terça-feira, 7 de setembro de 2021

Este céu que me escurece

 

As nuvens, se elas enegrecessem apenas o céu.

Mas não.

Cresceram hoje dentro de mim grandes, grandes, mal me deixando ver o azul que em mim sobra.

E não choveu, nem lá fora, nem aqui no meu peito.

E tão bem que me teria feito. A água arrastaria a zanga e depois disso poderia descansar. 

Obediência é uma coisa que não sei fazer quando não encontro nela uma razão plausível, e a desobedecer sou tão tenaz e dura como uma rocha. E ainda são apenas dois dias de trabalho. Tenho que me salvar, ando a tentar abrir portas e perceber qual delas abre para um campo cheio de estevas.

~CC~

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Tão loura assim?!

 

Domingo na cidade da Ria Formosa, empoleirada a ver os barcos a entrar no canal de acesso à marina, chegam à razão de um de cinco em cinco minutos. Cada um tem uma particularidade, tanto a embarcação como os seus passageiros. É um passatempo que combina bem com um gelado de limão, já que não havia pistachio.

Dois jovens (ou quase) dirigem-se a mim em Inglês mas perguntam se falo Português. Demoro um minuto a processar, normalmente a pergunta não é feita com aquele formato. Será que estou assim tão loura a ponto de me confundirem com uma estrangeira? Ou seria por estar a tirar fotografias com os olhos? 

Dei-lhes a informação que queriam, em português, já que perguntaram se eu o falava, e seguiram caminho. Para a próxima digo que não, que só falo italiano.

~CC~



sábado, 4 de setembro de 2021

Leve

 

A extravagância deste Verão, praticamente a única compra.

Os chinelos de marca, dourados e com cheiro a coco (eterno, dizem).

Não poderei passar o Inverno com eles? Oh, como gostava. Nunca antes os meus pés tinham sido bonitos.


~CC~


PS. Juro que não estou a caminhar para Influencer ou coisa parecida....é apenas a busca da leveza.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Alcomonias

 


As meninas de 4 e 5 anos cantam uma música das Doce no palco, são artistas livres, ninguém as interromperá com críticas ou aplausos. E o sino da igreja a tocar de meia em meia hora deve ser o único que não me incomoda. O senhor que anda de mesa em mesa a avisar do ensaio mais logo detém-se em dúvida a olhar para mim. Percebo-o, não sou daqui mas também não lhe pareço turista. Acerta no meu estatuto. Sei que um dia ele não virá, a aldeia está cada vez mais estrangeira, nesse dia já não virei mais.

Há quem vá para as termas regenerar corpo e alma, eu venho para aqui. Acho que chorei aqui dores várias e recompus-me de notícias más, amores perdidos, horizontes nebulados. Há alguma coisa aqui, um cheiro, um sabor, um ingrediente contido no ar que respiro.

Começou há muitos anos, uma primeira visita em grupo de escola, uma peça representada no interior da igreja com base num livro de um escritor local, que bonito foi. Depois foi o monte da M, um céu inesquecível de estrelas e a água que íamos buscar à fonte. Pouco depois a casa da C, pequenina, mas com aquela mesa no alpendre, com os olhos presos na caruma dos pinheiros e a praia mais adiante, descida ingreme com o mais belo por do sol do país. Agora alugo de quando em quando uma casinha na aldeia, de especial tem zero, mas já a olho como um porto de abrigo. A solidão não dói, por isso talvez não o seja, é apenas a companhia de mim mesma, um tempo só meu. E o trabalho aqui é apenas um part-time, está no lugar exacto em que deveria estar sempre na vida e não no lugar central que ele ocupa. É que ali perto há o mar e isso muda tudo.



~CC~