domingo, 7 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XII)

 

Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.

Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.

Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.

Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.

De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.

E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.

Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.

~CC~

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