domingo, 25 de setembro de 2016

22 de Setembro



Fiz 52 anos no dia 22 de Setembro. No dia 21 a médica conseguiu finalmente contactar-me, andava à minha procura desesperadamente por causa do resultado das biopsias (que deviam ter chegado só a 25). À porta chamou o meu marido, disse-lhe que entrasse. Tudo ficou dito nesse instante. Mas o meu acompanhante não era o meu marido, apenas um colega e amigo da escola, por isso ficou lá fora. Os vínculos têm designações estranhas para os médicos, eu podia preferir que fosse um amigo em vez do marido a ouvir o veredicto.

Foi a prenda de anos mais absurda que recebi por ser tudo ao contrário de uma prenda de anos, era apenas uma semente de tristeza que tentei, tento não deixar germinar.

A médica abraçou-se a mim o que estranhamente deixei, não gosto de me deixar tocar por estranhos. É verdade que ela me chama princesa, é doce, e diz que eu sou maravilhosa. Parte daquilo talvez conste em algum livro de medicina mas a parte que conta é a que é mesmo dela, é genuína. Deve ter muitas princesas, mas eu passei a ser mais uma e isso é o que importa.

Foi um bocadinho triste o acordar mas não foi o meu dia de anos mais triste de sempre. Lembrei-me de quando fiz 15 anos e queria ir lanchar fora com as minhas amigas mas não tinha dinheiro para tal, a minha mãe disse-me que faria um bolo em casa e podia trazer 3 ou 4 amigas. Assim foi, ela fez um bolo com cobertura e diluiu o Tang num jarro. Nada daquilo era o que eu queria, sentia-me triste como só aos 15 anos nos podemos sentir, uma mistura crua de hormonas de crescimento com a revolta imensa perante o destino.

A minha luta mais dura foi para sair da pobreza, coisa que fui conseguindo muito a custo mas sem amealhar o que me era merecido pelo trabalho intenso dos anos. O mais difícil foi fazer duas licenciaturas, um mestrado, um doutoramento, tudo isso sempre com muito pouco dinheiro. Agora é só a luta contra a morte, já lhe ganhei duas vezes (dois acidentes graves), serei mulher a sério se lhe ganhar uma terceira, mas se perder, que se lixe.

Não, o dia 22 de Setembro de 2016, apesar de ser aquele em que acordei pela primeira vez sabendo que tinha cancro não foi o mais triste da minha vida. Talvez seja apenas o primeiro dia de uma outra vida que tenho que aprender a viver.

~CC~

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Diário de luta



Começo hoje o diário da luta.

Maldita palavra essa biopsia onde o que sai não é nada parecido com raspadinhas, euro milhões ou jogo do galo.

De todas as palavra estranhas em linguagem médica a palavra carcinoma é de senso comum, percebo-a. Assim acabou o meu romance comigo própria em que me ia curar a sol e mar. Parece que é preciso mais.

A luta é a parceira da vontade de viver, da motivação.

Mas não sei quanto durará a vontade, a luta como a designação correcta. Por ora será.

Parece que há coisas magnificas escritas sobre essa luta, talvez ajudem, gosto de ler.

~CC~


domingo, 18 de setembro de 2016

Meia idade


Elas crescem, expandem-se, voam.

Quando penso em querer viver, viver muito mais, penso sempre em vê-las, saber como serão as suas vidas, poder embalar os bebés que terão ou não, assistir às suas carreiras, às experiências que terão, às viagens das quais trarão cheiros e fotos.

É mesmo isto a meia idade, não significa não querer coisas para mim, mas querer cada vez menos isso sim. Querer mais para eles, para elas (se uso "elas" é porque tenho uma família onde as mulheres jovens são sem dúvida a maioria, há apenas um príncipe, muito mais princesas).

A mais nova veio agora para a faculdade e serviu-nos chá e bolo numa casa minúscula com um quintalinho amoroso no meio da cidade. A casa fica na rota dos aviões, olharei para lá cada vez que voltar a Lisboa, pensarei se sempre terá plantado mais qualquer coisa no quintal.

O bebé novo de uma das mais velhas cresce a olhos vistos.

Festejaremos na Terça os 18 anos daquela escolheu ser actriz, era uma bebé feliz de olhos e caracóis pretos. Que conseguirá com esta escolha tão arriscada que fez e que foi aquela que não pude, não consegui fazer. É bom ter suporte para poder arriscar.

