quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (II)

 

Há amor que nasce sem paixão.

Os nossos amigos são como um tapete de malmequeres, uma rede de apoio e conforto. Por vezes não conseguimos destacar nenhum deles. Mas por vezes há alguém que se evidencia. Aproxima-se mais, passamos mais tempo, sentimos que precisamos mais. Dessa necessidade maior, surge aqui e ali um toque mais prolongado, uma pele que parece precisar da outra, é uma mão que se dá, um abraço que se aperta e sentimos o corpo do outro. Às vezes duvidamos, hesitamos, temos medo de estragar aquela amizade. Mas aquele malmequer já não é igual, ganhou outra cor. E já não podemos mais ignorá-lo. Não houve paixão mas a transformação da amizade em amor. E o desejo chega com uma roupagem diferente da paixão, vem com a luz das coisas conhecidas, não com a incandescência das desconhecidas. Há amor sem incêndio, há amor que é lume e fica muito tempo a arder até termos a certeza que aquela temperatura é boa, é a do clima ameno das ilhas.

E se não correr bem, pode ficar menos um malmequer no nossa verde manta, isso pode custar, mas também custa não arriscar.

~CC~



8 comentários:

  1. belíssimo, pungente é mesmo o que consigo dizer após a leitura destas linhas

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  2. Acredito que aconteça. E também acredito que haja nesse amor o mesmo fogo que no desconhecido; embora seja termo da mesma raiz, amor e amizade não são a mesma coisa, um amigo é, na perspectiva da relação que evolui para o tipo de amor que envolve desejo sexual, um ser desconhecido. Se der certo, a amizade mantém-se; se não der, será a sabedoria dos dois a determiná-la. Acredito que possa manter-se. Não tive tal experiência, os meus amigos e os padres eram um conjunto vazio face à possibilidade amorosa, o mesmo não direi de colegas. E guardo dos meus amores recordações espantosas, sou-lhes grata para a vida.
    Bom fim de semana, CC

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    1. Que bom ver sem qualquer mágoa e até com gratidão os seus amores passados, muitos de nós não podem dizer ou sentir assim ou totalmente assim. Mas também procuro guardar algo de bom, se amámos não pode ter sido tudo um engano. Ai tanta chuva...mas como o trabalho é muito também...

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  3. Quando acaba CC, como dizia Camões, do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem, se algum houve, as saudades.
    Já sofri por uma mulher e já houve mulheres que me fizeram sofrer, por isso, quando na mesa ao lado ela dizia à amiga perante duas chávenas de café já vazias, que sofria, embora não querendo, com a recordação do homem que a fez sofrer e gozar, que é bem possível tivesse desprezado, mas a quem amou, compreendi como o amor, mesmo infeliz, é como uma flor inebriante para a alma e continua a medrar na estufa sombria e morna do subconsciente.

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    1. Pois, há também mágoas que ficam, se não as trabalharmos podem ser gigantes que nos perseguem. O amor infeliz vive em muita gente sim, homens e mulheres, parecem inebriados pelo sofrimento ou incapazes de se verem livres dele, atados pelo negrume. Eu sou mais a favor do amor que faz bem ou sobretudo bem. Bom fds, esta chuva convida a filmes românticos😉

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