É verdade que as construções de Gaudi são abraço intenso entre arte e natureza, um desafio permanente ao equilíbrio das formas e uma ode às cores do universo, uma oração à capacidade onírica, um conto de fadas, ogres e de monstros entrelaçados nos nossos sonhos, um retrato de como as emoções circulam em nós. Tudo em absoluto contraste com a cama modesta e minimalista em que o arquitecto dormia e com o abrigo em que se escondeu, por fim, na Sagrada Família, em fusão com a excentricidade do templo que queria erguer. Infelizmente os apontamentos imersivos, feitos à medida do turista, com poesia fácil e efeitos de inteligência artificial, estragam o que queremos ver e sentir só por nós.
Assim, a minha imersão mais bela e genuína aconteceu com duas meninas, gémeas, saídas do universo Gaudim, banhando-se na praia, em frente à Barcelonete. Vestidas como dois seres fantásticos, fatos de banho rosa, azul e branco, com brilho ligeiro, tocas com cor de rosa com longa crista de bicho, óculos de mergulho pretos, elas não eram bem seres humanos, mas quase animais marinhos. As meninas entravam na água, mergulhavam e emergiam em longos bailados exóticos, enquanto a jovem mãe (suponho) as fotografava com desvelo. Quando a mãe desistiu das fotografias, a festa tornou-se mais livre, mais surpreendente e mais autêntica, contudo nenhuma delas se livrou da vestimenta, como se a tivessem incorporado no seu modo de ser. Entre os seus mergulhos e as ondas do muro do pátio principal do parque Guel tudo se alinhava nessa homenagem ao mediterrâneo que eu própria senti pela primeira vez.
~CC~
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