domingo, 23 de agosto de 2026

Domingo de Saudade

 

Não me lembro dela festejar os anos, a não ser na época mais tardia da sua vida, talvez nos últimos vinte anos.

Não sei se era exatamente assim com todos os adultos das famílias pobres, festejar anos com bolo e parabéns em voz alta era uma coisa de crianças, só o fazíamos até à adolescência. 

Depois ela tornou-se um pouco menos pobre ou fomos nós que nos tornámos e com isso a tornámos também. Envelheceu, enterneceu-se, tornou-se mais frágil, mais doce. Com isso vieram as festas de anos, por fim, cada ano era também uma vitória sobre a morte. Queria sempre ficar bonita, sair, bolo de anos e prendas, queria festa e queria família. Tive duas mães, uma até aos 60 e outra que foi nascendo gradualmente dessa, cada vez mais diferente da anterior. Claro que transportava algumas coisas, a acutilância, a ausência de rodeios, o gosto pela beleza, o desprezo por quem não se cuidava, a vontade de viver, sempre ela, cada vez mais forte.

Hoje é Domingo de saudade, faria 98 anos.

~CC~

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