domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Somos humanos, não deuses.

 

Uma docente competente, sempre pronta, sempre empenhada. Não lhe faltarão muitos anos para a reforma, não consigo exactamente calcular.

A reunião hoje era bem cedo, com entidades externas, eu uma delas, ainda que eu tenha (quase sempre) um estatuto hibrido. E ela não chegou. Não, ela chegou, cerca de uma hora e meia depois, aquela reunião em específico já tinha acabado. Um enorme desalento, uma tristeza na voz, mas sem desculpas tontas, simplesmente o despertador não tinha tocado e ela tinha adormecido, cansada. Penalizava-se, pedia perdão pela falha, estava inconsolável. Coloquei-lhe a mão no ombro e lembrei-a de que somos humanos, não deuses. Sorriu timidamente, agradeceu. Eu tenho receio é das pessoas que não falham ou que ocultam as suas falhas em mentiras e artifícios. 

Pensei em quanto tempo eu demorei a saber perdoar-me pelas minhas falhas, muitos anos certamente. Talvez ainda mais do que a perdoar as falhas dos outros. 

~CC~

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Entre flores

O homem das tatuagens de aspeto muito másculo, sempre de T-shirt, move-se entre flores. Tenho ideia de já o ter visto lá muitas vezes, mas só hoje reparei bem. Trata-se de um maravilhoso contraste.

Na pequena banca no meio do centro comercial mais periférico e pobre da cidade aquela banca está sempre colorida e com  flores que não parecem de estufa. 

Esta manhã escolheu três gérberas amarelas para o velhote de boina, mas não ficou contente, armou-as com três rosas vermelhas mescladas de amarelo e uns raminhos verdes. Era um ramo de encher o olho, exótico, muito vivo e tão contrastante com aquele a quem o vendia, que por momentos pensei que o recusasse. Mas o velhote fez um pequeno sorriso e levou-o. Não consegui visualizar a destinatária daquelas flores. Estou certa, porém, que para ela, por momentos, a chuva parou.

~CC~



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XX)

 




Até à Primavera os Domingos terão música, depois abrirei as janelas e salto por uma baixinha para as manhãs verdes. Espero trazer nos bolsos vestígios de flores a despontar.

Deixo-vos com estes murmúrios, vozes inspiradoras enchem as igrejas do calor que elas deviam sempre ter. 

~CC~




sábado, 31 de janeiro de 2026

Os choros de perto ecoam mais alto

 

O cansaço silencia a voz e toma-me o corpo como se fosse um boneco preso entre as suas mãos, não abre um espaço e é preciso a custo escavá-lo para que entre a música. Faltar ao Clube de Leitura quando estava a gostar do livro, custa-me. 

Mais me custa o silêncio das árvores tombadas pelas ruas e jardins, elas que não têm voz para nos apelar. Já as pessoas, a essas ouvimos os choros, os lamentos, os gemidos e ficamos ora tristes, ora inquietos, ora revoltados. Agora é aqui perto que choram, os choros de perto ecoam mais alto, cortam mais o coração.

Esta é uma ténue faixa de terra à beira do mar, a consciência que disso temos é diminuta, estamos tão mais impreparados quanto mais deixarmos crescer as palavras de grandiosidade que insuflam os egos do povo.

Volto a mim para absorver este pequeno risco de sol que entrou agora pela janela, talvez seja o único que vem visitar-me nestes próximos dias. 

~CC~