quinta-feira, 18 de julho de 2019

Coisa(s) pública(s)



Ela disse alto, ao telefone, em plena hora de ponta, no comboio: nós já não éramos felizes juntos. E continuou, explicitando, que contudo fora ele a terminar o casamento e que isso lhe tinha custado muito. Estava habituada a ser casada. Contudo, hoje, passado algum tempo, agradecia-lhe. Eu que tenho a convicção que são as mulheres a chegarem à ruptura, mesmo só porque sim, sem terceiros envolvidos, fiquei um bocadinho espantada. Mas ela não referiu se o marido teria ou não outra pessoa, talvez não fosse coisa que se pudesse dizer alto no comboio. Mas a conversa era íntima, pois ela manifestava estados de alma, anseios, angústias e vontades.

Fico espantada com as conversas íntimas que as pessoas têm em espaços públicos em que sabem que todos as ouvem, fazem-no sem pudor, sem qualquer preocupação. Sou incapaz de o fazer, nesses espaços o telefone é apenas para recados, informações, coisas triviais. Ainda sou daquelas que espero chegar a casa para ligar com tempo, no silêncio, sozinha e em paz, usando em público com o interlocutor(a) que ligou um: "já te ligo" ou "ligo mais tarde". É por estas coisas pequenas que se vai descobrindo o quanto pesa o século em que nascemos.

~CC~

7 comentários:

  1. não são séculos são formas de estar, sempre houve quem conta a vida toda a quem nunca viu na vida

    ResponderEliminar
  2. Não necessariamente, ~CC~.
    Por acaso também sou muito low profile em locais públicos, mas no século passado já havia pessoas mais exuberantes (digamos assim) e era sempre um embaraço quando alguma delas viajava comigo e falava muito alto.
    E naquele tempo, telefones só os fixos. Agora com os celulares é como se todos estivessem a representar num imenso palco.

    Maria

    ResponderEliminar
  3. Eu também sou assim, CC. Nos espaços públicos não cabem as coisas íntimas.
    Na Holanda tenho porém visto que muitas pessoas falam alto, no comboio, ao telefone (ou frente a frente). Toda a gente ouve a conversa. Há dias ia uma rapariga sentada à minha frente que falava com alguém ao telefone (pareceu-me que a mãe) e estava a queixar-se de problemas com outro alguém (achei que um namorado) e depois chorava, desligava e tornava a falar. Eu ouvi tudo, só não pude compreender na totalidade por dificulades minhas com a língua, mas isso não podia ela adivinhar. Incomodou-me um bocado, por ela.
    Mas isto, na Holanda, só pode acontecer nas carruagens que não são as do silêncio, claro :-)
    Um beijinho, querida CC.

    ResponderEliminar
  4. Adquiri o hábito de caminhar pelas ruas desertas depois do jantar, enquanto os de cá de casa se entretêm com os programas da tv. Em regra são "giros" que não levam mais de meia hora, em passo allegro moderato, e que ajudam à digestão do pouco que se desejou comer. Os meus únicos companheiros são a lua e os meus pensamentos. Por vezes aparece mais alguém...
    Foi o que aconteceu ontem em noite escura. Porém, a lua companheira, umas vezes escondida outras desperta por entre copas e muros, foi apanhar desprevenidas, duas bocas muito unidas e duas mãos em busca de destino, num desvio de uma ruela...
    E então a lua corada, ciente talvez da sua culpa, como quem pede desculpa, escondeu-se de novo envergonhada.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Puxa, Joaquim. Que coisa bem dita. Pode poemar o último parágrafo que rima e tudo:)

      Eliminar
  5. Prefiro o peso do século em que nasci. Sou um bocadinho retrógrada assumida. Detesto telefonar. Acho um despropósito trazer a intimidade para a rua. E estou-me borrifando para o século em que estou se ele significar que a privacidade foi à vida. E mais, julgo ser falta de educação dizer coisas desse teor em público. E por vários motivos. É de um mau gosto terrível.

    ResponderEliminar
  6. Luís, não é totalmente geracional mas em parte é. Vi passar por mim já 3 gerações de jovens estudantes, cada uma delas tinha menos pudor que a anterior, ainda que tenha dúvidas se essa é a palavra certa.
    Maria, em público pensam-se sós com o seu celular ou simplesmente não se importam de ser ouvidas, essa é a minha dúvida.
    Susana e eu a pensar que os latinos é que traziam a vida toda para a rua, afinal vejo que não. Se bem que na minha recente estadia na Letónia assinalei diferenças significativas, as pessoas em geral falavam mais baixo e falavam pouco ao telefone em público, mas são os Bálticos.
    Joaquim, tem que fazer um blogue:)
    Bea, um dia seremos dinossauros(as):)
    Abraços aos cinco.
    ~CC~

    ResponderEliminar

Passagens