domingo, 26 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XIX)

 

Bem sei que é estranho acabar em dezanove, normalmente o fim de uma rubrica acerta com um número par. Os passeios de Domingo iniciaram-se com a Primavera e terminam com o estio, este tempo seco e quente que nos amarra a um lugar outro e nos desata das teias que nos prendem aos lugares virtuais. Durmo mal no Verão, em contrapartida leio livros em papel e esqueço-me de quase tudo, deixo-me flutuar. Não sei se virei, se estarei ausente, prefiro deixar-me ir por esse veraneio, como se tivesse uma 125 azul. 

Este é oficialmente o último passeio de Domingo, por muito que eu queira refazê-los sempre, até quando a chuva chegar. Mas provavelmente outras vontades acontecerão, talvez música, livros ou cinema, ou apenas estados do corpo ou estadias da alma. É em setembro que tudo recomeça, mesmo que aqui venha antes.

Este passeio de domingo foi um revisitar do que é a família construída, 44 anos de amizade. Para combinar com isso uma praia de família, à moda antiga, com a barraquinha às riscas e o gelado na esplanada (quem adivinha?)



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A garganta rouca do tanto que tínhamos para dizer um ao outro, já não nos víamos há 3 anos. Entre nós nunca houve nada escondido e tudo é esquartejado na mesa de operações, sobretudo as nossas almas doridas e os nossos corpos com esperança de vida. Apontamos os erros um ao outro com sublime cortesia, noutros tempos usávamos a navalha, e somos gentis nos conselhos que damos, na expetativa de que o outro se os seguir cure com sabedoria as feridas que expõe.

~CC~

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Se me disseres que morreste não acredito, não posso" (Adeus Luís Represas)

 

Cantou a luta, o protesto e o desalento...

Mas para nós, as miúdas dos anos 80, ele foi o nosso John Lennon e os Trovante os nossos Beatles. Quando o Represas cantava canções de amor havia um arrepio coletivo no feminino e ia dos 15 aos 25. Os nossos rapazes não escondiam uma pontinha de ciúme e embora nos dessem a mão e até um beijo, não entoavam com tanto entusiasmo como nós as canções. Sabíamos várias de cor e os concertos dos Trovante foram a primeira grande festa, a vontade de estar quanto mais perto do palco melhor pois eram todos lindos, mas um deles, com aquela voz meiga, era o mais lindo. Desfiz-me algumas vezes da minha timidez para entoar a preceito, certa de que no coro das amigas, mal se ouviria o tom fora de tom.

Tudo isto se passou antes dos mil festivais que há agora e da respetiva banalização das vestimentas a levar e das pulseirinhas, antes dos bilhetes serem escandalosamente caros. 

E dentro do possível o Luís Represas soube reinventar-se, não perdeu o sorriso, não azedou. Mas tudo já tinha mudado e eu também, por isso não fui aos últimos concertos, não percebi que provavelmente eram uma despedida. Saudosismo também não é o meu forte.

Finalmente alguém disse que morreu de cancro e não de doença prolongada, um termo que detesto, até porque o cancro pode ser fulminante. 

O sentimento matinal foi igual ao da canção (Sorriso) que mais amo dos Trovante, "não acredito, não posso". Certo é que envelheci outra vez, com ele também desparece um bocadinho da minha adolescência. Mas só me apetece dizer: Obrigada pelas borboletas. 

~CC~




domingo, 19 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVIII)

 

Hoje seria passeio de protesto, estava planeado.


 

Porém a dor de cabeça, seguida de dores articulares intensas, ligeira dor de garganta e muito cansaço instalaram-se como algo que não consigo designar correctamente e espero que passe nos 3/5 dias estipulados para não ter que procurar profissional específico para algo tão pouco específico. 

O meu coração esteve lá.

~CC~



 


sábado, 18 de julho de 2026

Seis pistácios e um gelado

 

Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.

O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.

Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho  de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.

~CC~

domingo, 12 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVII)

 

No último dia de estadia em Barcelona, consegui finalmente visitar o mercado mais conhecido da cidade. A variedade e tipologia dos presuntos e dos múltiplos fritos é o seu traço cultural mais original, ilustrando de forma clara que os mercados resistem à globalização, não obstante uma ou duas bancas de frutos secos iguais às que se encontram em todo o lado.

Entrar no mercado da minha cidade é assim viajar por si só na história, metade do espaço é ocupado pelas bancas de peixe e é lá que se respira o que é esta pertença ao lugar. É também prova de que é possível que o deslumbramento não seja uma coisa volátil e exclusiva da primeira vez, que possa acontecer uma e outra vez, sempre que levamos os olhos da alma a passear. Saio com os sacos repletos de beleza e os bolsos mais vazios mas também com um contentamento que estou longe de sentir quando saio de um supermercado. E nem me importo com os dez minutos que esperei porque o vendedor discorreu longamente sobre o tamanho descomunal das cerejas com o casal que estava à minha frente, apenas aguçou a minha vontade de as provar.

Poderão considerar que isto não é bem um passeio, mas se caminho, apanho sol, vejo cores e trago renovação e ainda resisto, isto deve se poder classificar nesta categoria. Perto de vós há certamente um mercado, não o deixem morrer, nem transformar-se num gigantesco recinto de restaurantes e casas de comida de uma cadeia qualquer,  uma coisa é poder comprar-se um acepipe, outra é transformar todos os mercados à imagem do Mercado da Ribeira (uma mostra de bancas de chef promovida por uma revista de Turismo).

~CC~