Com a idade ganhamos manias, pequenas coisas que nunca pensámos condizer connosco. Eu gosto de comprar soutiens sempre na mesma loja e preferencialmente do mesmo feitio e da mesma marca, desde que me senti confortável com aqueles nunca mais quis outros. Mas estou sempre em pânico que a loja feche, a senhora já é idosa, é uma retrosaria pequena, na baixa da cidade, não é fácil lá ir. Já procurei noutras lojas e não encontrei.
Finalmente, num pequeno rasgo de tempo, consigo lá ir. Quando chego e vejo a loja ainda aberta, sinto uma grande alegria e desta vez exprimi-o alto: ah, ainda bem que não fechou! Ora a senhora, para quem eu não olhei bem ao entrar, começou a lacrimejar. Só depois reparei que estava toda de preto e que tinha encarado a minha frase como se eu soubesse de tudo. Tinha perdido o filho em quinze dias, quando assim é, já sabemos que é o maldito pâncreas que, sem avisar, resolve claudicar. Lá lhe disse que não sabia, que tinha só receio porque as lojas da baixa estão sempre a fechar. Fiquei ali de mão dada com a senhora, a ouvir a sua história, marido e filho perdidos para a mesma doença que, no caso específico, dizem não ser hereditária. Já nem sabia como voltar à compra do soutien. Optei antes por lhe contar em versão resumida minha história para ouvir dela aquelas palavras que me fazem sempre muito bem, que não parecia nada, que ninguém diria. Mas o que importava mesmo era elogiá-la, estar ali aos 82 anos depois de ter perdido dois entes tão queridos, isso é que era mesmo heroico. Estamos vivas, conclui: a minha mão na mão dela.
E por fim: hei-de voltar, disse-lhe, para ver os fatos de banho, mas hoje só queria mesmo um soutien daqueles...e ela, pois claro, pois claro, sabia perfeitamente o que eu queria...2 minutos tinha o soutien, provavelmente também uma multa de estacionamento, mas que importa, dei por bem gastos os 45m que lá passei.
~CC~
quando uma compra proporciona uma bela prosa
ResponderEliminare sim, o pâncreas por vezes é um ladrão
A senhora estaria mesmo precisando de si, CC. Desse mão na mão, o contacto físico, se autêntico, é uma benção; da sua atenção próxima e amiga ao desgosto, do relato pessoal e vencedor, dos seus elogios tão merecidos. Quem tem 82 anos e ainda tenta retomar o quotidiano anterior depois de tão dura prova e que todos os que têm filhos tanto temem, merece o nosso olhar atento e apaziguadora compreensão. Talvez esse quotidiano a salve, lhe seja necessário à continuidade da vida; não interessa o motivo, está no seu posto; sabemos de casos em que a desistência predomina, as pessoas entregam ao desgosto como se fora uma profissão de fé da qual não desejam sair.
ResponderEliminarE vai voltar de certeza. Compra o fato de banho, faz companhia, fica linda no seu despir e abraça essa mãe desconsolada, que desgosto maior não haverá.
Bom dia, CC
Mas é tão bonito e comovente o seu gesto de "mão na mão". Lembrou-me um poema de uma aluna, num outro contexto mas igualmente simples e fundante. Uma escriba extraordinária que entrou para medicina, interrompeu para seguir jornalismo e se deixou arrebatar por um amor maior ao qual se consagra sem domingos nem feriados. Disse-mo a mãe quando um dia inquiri sobre a garota, que a ela perdi o rasto. E esta é uma das verdades que mais me custa acreditar. Será que as pessoas felizes não têm história?!