terça-feira, 3 de março de 2026

O cheiro a mangas maduras do quintal

 

Acontecem as coisas e tocam-me. Apetece-me dizê-las mas a falta de tempo prende-me a garganta e as mãos.

Tantas pessoas se sentaram à mesa grande a dizer a que cheiravam os seus livros, aqueles que levaram. O velho e o novo do papel. Mas mais do que isso, os cheiros que não estavam no objeto em si, mas no que estava lá dentro, o cheiro na mais pura das abstrações. 

A convidada, alquimista de perfumes, era uma boa contadora de histórias e factos científicos, explicou longamente que a mudança da matéria prima do papel ocasionou ao longo dos séculos a mudança do  cheiro dos livros. Por vezes foi excessivamente opinativa e crítica quanto ao abuso público das fragrâncias, combinando tal tendência com as características dos povos, coisa que compreendo mas não me parece tão generalizada. Creio que só nos conquistou verdadeiramente quando  nos deu a palavra para finalmente falarmos dos nossos livros (uma hora depois do início) e depois quando abriu os frascos das essências e nos passou tirinhas de mão em mão. Gostei tanto dos cheiros que as pessoas trouxeram dentro dos livros, desde a água às violetas da avó, foi muito bonito. Do meu livro saiu o cheiro às mangas maduras do meu quintal.

Mas trouxe um outro cheiro, queria fazer um perfume só com ele (não obstante isso não ser vulgar), talvez assim me apetecesse colocá-lo, coisa que raramente acontece. Flor de murta, que arbusto mais bonito, que cheiro mais doce e fresco. 

~CC~

domingo, 1 de março de 2026

Musiquinha de Domingo (XIV)

 

O mundo muda, nada muda realmente ou pelo menos o suficiente. Ontem, como hoje, grandes sombras negras. Até este homem morreu sem sentido. Outros homens morrem sem sentido. Mas morrem sobretudo crianças, essa é uma agonia, uma vida interrompida de alguém que nunca fez mal.



~CC~

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois

 


Diz ele que há vinte anos não pisava aquela cidade. Então eu estava lá quando ele a pisou, comprei-lhe um livro e ele assinou-o, é coisa que não costumo fazer, as longas filas, a falta de jeito para dizer alguma coisa, aquela proximidade ao escritor...costumo desistir. Mas lembro-me da minha irmã mais nova a insistir, a brincar com aquela minha insegurança...a empurrar-me devagarinho, vai lá, vai lá...

Na verdade, uns anos antes ele já tinha estado na minha escola, eu estava lá há pouco tempo ainda mas tínhamos feito algo que ele adorou: retirámos frases do primeiro livro dele e distribuímos aos estudantes que a partir delas construíram micro histórias, dois ou três dispuseram-se a ler naquela sessão pública. Ele emocionou-se.

O José Luís Peixoto, vinte anos antes era muito bonito, assim o achava eu, tinha uns olhos cheios de luz, um cabelo meio encaracolado e um sorriso tímido. Talvez a fama o tenha levado aos piercings, às viagens, às biografias de homenagem, talvez se tenha perdido um pouco, mas até isso lhe dá graça, não tem um caminho linear, nem se deixa enredar no estilo único. Vinte anos depois... li alguns dos livros, não todos, gostei mais de uns e menos de outros. Já não corro a comprar-lhe os livros, nem o coração estremece por estar perto dele. Mas continuo a gostar da sua sinceridade, da forma como se apresenta sem pudor nem vedetismos, continuo a encontrar-lhe a ternura, isso que tanto me encanta num homem. A melhor parte: a forma como ama a sua família e o seu Alentejo, como quer estar nesse colo ao mesmo tempo o larga para procurar outros lugares. Mais velho, menos bonito, mas mais velho, mais bonito. Talvez ainda compre a Montanha.

Absolutamente rendida às conversas com a sua mãe. Que maravilha a menina Alzira

~CC~



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXIII)


 

Atravessei-o ontem. O Alentejo desta canção é ainda o mesmo e ainda assim tão diferente. Outras mãos, outra explorações agrícolas, o mesmo tormento, outro tormento. O cante é tão belo para quem se deixa tocar por ele, tão bonita esta interpretação com várias gerações, gosto de nós misturados.

No meu olhar terra quente, agora coberta de água, já com andorinhas. Vastidão de horizontes que me comove sempre.

~CC~

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A cada vinda me tornar mais leve

 


A chave colocada na fechadura foi o extremo do erro. Um erro persistente uma e outra vez. O botão no terceiro andar em vez de no quarto, não sei se chamar-lhe automatismo ou amor. Habituei-me a pensar que estão nas antípodas um do outro mas se calhar não é assim tanto. A dor da sua ausência amorteceu, é agora ténue, diluída, levou a patine do tempo. Mas a mão continua a dirigir-se ao botão do terceiro andar, ao lugar da casa dela. Noutras ruas deixei de passar há mais tempo, circundo-as como se nada tivessem dentro, como se fossem um buraco que o tempo tapou com a sua areia de esquecimento, já há muito não estremecem à minha chegada, nem à minha partida. Aqui já não choro mais, já chorei tudo o que perdi, mas ainda me falta rir, é como se o riso estivesse ainda preso dentro de mim.

Este Sul tem um cheiro único e reconheço-o, é parte integrante do meu passado, renegar lugares é renegar parte de nós. Aqui a água varreu também tudo, mas não deixou cheiro a bolor e a mofo, há um leve perfume de que mais adiante irá acontecer Primavera, gelados, mar suave e quente.

E é por isso que volto, pela possibilidade de, a cada vinda, me tornar mais leve.

~CC~