domingo, 9 de dezembro de 2018

Terapia



Vai a um mercado de rua ou, se não o tiveres, a outro, ou mesmo a uma mercearia.

Procura as maçãs casanova* e compra um quilo. Corta- as em quatro metades, com tempo, tira a casca se te apetecer, se não passa apenas por água. Saboreia uma a cada fim de tarde de Inverno. Depois conta-me do sabor.

~CC~

* Das únicas coisas que conseguia comer e sentir o sabor enquanto fazia quimioterapia, nunca mais deixei de as comprar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Como um lagarto



Sou fácil de contentar. Um dia destes de sol de inverno e fico feliz. Mesmo que tenha que ir trabalhar. Qualquer intervalinho é um tónus de vitamina D, viro a cara para o sol e estendo-me interiormente como um lagarto.

~CC~

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Procura uma árvore


Quando te sentires só procura a companhia de uma árvore assim. Abriga-te debaixo dela e sente o modo como os pássaros fizeram dela uma casa. Verás que pode ser também o teu abrigo. Se procurares bem sentirás o coração dela a pulsar, coloca uma mão no seu tronco e outra no teu coração. Nessa conexão verás que o mundo vai muito para lá dos seres humanos.
Quando estiveres com amigos, se tiveres um filho ou uma filha, sejam eles pequenos ou grandes, leva-os até debaixo de uma árvore assim e ri com eles, ou cantem, ou comam alguma coisa ou façam tudo isso. Conheci um dia uma árvore como esta onde uma aldeia, depois uma vila inteira celebrava a sua festa. O carvalho assistiu aos meninos a crescer, viu várias gerações a tornarem-se homens e mulheres, aposto que encobriu primeiros beijos. Este Sobreiro estava tão perto de mim, infelizmente só se tornou visível quando decidiram divulgar a sua beleza ao mundo. Mas agora voltarei mais vezes para conversar baixinho com ele, confiar-lhe sorrisos e lágrimas.
~CC~

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Só mesmo do ar


É o excesso de vozes e de sentidos que me cala. São os dias de grande intensidade que me esgotam e não os dias grandes, de silêncio maior. Preciso da quietude para que a palavra nasça, se desenrole e me dê prazer. Dizia ontem uma poetisa, no seminário, que para ela a palavra era urgente, se não a fizesse nascer, não conseguia respirar. Eu só preciso mesmo do ar. Deve ser por isso que não sou poeta.

~CC~

sábado, 24 de novembro de 2018

Cinco, são cinco sentidos.



Às vezes ando com uma semana inteira com uma pessoa na cabeça. Amiúde penso que lhe tenho que ligar e também de a ver. A amizade precisa da mesma lenha que a lareira para se manter viva e quente.

É uma coisa que as pessoas fazem já tão pouco. A maior parte encontra-se numa qualquer plataforma digital e satisfaz-se com isso (não as nomeio para escapar à publicidade de que não precisam). Até a família já o usa para dar os parabéns. Compreendo isso quando há um oceano pelo meio ou uma estrada muito, muito comprida. É bom e compreensível nesses casos.

Eu preciso de ouvir a voz das pessoas, a maior parte das vezes as modulações, o tom, a altura, tudo isso me fala tanto quanto o conteúdo das suas palavras. Depois de lhes ouvir a voz também preciso de as ver. Os olhos delas, a forma como os desviam, os cravam em mim, olham a paisagem, sorriem com eles, tudo isso me diz mais do que o conteúdo das suas palavras. A verdade é qualquer coisa que me tem que chegar inteira e por isso as palavras não chegam, a pessoa tem que me chegar com um corpo e um rosto, por mais que goste e gosto muito de palavras. Uma pessoa inteira chega-me pelos cinco sentidos, preciso de todos eles para a amizade e para o amor.

~CC~