quinta-feira, 23 de abril de 2026

Maçã Mágica

 

Deslumbra-me o amor mesmo quando não o vivo. Aprecio as histórias em que ele brota como um pequeno regato e tem a coragem de crescer e rebolar até se tornar rio. Ainda mais quando as pessoas já não são novas e carregam vários desencantos. E dessas histórias que vejo nascer não tenho nenhuma inveja, pelo contrário, contento-me com o contentamento dos outros, sobretudo se deles gosto. Por isso perguntei-lhes se podia escrever a história deles, riram-se, mas sei que sabem que escrevo, não sabendo onde.

Tudo começa com uma maçã. Não se riam já, é verdade.

A cultiva um pouco de tudo, tem maravilhosas macieiras, uma delas dá maçãs grandes e saborosas, sem químico algum. Essas maçãs foram levadas por uma amiga próxima, guardava uma na mala todos os dias para os momentos de fome ou gula. Mas eram maçãs grandes e ela conseguiu comer apenas metade. Ele estava por perto e ela deu-lhe a outra metade, costuma ser muito convincente e conseguiu porque a anunciou como a maravilhosa maçã de A. E ele sabia quem era A, tinham sido colegas há muitos anos, mas nunca tinham estreitado relações, eram distantes. Enviou-lhe uma mensagem curta agradecendo a metade da maravilhosa maçã que comera. E ela disse que se quisesse podia vir buscar mais, que a fruta das árvores era para os amigos e só uma vez por mês ia ao mercado.

Maçã mágica.

Parece que este Domingo A as venderá no mercado, na companhia dele, rendido.

~CC~


domingo, 19 de abril de 2026

Passeio de domingo (V)

 

Pratiquei com tanta alegria a capacidade de não me deixar condicionar pela pilha de coisas em atraso que às vezes me arrisco a pensar que estou em processo de mudança de personalidade. Conseguirei deixar para trás o meu peso formiga? É verdade que mal abri a porta de casa, impôs-se a pergunta: como é que vou recuperar durante a semana todo o trabalho que não fiz no fim de semana? Mas ao mesmo tempo perdoei-me porque não é justo ter que pensar assim, ter que sentir tanto aperto no peito já lá vão tantos anos.

Juntei sábado e domingo como uma coisa só, destinada a viver de manhã à noite o gosto da Primavera, dos amigos, das artes. Sinto em mim o cheiro do campo, é como se toda a serra de Montejunto se tivesse impregnado com a sua beleza dentro dos meus olhos. De serra em serra talvez ainda consiga perder o medo das alturas, o medo dos planos inclinados.

O conselho desta semana é assim muito simples. Sabe onde moram os seus amigos? Procure-os, passeie com eles, abrace-os, faça-lhes perguntas que revelem o seu interesse por eles, deixe também que eles perguntem. Peça que lhe mostrem os lugares deles, os que tratam pelo nome. Foi assim que fui ver representar uma amiga que faz teatro amador numa cidade que não pisava há muitos anos. E já tinha sido cidade abrigo para mim logo no inicio da minha carreira.

Tanta é a luz que mora nas noites quentes.

~CC~








sexta-feira, 17 de abril de 2026

Das coisas dos dias

 

Sou avessa às aulas online, apesar de ter compreendido o seu valor nos tempos pandémicos. Obrigada a fazer um curso na área por força do que aí vem para a instituição, creio aquilo que o formador designa como inovação poderia ser designado apenas como poupança de custos. Ele é mesmo muito aborrecido apesar do que apregoa, nada nele me prende ou motiva, pelo contrário, esvazia-me. 

Ao mesmo tempo gostaria muito que ele tivesse vindo à minha aula online ontem para perceber como tudo pode ser interessante nas antípodas do que sugere. De facto, a colega do riso grande conseguiu mostrar-me muito mais do que ele que o online pode ser social, alegre, divertido e um lugar de partilha. Fez uma bela sessão de Sociodrama online, algo que sempre me pareceu quase impossível. Imaginar uma roda num lugar em que vemos uma filinha de quadrados e trazer tanto de nós quando a distância se impõe.

Ainda assim, cansaço muito maior do que numa aula presencial, o corpo sentado é um corpo sempre dormente. E as pessoas são só uma metade.

~CC~

domingo, 12 de abril de 2026

Passeio de Domingo (IV)

 

Às vezes o vento sopra com excessiva intensidade, o trabalho pesa sobre a mesa e os ténis ficam arrumados, sem possibilidade de uso. A vontade de ir mais longe guarda-se para depois.

Sobra-nos o passeio nos lugares que já vimos, se possível com olhos que nunca usámos. Fica-nos assim a rua próxima de casa, a avenida central da nossa cidade, as árvores cujo nome conhecemos, as esculturas que já não são novas, as portas e as janelas das casas que um dia descobrimos que eram belas.

E apesar da falta de novidade, da ausência da emoção que acompanha o desconhecido, da certeza de não termos o deslumbramento para onde nos levam os novos caminhos, percebemos que é bom ver o que já vimos, gostar do que já gostámos, olhar para o que já olhámos. E mesmo no já visto encontramos o encanto das coisas exploradas, que por o serem, são também muito nossas, como se parte do nosso próprio corpo.

Foi assim esta semana, apenas a Avenida, a grande avenida que existe na minha cidade. E lembrei-me do Rui Veloso. 

E a vossa avenida, como é? Guardem para ela um Domingo em que não possam ir mais longe.

~CC~








sábado, 11 de abril de 2026

A mão esquerda

 

Quando algo nos acontece a uma mão ou a um abraço, segue-se a pergunta imediata, receosa, e o desejo afável: espero que não tenha sido na mão direita.

A mão direita é um bem precioso e a esquerda, a que ajuda, apoia, está lá discretamente. É como algo silencioso, aquilo que não damos conta, a que não atribuímos valor. É igual a um amigo a quem não dizemos de quanto gostamos, a um amor que tomamos por garantido.

Há meses com umas bolhas estranhas no meu polegar esquerdo, fiz de tudo para que sarassem sem necessidade de recurso médico. Simplesmente colocava um penso por cima. Sabia que tinha feito ali uma queimadura há uns tempos atrás e achava que a pele tinha ficado irritada, sensível. Depois tudo piorou e o diagnóstico apontou a infiltração do vírus e o tratamento, algo radical e doloroso, que parecia estar a resultar, parece agora inverter-se, o vírus resiste. Nunca tinha avaliado o valor incrível de um polegar. A falta que ele me faz para tanta coisa. A forma como a ausência de um dedo afecta toda a mão e como a falta de uma mão me deixa mais lenta, mais incapaz, mais vulnerável. Parece um mero pormenor, uma coisa sem importância, uma vírgula no texto. E, contudo, é tanto.

~CC~