quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~

domingo, 10 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VIII)

 O trabalho agarrou-me ao território.

O vento, de tão forte, colou-me às paredes. E elas falaram. Há, nos vossos lugares, paredes que falam?

~CC~








sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~


terça-feira, 5 de maio de 2026

Como numa dança

 

A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.

Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem  pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.

~CC~

domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre