domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre

terça-feira, 28 de abril de 2026

Roubam-me Maio

 


Se por acaso Maio me calar, não é pelo pólen que me invadiu os olhos e o nariz, pelo sabor dos morangos ou pelo apelo a entrar por dentro do verde num passeio sem fim. É apenas por ser o mês mais intenso de trabalho ao longo de todo o ano, é um paradoxo que assim seja, uma antítese à poética do mais belo dos meses, um teste à minha paciência, um tormento que tento aligeirar com a promessa que virá Junho e depois Julho e em Agosto o corpo se entregará a qualquer dormência que o chame.

Para cortar o lamento desta difícil coexistência do chamamento das flores com a labuta do computador, penso em coisas risíveis, minimamente divertidas. Hoje lembrei-me dessa senhora chamada Agatha Christie. Dizia ela que toda a mulher devia ser casada com um arqueólogo, pois eles apreciam-nos cada vez mais à medida que envelhecemos. E ela sabia do que falava, que sabedora.

Preciso de rir para esquecer que me irão roubar Maio. 

~CC~


domingo, 26 de abril de 2026

Passeio de Domingo (VI)

 


O Domingo foi ao sábado e o passeio só podia ser um: descer a Avenida da Liberdade gritando 25 de Abril sempre, enchendo o peito da alegria. E que alegria havia ali, era espessa, colorida, vibrante, irei retirá-la em micro doses quando dela precisar. Este ano impressionou-me a presença de tantos jovens e, entre eles, de tantas mulheres. O corpo que acorda moído do cansaço desta festa é um corpo renovado.


~CC~

Nota: difícil captar fotos sem rostos e sem permissão não me arrisco a trazê-los, não partilho da ideia de que quem está no espaço público se sujeita a ser fotografado/a  e a foto tornada pública. Contudo, muitos aqui ofereciam sem receio e até com orgulho o seu rosto à câmara e até isso era bonito.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Maçã Mágica

 

Deslumbra-me o amor mesmo quando não o vivo. Aprecio as histórias em que ele brota como um pequeno regato e tem a coragem de crescer e rebolar até se tornar rio. Ainda mais quando as pessoas já não são novas e carregam vários desencantos. E dessas histórias que vejo nascer não tenho nenhuma inveja, pelo contrário, contento-me com o contentamento dos outros, sobretudo se deles gosto. Por isso perguntei-lhes se podia escrever a história deles, riram-se, mas sei que sabem que escrevo, não sabendo onde.

Tudo começa com uma maçã. Não se riam já, é verdade.

A. cultiva um pouco de tudo, tem maravilhosas macieiras, uma delas dá maçãs grandes e saborosas, sem químico algum. Essas maçãs foram levadas por uma amiga próxima, guardava uma na mala todos os dias para os momentos de fome ou gula. Mas eram maçãs grandes e ela conseguiu comer apenas metade. Ele estava por perto e ela deu-lhe a outra metade, costuma ser muito convincente e conseguiu porque a anunciou como a maravilhosa maçã de A. E ele sabia quem era A, tinham sido colegas há muitos anos, mas nunca tinham estreitado relações, eram distantes. Enviou-lhe uma mensagem curta agradecendo a metade da maravilhosa maçã que comera. E ela disse que se quisesse podia vir buscar mais, que a fruta das árvores era para os amigos e só uma vez por mês ia ao mercado.

Maçã mágica.

Parece que este Domingo A. as venderá no mercado, na companhia dele, rendido.

~CC~


domingo, 19 de abril de 2026

Passeio de domingo (V)

 

Pratiquei com tanta alegria a capacidade de não me deixar condicionar pela pilha de coisas em atraso que às vezes me arrisco a pensar que estou em processo de mudança de personalidade. Conseguirei deixar para trás o meu peso formiga? É verdade que mal abri a porta de casa, impôs-se a pergunta: como é que vou recuperar durante a semana todo o trabalho que não fiz no fim de semana? Mas ao mesmo tempo perdoei-me porque não é justo ter que pensar assim, ter que sentir tanto aperto no peito já lá vão tantos anos.

Juntei sábado e domingo como uma coisa só, destinada a viver de manhã à noite o gosto da Primavera, dos amigos, das artes. Sinto em mim o cheiro do campo, é como se toda a serra de Montejunto se tivesse impregnado com a sua beleza dentro dos meus olhos. De serra em serra talvez ainda consiga perder o medo das alturas, o medo dos planos inclinados.

O conselho desta semana é assim muito simples. Sabe onde moram os seus amigos? Procure-os, passeie com eles, abrace-os, faça-lhes perguntas que revelem o seu interesse por eles, deixe também que eles perguntem. Peça que lhe mostrem os lugares deles, os que tratam pelo nome. Foi assim que fui ver representar uma amiga que faz teatro amador numa cidade que não pisava há muitos anos. E já tinha sido cidade abrigo para mim logo no inicio da minha carreira.

Tanta é a luz que mora nas noites quentes.

~CC~