Quero ver tudo, quero ser futuro. O sentido da minha vida já não é apenas o da minha vida. Intensificou-se essa sensação ao ser mãe mas vai agora muito além, diversificou-se com todos estes caminhos que se traçam, os quase filhos, os sobrinhos, um quase neto. Os "quase" ficam mal mas é como se não me sentisse direito de apropriação total, ficam sempre a um passo daquele abraço sem medo dos outros, mas gosto deles também, interesso-me.

Os rios cruzam-se, bifurcam-se, encontram-se mais além. A vida tem imensa piada, não sei a razão de tanta angústia vir perturbar-me às vezes, ou talvez saiba, mas quero sempre vencer, vencer isso e muito mais.

A minha irmã mais velha dizia muitas vezes perante provas que iríamos enfrentar: vou acender uma vela.  E não há ateia como ela. Mas a vela era a nossa chama, a nossa força.

~CC~


sábado, 10 de setembro de 2016

Do ser e do não ser



A ida a Roma mostrou-me em toda a sua plenitude que posso ser o que sempre não desejo ser: turista. Confrontou-me com muitas coisas, entre as quais as que são contraditórias em mim. É esta coisa de ser eu e ainda o outro. Há muitas perguntas a ecoar em mim, quase todas são sempre para quebrar as certezas das coisas, as dos outros e as minhas. Fui mais turista em Roma ou numa praia fluvial no rio Paiva? Quando olhava no centro de Portugal para as pessoas que faziam os seus grelhados e colocavam os rádios num som o mais estridente possível, para os emigrantes portugueses a falar com os filhos no seu francês com sotaque, para os mergulhos em fila dados em pirueta por um conjunto de jovens ruidosos, nesse caso, com toda a distância que me separava deles, senti-me de fora, uma estranha naquele lugar que lhes pertencia. Mas era o meu país e o lugar não era turístico.

No centro do coliseu em Roma estremeci muitas vezes, emocionei-me e horrorizei-me. O horror não advinha das correnteza de gente em magotes a encher o espaço, mas da própria história, da noção que parte das minhas células contêm uma parte de tudo aquilo. Ensinar a violência, o horror como espectáculo, a estratificação social, as mulheres na última fila, de onde não seria possível ver quase nada, o pão e o circo. São vinte séculos e tão pouca mudança. Senti-me parte de tudo aquilo, fez-se luz para tudo o que parecia distante nos livros de história mas também para tudo o que daquilo ecoa na modernidade.

Emocionei-me estupidamente também entre gente e mais gente que enchia a Fontana de Trevi, como se de repente estivesse ali dentro do filme e pudesse olhar os anos 60 com os olhos do Fellini. Percebi o que significam os ícones da modernidade, já os vimos a todos, mesmo que sejam nos lugares mais distantes e no entanto perto deles, quando os podemos tocar, só aí são verdadeiros, existem mesmo e são a nossa história. Por isso odiei Roma, amei Roma. Odiei por me sentir parte daquela horda de gente que estraga os lugares, consumindo-os como um produto. Amei porque senti com intensidade cada estátua romana de cabeça cortada, cada coluna romana perdida no meio da cidade, porque imaginei o Teatro Marcello no seu esplendor, cada fonte achada em qualquer lugar da cidade, cada gelado, amei porque aquilo somos nós, sou eu. 

Acresce que o italiano foi desde sempre a única língua que quis aprender a falar. Embora em Roma o italiano não seja tão belo como noutros lugares de Itália, como a cidade está cheia de emigrantes e são eles que encontramos a trabalhar em quase todo o comércio, o italiano falado por eles não tem o mesmo fascínio. O meu deslumbre na Fontana de Trevi, tão mais intenso que na praia fluvial do rio Paiva (e eu que gosto tanto de rios) espantou-me, afinal há em nós sempre um lado desconhecido, qualquer coisa que não conhecemos, não dominamos, não sabemos acerca de nós próprios.

~CC~




terça-feira, 6 de setembro de 2016

Setembro (2)


Tudo novo. Férias em Setembro. Eu e ela.
Onde estamos? Como chove e se come gelados no mesmo dia?
Como é que tanto cansaço pode ser tão bom?
~CC~