domingo, 15 de julho de 2018

Desconforto


É estranho que ser bem tratada num serviço público me tenha causado tal desconforto. E note-se, não sou das que acham que todos os serviços públicos são maus, bem pelo contrário. Tal mal estar só é explicado pela diferença de tratamento que usufrui face aos outros cidadãos. É verdade que eles procuravam um serviço que não era o mesmo que o meu, que o meu estava antecipadamente marcado e por isso pude entrar à frente da enorme fila que às 8h30m da manhã já esperava por tirar a senha. 

Mas esses motivos não foram suficientes para me eliminar o desconforto associado ao tom de voz usado para comigo e para com os outros, nem ao tratamento por senhora professora, nem às mil desculpas usadas para não conseguir tirar as minhas impressões digitais a não ser à 9º vez no uso da máquina. Não era esse tratamento que estava errado, reflecti depois, mas o que era dado aos outros. Vivemos num país ainda tão parolo, em que os direitos humanos se resumem a posters que se colocam nas paredes e tão, mas tão convencido do contrário, que é humanista, tolerante e tal.

Todo o dia fiquei com o estômago às voltas (ah, é verdade que não o tenho mas vale a metáfora) com o aviso colocado na parede: os acompanhantes devem ficar na sala de espera. Ora se o acompanhante for um bebé, como é? E mesmo uma criança com 5/6 anos?

~CC~

terça-feira, 10 de julho de 2018

Mesmo em doses pequenas



Registei o segundo banho de mar, bem gelado, a só permitir entrar e sair quase no mesmo minuto. Mas com ele tive a certeza do poder regenerador da água salgada, do bem que se infiltra pele dentro e me chega às células que determinam a satisfação, o bem estar e a alegria. Li, deitada na areia, três contos peregrinos do Gabriel Garcia Marques, maravilhada com a sua mestria no uso da palavra, do humor e da cultura dos lugares do mundo. Há muito que não lia só por prazer.

Registei ainda o modo como a família se reuniu quase toda, atravessando cinco deles o atlântico até aqui. Comemos, bebemos, rimos, conversámos, dormitámos. E tive a certeza que aqueles momentos eram também dopamina pura, uma injecção transmissora de alegria ao sistema nervoso central, com a vantagem se aí se depositar como uma pequena reserva, talvez a usar em dias mais sombrios.

Eu e ela provámos à vez fatos de banho, invertendo a ordem, ora era ela a provar e eu a trazer, ora o inverso. E é dessas coisas tão pequenas que nasce a cumplicidade e agora que ela se foi por durante mais uns dias ou semanas, nascerá também a saudade. A saudade é vida pura, faz o sangue circular para se entristecer e depois para se extasiar.

E a paragem de apenas alguns momentos no ritmo intenso mostrou-me mais uma vez o quanto estou a desperdiçar o tempo a trabalhar. À procura de caminhos para poder abrandar, como quem procura saber qual o fusível que pode desligar e ainda assim manter a luz acesa.

A alegria pode vir assim, mesmo em doses pequenas, é a ela que me agarro.

~CC~






terça-feira, 3 de julho de 2018

Arrepio



Estendi-lhe uma face para a cumprimentar com um beijinho e depois a outra, foi aí, nesse pequenino momento de inclinação para o segundo que percebi que ela estranhou e quase rejeitou pois só me ia dar um beijinho. E foi também nesse curto momento que me arrepiei pois tomei consciência que eu tinha nascido num berço e ela noutro e que entre nós havia um oceano. Nessa coisa tão simples, intrometeu-se a distância, o gelo, algum desprezo. 


~CC~

domingo, 1 de julho de 2018

Das perguntas (a mim)



Era uma miúda com uns oito anos, belos olhos redondos pretos, tom de pele de canela e cabelos longos, muito escuros. Ia pela mão de um adulto, talvez o pai, homem entre os 30 e os 40 anos. Passei ao lado deles e pude ouvir claramente a pergunta dela:

- Quando é que eu posso usar a jillaba?

Levei comigo a pergunta dela por todo o resto do caminho que fiz. Como é que uma criança a viver em Portugal, com um cabelo tão espantosamente bonito, pode um dia querer cobri-lo? Como é que querer crescer pode ser um desejo em vez de gozar espantosamente a liberdade da infância? Lembrei-me então das miúdas pequenas com as unhas pintadas, do seu desejo de pintar unhas das mãos e dos pés. Pensei em qual das coisas me chocava mais, se uma coisa que estava dentro das referências culturais ocidentais ou uma que não estava.

E cheguei à conclusão de que uma e outra me provocavam grande desconforto.

~CC~

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Que é feito dela?



Bem sei que o cansaço se acumula mais do que a poeira em cima dos móveis. E que quando ele se deposita assim em nós, só o conseguimos sacudir deixando entrar a letargia, a renúncia, o abandono. Estou quase a chegar a esse limite.

É um dizer não que se vai pronunciado devagarinho até tomar força e se entregar a mergulhos de mar, tardes que se prolongam até se enrolarem nas noites, livros que se começam na incerteza de chegarem ao fim tantos são os passeios a chamar-nos. Que bom é sair apenas para ir comer um gelado. Até os blogues ficam em pousio.

Será esse cansaço dela? Sim, comecei este post a pensar nela, em como gosto dela e em como me faz falta. Penso que está bem e está de férias. Penso que está mal e por isso se distancia e se cala. Pergunto-me, pergunto-lhe. E isto tudo respeitando o seu silêncio.


~CC~