segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Conversas pequeninas (I)

 

O mar não é o mesmo, não tem o mesmo cheiro, o mesmo murmurar, tão pouco a mesma cor ou a mesma ondulação, não são os mesmos peixes, nem as mesmas conchas que dão à costa. Em cada lugar em que o sinto, sinto-me também diferente ao pé dele. 

Conversei com ele um pouco mais a sul e um pouco mais a norte. Nem num, nem no outro consegui mergulhar. Mas respirei-o e disse-lhe que não se esqueça de mim, agora que voltarei menos vezes, não rareio por falta de amor mas por não ter encontrado (ainda) a forma de o viver em pleno. 

Antecipo saudades. Venha, contudo, a chuva.

~CC~






terça-feira, 22 de setembro de 2026

Equinócios

Equinócio de Outono no Hemisfério Norte é simultaneamente dia do meu nascimento, não obstante ele ter acontecido no Hemisfério Sul. E no Hemisfério Sul começa a Primavera. Nesta constelacào de hemisférios e equinócios, aprecio a folha que fica dourada e o ovo que se parte para deixar sair uma avezinha.

~CC~

domingo, 20 de setembro de 2026

Defeitos Perfeitos (outra vez?!)

 

Ninguém respondeu à questão central que deixei e na qual fiquei a pensar após o espectáculo, no jogo de palavras que o Pina usa: defeito perfeito.

Também para mim é mais fácil pensar no dia perfeito. Mas talvez consiga juntá-los. O convite para ir dizer poesia em voz alta chegou através de um grupo habitual, embora não façamos isso muitas vezes e, muito menos de forma estruturada ou contínua. São coisas que acontecem, quase sempre encaixadas noutras, neste caso uma homenagem a uma escritora muito singular, dona de uma obra que funciona como um puzzle e que não é prosa nem poesia, não é ficção nem é auto ficção, creio que ela já estava muito à frente do seu tempo, até na forma como ligava os entes humanos e não humanos numa única cosmologia: Maria Gabriela Llansol. Era leitura da minha adolescência, nunca mais lá tinha voltado.

Um dia perfeito também pode ser aquele em que nos confrontamos com os nossos defeitos e os desafiamos. Primeiro, encostar a timidez a um canto. Mas isso é coisa que já me habituei a fazer para este tipo de eventos, verdade que sobretudo se de natureza técnica científica. Segundo, esquecer que toda a vida fui sopinha de massa, ou ainda melhor, saber que é possível melhorar isso, que o treino, a segurança, a vontade, tornam isso algo muito menos perceptível. E assim foi, achei que consegui tão bem, o meu defeito era um defeito tão perfeito que nem se notava. Depois veio o vídeo do evento e, claro, não era bem assim. 

Este defeito nunca desaparecerá completamente, é um defeito perfeito, colou-se a mim para sempre mas consigo pensar nele como um sotaque, incorporado e trabalhado, talvez seja apenas o meu modo de falar. Um defeito perfeito saiu à rua para um dia perfeito.

~CC~



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Defeitos perfeitos

 

O que é um dia perfeito?

É um dia em que assistimos a um espetáculo maravilhoso, espantados por haver pessoas capazes de fazer coisas tão bonitas, em equilíbrio de forma e conteúdo.

Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem - Teatro Nacional São João

(eu vi no CCB no último sábado, mas já tinha pensado ir ao Porto para o ver)

E um defeito perfeito? Será um dos que queremos disfarçar ou um do qual gostamos muito? Ou outra coisa qualquer? Arrisquem...

(a brincar de Manuel António Pina, porque era esse poeta que sabia chorar mas também rir...alguns dos seus poemas sabem a gelado e a gargalhadas).

~CC~

domingo, 13 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas nada amadas

 

Não tenho pressa, é verdade, o Verão poderia só ir acabando devagarinho, diminuindo o calor, a quantidade de luz por dia e, sobretudo, a indolência que comporta. Mas reconheço que há coisas no Verão que não são nada interessantes e muito menos confortáveis, e com isto vou pedindo, ainda que com moderação, que venha lá o Outono. Deixo cinco coisas que não gosto, aposto que os amantes de Outono acrescentariam com afinco esta lista (cá vos espero), enquanto que os amantes do Verão por certo as consideram de relativa ou nenhuma importância (também podem dizer).

1º - Os preços sobem bastante, sobretudo em zonas turísticas e perto do mar, assinalo que paguei no Verão o dobro do preço do que paguei no Inverno por uma água com gaz. A fruta, mesmo aquela que é denominada como fruta da época, como por exemplo, os pêssegos, assumiu este ano valores como nunca tinha visto.

 2º - A hipermania de festas e festivais por todo o lado e a toda a hora, já não se aguenta. Antes convivíamos com festinhas de aldeia populares e dois ou três festivais de música de grande produção, agora já perdi a conta, a imaginação delirante tomou conta de tudo e de todos, desde as coisas mais alternativas, às artísticas, às gastronómicas, às de luz, cor, religião e afins, muitos afins...isto é uma moda que incomoda porque já não se consegue sossego em lado nenhum. Por causa disto, não fui a único festival ou festa este ano, e não é que algumas não me chamassem, mas já não suportava a ideia em si. Há demasiado ruído no Verão, nesse aspeto prefiro o silêncio do Inverno.

3º - A ideia que nos é transmitida que temos que estar felizes, quase tão irritante como a que temos que estar bonitos ou usar todos o mesmo. Olhei para os pés das mulheres este ano, mais de 50% tinham o mesmo tipo de sandálias, assim percebi que eram moda, nem é um modelo especialmente bonito nem torna os pés elegantes, mas é como se te dissessem que se não sabes que é aquilo que se calça estás fora da comunidade. As outras estações comportam, apesar de tudo, maior variabilidade, ou talvez andemos mais ocupados com outras coisas.

4º - Estes malditos golpes de calor, a temperatura não sobe ou desce gradualmente, há uma espécie de picos infernais a que se convencionou chamar onda. Não gosto do termo porque as ondas são bonitas. Deixam-nos não só com falta de ar como com a sensação que o mundo não dura muito mais e que ninguém quer seriamente saber disso.

5º - O lixo, consideravelmente em maior quantidade, mais desordenado e por vezes com um cheiro insuportável quando o calor abrasa nas cidades. Não me convenço que este sistema não tem que ser radicalmente alterado, não tenho soluções já feitas, mas estamos há demasiado tempo a fazer o mesmo da mesma forma, a questão é que sabemos perfeitamente que temos que diminuir a quantidade de lixo que produzimos mas o cidadão comum não sabe como. 

Que tal esta preparação para a mudança de Estação?! Chamo, contudo, devagarinho...porque o banho matinal, devidamente salgado e gelado, nesta Arrábida linda, ainda soube muito bem.

~CC~