quinta-feira, 21 de maio de 2026

Também há pão quente com manteiga

 


É aqui, às 8h quando passo já abriu, lá em cima as duas cerejas que à casa dão nome, gostam assim delas tanto como eu. Quando volto, já estão em arrumações para fechar, mas sempre sem pressa. As pessoas passam e cumprimentam, assim já já sei os nomes do casal. De uma simpatia impar, hoje comprei apenas uma banana pedindo desculpa por só levar uma. De volta um "a menina leva a quantidade que quiser, se é só uma que precisa...". E os preços nem são exagerados, atendendo ao lugar em que se está. Já cá tinha vindo muitas vezes em visita mas sinto que nunca vi o mais importante, não que os palácios não sejam lindos e as magnólias um espanto, mas agora conheço a senhora brasileira que me serve o pão quentinho com manteiga derretida (ah quanto tempo não comia isto ao pequeno almoço) e sei que o sonho dela é morar no (meu) Algarve. E que o menino, o menino que ainda mal anda, gosta muito de praia.

~CC~


terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.

sábado, 16 de maio de 2026

Trio de Eclipses

 


Leio que chegará muito em breve um trio de eclipses inigualável. Imagino os caça eclipses de mochila às costas prontos a invadir a península ibérica para ver o dia se tornar noite.

Contudo, parece-me que eles já foram chegando, os tempos são de chumbo, parece possível a luz que criou as democracias se ir apagando.

E eu tenho dias cheios de eclipses, nem sei se são só um trio, há um apagão que por vezes me invade e uma vontade tão grande de encontrar um buraquinho onde me esconder do ruído das coisas, às vezes ensurdece.

Mas um buraquinho com sol, sem eclipses, em uno, duo ou trio.

~CC~

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~