quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas amadas

 

É verdade que a despedida ainda não é efetiva, mas já se anuncia. Fiquei em choque ontem ao olhar uma montra cheia de camisas de manga comprida, casacos de lã e até uma gabardine. É matéria séria portanto, está a chegar o fim do Verão. Como os meses de Junho e de Julho me são roubados pelo trabalho, fica apenas Agosto e esta primeira semana de Setembro, é pouco. Sabe-me cada vez a menos. É que há coisas muito amadas que se tornam (quase) impossíveis noutras estações. Eis seis delas ou meia dúzia (gosto desta expressão).

1º- Tomar o banho da manhã no mar, é um primeiro banho de sal e água fresca, deixa-me contente para o resto do dia, ainda que por vezes mole, sonolenta e, sobretudo, preguiçosa (e que boa é a preguiça, dantes não sabia). Por vezes fui a primeira pessoa a tomar banho numa praia, há silêncio, as gaivotas ainda por ali andam e o mar é todo meu.

2º - Andar descalça em casa, é tão bom, parece-me que me liga à terra, ainda que seja apenas um apartamento, mas também gosto de pisar relva, terra e areia (ainda que com um bocadinho de receio da bicharada).

3º-  Ver cinema ao ar livre, com tecto de estrelas, lua e até um avião ou outro, isto liga-me à minha infância e às matinés a que o meu pai me levava, o meu primeiro cinema foi em Luanda, ao ar livre, chamava-me Miramar e parece que já não existe como tal.

4º - Comer gelados, e atenção que gelados é um cone que se leva pela rua e se saboreia, em manobra de constante equilíbrio, não algo que nos sentamos a comer num copo ou numa taça enfeitada.

5º- Ler só por prazer, apesar de tentar noutras épocas do ano e às vezes conseguir, não se compara ao desfrutar do Verão, sem pressas, sem culpas, sem objetivo.

6º -  Comer sem cozinhar, qualquer coisa se mistura e se torna comida, basta inventar um pouco entre conservas, queijos, saladas, fruta, ovos cozidos (que cozo à meia dúzia e deixo no frigorifico) às vezes uma refeição leva 5 minutos e é boa, sabe bem.

Não posso, porém, entristecer ou tudo será ainda mais difícil. Talvez me possa lembrar de seis coisas menos boas, será uma boa manobra para receber o Outono com menos fel.


~CC~






segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Pessoas que esperam o pôr do Sol

Há muito que queria conhecer a Escola da Bordeira em Aljezur, dinamizada pela Associação Lavrar o Mar. Um sonho antigo meu, encontrar uma dessas escolas primárias de Plano Centenário e torná-la um lugar de Cultura e Comunidade. Ver que outros o conseguem deixa-me feliz, mostra que era possível o que acalentei muitos anos. Tentei no lugar errado, na ocasião errada, já pouco importa.

O título do livro em discussão e elaboração gastronómica foi-me assaz apetitoso: Somos animais poéticos. Gostei bastante do ensaio. Fiz assim muitos quilómetros. Escapou-me, porém, alguma coisa, talvez a própria poesia.

E só a encontrei depois, na volta, enquanto esperava o por do sol. Reparei que não apenas eu o esperava, outros aguardavam pacientemente, contemplando, fotografando, filmando, conversando. Porque aguardamos que o sol se ponha no mar num entardecer azul de Verão? Porque somos animais poéticos.  Todos nós, os que aguardamos.



~CC~

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Neste cuidado reconheço-me inteira.

 

Deixei-me simplesmente ir nestas férias, sem grandes planos, nem projetos. A expetativa, tantas vezes gorada, de tirar delas um deslumbramento capaz de me recarregar baterias para um novo ano, deixou de existir. Fiz coisas vulgares, à medida do que me apetecia, e nem sequer me obriguei a ir onde supostamente seria expectável ir como à festa de teatro da minha cidade, eu que tanto amo essa arte e que costumo tudo fazer para conseguir estar presente quando ela acontece. A cabeça precisava de se esvaziar, não podia conter mais nada, nem sequer uma obra de arte de qualquer natureza ou mais um espetáculo. Percebi a exaustão a consumir-me e que ela me poderia arruinar e parei de ver, de ir, de planear, de querer. Li pouco, apenas um ensaio e comecei um outro livro. Vi dois ou três filmes. Depositei energia, contudo, em coisas que costumo detestar, como arrumações e limpezas. Em caminhar sem plano nem destino.

E precisava de estar mais tempo assim a flutuar, noto isso a cada tentativa de regresso às tarefas que se acumulam à minha espera, faço-as muito devagar, resistindo. Nem a chuva ajudou.

E depois ele pediu ajuda, e só não farei por um amigo algo se não puder mesmo. Acabei assim nesta cidade tão mais a norte, à qual trouxe tantas vezes a minha mãe, no mesmo hospital ao qual a acompanhei regularmente para fazer a injeção que durante uns bons anos lhe salvou a visão. Nada previsto, nada suposto, nem sabia onde iria ficar, ele programou, não eu, uma raridade, toda a vida eu planeei tudo, excepção às últimas férias com a minha filha onde as coisas já não eram, nem são bem assim.

Ao mesmo tempo isto devolveu-me a mim, ainda sou eu, aquela que gosta de cuidar e tem jeito para o fazer, não tanto pelo cuidado do corpo do outro, mas pela capacidade de escuta, de fala, de humor. Alguém que acompanha, alguém que é companhia, sou capaz, ainda sou capaz. Neste cuidado reconheço-me inteira.

~CC~




terça-feira, 25 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz rir (III)

 

Eis o que não esperamos que um vendedor do Leroy Merlin nos pergunte, depois de nos dizer que não tem, nem é capaz de executar o nosso pedido, não obstante toda uma grande encenação com hora marcada e comercial designado.

- Já foram ao Ikea?

~CC~

domingo, 23 de agosto de 2026

Domingo de Saudade

 

Não me lembro dela festejar os anos, a não ser na época mais tardia da sua vida, talvez nos últimos vinte anos.

Não sei se era exatamente assim com todos os adultos das famílias pobres, festejar anos com bolo e parabéns em voz alta era uma coisa de crianças, só o fazíamos até à adolescência. 

Depois ela tornou-se um pouco menos pobre ou fomos nós que nos tornámos e com isso a tornámos também. Envelheceu, enterneceu-se, tornou-se mais frágil, mais doce. Com isso vieram as festas de anos, por fim, cada ano era também uma vitória sobre a morte. Queria sempre ficar bonita, sair, bolo de anos e prendas, queria festa e queria família. Tive duas mães, uma até aos 60 e outra que foi nascendo gradualmente dessa, cada vez mais diferente da anterior. Claro que transportava algumas coisas, a acutilância, a ausência de rodeios, o gosto pela beleza, o desprezo por quem não se cuidava, a vontade de viver, sempre ela, cada vez mais forte.

Hoje é Domingo de saudade, faria 98 anos.

~CC~