria...2 minutos tinha o soutien, provavelmente também uma multa de estacionamento, mas que importa, dei por bem gastos os 45m que lá passei.

~CC~


domingo, 7 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XII)

 

Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.

Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.

Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.

Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.

De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.

E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.

Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.

~CC~

sábado, 6 de junho de 2026

Breves do Sul (III)

 


Sim, sou eu na foto. Tal e qual eu.

~CC~

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Breves do Sul (II)

 

Para entrar no mar, neste sul, há uma faixa de pedras e pedrinhas a ultrapassar. Não há conchas, não sei o que lhes aconteceu. Não é muito agradável pisá-las, mas também não ferem os pés. Mas há ali uma clareira, talvez de uns 3 metros, sem qualquer pedra, aproximo-me para ver. Alguém as apanhou e juntou todas num monte, obra de paciência. 

Não vi nada nem ninguém, por isso tento imaginar quem seria e porque razão o fez. Hesito entre o altruísmo e a ociosidade, e por momentos foge-me o pensamento para amor. Imaginem alguém a tirar as pedras do caminho do seu amado ou amada para que pudesse entrar em pleno na água, sem o mínimo desconforto. Também poderia ser amor filial, uma mãe e um pai, que no seu desvelo, quisessem que a criança brincasse sem tropeços na orla do mar. 

Tendo, porém, a considerar a ociosidade da praia um aspeto mais provável, há nesta altura muitas pessoas que parecem estar aposentadas e que poderão encontrar labor alternativo, preenchendo o seu tempo nas artes efêmeras da areia, das pedras, das conchas, pessoas engenhosas. Ou alguém de coração grande, criando um corredor para uma entrada na água mais veloz ou mais tranquila, sem destinatário específico.

Estão ali as pedras e não me contam nada, por mais que lhes pergunte.

~CC~

quarta-feira, 3 de junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Breves do Sul (I)

 

Vejo-o ao longe, é branco e azul, belo carrinho de bolas de berlim. Atrás dele vem uma senhora, talvez entre os 50 e os 60 anos, por certo não é nova no ofício, até porque o carrinho ostenta o seu nome em versão de diminuitivo, creio que é um marketing doce muito antigo, quando esse nome talvez nem se desse às coisas. A primeira paragem é junto ao nadador salvador, penso se ele, estando em funções, irá inaugurar assim a sua manhã, talvez não tenha tomado o pequeno almoço.

Mas não, apenas se cumprimentam efusivamente, dois beijinhos e um abraço. Mais um Verão, dizem ambos alto e riem assim juntos, em pleno reencontro. 

~CC~

domingo, 31 de maio de 2026

Passeio de Domingo (XI)

 

Já vos falei da estrada para o Sul?!

Há nela três nuances de paisagem. Até Grândola, os pinheiros mais pequenos ou mais altos e o terreno arenoso combinam com a proximidade do mar, não obstante ali nada se adivinhar e há tantos pinheiros novos este ano, devo ter sido do Inverno chuvoso. Depois de Grândola e até Aljustrel, é planície, com o aproximar do Verão e o calor das últimas semanas, desapareceram as flores amarelas e roxas que vi em Fevereiro,  aquelas altas giestas de encher os olhos. Nesse ondular suave e sereno de cor dourada, sobressaem aqui e ali os sobreiros, chaparros que abrigam pessoas e animais, árvores casa. Depois de Ajustrel a paisagem é serrana, crescem as curvas, os barrancos, há mais arbustos, mais mato. 

Contei apenas dois rios, um deles, o Sado que se repete duas vezes e numa delas diz em letras pequeninas Sul, fico sem saber se o que corre na minha terra é Norte. Há várias ribeiras, mas nunca nelas vi correr água, apetece-me segui-las, ir ver se algures mais adiante a ribeira do Roxo e a da Messajana são mais do que meras tabuletas que se anunciam na estrada, lavar o rosto nelas. Mais tarde diria: era quase Verão e fui lavar os olhos na Ribeira do Roxo. Estes desvios, queria ter tempo para eles, imagino que um dia sigo estas vontades, perco mapas e destinos. As cegonhas também parecem já ter partido, não as vejo ao longo de todo o caminho.

