quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz...rir (I)

 

- Então, já tem os óculos?

- Para quê?! Eu vejo bem!


Conversa às 16h20m num dos cafés do bairro. Há sempre quem não corra atrás...ou porque não quer, ou porque não pode, ou por simplesmente por não se importar.

(a propósito do Eclipse de 12 de agosto do ano de 2026).


~CC~


domingo, 26 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XIX)

 

Bem sei que é estranho acabar em dezanove, normalmente o fim de uma rubrica acerta com um número par. Os passeios de Domingo iniciaram-se com a Primavera e terminam com o estio, este tempo seco e quente que nos amarra a um lugar outro e nos desata das teias que nos prendem aos lugares virtuais. Durmo mal no Verão, em contrapartida leio livros em papel e esqueço-me de quase tudo, deixo-me flutuar. Não sei se virei, se estarei ausente, prefiro deixar-me ir por esse veraneio, como se tivesse uma 125 azul. 

Este é oficialmente o último passeio de Domingo, por muito que eu queira refazê-los sempre, até quando a chuva chegar. Mas provavelmente outras vontades acontecerão, talvez música, livros ou cinema, ou apenas estados do corpo ou estadias da alma. É em setembro que tudo recomeça, mesmo que aqui venha antes.

Este passeio de domingo foi um revisitar do que é a família construída, 44 anos de amizade. Para combinar com isso uma praia de família, à moda antiga, com a barraquinha às riscas e o gelado na esplanada (quem adivinha?)



.

A garganta rouca do tanto que tínhamos para dizer um ao outro, já não nos víamos há 3 anos. Entre nós nunca houve nada escondido e tudo é esquartejado na mesa de operações, sobretudo as nossas almas doridas e os nossos corpos com esperança de vida. Apontamos os erros um ao outro com sublime cortesia, noutros tempos usávamos a navalha, e somos gentis nos conselhos que damos, na expetativa de que o outro se os seguir cure com sabedoria as feridas que expõe.

~CC~

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Se me disseres que morreste não acredito, não posso" (Adeus Luís Represas)

 

Cantou a luta, o protesto e o desalento...

Mas para nós, as miúdas dos anos 80, ele foi o nosso John Lennon e os Trovante os nossos Beatles. Quando o Represas cantava canções de amor havia um arrepio coletivo no feminino e ia dos 15 aos 25. Os nossos rapazes não escondiam uma pontinha de ciúme e embora nos dessem a mão e até um beijo, não entoavam com tanto entusiasmo como nós as canções. Sabíamos várias de cor e os concertos dos Trovante foram a primeira grande festa, a vontade de estar quanto mais perto do palco melhor pois eram todos lindos, mas um deles, com aquela voz meiga, era o mais lindo. Desfiz-me algumas vezes da minha timidez para entoar a preceito, certa de que no coro das amigas, mal se ouviria o tom fora de tom.

Tudo isto se passou antes dos mil festivais que há agora e da respetiva banalização das vestimentas a levar e das pulseirinhas, antes dos bilhetes serem escandalosamente caros. 

E dentro do possível o Luís Represas soube reinventar-se, não perdeu o sorriso, não azedou. Mas tudo já tinha mudado e eu também, por isso não fui aos últimos concertos, não percebi que provavelmente eram uma despedida. Saudosismo também não é o meu forte.

Finalmente alguém disse que morreu de cancro e não de doença prolongada, um termo que detesto, até porque o cancro pode ser fulminante. 

O sentimento matinal foi igual ao da canção (Sorriso) que mais amo dos Trovante, "não acredito, não posso". Certo é que envelheci outra vez, com ele também desparece um bocadinho da minha adolescência. Mas só me apetece dizer: Obrigada pelas borboletas. 

~CC~




domingo, 19 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVIII)

 

Hoje seria passeio de protesto, estava planeado.


 

Porém a dor de cabeça, seguida de dores articulares intensas, ligeira dor de garganta e muito cansaço instalaram-se como algo que não consigo designar correctamente e espero que passe nos 3/5 dias estipulados para não ter que procurar profissional específico para algo tão pouco específico. 

O meu coração esteve lá.

~CC~



 


sábado, 18 de julho de 2026

Seis pistácios e um gelado

 

Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.

O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.

Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho  de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.

~CC~