quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Um homem gentil

 


Dirão dele tudo o que ele, sem pudor nem disfarces, afirmou na sua fala pausada, por vezes arfante, como quem não está habituada a paragens sem frio nem vento cortante. Mesmo assim, Óbidos é húmido numa noite de Verão, para ele provavelmente não.

Jon Fosse não fez os pedidos habituais, que não lhe fizessem esta ou aquela pergunta, não ficou sem responder, não hesitou entre perguntas tão difíceis como qual era o seu escritor preferido, sabendo que ao nomeá-lo iria não escolher todos os outros. Deu respostas simples a perguntas complexas como o uso da sua língua materna, minoritária na Noruega, não disse que que a usava como bandeira ou para a defender, mas simplesmente porque era a sua. Cortou rente e direto na mística da inspiração alcoólica dos artistas, sem muitas análises sobre a sua anterior dependência e sobre a sua atual sobriedade, evidenciando que simplesmente escolheu a vida. Assumiu a timidez, a reserva, a melancolia, mas sorriu sempre, reconheci-lhe o sorriso dos tímidos. 

Só li um livro e vi uma peça de teatro. O meu conhecimento da obra está longe de ser aprofundado e nunca o será. Sou apenas alguém em visita. Mas alguém fascinado por uma obra nas antípodas da sua vida. Creio mesmo que só através dos livros poderia conhecer territórios como os que ele traz, pessoas como ele traz.

E também gostei muito de conhecer, em eventos dados à soberba, um homem gentil.

~CC~

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Este dia que acordou como amavas, cheio de sol

 

No último 9 de outubro, em 2025, escrevi "este dia que acordou cinzento". 

E hoje digo: este dia que acordou como amavas, cheio de sol.

Mas acordou sem ti e ao acordar sem ti, também é afinal um dia cinzento. De todo o amor que perdi e toda a perda do amor, seja de de que tipo for,  é uma dor inigualável por nos deixar mais sós, o teu amor é o que mais falta me faz. Talvez por o ter conhecido tão tardiamente, quando já por ele não esperava. Talvez por ser a recuperação daquele desamor mais básico que creio ter afetado a minha infância e adolescência. Talvez por conseguir, por fim, entender-te.

A noite, agitada, trouxe-me em sonhos um bebé do qual eu cuidava. Estranhos sinais. Quando cuidei de ti eras frágil mas não eras igual às crianças, inteiramente diferentes os cuidados dos quais os velhos necessitam. A única coisa igual é que uns e outros chamam pelas mães e nelas reconhecem essa porta que vai de um mundo ao outro e se agarram a essa memória básica como o chão do qual podem nascer flores.

~CC~


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Da lista das escritoras desconhecidas

 


Se outras e boas razões não houvesse para querer viver muitos anos, havia o prémio Nobel da Literatura.

Mais uma da lista das escritoras desconhecidas. Feliz por ser mulher, afinal são só 14% dos laureados, sendo que a população está mais ou menos dividida ao meio, alguma razão deve haver para a desproporcionalidade.

Se a saúde e a vida me permitirem, tenho que ler pelo menos uma coisa de cada pessoa que ganhou o prémio, com a possibilidade de deixar o livro a meio ( e já aconteceu com dois deles, um homem e uma mulher).

Para não ser ambição desmedida e meta concretizável, a começar desde os anos 60, porque foi nessa década que nasci.

Quem a leu, que me diz?

~CC~

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (II)

 

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, cresce vagorosamente e só tem outras espécies próximas de si, nenhuma igual a si. Como as pessoas, se comunica, tem que aprender a comunicar com quem é diferente, uma coisa que entre humanos parece cada vez mais difícil. Falo-lhe, encorajo-a, pouco importa se me ouve ou sabe que ali estou, só me importa o que lhe dou, um bocadinho de atenção e tempo. 

Uns dias depois fui à procura da tal rua onde há muitas árvores como ela, irmãs noutra parte da cidade. Não são gigantescas como me disseram, mas bem maiores. É bom ter alguém a quem falar do meu interesse por árvores. Curioso é que estão alinhadas lado a lado árvores macho e árvores fêmea e as fêmeas estavam repletas de frutos, muitos já caídos no chão, enquanto no outro do lado da fila nada havia no chão. Sábio quem o fez, dominava como funcionam as anemófilas. Incrível fenómeno de acasalamento no meio natural, usando  o vento, insectos e pássaros como transporte polinizador. O fruto tem um cheiro intenso e pouco agradável, o que o torna pouco apetecível para os animais, por isso estavam ali no chão sem um único carreiro de formigas por perto. O pólen é leve, perde-se a grandes distâncias, mas ali está a acontecer o que a natureza prevê, sem a interferência humana. Estragámos tanta coisa à nossa volta, mas também há pessoas capazes de alinhar árvores daquela forma, alguém que não sei quem é, nunca saberei.  Talvez o mundo viva mais de anónimos capazes e talentosos, os que o arruínam tornam-se mais conhecidos, o mal propaga-se de forma muito mais célere do que o bem.

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, falei-lhe e ela não me respondeu, mas não precisei. Tantas vezes falamos com pessoas e não temos qualquer resposta.

~CC~



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Veio pela manhã um cheirinho a goiaba

 

Havia na sala de pilates uma caixa de goiabas. A aula foi assim inebriante, um mergulho na infância e depois, muito mais tarde, na minha idade adulta. 

Elas diziam que cheirava ao seu Brasil, eu dizia que cheirava a Angola, mas bem vistas as coisas,  as goiabas eram portuguesas, um praticante simpático que as trouxe do quintal.

Trouxe uma da caixinha, estavam à disposição dos clientes. Agora estou em dúvida se a devo comer ou deixar o cheiro perdurar e perfumar a cozinha por mais uns dias. É uma luta entre perfume e sabor.

~CC~