terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Contrastes

 

Tirando um miúdo mascarado de abelhinha, vi muito poucos mascarados na rua este ano. Os pais, sem paciência, dinheiro ou mestria (nos quais também já me incluí) recorrem à loja dos chineses mais perto, pelo que as crianças ficam todas mais ou menos iguais.

Já a vida está cada vez mais contrastante. No mesmo dia assisti a um senhor, visivelmente com dificuldades financeiras, a comprar no supermercado apenas uma lata de leite condensado, o preço foi 1,48 euros e ele contou as moedas. Fico sempre muito triste a pensar que provavelmente só comerá aquilo o dia inteiro e que a levou pelo seu alto teor açucarado. Nesse mesmo dia vi uma senhora a regar as suas plantas de casa com água engarrafada, usou duas garrafas de litro e meio. Sei muito bem que as plantas gostam de água sem cloro, mas eu deixo a agua da torneira uns dois dias no regador e depois rego as mais sensíveis. Compreendo que a água engarrafada, se ela a poupasse, não enchia a barriga do senhor com mais proteína e menos açúcar, mas custa-me, há dias em que viver custa. 

~CC~

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXII)

 



Este balancear que vem de um lugar tão perto.

A saudade pode ser um lugar impreciso onde apenas moram sabores e cheiros.


~CC~

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nove anos

 

Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.

Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou. 

A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo. 

A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar. 

~CC~



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Afinal era simples

 

Estava a vê-lo intrigada há um bom bocado. Um homem talvez da minha idade, talvez mais velho. Não consegui distinguir-lhe as feições pois mantinha o capuz colocado. Estava parado a olhar para a bancada dos bolos de aniversário, quase com o nariz colado à vitrine. Eram bonitos os bolos, com muitas cores,  texturas e brilhos, também fico sempre maravilhada com essa arte de quem os confecciona. Mas tanto tempo?! Quereria um e não teria dinheiro? Planeava fazer ir pelos ares aquela vitrine? Estava com algum problema e não era capaz de sair dali, nem de se sentar?

Acabei o café e já não tinha tempo de prolongar mais a minha observação e muito menos de obter resposta para as minhas questões. A chuva intensa (ainda me lembro de quando não se saia de casa por causa dela) tinha subitamente parado. Saí, já ia na rua e instantaneamente voltei-me para trás, ali estava, mesmo perto de mim, o homem da vitrine. 

Ri-me de mim própria, afinal era simples. 

~CC~

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~