terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sobreviventes


Essa arte de navegar nas correntes.

Hoje eu sei claramente que uma queda pode, a meio do precipício que pronuncia a morte, se tornar num voo azul. Até o amor pode ser assim, salvar-se milagrosamente em plena queda. Depois fortalece-se, modifica-se.

Ouvir o outro sem deixarmos de nos ouvir a nós mesmos. Essa paragem da escuta, esse minuto de silêncio no sentir do outro. Aprendi três coisas importantes na vida, afirmar-me falando, calar-me, ouvir. A última foi a mais difícil, ainda aprendo.

Ontem trouxe uma convidada a uma aula, excelente perfil técnico, lugar de topo, perfil sem falhas. Faz gestos quando fala, desloca-se pela sala, tem ênfase nas expressões. Parece cumprir o modelo perfeito de comunicação. Mas não se calou um minuto só, falou tão incansavelmente que nos cansou. Desliguei várias vezes. Se eu o fiz, imagino os mais jovens. Esqueceu-se do outro, ela também desligou, ficou só consigo, com o que tinha para dizer. Sou hoje incapaz de falar e de escrever sem silêncios. 

Andam fortes as correntes e tenho que procurar vários modos de lhes sobreviver. Às vezes viajo simplesmente encaixada dentro de um búzio. Às vezes escondo-me nas rochas. Às vezes salvo-me enrolada no teu abraço. 

Estas correntes fortes num país tão frágil.

~CC~


2 comentários:

  1. Se o silêncio é um bem escasso, saber ouvir é escassíssimo.

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  2. Sim, sem dúvida. E é tão bom o silêncio.
    ~CC~

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