quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Neste cuidado reconheço-me inteira.

 

Deixei-me simplesmente ir nestas férias, sem grandes planos, nem projetos. A expetativa, tantas vezes gorada, de tirar delas um deslumbramento capaz de me recarregar baterias para um novo ano, deixou de existir. Fiz coisas vulgares, à medida do que me apetecia, e nem sequer me obriguei a ir onde supostamente seria expectável ir como à festa de teatro da minha cidade, eu que tanto amo essa arte e que costumo tudo fazer para conseguir estar presente quando ela acontece. A cabeça precisava de se esvaziar, não podia conter mais nada, nem sequer uma obra de arte de qualquer natureza ou mais um espetáculo. Percebi a exaustão a consumir-me e que ela me poderia arruinar e parei de ver, de ir, de planear, de querer. Li pouco, apenas um ensaio e comecei um outro livro. Vi dois ou três filmes. Depositei energia, contudo, em coisas que costumo detestar, como arrumações e limpezas. Em caminhar sem plano nem destino.

E precisava de estar mais tempo assim a flutuar, noto isso a cada tentativa de regresso às tarefas que se acumulam à minha espera, faço-as muito devagar, resistindo. Nem a chuva ajudou.

E depois ele pediu ajuda, e só não farei por um amigo algo se não puder mesmo. Acabei assim nesta cidade tão mais a norte, à qual trouxe tantas vezes a minha mãe, no mesmo hospital ao qual a acompanhei regularmente para fazer a injeção que durante uns bons anos lhe salvou a visão. Nada previsto, nada suposto, nem sabia onde iria ficar, ele programou, não eu, uma raridade, toda a vida eu planeei tudo, excepção às últimas férias com a minha filha onde as coisas já não eram, nem são bem assim.

Ao mesmo tempo isto devolveu-me a mim, ainda sou eu, aquela que gosta de cuidar e tem jeito para o fazer, não tanto pelo cuidado do corpo do outro, mas pela capacidade de escuta, de fala, de humor. Alguém que acompanha, alguém que é companhia, sou capaz, ainda sou capaz. Neste cuidado reconheço-me inteira.

~CC~




Sem comentários:

Enviar um comentário

Passagens