Ao Km 141 há um vislumbre de um novo Alentejo, cheira intensamente a azeitona e adivinham-se os olivais intensivos. Reconheço este cheiro, já lá vão uns bons anos que se atravessa no meu atravessar.

A estrada para o Sul não é um passeio, é um anunciar de passeios, ou mesmo um estado de espírito, e a sê-lo, é algo que combina com o canto das cigarras. Uma metade de mim já está com elas, a outra não pode.

~CC~


sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre a fragilidade dos laços humanos

 

Desde que Bauman lançou o livro "O amor líquido", instalou-se, com alguma clareza, a similitude entre a sociedade de consumo e o modo como se encaram na modernidade as relações afetivas, vulgo consumir o produto até haver produto melhor. Escuto os mais criativos nomes para essas relações, há quem lhes chame leves, coloridas, descomprometidas, voláteis, nomes até bonitos para outros que possam soar mais feios. 

E, contudo, a mim só me parecem nomes para colocar a uma coisa: não há amor.

Quem ama sabe da cola que une, do abraço que protege, do desejo que assoma à pele, da vontade do outro que é semelhante à fome que nunca se sacia completamente. Sabe que o amor é uma prisão mas não é aprisionar o outro, é querê-lo livre perto de nós.

Prefiro os que amam, os que sabem que o amor acaba, os que sofrem porque o amor acaba, os que esperam que o amor volte, os que desistem do amor, os que não querem amar, os que querem amar.

Só os seres generosos amam e eu amo os seres generosos.

~CC~

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Três jacarandás

 

Vi-as pequeninas e duvidei que crescessem, durante muito tempo eram só uns arbustos sem graça, poucas folhas, nenhumas flores.

Mas são agora três belos jacarandás, estão em flor, e o maior está mesmo por baixo da minha janela. Bebo o seu lilás como se a sua cor mitigasse o meu corpo fatigado, há coragem em florir.

E vejo agora que devia ter acreditado que um dia seriam belas árvores, em vez de duvidar do que ainda é pequeno, frágil e hesitante. Deixar ganhar a descrença é fácil, o caminho inverso é mais árduo, penoso e com muitas curvas. 


~CC~

domingo, 24 de maio de 2026

Passeio de Domingo (X)

 Não é que tenha passeado muito, saia cedo, chegava tarde e passava o dia a ouvir pessoas a falar, tendo que tomar notas de tudo (ou quase) o que diziam. Valeu-me o lugar ser bonito, aquele intenso verde ao sair e ao chegar aliviava tudo. 

Mas passei a semana fora de casa, pelo que sinceramente, no regresso, só queria ninho. É claro que com este calor uma imagem de mar era apelativa, mas só de pensar na confusão inerente, aliada à mala por desfazer e tanto por organizar, fez com que o passeio possível fosse curto e a um lugar meu. Sei que quando vou lá é também ir a uma parte de mim, ali respirei tantas vezes no tempo da pandemia, e muito antes, quando estava longe de ser o que hoje é, era apenas um sitio escondido, mal conhecido, quase secreto. Quando o conheci, antes da obra, que foi tudo menos museológica, ainda funcionava como moinho de maré e ainda conheci o seu último moleiro, apesar de estar há anos desativado. Ainda é um lugar muito bonito, não obstante poder ter sido feito melhor e diferente naquela recuperação e relativamente ao projeto que hoje é.  Acresce que o terreno sofreu consideráveis estragos este inverno e esteve muito tempo interdito.

Se vierem às terras do Sado, procurem o Moinho de Maré da Mourisca, falem um bocadinho com as garças, se tiverem sorte avistarão ao longe os flamingos. Gosto de me imaginar assim livre, que abro asas e voo. E sinto que estou cada vez mais perto ou que já estive mais longe.

~CC~













quinta-feira, 21 de maio de 2026

Também há pão quente com manteiga

 


É aqui, às 8h quando passo já abriu, lá em cima as duas cerejas que à casa dão nome, gostam assim delas tanto como eu. Quando volto, já estão em arrumações para fechar, mas sempre sem pressa. As pessoas passam e cumprimentam, assim já já sei os nomes do casal. De uma simpatia impar, hoje comprei apenas uma banana pedindo desculpa por só levar uma. De volta um "a menina leva a quantidade que quiser, se é só uma que precisa...". E os preços nem são exagerados, atendendo ao lugar em que se está. Já cá tinha vindo muitas vezes em visita mas sinto que nunca vi o mais importante, não que os palácios não sejam lindos e as magnólias um espanto, mas agora conheço a senhora brasileira que me serve o pão quentinho com manteiga derretida (ah quanto tempo não comia isto ao pequeno almoço) e sei que o sonho dela é morar no (meu) Algarve. E que o menino, o menino que ainda mal anda, gosta muito de praia.

