domingo, 6 de abril de 2014

A palavra (angústia)




Ver uma filha inteligente partir para uma estúpida viagem de finalistas. 

~CC~

sábado, 5 de abril de 2014

A palavra (amor)



Há dois dias fui especialmente àquele supermercado que tem a marca branca dos cereais que eles gostam, os únicos que comem com verdadeiro gosto. Só fui lá para os comprar, comprei a marca de um e comprei a marca do outro. Comprei uma para mim que nunca tinha provado, na verdade eu gosto mesmo é de pão, um bom pão alentejano, algarvio ou de centeio. Levei anos a fio a comprar o único sumo que ela bebia, até que um dia me disse que não comprasse mais, tinha enjoado. Tenho uma máquina de cápsulas mas cá em casa há café do que ele gosta para fazer na cafeteira. Para ela há chocolate de leite e não chocolate preto. Mimá-los com estas coisas é fácil, são os nadas quase tudo do amor.

~CC~

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Adeus ao Jorge



Muitos poderão escrever sobre o Jorge homem e sobre o Jorge escritor, eu apenas o conheci na blogosfera, o seu cheiro dos livros (http://nemsemprealapis.blogspot.pt) era obra pública de um amor desmedido às letras, não só reconhecia a obra literária dos outros como traduzia com rigor e precisão. Por causa dele comecei a espreitar os nomes dos tradutores, esses homens e mulheres sombra mas que são fundamentais à obra de um escritor. E os seus textos de prosa poética são lindíssimos, nunca teve, contudo, o reconhecimento merecido, não sei se era por isso que emergia alguma amargura e crítica ácida ao meio literário português. Não sei se tinha toda a razão mas parte tinha com toda a certeza. Os netos gémeos eram um orgulho para ele, mostrava-os ao seu colo, mostrando um ser humano doce e especial.

Apareceu um dia a comentar na minha Ardósia Azul e gostei logo dele, os comentários eram sempre únicos, delicados, às vezes desafiadores, mas sempre inteligentes. Perdi-o quando comecei a escrever na Rua da Índia mas um dia descobriu-me.  Tenho pena de nunca termos combinado um café na praça do Príncipe Real, um dos seus lugares de eleição, tão bonito, tão boémio. Atravessei a praça tantas vezes ainda adolescente, de certo que o Jorge já lá tomava café e fumava um cigarro.

Tinha como eu um grande amor ao sul, ao sul real e ao sul simbólico no que ele tem de azul revolucionário. 

Um abraço Jorge.

~CC~

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Buraco negro




Uma coisa que nos falta, falta-nos naquela hora, naquele momento.

É consciência da nossa solidão no mundo. Pode passar mas ficamos a saber como é e parece que nada poderá voltar a ser como antes. Fica só a falta no lugar de tudo e o seu poder de absorver toda a luz.

É como saber o que é o pânico, não se esquece mais.

A solidão, o pânico, deve ser assim o pavor dos astronautas diante de um buraco negro.

~CC~


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Bichos e homens



Todo este rio à minha frente. Não vejo os golfinhos, mas consigo imaginá-los no estuário.

Quando nos candidatamos a alguma coisa é um teste à rejeição, a perder, a constatar com clareza que outros são mais preferidos, mais apreciados ou talvez mais amados. Nunca fui de me candidatar a nada, penso que o receio da rejeição esteve sempre implícito. Nunca me deixei de sentir a estranha, aquela que vem de fora, aquela que receiam por catalogarem como uma intensa formiga.

Se me soubessem aqui tão cigarra a olhar o rio, a cantar, a desejar a Primavera toda.

Foi ali mesmo no estuário que os golfinhos mais novos mataram a cria mais recente, são assim os bichos, os homens são bem mais subtis.

Acho que já aguento a rejeição, cresci, fortaleci-me, tenho rugas fininhas no canto dos olhos.

~CC~