Eis o que não esperamos que um vendedor do Leroy Merlin nos pergunte, depois de nos dizer que não tem, nem é capaz de executar o nosso pedido, não obstante toda uma grande encenação com hora marcada e comercial designado.
- Já foram ao Ikea?
~CC~
nesta rua da minha infância aprendi a voar, nunca vou deixar que me cortem as asas
Eis o que não esperamos que um vendedor do Leroy Merlin nos pergunte, depois de nos dizer que não tem, nem é capaz de executar o nosso pedido, não obstante toda uma grande encenação com hora marcada e comercial designado.
- Já foram ao Ikea?
~CC~
Não me lembro dela festejar os anos, a não ser na época mais tardia da sua vida, talvez nos últimos vinte anos.
Não sei se era exatamente assim com todos os adultos das famílias pobres, festejar anos com bolo e parabéns em voz alta era uma coisa de crianças, só o fazíamos até à adolescência.
Depois ela tornou-se um pouco menos pobre ou fomos nós que nos tornámos e com isso a tornámos também. Envelheceu, enterneceu-se, tornou-se mais frágil, mais doce. Com isso vieram as festas de anos, por fim, cada ano era também uma vitória sobre a morte. Queria sempre ficar bonita, sair, bolo de anos e prendas, queria festa e queria família. Tive duas mães, uma até aos 60 e outra que foi nascendo gradualmente dessa, cada vez mais diferente da anterior. Claro que transportava algumas coisas, a acutilância, a ausência de rodeios, o gosto pela beleza, o desprezo por quem não se cuidava, a vontade de viver, sempre ela, cada vez mais forte.
Hoje é Domingo de saudade, faria 98 anos.
~CC~
Este ano vi bons e menos bons filmes em ciclos de cinema ao ar livre que muitas cidades, mercê desses maravilhosos cineclubes que no tempo resistiram, ajudaram a criar.
Mas o mais comovente acabou por acontecer no escurinho caseiro. Primeiro apenas vislumbrei uma Fanny Ardant na RTP 2, bastante mais velha, mas tão bela ainda. Como sempre gostei muito dela, guardei o nome do filme: Jovens Amantes. Não fui ver a sinopse e ainda bem, só agora a procurei e é tão banal, talvez não tivesse procurado ver o filme se a tivesse lido. Se não conseguirem ver na RTP 2, poderão encontrá-lo na RTP Play.
O título, não sei se igual em francês, ilumina tudo. Todo o amor é sempre jovem, independentemente da idade de cada um dos protagonistas, de ambos ou se têm idades muito diferentes. E é jovem porque implica uma coragem para saltar barreiras e medos, tudo o que aprendemos a reter com a idade, a barricar-nos, a não nos deixarmos ir, a não nos deixar surpreender. Compreensível o cansaço, o medo da doença, a repugnância do próprio corpo, a falta de paciência, com a idade já nada nos parece apaixonar, não há borboletas que acordem dentro de nós e, mal pretendem esvoaçar, tentamos afugentá-las. Na pressa de apagar o incêndio, apagamos o fogo.
A protagonista deslumbra-se de tal modo que não resiste a ir, que brilho ganham os seus olhos negros. Mas volta depressa atrás quando o corpo lhe mostra a idade que tem e a doença que está já a dar sinais. Está ali, contudo, um homem que sabe cuidar, que quer cuidar, que sempre cuidou de tudo e de todos. E diz-lhe que enquanto estão vivos respiram o mesmo ar e isso é tudo o que importa, não o que virá depois. Para uma mulher bela, um homem belo, é isto que é deslumbrante no filme, não conseguimos escolher de qual deles gostamos mais.
~CC~
Mercado do Livramento, 16 de agosto.
- O melão é bom?
- Acho que sim...
- Acha que é mesmo?! Ainda não comi nenhum bom...
- Então, só comeu estragados?!
~CC~
As férias de nós connosco, estes momentos de interrogar o ar que respiramos, o que já passou, o que aí vem, o que ainda pode ser futuro tornando-o presente.
Comparo este ano com o outro. Nas montanhas mágicas estranho-as, não lhes pertenço nem elas a mim, mas o desconforto é enrolado naquela paz única de um lugar cheio de histórias, fontes, pequenos recantos, muita arte, pessoas maravilhosas, tão seguras e fortes como as pedras grandes e roladas. Os olhos regressam verdes e emocionados. É o norte, esse lugar que me é estranho mas que permito que se entranhe.
Este ano esta segunda casa, esta cidade que conheço quase de cor como a minha, à qual pensei que nunca mais regressaria com gosto.
E o mar, sobretudo o mar. Entrar logo sem hesitar, o primeiro banho da manhã ser de sal, o regresso fazer-se pela areia ainda cheia das pegadas das gaivotas que lá passaram a noite. A areia enrolada em mim, sem que me isso me importune. Não sou um peixe, tão pouco uma concha, talvez seja como as algas, ali soltas para cá e para lá, ondulando simplesmente, deixando-se planar,
A ser, serei planta, talvez sim, planta marinha, às vezes escura e profunda, outras leve, solar, ondulante. As pessoas daqui não são tão bonitas, salvo algumas excepções, nunca me liguei muito a elas, para além de que um terço são turistas. É o sul, o lugar com aquele crepúsculo alaranjado no céu quente, trazendo na brisa um desejo de felicidade. Podia deixar-me um dia ficar, ou talvez não, seja sempre só este poiso de passagem.
Regresso sem dor, mas já com nostalgia, tão cedo não farei vida de planta marinha.
~CC~