quarta-feira, 28 de julho de 2021

Peixinho pequeno é para deixar no mar


 Eis um princípio que se podia aplicar a múltiplas coisas em muitas situações.

As meninas que na praia brincavam com a rede de apanhar peixinhos pequenos. Com que prazer diziam que iam apanhá-los. Mas uma contou que no último dia um deles tinha morrido dentro do seu balde e o tinha enterrado e feito um funeral. Nem percebia que tinha sido ela a causar aquela morte que depois tinha transformado num ritual humano. Algures, na sua educação, já lhes deviam ter explicado que os peixes pequeninos são para deixar dentro de água, é tão bom vê-los a nadar na transparência do mar, senti-los a debicarem as nossas pernas. A avó, alheia às meninas, usou todo o seu tempo para o telemóvel, mas foi ela mesma que se zangou com elas quando resolveram apanhar lixo com o camaroeiro, uma actividade, sem dúvida, muito mais preciosa.

O ambiente grita de dor mas uma parte significativa da humanidade está surda e é egoísta. 

~CC~


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Aqui, coração cheio.


Aqui é certamente um dos meus lugares favoritos, não sei explicar como certos sítios nos sabem ao nosso próprio nome. No primeiro confinamento fecharam o caminho e fiquei a respirar muito pior, não é só a doença que nos rouba pedaços aos pulmões. Aqui, coração cheio.

~CC~


domingo, 25 de julho de 2021

É outra vez Domingo

 

Lembro-me deles por ser novamente domingo, mas já foi há uma semana.

Deviam ser entre sete a dez. Calculo-lhes também as idades, entre 10 e 14. Chegaram com umas caixas e umas garrafas de gasosa de litro que passavam de mão em mão. Ocuparam a entrada dos prédios, a sombra dos varandins.  Nesse dia estava calor. Cantaram, riram, comeram e beberam. Ouvia-lhes as gargalhadas. Todos sem máscara. Devem ter tido receio de ocupar um jardim público, só isso explica esta escolha. Ou talvez ser um sitio central na cidade, bem servido de transportes públicos, creio que não moravam por aqui.

Por fim ouvi os parabéns a você, uns dez minutos depois desapareceram como chegaram.

É assim que se faz a festa dos adolescentes pobres da minha cidade em tempos de pandemia.

~CC~




quinta-feira, 22 de julho de 2021

Pequena e transitória, mas ainda assim...

 

Hoje tenho na minha boca o sabor das pequenas revoluções. E é como o gelado da fruta verdadeira, deixa o seu sabor leve e fresco durante algum tempo e até nos parece que com ele virá a mudança, aquela que fica. Mas não sou tão inocente assim. Por isso, só espero para saber o modo transformarão a vitória em derrota e os carrascos em vítimas.

Mas hoje, só hoje, ainda saboreio, ainda rio, ainda festejo a democracia.

~CC~

terça-feira, 20 de julho de 2021

Tapar e mostrar

 

As norueguesas do andebol de praia querem vestir-se mais, ter o direito de não exibir o seu corpo, colocado como isco para patrocínios. Não poderem tapar um bocadinho da perna é uma coisa anedótica.

Durante anos e anos as mulheres lutaram para o poderem mostrar o seu corpo, destapá-lo como bem quisessem. Enfrentaram o preconceito, a maledicência e até houve mesmo quem as culpasse nessa exposição por ofensas sexuais que pudessem vir a sofrer.

Mas no fundo não são lutas diferentes, é só a mesma, o mesmo direito. Estou tanto com umas como com as outras.

~CC~