domingo, 8 de novembro de 2026

Retratos de uma geração a acontecer (I)

 


É jovem, tenho adivinhar, entre os 18 e os 25, certamente.

Imagino que trabalhe por turnos, talvez estude, talvez tenha abandonado. É uma gasolineira tão barata e tão desprovida de tudo que nem tem uma cancela decente de abrir e fechar, por isso colocou as suas duas parcas bombas em pré pagamento. Temos que nos levantar e ir lá para depois proceder ao abastecimento. Ela fica ali horas naquele cubículo no meio do nada, aceitando passar cartões e devolver a fatura, sem mais. Não sei como aguenta. Eis, contudo, que lhe descubro o livro aberto, quase a meio. Não é uma revista cor de rosa, não é um telemóvel, é um livro. Comento com ela: então é assim que aguenta isto, a ler?! E ela sorri, pela primeira vez me parece bonita. Diz que sem ler já teria enlouquecido ali. 

Duplo obrigada.

~CC~

domingo, 1 de novembro de 2026

O bichinho que se infiltra na maçã

 

A maçã ainda permanece na árvore e no exterior ainda parece vermelha e bela. Mas o orifício pequenino mostra que já houve infiltração, por dentro o bichinho engorda roendo do interior e depois mais e mais, por fim já pouco sobrará de polpa e sumo. E tudo na invisibilidade de quem não se acautelou contra a praga. Depois, no corte da faca, a maçã revela que já não há nada no seu interior. Ou cai da árvore podre.

Já havia um zumbido claro de mosca e não se quis ouvir, pensando que iria para longe ou atacaria apenas algumas das maçãs mais vulneráveis. Ninguém pensou que de maçã em maçã todo o pomar corria risco. Mas corria, corremos.

~CC~


domingo, 25 de outubro de 2026

Três andamentos

 

UM, que árvores tão belas

Fui longe, é certo que não foi para conversar com as árvores. Mas fiquei perdida nelas, embevecida e deslumbrada. Carvalhos, castanheiros, plátanos e faias que crescem assim apenas no frio e na humidade das terras altas, deixam no ar, no chão, no céu as suas cores intensas e vibrantes e uma esperança de que vão vencer muitos incêndios e ameaças humanas e estarão lá para que outras gerações as olhem com o mesmo olhar embevecido que eu tenho.


DOIS, as pessoas ainda acolhem

O senhor perguntou, no átrio do hotel, se eu ia para o congresso e lhe dava boleia. Eu ia sim, mas numa carrinha com mais 8 pessoas, sendo que a carrinha levava apenas 9, e não era minha. Mas disse-lhe que esperasse, se não fosse o nosso lugar vazio, outros deveriam ter algum. Mas lá nos apertamos e o senhor coube, coube uma vez e muitas mais e até voltou connosco para Lisboa. E era de longe, lá de Salvador da Bahia, onde todo o mundo ficou convidado para ir. Aconteceu com ele e com mais alguns. Não perdemos algo que era muito nosso, deste grupo que se graduou em conjunto, em que determinada altura pareceu-me estar a desvanecer-se. Mas desta vez fomos esse grupo que acolhe, adopta e faz pontes. A academia não corroeu e roubou tudo o que tínhamos de bom, não deixámos ainda morrer o riso.

TRÊS, este país triste

Na volta, já esta manhã, as notícias que ouvi na rádio fizeram-me chorar. Receei ter que parar. É isto que a velhice nos traz, esta fragilidade, vi isto tal e qual na minha mãe. Mas limpei as lágrimas. Quando recebi os vídeos, alguns até de amigos que tiveram filhos ou outros familiares no Rossio e foram corridos à bastonada, já não chorava, sentia muita revolta. A desigualdade de tratamento com situações semelhantes é muito grande, lembro-me perfeitamente dos chefes de cozinha nas tendas em frente ao parlamento e de serem bem tratados, de se designar a iniciativa como uma ação de protesto e não como algo ilegal e atentatório. É um país triste este.

~CC~



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Oxalá aconteça assim

 

Dias de tensão e tristeza.

(violência, roubos, gritos, vítimas...)

Imagens que não achávamos possíveis de acontecer nestas cidades europeias...

Dias de esperança e alegria.

(tendas, vozes, cartazes de papelão, música, assembleias, jovens que acordam...)

Imagens de Madrid, do Porto, de Lisboa...

O meu coração adere, o meu coração hesita, o meu coração abana, o meu coração abraça. Gostava que a revolta tomasse um corpo firme, unido, mas pacífico. Entendo, contudo, o grande cansaço dos privilégios, são muitos anos à espera da justiça. Tentam isolar o descontentamento e situá-lo nos extremos, cortando o elo com os mais moderados e com a população em geral.

Pior que tudo, a relação feita do descontentamento sobre a habitação e o custo de vida com a Imigração, inimaginável. 

O meu coração ainda está cheio de cravos vermelhos, desse romantismo que anima todos os protestos que são coros, canções e pessoas a sorrir, dessa força que faz caminho pela via poética de ser e estar. Oxalá aconteça assim, sonhar não custa.

~CC~


sábado, 17 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (III)

 

Ele não disse assim mas foi o que quis dizer, que nesta escola era tudo meio louco, que dançávamos à volta do sobreiro, naquele extenso relvado que já foi verde. Confirmei, dançámos, contámos histórias, lemos poemas, alguns talvez tenham chorado.

E de repente deixei de o ouvir, a ele e a todos, os meus olhos enfiaram-se no coração daquela árvore que me conhece há 27 anos. O que ela sabe de mim. Olho-a e acho-a infinitamente bela, mais bonita do que alguma vez a vi, embora esteja mais frágil. 

Não me deixes, pensei. Não morras, não desapareças, não definhes.

E este pensamento mostrou-me o quanto este medo de perder as coisas, as pessoas que mais amo é o buraco negro em que tantas vezes caio. Nas outras sou eu própria a desparecer. 

É só um minuto entre mim e o sobreiro, depois alguém me chama. Chamam-me sempre por dois nomes, ou às vezes só um ou às vezes só o outro. Não sei como consigo sempre responder. E rir, como consigo sempre rir e nesse riso enfiar todos os buracos negros.

Gosto de sábados, gosto muito do sobreiro.

~CC~