quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Advento (V)

 

Maria não era a mãe de Jesus. José não era o pai. Esta foi portanto uma das mais famosas adopções da história da humanidade. A prova de que o amor não precisa de correr no mesmo sangue. 

Um dos magos (parece que eram sacerdotes e não reis) era já velho, outro era jovem e outro de meia idade. A pele de cada um era de cor diferente, consta que um um deles seria negro. Um trouxe um presente muito valioso, mas os outros nem tanto, eram simbólicos ou remédios (incenso e mirra). É um elogio da heterogeneidade e não da homogeneidade, do encontro entre pessoas diferentes que fazem um caminho em comum. E da sabedoria, afinal sabiam orientar-se pelas estrelas.

É provavelmente uma história inventada, ainda assim encontro-lhe a beleza que as instituições religiosas (todas elas) raramente souberam homenagear devidamente. Valores essenciais, contudo, em risco.

~CC~


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Advento (IV)

 


Aqui começou Dezembro.

Um ritual anual que a pandemia interrompeu mas que pouco a pouco fomos retomando. Estamos 17 anos mais velhos, as violas da casa foram abandonadas pelos adolescentes com as cordas partidas, quase impossível tocá-las. Apenas o bandolim permaneceu igual a si mesmo entoando a nossa canção de sempre: natal africano no coração do Alentejo. A minha escala não mudou, gosto de todos e muito especialmente de alguns. Foram a minha rede em anos difíceis e pouco a pouco a malha tornou-se mais e mais larga, ainda assim existe, mantém-se... e se persiste é por dela ainda precisarmos.

Igrejinha é lugar que se guardou na minha geografia de vida, estou grata.

~CC~




terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Advento (III)

 

Era um pinheirinho de Natal artificial com três palmos de altura que ela carregava de bolas, bonequinhos, algumas fitas e luzinhas. Fazia-o com desvelo, não obstante todos os anos avisar que já não o conseguiria fazer, eram as bolas que caiam das mãos e os olhos que já viam muito mal.

Foi assim nos últimos anos, depois dos pinheiros verdes e naturais que a ajudei a carregar anos a fio, muitas vezes trazendo-os nos autocarros cheios de gente. Era um cheiro inconfundível do qual ainda tenho saudades. Mas pouco a pouco fomos percebendo que não era o correcto.

Como é que pode ser Natal e ela não estar cá? Como é que pode ser Natal sem as suas filhoses, a sua torta de cenoura, o seu pudim de laranja? Como é que pode ser Natal sem ter que lhe comprar os postais e os envelopes onde deixava a nota de 20 euros para cada neto. Por fim dizia-me: compra também alguma coisa para ti. 

Como é que pode ser Natal sem ela?

~CC~

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Advento (II)

 

Tinha uma grande mochila às costas, podia ser um sem abrigo, um viajante, um caminhante. 

Eu vinha a descer as escadas do castelo e ele ia a subi-las. Fazia-o com muito mais ligeireza que eu, pois teria talvez metade da minha idade. O nosso olhar parou no mesmo obstáculo, uma folhas secas de palmeira completamente abandonadas ali há muito tempo, mas ainda muito bonitas. Tanto eu como ele poderíamos ter saltado por cima delas ou simplesmente contorná-las e seguir caminho. Mas antes que eu o fizesse, ele parou deslumbrado a vê-las. Depois carregou duas a duas encosta abaixo, depois voltou para buscar as outras duas. Eu encostei-me ao muro como se não fosse seguir adiante, só para assistir. 

Não percebi para onde as levou, talvez para um canto, um quintal, uma casa.  Só sei que parecia Jesus. Só porque eu imagino que Jesus, além de ter barbas, era alguém que se deslumbrava com coisas que nada valiam. 

~CC~

domingo, 3 de dezembro de 2023

Advento (I)

 

Maravilhoso tempo aquele. Nenhum enjoo, nenhuma indisposição, nenhum desejo louco de comer alguma coisa. Apenas uma paz doce, uma tranquilidade, um embalo do teu corpo dentro do meu. Não tive medo, de quando em quando uma pequena angústia em torno de te saber um bebé saudável, como deve acontecer com todas as mães. Todas as coisas muito mais relativas, até parar a meio o mestrado que então fazia. Uma barriga a crescer lentamente, nunca demasiado pesada, nunca demasiado incómoda.

Não te dei esperança como nome mas podia ter dado. Provavelmente nome que destetarias quase tanto como aquele que te dei. Continuo eu a adorá-lo.

~CC~




Nota: Do primeiro Domingo do mês de Dezembro até ao Domingo do seu nascimento, esse é o calendário do advento na religião católica. Não sou católica e sei que Jesus, se é que existiu não nasceu em Dezembro. Ao que venho então? Talvez à ideia do sagrado, é conceito que me fascina, uma ideia em erosão. E à coisa pequenina que é desembrulhar o tempo, dia a dia, com palavras.