~CC~


terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.

sábado, 16 de maio de 2026

Trio de Eclipses

 


Leio que chegará muito em breve um trio de eclipses inigualável. Imagino os caça eclipses de mochila às costas prontos a invadir a península ibérica para ver o dia se tornar noite.

Contudo, parece-me que eles já foram chegando, os tempos são de chumbo, parece possível a luz que criou as democracias se ir apagando.

E eu tenho dias cheios de eclipses, nem sei se são só um trio, há um apagão que por vezes me invade e uma vontade tão grande de encontrar um buraquinho onde me esconder do ruído das coisas, às vezes ensurdece.

Mas um buraquinho com sol, sem eclipses, em uno, duo ou trio.

~CC~

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~

domingo, 10 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VIII)

 O trabalho agarrou-me ao território.

O vento, de tão forte, colou-me às paredes. E elas falaram. Há, nos vossos lugares, paredes que falam?

~CC~








sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~


terça-feira, 5 de maio de 2026

Como numa dança

 

A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.

Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem  pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.

~CC~

domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre

terça-feira, 28 de abril de 2026

Roubam-me Maio

 


Se por acaso Maio me calar, não é pelo pólen que me invadiu os olhos e o nariz, pelo sabor dos morangos ou pelo apelo a entrar por dentro do verde num passeio sem fim. É apenas por ser o mês mais intenso de trabalho ao longo de todo o ano, é um paradoxo que assim seja, uma antítese à poética do mais belo dos meses, um teste à minha paciência, um tormento que tento aligeirar com a promessa que virá Junho e depois Julho e em Agosto o corpo se entregará a qualquer dormência que o chame.

Para cortar o lamento desta difícil coexistência do chamamento das flores com a labuta do computador, penso em coisas risíveis, minimamente divertidas. Hoje lembrei-me dessa senhora chamada Agatha Christie. Dizia ela que toda a mulher devia ser casada com um arqueólogo, pois eles apreciam-nos cada vez mais à medida que envelhecemos. E ela sabia do que falava, que sabedora.

Preciso de rir para esquecer que me irão roubar Maio. 

~CC~


domingo, 26 de abril de 2026

Passeio de Domingo (VI)

 


O Domingo foi ao sábado e o passeio só podia ser um: descer a Avenida da Liberdade gritando 25 de Abril sempre, enchendo o peito da alegria. E que alegria havia ali, era espessa, colorida, vibrante, irei retirá-la em micro doses quando dela precisar. Este ano impressionou-me a presença de tantos jovens e, entre eles, de tantas mulheres. O corpo que acorda moído do cansaço desta festa é um corpo renovado.


~CC~

Nota: difícil captar fotos sem rostos e sem permissão não me arrisco a trazê-los, não partilho da ideia de que quem está no espaço público se sujeita a ser fotografado/a  e a foto tornada pública. Contudo, muitos aqui ofereciam sem receio e até com orgulho o seu rosto à câmara e até isso era bonito.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Maçã Mágica

 

Deslumbra-me o amor mesmo quando não o vivo. Aprecio as histórias em que ele brota como um pequeno regato e tem a coragem de crescer e rebolar até se tornar rio. Ainda mais quando as pessoas já não são novas e carregam vários desencantos. E dessas histórias que vejo nascer não tenho nenhuma inveja, pelo contrário, contento-me com o contentamento dos outros, sobretudo se deles gosto. Por isso perguntei-lhes se podia escrever a história deles, riram-se, mas sei que sabem que escrevo, não sabendo onde.

Tudo começa com uma maçã. Não se riam já, é verdade.

