domingo, 21 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIV)

 


São 19km a partir da estrada principal, mas se tomar essa estrada sei duas coisas. Uma é que terei que ir mesmo muito devagar, contornando os buracos e as crateras. Outra é que dada a velocidade lenta, demorarei o dobro do tempo do que seria expectável. Como recompensa terei a paisagem verde dos arrozais, as cegonhas a debicar minhocas, os pinheiros mansos verdíssimos em diversos tamanhos, uns a despontar e outros já a contarem vidas antigas. Cruzarei apenas dois ou três carros neste caminho. E chegarei pelo lado mais improvável à vila que uma associação dedicada à leitura* decidiu colocar no mapa, assinalando em murais e árvores todos os nomes dos escritores que por lá passam a falar da sua obra, num desfile de temas que os agrupa de forma interessante. Já não temos apenas Óbidos, agora temos a Cabrela. O tempo dirá se apenas teremos um desfile de glórias que mercê de boas doses de conhecimentos no meio e saber de relações públicas consegue atrair públicos de vilas e cidades próximas, ou se mais alguma coisa se enraizará por dentro desta vila. Oxalá se trate de diálogo e de imersão e cresça como um rizoma, sustentando e sustentável.

Hoje houve um piano ao final da tarde, muito bonito o relvado intergeracional e o bilhete, ainda assim, acessível. Foi um bom modo de comemorar o dia mais longo do ano, mas ao mesmo tempo que é o mais luminoso, anunciando o começo do verão, anuncia também já o leve declínio que virá dia a dia roubar-nos um pouco de luz. Mas é assim quando nos sentimos felizes, temos receio que acabe ou não volte e apetece-nos emoldurar para desfrutar nos dias mais sombrios.



~CC~

* Lar, doce ler.


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