Coisas que ficam, às quais se volta, ouvindo a força de cada palavra.
~CC~
nesta rua da minha infância aprendi a voar, nunca vou deixar que me cortem as asas
~CC~
Há amor que nasce sem paixão.
Os nossos amigos são como um tapete de malmequeres, uma rede de apoio e conforto. Por vezes não conseguimos destacar nenhum deles. Mas por vezes há alguém que se evidencia. Aproxima-se mais, passamos mais tempo, sentimos que precisamos mais. Dessa necessidade maior, surge aqui e ali um toque mais prolongado, uma pele que parece precisar da outra, é uma mão que se dá, um abraço que se aperta e sentimos o corpo do outro. Às vezes duvidamos, hesitamos, temos medo de estragar aquela amizade. Mas aquele malmequer já não é igual, ganhou outra cor. E já não podemos mais ignorá-lo. Não houve paixão mas a transformação da amizade em amor. E o desejo chega com uma roupagem diferente da paixão, vem com a luz das coisas conhecidas, não com a incandescência das desconhecidas. Há amor sem incêndio, há amor que é lume e fica muito tempo a arder até termos a certeza que aquela temperatura é boa, é a do clima ameno das ilhas.
E se não correr bem, pode ficar menos um malmequer no nossa verde manta, isso pode custar, mas também custa não arriscar.
~CC~
Fomos com a Bea e pela mão de Gonçalo M. Tavares à Grécia antiga, na verdade um tempo tão reduzido na história da civilização, quanto marcante. Forjando-se entre deuses e filósofos era genuína a sua sede de explicar o universo, o mundo e os homens. E do tanto que já se explicou, está tudo ainda por explicar.
A paixão.
A paixão é a flor do maracujá. Hipnotizante nas suas matizes e formas complexas, podemos ficar presos lá dentro como numa armadilha. Também é designada como a Flor da Paixão ou Passiflora, dizem que atordoa pelo cheiro e que a sua morfologia simboliza o martírio de jesus.
É uma luz incandescente que ao vir do outro na nossa direcção nos impele e nos atrai sem que saibamos explicar porquê, queremos só ir e mergulhar. E fazemo-lo vezes sem conta, numa bebedeira feita de pele e sucos. Pode durar dias, pode duras meses, até mais. Mas um dia tudo o que nos parecia só luz mostra uma pequena sombra. Ou a sede que parecia inesgotável mata-se mais rápido. Ou a vida cava um fosso pela distância ou por projetos que não se conciliam. Ou surge uma zanga que não se consegue sanar. E de repente tudo acaba sem remédio, sem modo de voltar ao início, de conseguir evoluir para outra coisa, amor ou amizade, com sorte não acaba em ódio. É o pássaro que esbarrou contra o vidro, a borboleta que se colou à planta, a mosca que entrou na garrafa. Morreu, é já nada, passou. E é assim que para muitos se transita de paixão em paixão, presos da força de Eros, do impulso que gera entusiasmo. Até pode haver paixões em simultâneo já que ela não se faz de compromisso mas de fome.
Mas pode acontecer que essa luz, a princípio incandescente, se torne mais ténue, mais consonante com o crepúsculo e essa transição, se não apaga o fogo dos corpos, deixa que ardam mais lentamente, está-se a caminho do amor. O amor é lúcido, é já casa em construção. Alimentá-lo em simultâneo com luz e com sombra, com desejo e com compromisso, com cuidado e com exigência, saber caminhar em todas as cores do arco-íris sem cair, é algo muito difícil e muito belo. Entramos na dinâmica do Girassol, saber virar o caule para beber a luz que mantém o amarelo da flor.
~CC~
(cont)
Imaginem quando foi gravado?!
Quando tínhamos muito medo...e não é que ele volta, pouco a pouco, o bicho papão anda à solta e já não se denomina vírus. A vacina é bem mais difícil de criar.
~CC~
Um raio de sol matinal espreitou no meio das nuvens, tornando o céu numa mescla mais bonita de azul e branco.
Creio que uma parte dele entrou dentro das dores persistentes na parte lombar da coluna que há cerca de um mês se decidiram instalar e não me deixam dormir uma noite plena, atrapalham a condução e os dias e até, por vezes, me secam a voz. Não que tenham passado, mas creio que esta promessa de Primavera será um factor fortemente adjuvante da medicação e talvez atenuante do retrato fiel que o instrumento científico trará em breve. Imagino um neurocirurgião que receitará caminhadas, leituras e banhos de mar ou mesmo termas com piscinas de água quente, talvez tocado por aquela pequena dose de magia que faz com que alguns médicos também sejam poetas. Mas há uns que não: olham direito nos olhos, com o bisturi bem perto de entrar na nossa pele, apontando a solução que consideram ser a certa, desprezando a nossa relação com o universo e os factores adjuvantes do clima.
~CC~