sábado, 15 de maio de 2021

Um poema em seis andamentos (dois)

 

Do Poema "Diário" de Francisca Camelo.

2.

"antes de ingerir
a primeira dose de atmosfera
devíamos ler a bula
sobre os efeitos secundários
mais frequentes:
10 em 10 utilizadores
sofrerão de náuseas
fraqueza e indigestão
um ou dois tipos de abuso
(por vezes simultaneamente)
normalmente segue-se a falta de libido
e alguma solidão asfixiante
(consulte o seu médico
se esta se prolongar
após a morte)
1 em cada 1000 utilizadores
poderá eventualmente
vir a ser feliz
mas não foi ainda possível
comprovar esses efeitos"


E façam um bom uso farmacológico.

~CC~



quinta-feira, 13 de maio de 2021

Ódios de estimação (2)

 

Trinta minutos dedicados pelos jornais televisivos a festejos associados à vitória de um clube de futebol (qualquer que seja).

Mas acrescento-lhe mais: concursos de talentos a toda a hora e de toda e qualquer coisa, pior(es) se com votação do público.

~CC~



terça-feira, 11 de maio de 2021

Amores de perdição (2)

 

"Caneta que escreve canções não assina cheques"


Fausto Bordalo Dias

(entrevista RTP 1)

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Um poema em seis andamentos (um)

 

Há coisas que nunca me cansam, pelo contrário, a sua prática aumenta a minha energia, dispara-me o coração, dá-me vida. Uma delas é descobrir poesia e poetas novos, isto é, não apenas novos e para mim desconhecidos mas admiráveis.

Eis o poema "Diário" de Francisca Camelo, são seis andamentos, deixo-vos o primeiro.

1.

perguntei-lhe
se me queria beijar
beijos pequenos
pelo meu corpo inteiro
povoar a minha pele de amor
ele respondeu
quero rebentar-te toda.


(Do livro "A importância do pequeno almoço")

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Amores de perdição

 

Blogues (singulares, autênticos, despreocupados), livros de ficção, lugares com alma.

Gosto muito dos blogues que trilham os seus caminhos sem olhar aos vizinhos do lado, que não querem mais nada de que um espaço seu com janela para o mundo, que não têm outros objectivos que não seja dizer de si, dispensando-nos de nos quererem mudar ou ao mundo.

Gosto de livros que contam uma boa história, estas modas de misturas entre o ficcional, não ficcional, documental, ensaio e mais sei lá o quê não me convencem. Se em todas as histórias há um lado pessoal?! Sim, claro. Tal como no que escolhemos para almoçar ou jantar. Eu que me considero pouco clássica, pouco conservadora, quase sem pátria nem chão, gosto de livros de histórias.

Dos lugares, gosto de um lugar que tem uma identidade própria, quase impossível de encontrar noutro sítio. Assim sendo, antipatizo com cadeias de supermercado, lojas de franchising, sucursais e afins. Por mim ainda ia à modista, só comprava artesanato e ia ao campo apanhar flores. É evidente que não chego a tal, não tempo tempo e já não há modo de fazer essa vida. Mas ainda deliro com uma boa sopa de cação, um caminho de estevas, a carrinha do pão e o amolador que passa na minha rua sem que julgasse tal possível. 

~CC~