quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Vinte anos depois

 


Diz ele que há vinte anos não pisava aquela cidade. Então eu estava lá quando ele a pisou, comprei-lhe um livro e ele assinou-o, é coisa que não costumo fazer, as longas filas, a falta de jeito para dizer alguma coisa, aquela proximidade ao escritor...costumo desistir. Mas lembro-me da minha irmã mais nova a insistir, a brincar com aquela minha insegurança...a empurrar-me devagarinho, vai lá, vai lá...

Na verdade, uns anos antes ele já tinha estado na minha escola, eu estava lá há pouco tempo ainda mas tínhamos feito algo que ele adorou: retirámos frases do primeiro livro dele e distribuímos aos estudantes que a partir delas construíram micro histórias, dois ou três dispuseram-se a ler naquela sessão pública. Ele emocionou-se.

O José Luís Peixoto, vinte anos antes era muito bonito, assim o achava eu, tinha uns olhos cheios de luz, um cabelo meio encaracolado e um sorriso tímido. Talvez a fama o tenha levado aos piercings, às viagens, às biografias de homenagem, talvez se tenha perdido um pouco, mas até isso lhe dá graça, não tem um caminho linear, nem se deixa enredar no estilo único. Vinte anos depois... li alguns dos livros, não todos, gostei mais de uns e menos de outros. Já não corro a comprar-lhe os livros, nem o coração estremece por estar perto dele. Mas continuo a gostar da sua sinceridade, da forma como se apresenta sem pudor nem vedetismos, continuo a encontrar-lhe a ternura, isso que tanto me encanta num homem. A melhor parte: a forma como ama a sua família e o seu Alentejo, como quer estar nesse colo ao mesmo tempo o larga para procurar outros lugares. Mais velho, menos bonito, mas mais velho, mais bonito. Talvez ainda compre a Montanha.

Absolutamente rendida às conversas com a sua mãe. Que maravilha a menina Alzira

~CC~



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXIII)


 

Atravessei-o ontem. O Alentejo desta canção é ainda o mesmo e ainda assim tão diferente. Outras mãos, outra explorações agrícolas, o mesmo tormento, outro tormento. O cante é tão belo para quem se deixa tocar por ele, tão bonita esta interpretação com várias gerações, gosto de nós misturados.

No meu olhar terra quente, agora coberta de água, já com andorinhas. Vastidão de horizontes que me comove sempre.

~CC~

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A cada vinda me tornar mais leve

 


A chave colocada na fechadura foi o extremo do erro. Um erro persistente uma e outra vez. O botão no terceiro andar em vez de no quarto, não sei se chamar-lhe automatismo ou amor. Habituei-me a pensar que estão nas antípodas um do outro mas se calhar não é assim tanto. A dor da sua ausência amorteceu, é agora ténue, diluída, levou a patine do tempo. Mas a mão continua a dirigir-se ao botão do terceiro andar, ao lugar da casa dela. Noutras ruas deixei de passar há mais tempo, circundo-as como se nada tivessem dentro, como se fossem um buraco que o tempo tapou com a sua areia de esquecimento, já há muito não estremecem à minha chegada, nem à minha partida. Aqui já não choro mais, já chorei tudo o que perdi, mas ainda me falta rir, é como se o riso estivesse ainda preso dentro de mim.

Este Sul tem um cheiro único e reconheço-o, é parte integrante do meu passado, renegar lugares é renegar parte de nós. Aqui a água varreu também tudo, mas não deixou cheiro a bolor e a mofo, há um leve perfume de que mais adiante irá acontecer Primavera, gelados, mar suave e quente.

E é por isso que volto, pela possibilidade de, a cada vinda, me tornar mais leve.

~CC~



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contrastes

 

Tirando um miúdo mascarado de abelhinha, vi muito poucos mascarados na rua este ano. Os pais, sem paciência, dinheiro ou mestria (nos quais também já me incluí) recorrem à loja dos chineses mais perto, pelo que as crianças ficam todas mais ou menos iguais.

Já a vida está cada vez mais contrastante. No mesmo dia assisti a um senhor, visivelmente com dificuldades financeiras, a comprar no supermercado apenas uma lata de leite condensado, o preço foi 1,48 euros e ele contou as moedas. Fico sempre muito triste a pensar que provavelmente só comerá aquilo o dia inteiro e que a levou pelo seu alto teor açucarado. Nesse mesmo dia vi uma senhora a regar as suas plantas de casa com água engarrafada, usou duas garrafas de litro e meio. Sei muito bem que as plantas gostam de água sem cloro, mas eu deixo a agua da torneira uns dois dias no regador e depois rego as mais sensíveis. Compreendo que a água engarrafada, se ela a poupasse, não enchia a barriga do senhor com mais proteína e menos açúcar, mas custa-me, há dias em que viver custa. 

~CC~

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXII)

 



Este balancear que vem de um lugar tão perto.

A saudade pode ser um lugar impreciso onde apenas moram sabores e cheiros.


~CC~