domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.

sábado, 16 de maio de 2026

Trio de Eclipses

 


Leio que chegará muito em breve um trio de eclipses inigualável. Imagino os caça eclipses de mochila às costas prontos a invadir a península ibérica para ver o dia se tornar noite.

Contudo, parece-me que eles já foram chegando, os tempos são de chumbo, parece possível a luz que criou as democracias se ir apagando.

E eu tenho dias cheios de eclipses, nem sei se são só um trio, há um apagão que por vezes me invade e uma vontade tão grande de encontrar um buraquinho onde me esconder do ruído das coisas, às vezes ensurdece.

Mas um buraquinho com sol, sem eclipses, em uno, duo ou trio.

~CC~

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Onde se nasce

 

Numa escola ontem todo o dia, em observação. Mas é impossível apenas observar, se for com crianças, depressa elas nos estão a chamar, a interrogar, a interagir. 

Ontem, o meu colega perguntou a uma delas onde tinha nascido. E ela respondeu prontamente:

- Na CUF Descobertas.

E a outra ao lado

- Eu nasci na Luz Saúde.

Ambos pasmámos com as respostas. Eles não sabiam a terra na qual tinha nascido, algo que qualquer um de nós teria respondido àquela pergunta. Fiquei a pensar que desde sempre respondi Luanda e nem sei o nome do hospital em que foi (mas sei que foi um hospital público, nesse tempo apenas as clínicas eram privadas e nascia lá pouca gente).

Onde se nasce é hoje outra coisa, a pergunta tem respostas que não imaginávamos, mas parece haver um traço distintivo que começa no Hospital onde acontece.

~CC~

domingo, 10 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VIII)

 O trabalho agarrou-me ao território.

O vento, de tão forte, colou-me às paredes. E elas falaram. Há, nos vossos lugares, paredes que falam?

~CC~








sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~