quarta-feira, 10 de junho de 2026

Hei-de voltar para comprar um fato de banho

 

Com a idade ganhamos manias, pequenas coisas que nunca pensámos condizer connosco. Eu gosto de comprar soutiens sempre na mesma loja e preferencialmente do mesmo feitio e da mesma marca, desde que me senti confortável com aqueles nunca mais quis outros. Mas estou sempre em pânico que a loja feche, a senhora já é idosa, é uma retrosaria pequena, na baixa da cidade, não é fácil lá ir. Já procurei noutras lojas e não encontrei.

Finalmente, num pequeno rasgo de tempo, consigo lá ir. Quando chego e vejo a loja ainda aberta, sinto uma grande alegria e desta vez exprimi-o alto: ah, ainda bem que não fechou! Ora a senhora, para quem eu não olhei bem ao entrar, começou a lacrimejar. Só depois reparei que estava toda de preto e que tinha encarado a minha frase como se eu soubesse de tudo. Tinha perdido o filho em quinze dias, quando assim é, já sabemos que é o maldito pâncreas que, sem avisar, resolve claudicar. Lá lhe disse que não sabia, que tinha só receio porque as lojas da baixa estão sempre a fechar. Fiquei ali de mão dada com a senhora, a ouvir a sua história, marido e filho perdidos para a mesma doença que, no caso específico, dizem não ser hereditária. Já nem sabia como voltar à compra do soutien. Optei antes por lhe contar em versão resumida minha história para ouvir dela aquelas palavras que me fazem sempre muito bem, que não parecia nada, que ninguém diria. Mas o que importava mesmo era elogiá-la, estar ali aos 82 anos depois de ter perdido dois entes tão queridos, isso é que era mesmo heroico. Estamos vivas, conclui: a minha mão na mão dela. 

E por fim: hei-de voltar, disse-lhe, para ver os fatos de banho, mas hoje só queria mesmo um soutien daqueles...e ela, pois claro, pois claro, sabia perfeitamente o que eu queria...2 minutos tinha o soutien, provavelmente também uma multa de estacionamento, mas que importa, dei por bem gastos os 45m que lá passei.

~CC~


domingo, 7 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XII)

 

Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.

Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.

Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.

Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.

De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.

E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.

Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.

~CC~

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Breves do Sul (II)

 

Para entrar no mar, neste sul, há uma faixa de pedras e pedrinhas a ultrapassar. Não há conchas, não sei o que lhes aconteceu. Não é muito agradável pisá-las, mas também não ferem os pés. Mas há ali uma clareira, talvez de uns 3 metros, sem qualquer pedra, aproximo-me para ver. Alguém as apanhou e juntou todas num monte, obra de paciência. 

Não vi nada nem ninguém, por isso tento imaginar quem seria e porque razão o fez. Hesito entre o altruísmo e a ociosidade, e por momentos foge-me o pensamento para amor. Imaginem alguém a tirar as pedras do caminho do seu amado ou amada para que pudesse entrar em pleno na água, sem o mínimo desconforto. Também poderia ser amor filial, uma mãe e um pai, que no seu desvelo, quisessem que a criança brincasse sem tropeços na orla do mar. 

Tendo, porém, a considerar a ociosidade da praia um aspeto mais provável, há nesta altura muitas pessoas que parecem estar aposentadas e que poderão encontrar labor alternativo, preenchendo o seu tempo nas artes efêmeras da areia, das pedras, das conchas, pessoas engenhosas. Ou alguém de coração grande, criando um corredor para uma entrada na água mais veloz ou mais tranquila, sem destinatário específico.

Estão ali as pedras e não me contam nada, por mais que lhes pergunte.

~CC~