domingo, 20 de janeiro de 2019

Arqueologia do amor



Parte da minha vida é imaginar o que eu poderia ter sido. As muitas vidas que me habitam.  Gostaria de ter sido arqueóloga do amor. Perguntarão pelo conteúdo funcional da minha profissão. Eu procuraria nas pedras os vestígios, as marcas, as provas da existência do amor desde a idade da pedra até hoje.

Parece que Darwin esbarrou nos gestos do amor, tudo o que não se destinava a escolher o melhor ou a melhor para procriar e perpetuar a espécie. O que aparecia como acessório e aparentemente inútil. Dar as mãos, por exemplo. Quem inventou esse gesto? Não há nele quase nenhum apelo sexual. O que há então? Para quê fazê-lo?

Como é que os romanos, esses brutamontes que inventaram os circos de feras, as lutas corpo a corpo, o domínio do outro e o império, tendo as mulheres em tão má conta que as sentavam no coliseu no anel mais incómodo e distante da arena, como é que entre eles um homem e uma mulher mostram a sua união através das mãos que se tocam? Olhando de frente para o mundo mostram que já não são apenas um e são dois, não é apenas um número a juntar-se a outro, não é um dois que anula cada um, mas é uma junção que forma um universo comum. Deste andar juntos pelo mundo como dois se faz a minha noção de amor. E não tem sido fácil.



Museu Romano de Mérida.

~CC~

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

É para mim mesmo!



- Embrulho-o para presente?!

- Não, não é preciso?

- Mas quer talão de troca? É que a menina pode querer trocar?

É certo que o pijama era cor de rosa e tinha cinco bolinhas felpudas a enfeitar a argola do fecho. Já não vou tão longe que possa colocá-la a equacionar a hipótese de ser para um rapaz, não pela cor, mas pelo facto da loja não vender roupa masculina. Mas como não pensou que pudesse ser para mim?! Há mais preconceitos para além do género e creio que a conotação de certas coisas com determinadas faixas etárias é uma delas, não obstante termos melhorado muito. Li há uns tempos que tal preconceito até tem a designação de idadismo.

Gosto de cor de rosa, sobretudo o rosa velho, sempre gostei, não deixarei de o fazer por uma questão de género ou idade. Também gosto de amarelo e de todos os tons entre este e o castanho. O preto, esse é que se calhar abandonarei com o envelhecimento. 

Fico a pensar também na formação que estes funcionários terão ou não para o atendimento ao público. É que esta foi uma aberração pequena comparada com outras que já presenciei. Mas a que mais me revolta é a tentativa que já vi muitas vezes de vender tudo e mais alguma coisa aos velhotes, sobretudo nas farmácias quando eles vão lá queixar-se e muito raramente e por iniciativa deles lhes perguntarem se querem genéricos.

~CC~








segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Cabeça versus coração a Km à hora



Vinha da A2 Sul a 136Km/hora, às vezes distraio-me, nem costumo conduzir muito depressa. Atrás de mim um carro da brigada de trânsito da GNR.

Primeiro pensamento: é agora, vão mandar-me encostar e multar-me.

Constatação: Olha, ultrapassaram-me e já seguem bem à minha frente, devem ir a mais de 140Km/hora.

Alívio e estupefacção. O coração contente, a cabeça a abanar: ai este país.

~CC~


sábado, 12 de janeiro de 2019

Mãe



De 15 em 15 dias estou com ela, levo-a a sair e a almoçar fora. Desta vez achava que eu já não vinha há muito tempo e que a última vez que tínhamos ido àquele restaurante (gosta de vegetariano) tinha sido há muito tempo, quando não tinha passado mais de uma quinzena. Os primeiros passos na rua foram cambaleantes, só no regresso pareceu acertar melhor o passo. Quando tirou os óculos escuros que invariavelmente usa por causa dos olhos doentes, pude ver os imensos círculos vermelhos que os rodeavam e um brilho baço. Não estava nos seus dias e diz que tem cada vez menos dias com luz, cada vez tudo é mais escuro, mais difícil, mais pesado. Como tantos filhos e filhas não sei o que fazer, moro a mais de 200km, não a quero ver num lar, não tenho condições para tomar conta dela na minha casa pois moro sozinha e ainda estou a recuperar da minha própria doença. O apoio domiciliário que tem é claramente insuficiente. Hoje tentei, como há um ano atrás tentei com a bengala (e só consegui depois de um ano), que usasse sempre consigo o telemóvel, preferencialmente colocado ao peito, em bolsinha própria. Recusou. Que o seu Deus a levasse a aguentar até à chegada do seu filho brasileiro foi o único clarão de hoje, nem se riu, quando lhe perguntei se seria Deus ou o seu santo Sousa Martins, creio que nem me ouviu. Já só ouve mesmo o que quer.

~CC~

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Primeira



Falar delas à medida que as vou conseguindo concretizar.

Ontem a primeira resolução.

Guardar uma noite por semana para ler ou escrever. Confesso que a leitura foi inspirada por inúmeros blogues que publicam listas incríveis de livros lidos num ano ou por resoluções do mesmo tipo. Contribuíram para que tomasse consciência de que, tirando os jornais e revistas, leio sobretudo nas férias, o que se resume a dois/três livros por ano. Posso sempre invocar o tempo pois quando estive doente li mais, muito mais. Mas se o tempo é um garrote, há que saber desapertá-lo, mesmo que devagar.

Escrever se não à moda antiga em papel e lápis, em modo reservado. Ainda tive a tentação de abrir a minha Ardósia Azul, era o meu blogue de escrita, nasceu amarrado a esse formato e acabei com ele exactamente por não querer estar amarrada a nada. Mas tive, tenho saudades dele. A Rua da Índia nasceu e vive sem a preocupação da escrita, da arrumação da palavra, da mensagem, é só o que apetece. Isso também me fez bem, me faz bem.

Vamos ver o que consigo. Para já começou o detox do que interessa menos: séries ou filmes, às vezes sem grande qualidade, apenas para minimizar o cansaço do dia.

~CC~