terça-feira, 16 de janeiro de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

Usar o preto



Não tenho dúvida alguma sobre a seriedade do assédio sexual e que existe como abuso de poder de alguém sobre um outro, de alguma forma em posição mais frágil, no mundo do cinema ou em qualquer outro. Tinha 20 anos quando um taxista me colocou uma mão na perna apenas por eu ir sozinha no táxi com ele e ingenuamente ao seu lado. E recordo outras coisas do género e sim, algumas vezes, de alguém que tinha poder sobre mim. Não é, como alguns dizem, que basta negar e acarretar com as consequências. É bastante mais complexo e mais difícil. As minhas situações foram básicas, ténues, daquelas que são sobretudo insinuação, tentativa, ilustração do poder, do que se perde por não querer, etc. Mesmo assim achei-as miseráveis. Mas o que possa ter perdido não era o meu emprego, a minha casa, os meus entes queridos, como acontece com muita gente. Qualquer comparação do assédio com um jogo de sedução entre dois adultos é pura desinformação, poeira para os olhos, não é disso que se trata. Aplaudo assim o movimento de denúncia. 

Contudo, tinha que haver um no entanto...

Vestidas de preto com trajes de alta costura e a brilhar muito. Todas de preto pois quem não veste, não é boa gente. Isso já não. Não é denúncia a sério, não é dor, é já outra coisa qualquer do domínio do politicamente correcto, do tem que ser, do "eu também" se não fico de fora.

Fico triste quando o que é bom se estraga num instante. E tenho receio de que isso esteja a acontecer. E que se venha a virar contra as mulheres (sobretudo elas, mas o assédio não é apenas no feminino). 

Não importa a cor que vestimos, vermelho para mim seria melhor para a indignação, mas se para ti for o branco, veste-o.

~CC~






terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Paladares



Uma vez perdi o sabor da comida com um desgosto de amor, lembro-me bem de não me apetecer comer, da rejeição da comida, passou breve. Anos mais tarde, uns bons anos mais tarde, também perdi o paladar, por força dos químicos para a doença. Desta vez, foi mesmo físico, provava e queria comer mas o retorno era nulo, uma viagem ao vazio. Recuperei lentamente, tal como o gosto por cozinhar. E se há coisa que gosto é se perceber o que cada lugar tem de singular para oferecer em matéria de sabor, é um modo de entender o que lá se passa ou passou. É para essa homenagem aos sabores que vos convido. E é só o primeiro de mais sábados.



sábado, 6 de janeiro de 2018

A vida dá cada volta



Ainda me lembro quando ela as quis comprar. Estavam na moda, talvez porque na altura realmente chovesse, não era de quando em quando, como agora. Ou talvez fosse por a moda criar necessidades como lhe apetece, mesmo sem razão alguma. Certo é que havia galochas por todo o lado e bem diferentes das da minha infância que eram apenas uns monos de borracha colorida para as crianças e escura para os adultos, estes quase só operários e trabalhadores do campo. Na adolescência da minha filha tinham os mais variados cambiantes e padrões e as que ela quis misturavam uma parte de borracha e lã, e a lã tinha um certo padrão natalício que ficava bem com o Inverno. 

Não sei quantas vezes as usou, talvez só naquele Inverno em que todos as usavam. Ontem calcei-as e saí com elas à rua, coitadas, há tanto tempo a definhar no armário, foram elas a pedir-me. Um bocadinho largas é certo mas uma proteçcão ultra adequada. Senti-me uma miúda e dei uns saltinhos nas poças de água.


~CC~

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O meu nome (para a Alexandra)


Para a Alexandra (Imprecisões)

Encontravam-se dois Júlios (Resende e Machado Vaz) em cena e tinham chamado a esse encontro "poesia homónima". Tinha curiosidade pois era um produto híbrido, não era só música, não era só poesia, e mal sabia eu na altura, afinal também envolvia pintura. Avaliando as coisas pelo meu interesse nelas, acho sempre que os espectáculos vão esgotar, por isso procuro comprar os bilhetes antes. Nesse dia, nessa terra que viu nascer a minha mãe e para onde caminho amiúde, Olhão, vila da restauração, havia mais poesia e por isso fomos à tarde.

Entrei no átrio vazio e estava uma funcionária lá ao fundo, à qual me dirigi. Assim que cheguei o telefone tocou e ela atendeu mas ao mesmo tempo olhou para mim e disse: Cibele! Eu fiquei absolutamente espantada por ela saber o meu nome e estar assim à minha espera e disse: sim, sou eu. Ela respondeu: não, sou eu. 

Pediu um bocadinho e continuou o telefonema. Quando poisou o telefone, tive que esclarecer. Sim, ela também se chamava Cibele e também nunca tinha conhecido mais nenhuma mas sabia que no Brasil havia muitas e que agora passava uma novela brasileira em que uma das protagonistas tinha esse nome. Em Olhão, terra da minha mãe. Uma mulher com o cabelo muito escuro, menos dez ou quinze anos que eu, cujo pai gostava muito daquele nome e o tinha escolhido para ela. Tive que lhe dizer que isso era o que tinha acontecido com o meu pai, que tinha sido ele a insistir muito para que esse nome fosse o meu e que apesar de só ter conseguido colocá-lo em segundo lugar, tinha sido a força dele a impor-se e (quase) todos me tratavam assim, sobretudo os mais próximos. Um nome que foi o meu brilho e a minha sombra. Brilhou por me ter sempre identificado com ele mas foi sombra na altura da adolescência por se prestar às mais variadas interrogações e brincadeiras. Não escolheria outro para mim, é um nome completamente meu.

Também para mim aquele tinha sido um dia de poesia homónima.

~CC~