quarta-feira, 27 de maio de 2026

Três jacarandás

 

Vi-as pequeninas e duvidei que crescessem, durante muito tempo eram só uns arbustos sem graça, poucas folhas, nenhumas flores.

Mas são agora três belos jacarandás, estão em flor, e o maior está mesmo por baixo da minha janela. Bebo o seu lilás como se a sua cor mitigasse o meu corpo fatigado, há coragem em florir.

E vejo agora que devia ter acreditado que um dia seriam belas árvores, em vez de duvidar do que ainda é pequeno, frágil e hesitante. Deixar ganhar a descrença é fácil, o caminho inverso é mais árduo, penoso e com muitas curvas. 


~CC~

domingo, 24 de maio de 2026

Passeio de Domingo (X)

 Não é que tenha passeado muito, saia cedo, chegava tarde e passava o dia a ouvir pessoas a falar, tendo que tomar notas de tudo (ou quase) o que diziam. Valeu-me o lugar ser bonito, aquele intenso verde ao sair e ao chegar aliviava tudo. 

Mas passei a semana fora de casa, pelo que sinceramente, no regresso, só queria ninho. É claro que com este calor uma imagem de mar era apelativa, mas só de pensar na confusão inerente, aliada à mala por desfazer e tanto por organizar, fez com que o passeio possível fosse curto e a um lugar meu. Sei que quando vou lá é também ir a uma parte de mim, ali respirei tantas vezes no tempo da pandemia, e muito antes, quando estava longe de ser o que hoje é, era apenas um sitio escondido, mal conhecido, quase secreto. Quando o conheci, antes da obra, que foi tudo menos museológica, ainda funcionava como moinho de maré e ainda conheci o seu último moleiro, apesar de estar há anos desativado. Ainda é um lugar muito bonito, não obstante poder ter sido feito melhor e diferente naquela recuperação e relativamente ao projeto que hoje é.  Acresce que o terreno sofreu consideráveis estragos este inverno e esteve muito tempo interdito.

Se vierem às terras do Sado, procurem o Moinho de Maré da Mourisca, falem um bocadinho com as garças, se tiverem sorte avistarão ao longe os flamingos. Gosto de me imaginar assim livre, que abro asas e voo. E sinto que estou cada vez mais perto ou que já estive mais longe.

~CC~













quinta-feira, 21 de maio de 2026

Também há pão quente com manteiga

 


É aqui, às 8h quando passo já abriu, lá em cima as duas cerejas que à casa dão nome, gostam assim delas tanto como eu. Quando volto, já estão em arrumações para fechar, mas sempre sem pressa. As pessoas passam e cumprimentam, assim já já sei os nomes do casal. De uma simpatia impar, hoje comprei apenas uma banana pedindo desculpa por só levar uma. De volta um "a menina leva a quantidade que quiser, se é só uma que precisa...". E os preços nem são exagerados, atendendo ao lugar em que se está. Já cá tinha vindo muitas vezes em visita mas sinto que nunca vi o mais importante, não que os palácios não sejam lindos e as magnólias um espanto, mas agora conheço a senhora brasileira que me serve o pão quentinho com manteiga derretida (ah quanto tempo não comia isto ao pequeno almoço) e sei que o sonho dela é morar no (meu) Algarve. E que o menino, o menino que ainda mal anda, gosta muito de praia.

~CC~


terça-feira, 19 de maio de 2026

Doce e vermelho engano

 

Acontece-me isto, vir trabalhar para um lugar muito turístico, sair às 7h quando todos dormem, as pessoas com farda de turista e eu com a minha melhor fatiota, a que consigo vestir, pois tenho os meus limites, não sei usar cosméticos e deixei de usar saltos altos. Volto cansada e a horas a que não é possível desfrutar desta beleza, respiro-a apenas.

Neste lugar, em que tudo parece feito à medida do turista, descobri uma pequena mercearia com fruta linda e proprietários à moda antiga, sem nenhum traço gourmet. Hoje não resisti às cerejas. Comprei uma caixinha pequena e o senhor perguntou: quer que as lave e coloque num saquinho para ir comendo? Achei tão estranho, será isto que os turistas pedem? Mas disse que sim e, se eles o fazem, também o fiz. Deviam ter realmente qualquer coisa mágico pois senti-me um bocadinho de férias. Doce e vermelho engano.

~CC~

domingo, 17 de maio de 2026

Passeio de Domingo (IX)

 

Troquemos os dias que hoje o rumo é outro, o passeio fez-se ao sábado.

Junte-se uma amizade que, com maiores ou menores lacunas, sobreviveu por mais de quarenta anos a um lugar que amamos desde sempre, como se ele nos fosse não externo mas nos habitasse internamente, precisamos, contudo, de o renovar para não se esbater.

É um azul que circula integrado no vermelho do meu sangue, uma areia fina que é parte da minha pele e um sal que é o tempero da minha palavra. E há tanto tempo que não ia lá, cortaram os acessos e a volta é grande e sinuosa. Alma lavada como se fosse um banho longo e demorado de alegria e isso de tudo me protegesse, como se tivesse tomado uma vacina e ela agora atue caso alguma bactéria se tente infiltrar no âmago do meu coração. 

No Portinho da Arrábida, consigo ouvir Sebastião da Gama, de tanto que tenho secretamente falado com ele por todos estes anos. 


~CC~






PS. Se vierem escolham maio ou junho, em julho ou agosto a experiência pode ser mais dolorosa. Embora isso seja comum a todo o litoral, o areal nas praias da Arrábida é pequeno.