terça-feira, 21 de março de 2017

Do que sobra


Sobra pouco da vida que eu já fui. Por ora sobra pouco. Não posso, não consigo evitar essa tristeza, não obstante me ter salvo, salvo por pouco, por um triz, como aconteceu outras vezes. Mas desta vez vem com muito mais cicatrizes.

Nesse pouco que sobra de mim cabe inteiro ainda esse gosto por essa forma de dizer a vida que se chama poesia.

~CC~

domingo, 12 de março de 2017

Vivas, sempre prontas a ser felizes


O silêncio deve ter dito quase tudo sobre como foi difícil lutar pela vida, depois de 15 dias nos cuidados intensivos (muito escreverei sobre isso mas hoje não), ainda me encontro no internamento. A previsão inicial era de 7 dias de pós operatório. Mas mãos que escrevem são sem dúvida mãos já com outra esperança. E hoje fazem-no não tanto para falar de mim mas sim de uma das razões mais fundamentais para eu estar ainda aqui: ver a minha filha fazer 21 anos. Poder apreciar cada dia que a vida imprime no seu olhar, acrescenta dentro dela, expandindo tudo o que antes era semente. Só essa felicidade tão intensa seria capaz de anular sombras e mais sombras que foram caminhando sobre mim enquanto eu tão teimosamente as soprava. Cheguei aqui, eu e ela vivas, inteiras e solidárias, tão prontas para sermos felizes.

Os parabéns. O abraço mais longo de sempre, vindo de lá do fundo, da sobrevivência.

~CC~

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

De alguma forma lá



Terei o jantar de namorados mais original de sempre. Será amanhã, em pleno hospital, com dois amores e não um, já que amor inclui, penso eu, mais do que um companheiro ou companheira, são aqueles que amamos. Não fora a impossibilidade, faria mesmo lá um jantar de amigos, de muitos abraços. Assim, ficarão muitos por dar.

A importância das coisas, destas coisas dos dias x e y, é muito relativa, eu vou variando, permeável que sou a tudo o que me rodeia, não lhe fico completamente indiferente mas também não lhe dou atenção especial, à medida que cresce o intuito comercial, o meu desprezo aumenta. 

Desconheço se o hospital terá ementa original para o dia, provavelmente o ambiente hospitalar, imune a quase tudo, também o será a estes rituais. Desejo apenas que o cirurgião beba com moderação na noite anterior, para que as suas mãozinhas possam acertar nos sítios certos.

Se tenho medo?! Não lhe chamaria assim. O que me inquieta é a minha própria ansiedade, traduzida nesse pânico de estar em sítios fechados, onde outros têm mais controlo sobre mim do que eu própria. O exercício de pensar que esses outros estão ali não para me aprisionar, prender, roubar a liberdade assemelha-se a um longo e penoso jogo de auto domínio, coisa para a qual já demonstrei ter e não ter capacidade. Nessa noite que será longa, nessa manhã, bem cedo, terei que dar o melhor de mim. 

O amor, esse ingrediente, esse tempero, também de alguma forma fará parte.

~CC~


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Paragem obrigatória (IV)



Foi este verão que conheci a Elena Ferrante, tão tarde mas ainda a tempo. Li os quatro volumes, cujo primeiro se intitula "A amiga genial" num instante. Apanhei a polémica em torno da identidade escondida dela e a sua dita revelação (que eu saiba, não se confirmou nada). Não sei se ela faz mal ou bem, tudo o que é escondido suscita ainda mais curiosidade sem dúvida mas ela está também no seu direito de não entrar nos festivais literários e outros eventos que trazem os escritores até ao público. Amei a escrita dela, ao mesmo tempo que me sentia muitas vezes enganada. Ela sabe do que falo, pois não há nada sobre o qual ela escreva melhor do que sobre os sentimentos contraditórios que nos habitam, como o amor pode conter ódio e o ódio pode conter o amor. A escrita dela prendeu-me mas nem sempre gostava dessa prisão, sentia muitas vezes que ela usava e abusava de um truque (habitual das telenovelas) para nos fazer ir de um livro a outro, a forma como cada um deles acabava deixava-nos sem hipótese de não começar a ler logo o seguinte. Foi assim que me emprestaram os dois primeiros e comprei logo os outros dois. Deixar o leitor arrasado no fim de um livro, absolutamente preso de saber mais, querer mais, é talvez obra de génio. Mas ao mesmo tempo é limitador da nossa liberdade, revelador das nossas fraquezas, é uma via directa para o lado voyeur que há em cada um de nós, sentia que esse jogo me irritava, que ela era tão boa escritora que não precisava de o usar.

Agora ofereceram-me "Escombros" e leio-o devagar, mais próxima dela do que alguma estive, embora não deixe de ser estranho ler um livro sobre dois outros livros (os primeiros) que eu não li. Mas gosto da ideia, por exemplo, se apanho um filme ou uma série a meio não volto para trás, gosto do jogo de tentar descobrir o que está para trás e se consigo entender só apenas a partir do meio. Este livro não é um romance, é uma viagem ao seu universo, ao que a faz escrever. Algumas das coisas que diz são como se fosse eu a dizê-las, são as minhas palavras.

~CC~




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Do que não sabem...




Exame a exame, cada um deles pede mais um, numa cadeia que me parece interminável. Sinto-me absolutamente escrutinada, vista por uma lupa fininha que vê tudo o que antes permanecia incógnito, silencioso. Há sempre mais qualquer coisa que está mal ou parece mal, há sempre que saber mais. Apetece-me dizer-lhes que não me acordem os monstros interiores que dormiam sossegados, que tanta inquietação não lhes fará bem. Que não me digam tanto, escondam qualquer coisa só para eles. Escapa-lhes, contudo, qualquer coisa que é só minha, uma alma meio partida, e dessa é que eu tenho que tomar conta. Eles aí não mexem, não querem mexer ou ignoram que temos mais que ossos, artérias, células. Dessa coisa de dentro, chamada pessoa fala-se quase nada. Trato dela só eu, ando a colar-lhe os cacos para ver se me sustenho e vou por diante.

~CC~