quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Quarto com vista para a cidade (II)



Lisboa mudou tanto que a desconheço, sim poderia ser uma turista como nos perguntou a rapariga do hostel, divertida a chamar-nos turistas portugueses, com um piscar de olho. Foi curioso estar ali entre
entre os muitos estrangeiros ou mesmo todos estrangeiros que em pleno Fevereiro enchem as ruas da cidade ou tomam-na de assalto, conforme perspectivas mais ou menos optimistas sobre viajantes e viagens. 

Vivi na periferia da cidade durante mais de vinte anos, muitos deles trabalhando no seu centro, em pleno largo do Rato e depois na 24 de Julho. Mas quase nada sobrou da minha cidade, pelo menos no centro. Sou do tempo da eclosão nocturna do bairro alto, anos 80, ainda havia prostituição de rua em pleno bairro. Não sei dizer se a mudança é boa ou má, acho que há coisas boas e más. Certo é que fico pasmada a olhar certas lojas que só em Paris podiam existir, muito embora esse mundo me diga pouco. Mas já me diz um palácio em pleno Príncipe Real, antes fechado e agora aberto, cheio de exposições de objectos de design. Torço o nariz às muitas padarias portuguesas que estão por todos os cantos da cidade, mas é aí que a minha filha come os melhores lanches e almoça amiúde, logo é bom para os jovens sem muito dinheiro. Os cafés com scones, panquecas, granolas e demais coisas saudáveis em nada se assemelham aos cafés de bairro com pirâmides de chocolate e palmiers cobertos da minha adolescência. Mas são melhores, é comida melhor, confeccionada ao momento, com cheiro bom e bem apresentada, já não são os pires e as chávenas falhadas de outrora. 

Como qualquer pessoa que respirou pela pele uma cidade e a integrou no seu passado, é estranho que a procure e ela já não esteja lá, que seja outra. Mas como uma pessoa que se liga pouco a rotinas e não vive no passado, também me agrada que tenha mudado, que me surpreenda. 

~CC~








3 comentários:

  1. São três décadas de distância... Mas ainda há coisas que não mudaram... Os jardins da Gulbenkian, onde muitas eu vezes estudava e lia, mantêm-se a postos pelo que vejo quando os revisito. :)

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  2. As cidades também mudam de pele. O importante é que não lhes alterem o ADN.

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  3. Luísa, mais ou menos idênticos sim, mas ainda me lembro do sítio onde agora é um café ser o centrinho, vocacionado para a educação artística e onde muitos de nós aprenderam muito.

    Carlos, ADN Lisboeta acho que é mesmo o rio Tejo, esperemos que nada lhe aconteça.

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