Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.
O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.
Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.
~CC~
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