sexta-feira, 10 de julho de 2026

As meninas Gaudi

 

É verdade que as construções de Gaudi são abraço intenso entre arte e natureza, um desafio permanente ao equilíbrio das formas e uma ode às cores do universo, uma oração à capacidade onírica, um conto de fadas, ogres e de monstros entrelaçados nos nossos sonhos, um retrato de como as emoções circulam em nós. Tudo em absoluto contraste com a cama modesta e minimalista em que o arquitecto dormia e com o abrigo em que se escondeu, por fim, na Sagrada Família, em fusão com a excentricidade do templo que queria erguer. Infelizmente os apontamentos imersivos, feitos à medida do turista, com poesia fácil e efeitos de inteligência artificial,  estragam o que queremos ver e sentir só por nós. 

Assim, a minha imersão mais bela e genuína aconteceu com duas meninas, gémeas, saídas do universo Gaudim, banhando-se na praia, em frente à Barcelonete. Vestidas como dois seres fantásticos, fatos de banho rosa, azul e branco, com brilho ligeiro, toucas cor de rosa com longa crista de bicho, óculos de mergulho pretos, elas não eram bem seres humanos, mas quase animais marinhos. As meninas entravam na água, mergulhavam e emergiam em longos bailados exóticos, enquanto a jovem mãe (suponho) as fotografava com desvelo. Quando a mãe desistiu das fotografias, a festa tornou-se mais livre, mais surpreendente e mais autêntica, contudo nenhuma delas se livrou da vestimenta, como se a tivessem incorporado no seu modo de ser. Entre os seus mergulhos e as ondas do muro do pátio principal do parque Guel tudo se alinhava nessa homenagem ao mediterrâneo que eu própria senti pela primeira vez.

~CC~ 

domingo, 5 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVI)

Desta vez o voo, aquele desejo de não ir. E ao mesmo tempo de ir.

Depois o deslumbramento de uma nova cidade, de um outro país. Barcelona, quase quarenta anos depois.

É uma cidade vibrante e resistente e os habitantes querem que ela lhes pertença. Pela segunda vez não consegui bilhetes para a Sagrada família, pela segunda vez não me importei, o que eu mais gosto nos lugares são os lados avessos ou os monumentos incríveis que estão nos rodapés dos guias turísticos. 

Amanhã o roteiro desvia-se para a universidade, deve ser também um coração que bate com força mas não venho com a capacidade de me entregar o suficiente a essa vibração.

Mas a cidade e a companhia lavaram-me de outros cansaços. Doem-me os pés de tanto caminhar e os olhos estão cheios de beleza, metade da pele já se renovou, a outra metade é uma obra demorada.

~CC~

terça-feira, 30 de junho de 2026

Largar a pele

 

Hoje, um estudante, numa troca de mensagens, acabou a sua comunicação com um "ah, ah, veja se descansa". Não faz o estilo bom aluno, é reservado, às vezes parece não estar lá, e vive num mundo muito particular, do qual sai com esforço para interagir connosco, mas quando o faz é normalmente acertado, e muitas vezes até contesta as coisas. Achei, por isso, muita graça que ele terminasse a comunicação comigo assim, não apenas pela audácia mas pelo conhecimento que parece ter revelado sobre um momento muito particular da minha vida.

É difícil explicar-vos porque é difícil explicar a mim própria, hesito em dar nome ao que se tem atravessado dentro de mim. Numa visão optimista, considero que é apenas o cansaço do final de um ano letivo, numa visão pessimista tendo a pensar que há algo mais. Às vezes tento a explicação do cansaço pela biologia, devo estar com uma anemia como aqui há alguns anos em que mal conseguia subir uma escada, mas depois acho que não é, ou não é apenas. Aconteceu-me no outro dia algo absolutamente estranho, estavam muitas pessoas sentadas à mesa, muito animadas e a falar e a opinar pelos cotovelos. E eu não conseguia dizer nada, não conseguia que me saísse da boca uma única palavra, como se de repente tivesse ficado muda. E só desejava que todos se calassem para eu poder ouvir os pássaros. Levantei-me e fui até um sítio em que não podia ouvir a voz humana, fiquei lá um bom bocado, mas não completamente tranquila, com receio que viessem à minha procura. Era outra vez a adolescente que se escondia do mundo, como era isso possível?!  Eu, em geral, costumo descrever-me como alguém que gosta muito de pessoas, achava mesmo que era o traço mais consistente da minha personalidade.

Sou neste momento um liquido com demasiado sal e/ou demasiado açúcar, a densidade do que em mim circula está a fazer-me implodir, não consigo conter mais informação, mesmo quando ela é boa e preciosa, necessito de uma espécie de purga para voltar a ser água límpida, transparente. Acontecem coisas demais ou sou eu que as faço acontecer em excesso. Se calhar é de mim própria que estou cansada e tenho que largar a pele como fazem os bichos.

~CC~




domingo, 28 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XV)

 

A de Alentejo, A de Alvito.

Todo o cante inteiro, o que ainda nasce na Taberna da Associação.

O Alentejo que ainda não morreu, não cedeu, não se vergou, o que não está intocado mas mexe como um corpo vivo. Uma parte igual, uma parte reinventada, uma vontade tão grande das pessoas em permanecer e fazer renascer, umas que nasceram lá a primeira vez, outras que nasceram lá a segunda vez.

Aprendi tanto sobre o lugar, desde a história, à arqueologia, à comida e ao cante, que poderia encher muitas e muitas páginas, sei que voltarei às palavras que de lá trago pois é demasiada beleza para guardar só para mim. Pensava saborear o vagar mas só provei o pulsar e cheguei exausta do muito que ouvi e vi porque escutar com todos os poros é intenso. Há coisas que parecem uma coisa e depois são outra e segredos que só se sabem quando se priva com quem os quer partilhar. Diria até como legenda para as três fotos que vos deixo: uma gruta não é uma gruta e uma ermida não é uma ermida e alguém que descansa pode não estar a descansar.


 






~CC~

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tirar apenas metade do mel

 


Hoje, ontem, amanhã, sempre com os que sofrem, dores que estão lá e podiam estar aqui. Sabemos que a terra tem as suas iras, manhas e rugidos, mas nós não queremos saber ou ouvir e por isso colocamo-nos à sua mercê, com habitações em leitos de cheia, falhas sísmicas, falésias e barrancos de terras instáveis. Esgotamo-la e com isso nos vamos esgotando também. O azar existe, mas não é apenas o azar que faz os mortos nas catástrofes, são anos e anos de indiferença e de ganância.

Neste filme lindíssimo, a mulher sabe que só deve tirar metade do mel e deixar a outra metade para que as abelhas se alimentem. 


 


Vivem anos nesse equilíbrio mágico. Mas um dia chega alguém que a querendo imitar não o consegue fazer, não tem a sabedoria ancestral e não ouve quem a tem. Torna-se presa fácil do primeiro comerciante que quer vender mais e mais. E quebra o equilíbrio, destrói a fonte e o recurso e com isso chega a fome, a tristeza. 

Aguentei o frio do terraço (este terraço do Cineteatro S. João arrefece até nas noites mais quentes) para saborear um filme que nem julguei próprio e possível para pessoas que têm medo de abelhas. 

~CC~