domingo, 25 de outubro de 2026

Três andamentos

 

UM, que árvores tão belas

Fui longe, é certo que não foi para conversar com as árvores. Mas fiquei perdida nelas, embevecida e deslumbrada. Carvalhos, castanheiros, plátanos e faias que crescem assim apenas no frio e na humidade das terras altas, deixam no ar, no chão, no céu as suas cores intensas e vibrantes e uma esperança de que vão vencer muitos incêndios e ameaças humanas e estarão lá para que outras gerações as olhem com o mesmo olhar embevecido que eu tenho.


DOIS, as pessoas ainda acolhem

O senhor perguntou, no átrio do hotel, se eu ia para o congresso e lhe dava boleia. Eu ia sim, mas numa carrinha com mais 8 pessoas, sendo que a carrinha levava apenas 9, e não era minha. Mas disse-lhe que esperasse, se não fosse o nosso lugar vazio, outros deveriam ter algum. Mas lá nos apertamos e o senhor coube, coube uma vez e muitas mais e até voltou connosco para Lisboa. E era de longe, lá de Salvador da Bahia, onde todo o mundo ficou convidado para ir. Aconteceu com ele e com mais alguns. Não perdemos algo que era muito nosso, deste grupo que se graduou em conjunto, em que determinada altura pareceu-me estar a desvanecer-se. Mas desta vez fomos esse grupo que acolhe, adopta e faz pontes. A academia não corroeu e roubou tudo o que tínhamos de bom, não deixámos ainda morrer o riso.

TRÊS, este país triste

Na volta, já esta manhã, as notícias que ouvi na rádio fizeram-me chorar. Receei ter que parar. É isto que a velhice nos traz, esta fragilidade, vi isto tal e qual na minha mãe. Mas limpei as lágrimas. Quando recebi os vídeos, alguns até de amigos que tiveram filhos ou outros familiares no Rossio e foram corridos à bastonada, já não chorava, sentia muita revolta. A desigualdade de tratamento com situações semelhantes é muito grande, lembro-me perfeitamente dos chefes de cozinha nas tendas em frente ao parlamento e de serem bem tratados, de se designar a iniciativa como uma ação de protesto e não como algo ilegal e atentatório. É um país triste este.

~CC~



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Oxalá aconteça assim

 

Dias de tensão e tristeza.

(violência, roubos, gritos, vítimas...)

Imagens que não achávamos possíveis de acontecer nestas cidades europeias...

Dias de esperança e alegria.

(tendas, vozes, cartazes de papelão, música, assembleias, jovens que acordam...)

Imagens de Madrid, do Porto, de Lisboa...

O meu coração adere, o meu coração hesita, o meu coração abana, o meu coração abraça. Gostava que a revolta tomasse um corpo firme, unido, mas pacífico. Entendo, contudo, o grande cansaço dos privilégios, são muitos anos à espera da justiça. Tentam isolar o descontentamento e situá-lo nos extremos, cortando o elo com os mais moderados e com a população em geral.

Pior que tudo, a relação feita do descontentamento sobre a habitação e o custo de vida com a Imigração, inimaginável. 

O meu coração ainda está cheio de cravos vermelhos, desse romantismo que anima todos os protestos que são coros, canções e pessoas a sorrir, dessa força que faz caminho pela via poética de ser e estar. Oxalá aconteça assim, sonhar não custa.

~CC~


sábado, 17 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (III)

 

Ele não disse assim mas foi o que quis dizer, que nesta escola era tudo meio louco, que dançávamos à volta do sobreiro, naquele extenso relvado que já foi verde. Confirmei, dançámos, contámos histórias, lemos poemas, alguns talvez tenham chorado.

E de repente deixei de o ouvir, a ele e a todos, os meus olhos enfiaram-se no coração daquela árvore que me conhece há 27 anos. O que ela sabe de mim. Olho-a e acho-a infinitamente bela, mais bonita do que alguma vez a vi, embora esteja mais frágil. 

Não me deixes, pensei. Não morras, não desapareças, não definhes.

E este pensamento mostrou-me o quanto este medo de perder as coisas, as pessoas que mais amo é o buraco negro em que tantas vezes caio. Nas outras sou eu própria a desparecer. 

É só um minuto entre mim e o sobreiro, depois alguém me chama. Chamam-me sempre por dois nomes, ou às vezes só um ou às vezes só o outro. Não sei como consigo sempre responder. E rir, como consigo sempre rir e nesse riso enfiar todos os buracos negros.

Gosto de sábados, gosto muito do sobreiro.

~CC~



quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Um homem gentil

 


Dirão dele tudo o que ele, sem pudor nem disfarces, afirmou na sua fala pausada, por vezes arfante, como quem não está habituada a paragens sem frio nem vento cortante. Mesmo assim, Óbidos é húmida numa noite de Verão, para ele provavelmente não.

Jon Fosse não fez os pedidos habituais, que não lhe fizessem esta ou aquela pergunta, não ficou sem responder, não hesitou entre perguntas tão difíceis como qual era o seu escritor preferido, sabendo que ao nomeá-lo não escolheria todos os outros. Deu respostas simples a perguntas complexas como o uso da sua língua materna, minoritária na Noruega, não disse que que a usava como bandeira ou para a defender, mas simplesmente porque era a sua. Cortou rente e direto na mística da inspiração alcoólica dos artistas, sem muitas análises sobre a sua anterior dependência e sobre a sua atual sobriedade, evidenciando que simplesmente escolheu a vida. Assumiu a timidez, a reserva, a melancolia, mas sorriu sempre, reconheci-lhe o sorriso dos tímidos. 

Só li um livro e vi uma peça de teatro. O meu conhecimento da obra está longe de ser aprofundado e nunca o será. Sou apenas alguém em visita. Mas alguém fascinado por uma obra nas antípodas da sua vida. Creio mesmo que só através dos livros poderia conhecer territórios como os que ele traz, pessoas como ele traz.

E também gostei muito de conhecer, em eventos dados à soberba, um homem gentil.

~CC~

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Este dia que acordou como amavas, cheio de sol

 

No último 9 de outubro, em 2025, escrevi "este dia que acordou cinzento". 

E hoje digo: este dia que acordou como amavas, cheio de sol.

Mas acordou sem ti e ao acordar sem ti, também é afinal um dia cinzento. De todo o amor que perdi e toda a perda do amor, seja de de que tipo for,  é uma dor inigualável por nos deixar mais sós, o teu amor é o que mais falta me faz. Talvez por o ter conhecido tão tardiamente, quando já por ele não esperava. Talvez por ser a recuperação daquele desamor mais básico que creio ter afetado a minha infância e adolescência. Talvez por conseguir, por fim, entender-te.

A noite, agitada, trouxe-me em sonhos um bebé do qual eu cuidava. Estranhos sinais. Quando cuidei de ti eras frágil mas não eras igual às crianças, inteiramente diferentes os cuidados dos quais os velhos necessitam. A única coisa igual é que uns e outros chamam pelas mães e nelas reconhecem essa porta que vai de um mundo ao outro e se agarram a essa memória básica como o chão do qual podem nascer flores.

~CC~