terça-feira, 30 de junho de 2026

Largar a pele

 

Hoje, um estudante, numa troca de mensagens, acabou a sua comunicação com um "ah, ah, veja se descansa". Não faz o estilo bom aluno, é reservado, às vezes parece não estar lá, e vive num mundo muito particular, do qual sai com esforço para interagir connosco, mas quando o faz é normalmente acertado, e muitas vezes até contesta as coisas. Achei, por isso, muita graça que ele terminasse a comunicação comigo assim, não apenas pela audácia mas pelo conhecimento que parece ter revelado sobre um momento muito particular da minha vida.

É difícil explicar-vos porque é difícil explicar a mim própria, hesito em dar nome ao que se tem atravessado dentro de mim. Numa visão optimista, considero que é apenas o cansaço do final de um ano letivo, numa visão pessimista tendo a pensar que há algo mais. Às vezes tento a explicação do cansaço pela biologia, devo estar com uma anemia como aqui há alguns anos em que mal conseguia subir uma escada, mas depois acho que não é, ou não é apenas. Aconteceu-me no outro dia algo absolutamente estranho, estavam muitas pessoas sentadas à mesa, muito animadas e a falar e a opinar pelos cotovelos. E eu não conseguia dizer nada, não conseguia que me saísse da boca uma única palavra, como se de repente tivesse ficado muda. E só desejava que todos se calassem para eu poder ouvir os pássaros. Levantei-me e fui até um sítio em que não podia ouvir a voz humana, fiquei lá um bom bocado, mas não completamente tranquila, com receio que viessem à minha procura. Era outra vez a adolescente que se escondia do mundo, como era isso possível?!  Eu, em geral, costumo descrever-me como alguém que gosta muito de pessoas, achava mesmo que era o traço mais consistente da minha personalidade.

Sou neste momento um liquido com demasiado sal e/ou demasiado açúcar, a densidade do que em mim circula está a fazer-me implodir, não consigo conter mais informação, mesmo quando ela é boa e preciosa, necessito de uma espécie de purga para voltar a ser água límpida, transparente. Acontecem coisas demais ou sou eu que as faço acontecer em excesso. Se calhar é de mim própria que estou cansada e tenho que largar a pele como fazem os bichos.

~CC~




domingo, 28 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XV)

 

A de Alentejo, A de Alvito.

Todo o cante inteiro, o que ainda nasce na Taberna da Associação.

O Alentejo que ainda não morreu, não cedeu, não se vergou, o que não está intocado mas mexe como um corpo vivo. Uma parte igual, uma parte reinventada, uma vontade tão grande das pessoas em permanecer e fazer renascer, umas que nasceram lá a primeira vez, outras que nasceram lá a segunda vez.

Aprendi tanto sobre o lugar, desde a história, à arqueologia, à comida e ao cante, que poderia encher muitas e muitas páginas, sei que voltarei às palavras que de lá trago pois é demasiada beleza para guardar só para mim. Pensava saborear o vagar mas só provei o pulsar e cheguei exausta do muito que ouvi e vi porque escutar com todos os poros é intenso. Há coisas que parecem uma coisa e depois são outra e segredos que só se sabem quando se priva com quem os quer partilhar. Diria até como legenda para as três fotos que vos deixo: uma gruta não é uma gruta e uma ermida não é uma ermida e alguém que descansa pode não estar a descansar.


 






~CC~

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tirar apenas metade do mel

 


Hoje, ontem, amanhã, sempre com os que sofrem, dores que estão lá e podiam estar aqui. Sabemos que a terra tem as suas iras, manhas e rugidos, mas nós não queremos saber ou ouvir e por isso colocamo-nos à sua mercê, com habitações em leitos de cheia, falhas sísmicas, falésias e barrancos de terras instáveis. Esgotamo-la e com isso nos vamos esgotando também. O azar existe, mas não é apenas o azar que faz os mortos nas catástrofes, são anos e anos de indiferença e de ganância.

Neste filme lindíssimo, a mulher sabe que só deve tirar metade do mel e deixar a outra metade para que as abelhas se alimentem. 


 


Vivem anos nesse equilíbrio mágico. Mas um dia chega alguém que a querendo imitar não o consegue fazer, não tem a sabedoria ancestral e não ouve quem a tem. Torna-se presa fácil do primeiro comerciante que quer vender mais e mais. E quebra o equilíbrio, destrói a fonte e o recurso e com isso chega a fome, a tristeza. 

Aguentei o frio do terraço (este terraço do Cineteatro S. João arrefece até nas noites mais quentes) para saborear um filme que nem julguei próprio e possível para pessoas que têm medo de abelhas. 

~CC~




domingo, 21 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIV)

 


São 19km a partir da estrada principal, mas se tomar essa estrada sei duas coisas. Uma é que terei que ir mesmo muito devagar, contornando os buracos e as crateras. Outra é que dada a velocidade lenta, demorarei o dobro do tempo do que seria expectável. Como recompensa terei a paisagem verde dos arrozais, as cegonhas a debicar minhocas, os pinheiros mansos verdíssimos em diversos tamanhos, uns a despontar e outros já a contarem vidas antigas. Cruzarei apenas dois ou três carros neste caminho. E chegarei pelo lado mais improvável à vila que uma associação dedicada à leitura* decidiu colocar no mapa, assinalando em murais e árvores todos os nomes dos escritores que por lá passam a falar da sua obra, num desfile de temas que os agrupa de forma interessante. Já não temos apenas Óbidos, agora temos a Cabrela. O tempo dirá se apenas teremos um desfile de glórias que mercê de boas doses de conhecimentos no meio e saber de relações públicas consegue atrair públicos de vilas e cidades próximas, ou se mais alguma coisa se enraizará por dentro desta vila. Oxalá se trate de diálogo e de imersão e cresça como um rizoma, sustentando e sustentável.

Hoje houve um piano ao final da tarde, muito bonito o relvado intergeracional e o bilhete, ainda assim, acessível. Foi um bom modo de comemorar o dia mais longo do ano, mas ao mesmo tempo que é o mais luminoso, anunciando o começo do verão, mas também já o leve declínio que virá dia a dia roubar-nos um pouco de luz. Mas é assim quando nos sentimos felizes, temos receio que acabe ou não volte e apetece-nos emoldurar para desfrutar nos dias mais sombrios.



~CC~

* Lar, doce ler.


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Todo o amor é atenção

 


Ele disse duas vezes: tem que ser aqueles queques com nozes, a minha mulher só gosta desses...e quando veio embrulhado, repetiu bem alto para todos nós que lhe levava um de surpresa, sorriso na cara: é para a minha mulher.

Tenho para mim que um dos sinais do amor é esse apontar do que o outro gosta e que, quando se esboroa, é como se se perdesse também a memória dos pequenos gestos que podem fazer o outro feliz. Mas nem é preciso que seja amor entre homem e mulher, de forma genérica todo o amor é atenção. Lembro-me do chocolate que a minha mãe gostava mais, de lhe levar várias vezes esse bocadinho de felicidade, enquanto o pode comer.

Na fila do supermercado o senhor, por sinal bem obeso, elogiou a funcionária: cada vez mais elegante! Ela sorriu meio envergonhada, e notando a mulher ao lado dele disse: a sua mulher também está bem. Ao que o homem respondeu: não, ela está cada vez mais gorda! Por mim, teria ali acabado um casamento. Mas há sinais semelhantes, não tão ostensivos, entre muitos casais. A falta constante de atenção, de elogio, de consolo, é isto a morte do amor.

Os gestos que guardamos são estes pequenos, sinais de que o outro nos vê.

~CC~