Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.
Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou.
A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo.
A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar.
~CC~