A. cultiva um pouco de tudo, tem maravilhosas macieiras, uma delas dá maçãs grandes e saborosas, sem químico algum. Essas maçãs foram levadas por uma amiga próxima, guardava uma na mala todos os dias para os momentos de fome ou gula. Mas eram maçãs grandes e ela conseguiu comer apenas metade. Ele estava por perto e ela deu-lhe a outra metade, costuma ser muito convincente e conseguiu porque a anunciou como a maravilhosa maçã de A. E ele sabia quem era A, tinham sido colegas há muitos anos, mas nunca tinham estreitado relações, eram distantes. Enviou-lhe uma mensagem curta agradecendo a metade da maravilhosa maçã que comera. E ela disse que se quisesse podia vir buscar mais, que a fruta das árvores era para os amigos e só uma vez por mês ia ao mercado.

Maçã mágica.

Parece que este Domingo A. as venderá no mercado, na companhia dele, rendido.

~CC~


domingo, 19 de abril de 2026

Passeio de domingo (V)

 

Pratiquei com tanta alegria a capacidade de não me deixar condicionar pela pilha de coisas em atraso que às vezes me arrisco a pensar que estou em processo de mudança de personalidade. Conseguirei deixar para trás o meu peso formiga? É verdade que mal abri a porta de casa, impôs-se a pergunta: como é que vou recuperar durante a semana todo o trabalho que não fiz no fim de semana? Mas ao mesmo tempo perdoei-me porque não é justo ter que pensar assim, ter que sentir tanto aperto no peito já lá vão tantos anos.

Juntei sábado e domingo como uma coisa só, destinada a viver de manhã à noite o gosto da Primavera, dos amigos, das artes. Sinto em mim o cheiro do campo, é como se toda a serra de Montejunto se tivesse impregnado com a sua beleza dentro dos meus olhos. De serra em serra talvez ainda consiga perder o medo das alturas, o medo dos planos inclinados.

O conselho desta semana é assim muito simples. Sabe onde moram os seus amigos? Procure-os, passeie com eles, abrace-os, faça-lhes perguntas que revelem o seu interesse por eles, deixe também que eles perguntem. Peça que lhe mostrem os lugares deles, os que tratam pelo nome. Foi assim que fui ver representar uma amiga que faz teatro amador numa cidade que não pisava há muitos anos. E já tinha sido cidade abrigo para mim logo no inicio da minha carreira.

Tanta é a luz que mora nas noites quentes.

~CC~








sexta-feira, 17 de abril de 2026

Das coisas dos dias

 

Sou avessa às aulas online, apesar de ter compreendido o seu valor nos tempos pandémicos. Obrigada a fazer um curso na área por força do que aí vem para a instituição, creio aquilo que o formador designa como inovação poderia ser designado apenas como poupança de custos. Ele é mesmo muito aborrecido apesar do que apregoa, nada nele me prende ou motiva, pelo contrário, esvazia-me. 

Ao mesmo tempo gostaria muito que ele tivesse vindo à minha aula online ontem para perceber como tudo pode ser interessante nas antípodas do que sugere. De facto, a colega do riso grande conseguiu mostrar-me muito mais do que ele que o online pode ser social, alegre, divertido e um lugar de partilha. Fez uma bela sessão de Sociodrama online, algo que sempre me pareceu quase impossível. Imaginar uma roda num lugar em que vemos uma filinha de quadrados e trazer tanto de nós quando a distância se impõe.

Ainda assim, cansaço muito maior do que numa aula presencial, o corpo sentado é um corpo sempre dormente. E as pessoas são só uma metade.

~CC~

domingo, 12 de abril de 2026

Passeio de Domingo (IV)

 

Às vezes o vento sopra com excessiva intensidade, o trabalho pesa sobre a mesa e os ténis ficam arrumados, sem possibilidade de uso. A vontade de ir mais longe guarda-se para depois.

Sobra-nos o passeio nos lugares que já vimos, se possível com olhos que nunca usámos. Fica-nos assim a rua próxima de casa, a avenida central da nossa cidade, as árvores cujo nome conhecemos, as esculturas que já não são novas, as portas e as janelas das casas que um dia descobrimos que eram belas.

E apesar da falta de novidade, da ausência da emoção que acompanha o desconhecido, da certeza de não termos o deslumbramento para onde nos levam os novos caminhos, percebemos que é bom ver o que já vimos, gostar do que já gostámos, olhar para o que já olhámos. E mesmo no já visto encontramos o encanto das coisas exploradas, que por o serem, são também muito nossas, como se parte do nosso próprio corpo.

Foi assim esta semana, apenas a Avenida, a grande avenida que existe na minha cidade. E lembrei-me do Rui Veloso. 

E a vossa avenida, como é? Guardem para ela um Domingo em que não possam ir mais longe.

~CC~








sábado, 11 de abril de 2026

A mão esquerda

 

Quando algo nos acontece a uma mão ou a um abraço, segue-se a pergunta imediata, receosa, e o desejo afável: espero que não tenha sido na mão direita.

A mão direita é um bem precioso e a esquerda, a que ajuda, apoia, está lá discretamente. É como algo silencioso, aquilo que não damos conta, a que não atribuímos valor. É igual a um amigo a quem não dizemos de quanto gostamos, a um amor que tomamos por garantido.

Há meses com umas bolhas estranhas no meu polegar esquerdo, fiz de tudo para que sarassem sem necessidade de recurso médico. Simplesmente colocava um penso por cima. Sabia que tinha feito ali uma queimadura há uns tempos atrás e achava que a pele tinha ficado irritada, sensível. Depois tudo piorou e o diagnóstico apontou a infiltração do vírus e o tratamento, algo radical e doloroso, que parecia estar a resultar, parece agora inverter-se, o vírus resiste. Nunca tinha avaliado o valor incrível de um polegar. A falta que ele me faz para tanta coisa. A forma como a ausência de um dedo afecta toda a mão e como a falta de uma mão me deixa mais lenta, mais incapaz, mais vulnerável. Parece um mero pormenor, uma coisa sem importância, uma vírgula no texto. E, contudo, é tanto.

~CC~

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Saudade do inteligível

 


A miúda teve cinco negativas e por isso é preciso cortar alguma coisa, acabaram assim as séries e a autorização para as dormidas ao sábado à noite na casa das amigas. Encontro amiúde isto, um castigo não só deslocado do problema como sem nenhuma análise do mesmo. 

Mas devia espantar-me pouco, se os os adultos poderosos no topo do mundo são incapazes de analisar problemas e pensar em estratégias adequadas para os resolver, como poderá fazê-lo aquela mãe, a educar uma filha sozinha, a sair às 7h todos os dias no comboio Fertagus e a regressar às 19h.

A racionalidade é decididamente uma coisa fora de moda, como se todos tivéssemos deixado de saber que 2 + 2 são quatro e todos estivéssemos autorizados a dizer que a soma dá qualquer outro número, a verdade é uma coisa relativa e a mentira afinal não existe, tudo é uma coisa que pode ser afinal uma outra. 

Moldada no paradigma positivista da Psicologia que tanto trabalho me deu a desmontar e a criticar, nunca pensei ter disso alguma saudade. O caos que tanto me pareceu fascinante em tempos, agora só me parece sombrio, e tenho vontade da ordem, não como limite da liberdade, mas no que ela permite explicar e iluminar caminhos e dizer coisas inteligíveis. 

~CC~

domingo, 5 de abril de 2026

Passeio de Domingo (III)

 

É uma terra estranha esta a de Mira d´Aire.

Já foi um ponto forte do turismo por causa das suas grutas, vieram excursões e fizeram-se parques de estacionamento junto a cada entrada, agora quase sempre a menos de metade da sua capacidade de ocupação. O interesse pelas grutas foi passando, ainda que se mantenham abertas e ainda venha gente curiosa. Nunca lá entrei, não obstante as muitas vezes que vim, tiram-me a possibilidade de ver o céu e a rejeição nasce.

Já foi um lugar de indústria forte, aqui se teciam tapetes e mantas e havia uma fábrica em cada esquina, a maior parte estão abandonadas e os edifícios devolutos ou  tornados outra coisa. Não resistiram à invasão da mercadoria muito mais barata, ao decréscimo dos rebanhos, à mão de obra emigrada para paragens onde se pagava melhor. Guardo com muita ternura a visita a uma pequena fábrica que ainda há uns anos estava em funcionamento, os teares são arquiteturas magníficas de sentido e engenho humano, gostava de saber tecer.

A vila em si é pouco atrativa, na esteira do desenvolvimento dessas épocas áureas vieram os prédios de má qualidade e derrubaram-se as casinhas de pedra. Mas há, sobretudo entre a serra e dentro do concelho de Porto de Mós (a serra está dividida em dois concelhos), aldeias ainda bonitas, revitalizadas e reconstruídas, algumas por estrangeiros. 

