Dirão dele tudo o que ele, sem pudor nem disfarces, afirmou na sua fala pausada, por vezes arfante, como quem não está habituada a paragens sem frio nem vento cortante. Mesmo assim, Óbidos é húmido numa noite de Verão, para ele provavelmente não.
Jon Fosse não fez os pedidos habituais, que não lhe fizessem esta ou aquela pergunta, não ficou sem responder, não hesitou entre perguntas tão difíceis como qual era o seu escritor preferido, sabendo que ao nomeá-lo iria não escolher todos os outros. Deu respostas simples a perguntas complexas como o uso da sua língua materna, minoritária na Noruega, não disse que que a usava como bandeira ou para a defender, mas simplesmente porque era a sua. Cortou rente e direto na mística da inspiração alcoólica dos artistas, sem muitas análises sobre a sua anterior dependência e sobre a sua atual sobriedade, evidenciando que simplesmente escolheu a vida. Assumiu a timidez, a reserva, a melancolia, mas sorriu sempre, reconheci-lhe o sorriso dos tímidos.
Só li um livro e vi uma peça de teatro. O meu conhecimento da obra está longe de ser aprofundado e nunca o será. Sou apenas alguém em visita. Mas alguém fascinado por uma obra nas antípodas da sua vida. Creio mesmo que só através dos livros poderia conhecer territórios como os que ele traz, pessoas como ele traz.
E também gostei muito de conhecer, em eventos dados à soberba, um homem gentil.
~CC~