"Onde houver amor, o mal não pode acontecer"
(como a Márcia, sempre fui dos pequenos brilhos, nunca dos incandescentes, sempre a sonhar manhãs belas)
~CC~
nesta rua da minha infância aprendi a voar, nunca vou deixar que me cortem as asas
"Onde houver amor, o mal não pode acontecer"
(como a Márcia, sempre fui dos pequenos brilhos, nunca dos incandescentes, sempre a sonhar manhãs belas)
~CC~
Trata-se de um espaço amplo, uma casa antiga que a autarquia recuperou e abriu ao público, com uma bonita esplanada interior. Duas mulheres entraram com duas jovens, estava eu a tentar beber do pouco sol que o dia tinha. Uma das mulheres apontou a parede pintada de motivos marinhos ao fundo, considerando que era bonita. Mas a outra mulher retorquiu que nada ali tinha grande interesse, que as miúdas queriam era ver lojas. E as jovens riram, abanaram a cabeça em concordância, ao que as mulher retorquiu alegremente: vamos, vamos!
E assim se enchem os centros comerciais e se compram mais e mais coisas das quais pouco ou nada precisamos. E eu que cada vez gosto menos de comprar, até comida, coisa que por muitos anos comprei em abundância e atafulhei o armário, perdoei-me muitas vezes desse excesso pela exiguidade de alimento na infância e na adolescência. Consciente dos meus mecanismos de compensação, fui procurando corrigi-los. Ainda assim não estou curada, quando um recipiente de detergente vai a meio, se não tiver outro comprado, sinto-me desconfortável. Gostava de saber viver com menos ainda e, sobretudo, de tirar da própria terra uma parte do meu alimento.
~CC~
A minha mão é um pássaro que se quer aninhar no teu cabelo. Mas mal levanta voo percebe que tem que iniciar o trajecto de volta e assim faz, recolhe-se. Sei que me agradeces pelo gesto que queria fazer e não fiz, pelo que não seremos, por todos aqueles que não magoaremos. Não voltemos às lágrimas que um dia conhecemos tão bem nos olhos um do outro. A renúncia do amor é ainda o amor, diz-se é de outra forma, escolho morar com a luz doce dos Invernos amenos, por isso guardo todos os meus gestos que incendeiam. Arrefeço a mão com o gelo destes dias e assim morna ela é já só o carinho que te tenho. Quero-te, ainda assim, por perto, para poder beber do brilho dos teus olhos que tanto tempo esteve oculto, isso basta-me.
~CC~
Nascida nos anos e nos dias pares, sempre preferi os ímpares. Mas analisando os anos ímpares foram afinal dos mais tormentosos e os pares mais cheios de acontecimentos felizes. Tudo isso me mostra a irracionalidade das coisas e a minha própria. E só essa pequena dose de irracionalidade que em mim mora me permite perceber como ela é capaz de dominar as pessoas. Esperam ganhar o Euromilhões para concretizar os seus sonhos, fazem conjecturas de vida a partir de folhas de chá, acreditam na justiça divina e até que organizar um simples esquema de vacinação coletiva as torna competentes para presidirem ao destino de um país.
E se antes esta dose de irracionalidade tinha tendência a combinar-se com falta de instrução, vulnerabilidades pessoais ou sociais, credos e estilos alternativos que apenas levavam alguns consigo, parece agora que a irracionalidade alastra alegremente como se tudo fosse possível de dizer e permitido de ser.
Somos todos presas fáceis da magia, afinal comemos 12 passas, colocando em cada uma um desejo. Só a admissão de que somos todos um pouco tontos nos permite perceber a tontice que em todos reside. Ainda assim é bom mantê-la numa dose pequenina.
Desejo-vos assim que se mantenham lúcidos e de olhos bem abertos, os tempos estão difíceis. Mas não se tornem amargurados, também é preciso saber rir.
~CC~