sábado, 9 de maio de 2026

Rasgar azul no céu de chumbo

O que é me é difícil tolerar é o modo como o ódio parece ligar certas pessoas, o modo como  essa força de colisão as ocupa tanto e move outros como peças do seu xadrez.

De repente estão também a empurrar-nos ora de um lado, ora do outro e só queremos fugir desse meio onde não há equilíbrio, não há paz e tudo se pode num instante esmagar  e perder. Podemos no limite acabar esmagados no meio, entre o ódio, logo nós que não odiámos.

Rasgar azul no céu de chumbo ou deixar chover. Abrir uma porta ou uma janela, poder sair. 

~CC~


terça-feira, 5 de maio de 2026

Como numa dança

 

A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.

Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem  pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.

~CC~

domingo, 3 de maio de 2026

Passeio de Domingo (VII)

 

Se te roubam os fins de semana, então só há um modo, fazer aquilo que o Freinet* tanto recomendava: aulas passeio. Estou certa que se aprende muito com elas, que há escola fora da escola e muitos mundos dentro do mundo. Muitos anos depois, sei aquilo que os estudantes recordam e sei o que eu recordo, e são às vezes coisas destas: descobrir juntos um bairro dentro de uma cidade. E apesar de ser a minha cidade, também eu descobri novas coisas, nunca nada está totalmente descoberto.

O nome do mapa e do projeto "Po.Voar" é também feito da poética que habita o coração de quem está aberto à descoberta.  Há três mapas dentro de um só e eles contam histórias, podem vê-las ou ouvi-las virtualmente, mas nada como vir ao local e trazer o mapa, os registos feitos com os cinco sentidos têm uma melhor impressão nos circuitos do cérebro. 

Passeiem aqui:

https://povoarmapa.org/

~CC~



Célestin Freinet – Wikipédia, a enciclopédia livre

terça-feira, 28 de abril de 2026

Roubam-me Maio

 


Se por acaso Maio me calar, não é pelo pólen que me invadiu os olhos e o nariz, pelo sabor dos morangos ou pelo apelo a entrar por dentro do verde num passeio sem fim. É apenas por ser o mês mais intenso de trabalho ao longo de todo o ano, é um paradoxo que assim seja, uma antítese à poética do mais belo dos meses, um teste à minha paciência, um tormento que tento aligeirar com a promessa que virá Junho e depois Julho e em Agosto o corpo se entregará a qualquer dormência que o chame.

Para cortar o lamento desta difícil coexistência do chamamento das flores com a labuta do computador, penso em coisas risíveis, minimamente divertidas. Hoje lembrei-me dessa senhora chamada Agatha Christie. Dizia ela que toda a mulher devia ser casada com um arqueólogo, pois eles apreciam-nos cada vez mais à medida que envelhecemos. E ela sabia do que falava, que sabedora.

Preciso de rir para esquecer que me irão roubar Maio. 

~CC~


domingo, 26 de abril de 2026

Passeio de Domingo (VI)

 


O Domingo foi ao sábado e o passeio só podia ser um: descer a Avenida da Liberdade gritando 25 de Abril sempre, enchendo o peito da alegria. E que alegria havia ali, era espessa, colorida, vibrante, irei retirá-la em micro doses quando dela precisar. Este ano impressionou-me a presença de tantos jovens e, entre eles, de tantas mulheres. O corpo que acorda moído do cansaço desta festa é um corpo renovado.


~CC~

Nota: difícil captar fotos sem rostos e sem permissão não me arrisco a trazê-los, não partilho da ideia de que quem está no espaço público se sujeita a ser fotografado/a  e a foto tornada pública. Contudo, muitos aqui ofereciam sem receio e até com orgulho o seu rosto à câmara e até isso era bonito.