domingo, 10 de dezembro de 2017

Em acumulação


Escrevo a lista antes de ir às compras para não me esquecer de nada. E não esqueço. O pior é o que trago a mais. 

Coisas que acumulo: coentros, hortelã, tomate, espinafres se for ao mercado de rua. Se for ao supermercado: sacos do lixo, pasta de dentes, iogurtes. Se for à loja biológica: chá de perpétua roxa, manteiga de amendoim, bolachas de aveia. 

Quando vou guardar as coisas e percebo que as tenho em duplicado, fico aparvalhada. Depois rio-me e penso: estas coisas fazem-me mesmo muita falta.

Tenho que escrever uma lista ao inverso: o que não é preciso comprar.

~CC~

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Num gigantesco e agora global reality show


O homem vive num gigantesco e agora global reality show. Quando nenhuma luz, nenhuma controvérsia, nenhum conflito o atira para a ribalta, ele definha, deprime, inquieta-se. E assim que o mundo se agita à sua volta ele rejubila, cintila, ri. Trata-se de alguém contaminado pela patologia da fama à superfície, da conquistada na espuma dos dias, no vazio das lantejoulas, na miséria da alma, desses que são alguém por terem um foco sobre eles a incidir mas que não são absolutamente nada quando a luz se apaga. É por isso preciso que a luz esteja acesa em permanência, quando não, há que atear incêndios, provocar tempestades, imaginar guerras, diabolizar povos. Costumamos rir destes loucos (e/ou condená-los) quando eles estão em países pequenos e sem poder, mas o que fazer agora que a loucura está instalada no (talvez) país mais poderoso do mundo?

 ~CC~


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Cinco mil e um



Este concelho tem só cinco mil habitantes, disse ele, que vive ali perto desde sempre. Estamos no Alentejo central, interior. Há vinte anos asseguro-vos, vi estas ruas cheias. Por aqui há um incêndio sem fogo há muito tempo, as altas temperaturas lambem a terra e deixam crescer pouco verde, apenas os sobreiros resistem a (quase) tudo, as pessoas foram desaparecendo pouco a pouco. Como é que tanta beleza pode ser deixada assim ao abandono? Andamos pelas ruas da vila e metade das casas estão fechadas, muitas delas à venda, outras nem isso pois são vítimas de batalhas intermináveis entre herdeiros. É como se a cada esquina estivesse uma coisa única prestes a ser abandonada: uma prática artesanal milenar, um bolo ou um salgado que só ali se fazem e há muitos séculos, uma roupa que se adaptava ao clima, um modo de falar. O teatro está em reconstrução e fixo-me nele, candidataria-me a ser a cinco mil e um, caso pudesse tomar conta dele.

~CC~

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

No bairro



As miúdas, ainda hoje penso o que foi que me distanciou delas logo nos primeiros momentos. Acho que foi o facto de não olharem para mim nos olhos. Das malas colocadas à frente das carteiras para esconderem os telemóveis. Dos rostos tristes que a maioria tinha. Pensava amiúde que eram tão jovens e já estavam tão mortas por dentro. Não imaginam como é quando temos uma turma assim. É um desalento acordar para lhes dar aulas logo às 9 da manhã. Fiz algumas piruetas, as possíveis, para lhes despertar o interesse. Nada com muito êxito, embora de quando em quando as sentisse mais perto, um pouco mais interessadas.

Depois levei-as para um bairro histórico muito pobre aqui na cidade. Lembram-se como era o bairro alto nos anos 80? Era um lugar com gente pobre, bêbados, prostitutas, embarcados, pequenos comerciantes, donas de casa, emigrantes. Pareceram-me ainda miúdas, um nadinha assustadas, uma agarrou-me o braço e pediu para ir com elas, pois iam falar com um adulto homem e tinham medo. Disse-lhes que as pessoas não moram nos livros técnicos que falam de como elas são e que elas  ainda por cima detestavam ler, estavam ali e eram de carne e osso, tinham que aprender a ouvi-las. Escutar é uma competência profissional, uma das maiores. O choque com a realidade fez-se com amortecedor, mas aconteceu. Houve pequenas lágrimas, bocas que se abriram de espanto, confissões que vieram veladas.  Até para mim que às vezes acho que já vi tudo quanto se chama miséria. Mas não vi, nunca se vê tudo, cada história é singular, mesmo que se assemelhem no desespero que nos provocam.

As miúdas mudaram um bocadinho, já olham para mim quando falam comigo. Às vezes chegam-nos estas coisas pequenas.

~CC~






terça-feira, 28 de novembro de 2017

Andar em pézinhos de lã



Apesar de falar bastante da doença, não vivo já com ela a tempo inteiro, deixou de ser o meu centro e está na minha periferia, desloquei-a para lá. Às vezes, na semanas em que tenho consulta, como acontece nesta, até é estranho pronunciar essa palavra, parte de mim voltou a ser aquela pessoa que nunca ia ao médico. Vivo com algumas limitações é certo, algumas coisas nunca voltarão a ser o que eram, designadamente comer. Mas quantas pessoas não levam uma marmita para o trabalho e comem sozinhas, quantas por opção de vida não comem mais devagar que as outras e têm que evitar certos alimentos. Percebi que provar é infinitamente melhor que comer. E continuo a gostar imenso de cozinhar, sobretudo se for para os outros. E a última cirurgia diminuiu efectivamente o mal estar causado por um esófago demasiado curto e demasiado apertado.

Levanto-me quase sempre com energia mas ao final de um dia de trabalho sinto-me cansada e adormeço amiúde no sofá sem conseguir concluir uma série ou um filme que até estava a gostar de ver. Mas quantas não sentem o mesmo? Retomei por completo as aulas desde Setembro e não faltei ainda uma única vez, assisto a reuniões, participo em projectos e voltei a ter ideias, muitas ideias. Não vivo com pena de mim, vivo com muita vontade de viver.

Inevitavelmente a consciência da minha transitoriedade, da minha finitude, da minha fragilidade, das minhas limitações também vive comigo. Tento não correr para absolutamente nada. Tenho mais paciência com os outros e até comigo. Deixo passar coisas pelas quais antes me zangava. Concentro-me mais no essencial, no belo. Ainda não consegui coisas que queria mas hei-de lá chegar. Voltar ao yoga a sério (não ao especial para doentes oncológicos) e às caminhadas (não gostei do ginásio). Sair um fim de semana por mês para passear. Retomar a actividade associativa. Planear e executar com cuidado uma viagem que implique avião (tenho receio de sair de Portugal e tenho que o vencer). 

Isto é derrotar uma doença aos poucos, respeitando-a, não sei como dizer isto melhor. Derrotar o que respeitamos parece contraditório mas neste caso não é. Trata-se de pensar que nós, os médicos, a ciência, tudo isto age num contexto que tanto nos é conhecido como desconhecido, que tanto é feito de êxito como de fracasso, que mesmo quando bem devemos ser contidos na forma como cantamos qualquer vitória. Quando as crianças são pequenas, para não as acordarmos, não nos importamos de andar em pézinhos de lã, é assim que eu também ando.

~CC~