E há o céu grande lá em cima, cortado por grandes aves, muitas de rapina. E há sempre algo que não tinha visto antes, na visita anterior. Desta vez foi o curioso miradouro da Azelha. Fosse só um miradouro e eu já gostaria. Mas tem uma seta que diz a que distância estou do lugar em que nasci. E distâncias de outros lugares. Fiquei ali algum tempo a observar as setas, os países e as direcções. Mas nada constava sobre a ideia subjacente. Só pesquisando soube. Trata-se de uma homenagem e que bonita. S. Bento é uma comunidade espalhada pelo mundo e a sinalética aponta para os 14 destinos com gente da terra e a respetiva distância. 

É preciso persistir nessa memória, também nós partimos em busca de melhores condições de vida, talvez isso se nos indigne mais quando ouvimos alguém a dizer a um outro que vá para a sua terra.

~CC~








quarta-feira, 1 de abril de 2026

Paeonia broteroi

 

São as minhas rosas da Páscoa. Um ritual que cumpro com a invariância de todos os meus rituais, uma vezes sim, outras não. Mas assim que cheguei à aldeia fui à procura delas. E encontrei-as. São belas, esquivas, selvagens e muito frágeis. Tento datá-las na minha memória, talvez tenha sido em 2014 ou em 2015 que delas ouvi falar, pela voz das crianças que moravam nesta serra e às quais perguntámos por aquilo que nela era genuíno e identitário e elas nos disseram: a rosa albardeira. Tecemos então uma história e depois um teatro e elas representaram-no, creio que só hoje temos noção de quão felizes fomos.

Estas rosas que em nada são rosas, numa improvável combinação que resulta bela de cores rosa e amarela. Gostam de altitude, não amam o sol nem a sombra, gostam de solos siliciosos, de se abrigar nos bosques com azinheiras junto às quais nascem. O seu habitat natural não são os jardins, embora haja quem as consiga ter. Se as apanharmos, depressa morrem. 

O nome Péon é a de um deus que é médico dos deuses, entre os dons curativos da planta está a de curar pesadelos, deve ser por isso que nesta aldeia o meu sobressalto noturno se vai tranquilizando. Tal como as rosas albardeiras, só consigo chegar na Primavera, antes dela este frio e humidade afasta-me daqui para Sul. 

Somos flores, sou flor, sou esta flor.

~CC~


Alvados, 1 de abril de 2026

domingo, 29 de março de 2026

Passeio de Domingo (II)

 

É bom ir longe à procura do desconhecido. 

Mas o desconhecido pode morar bem perto. É uma placa de rua que não reparámos mas que esconde o nome de alguém com uma maravilhoso percurso de vida, é uma mesquita escondida atrás de um muro que não a deixava ver, é uma árvore num jardim onde tanto passamos mas que descobrimos é afinal classificada, impossível de abater. 

No fim de semana passado o tempo estava instável e o passeio previsto foi anulado. Ainda assim marcámos encontro numa das adegas da Quinta do Anjo, em geral mantêm o nome da casa agrícola da família e têm a marca de muitas gerações. A proprietária é uma mulher notável que estudou engenharia agrícola e esteve na reforma agrária antes de regressar ao seu território, não é pessoa de muitas falas, é preciso puxar-lhe pelas histórias, mas está sempre disponível para acolher uma diversidade de iniciativas. Desta vez era o lançamento de um livro sobre plantas. Mas assim que nos encontrámos, o livro ficou para depois, era ir vê-las, saber-lhes os nomes e as propriedades. Vamos subir aos sepulcros, disseram. Todos pareciam conhecer. E eu nada disse sobre a minha ignorância, pronta para o espanto. Quando passeamos com as pessoas que são do território abrem-se portas, visitam-se quintais, demora-se a cumprimentar este e aquele, fazem-se perguntas, há alguém que sabe uma coisa, outro acrescenta.

E por fim os sepulcros, enormes buracos onde os corpos repousavam no meio de oferendas. Idade do Cobre, taça campaniforme muito em uso na Península Ibérica mas desenho típico de Palmela, como é que não sabia, como é que não tinha nunca reparado?! Mais história dentro da história, mais espanto atrás do espanto.

~CC~