segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (II)

 

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, cresce vagorosamente e só tem outras espécies próximas de si, nenhuma igual a si. Como as pessoas, se comunica, tem que aprender a comunicar com quem é diferente, uma coisa que entre humanos parece cada vez mais difícil. Falo-lhe, encorajo-a, pouco importa se me ouve ou sabe que ali estou, só me importa o que lhe dou, um bocadinho de atenção e tempo. 

Uns dias depois fui à procura da tal rua onde há muitas árvores como ela, irmãs noutra parte da cidade. Não são gigantescas como me disseram, mas bem maiores. É bom ter alguém a quem falar do meu interesse por árvores. Curioso é que estão alinhadas lado a lado árvores macho e árvores fêmea e as fêmeas estavam repletas de frutos, muitos já caídos no chão, enquanto no outro do lado da fila nada havia no chão. Sábio quem o fez, dominava como funcionam as anemófilas. Incrível fenómeno de acasalamento no meio natural, usando  o vento, insectos e pássaros como transporte polinizador. O fruto tem um cheiro intenso e pouco agradável, o que o torna pouco apetecível para os animais, por isso estavam ali no chão sem um único carreiro de formigas por perto. O pólen é leve, perde-se a grandes distâncias, mas ali está a acontecer o que a natureza prevê, sem a interferência humana. Estragámos tanta coisa à nossa volta, mas também há pessoas capazes de alinhar árvores daquela forma, alguém que não sei quem é, nunca saberei.  Talvez o mundo viva mais de anónimos capazes e talentosos, os que o arruínam tornam-se mais conhecidos, o mal propaga-se de forma muito mais célere do que o bem.

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, falei-lhe e ela não me respondeu, mas não precisei. Tantas vezes falamos com pessoas e não temos qualquer resposta.

~CC~



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Veio pela manhã um cheirinho a goiaba

 

Havia na sala de pilates uma caixa de goiabas. A aula foi assim inebriante, um mergulho na infância e depois, muito mais tarde, na minha idade adulta. 

Elas diziam que cheirava ao seu Brasil, eu dizia que cheirava a Angola, mas bem vistas as coisas,  as goiabas eram portuguesas, um praticante simpático que as trouxe do quintal.

Trouxe uma da caixinha, estavam à disposição dos clientes. Agora estou em dúvida se a devo comer ou deixar o cheiro perdurar e perfumar a cozinha por mais uns dias. É uma luta entre perfume e sabor.

~CC~

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Conversas pequeninas (I)

 

O mar não é o mesmo, não tem o mesmo cheiro, o mesmo murmurar, tão pouco a mesma cor ou a mesma ondulação, não são os mesmos peixes, nem as mesmas conchas que dão à costa. Em cada lugar em que o sinto, sinto-me também diferente ao pé dele. 

Conversei com ele um pouco mais a sul e um pouco mais a norte. Nem num, nem no outro consegui mergulhar. Mas respirei-o e disse-lhe que não se esqueça de mim, agora que voltarei menos vezes, não rareio por falta de amor mas por não ter encontrado (ainda) a forma de o viver em pleno. 

Antecipo saudades. Venha, contudo, a chuva.

~CC~






terça-feira, 22 de setembro de 2026

Equinócios

Equinócio de Outono no Hemisfério Norte é simultaneamente dia do meu nascimento, não obstante ele ter acontecido no Hemisfério Sul. E no Hemisfério Sul começa a Primavera. Nesta constelacào de hemisférios e equinócios, aprecio a folha que fica dourada e o ovo que se parte para deixar sair uma avezinha.

~CC~

domingo, 20 de setembro de 2026

Defeitos Perfeitos (outra vez?!)

 

Ninguém respondeu à questão central que deixei e na qual fiquei a pensar após o espectáculo, no jogo de palavras que o Pina usa: defeito perfeito.

Também para mim é mais fácil pensar no dia perfeito. Mas talvez consiga juntá-los. O convite para ir dizer poesia em voz alta chegou através de um grupo habitual, embora não façamos isso muitas vezes e, muito menos de forma estruturada ou contínua. São coisas que acontecem, quase sempre encaixadas noutras, neste caso uma homenagem a uma escritora muito singular, dona de uma obra que funciona como um puzzle e que não é prosa nem poesia, não é ficção nem é auto ficção, creio que ela já estava muito à frente do seu tempo, até na forma como ligava os entes humanos e não humanos numa única cosmologia: Maria Gabriela Llansol. Era leitura da minha adolescência, nunca mais lá tinha voltado.

Um dia perfeito também pode ser aquele em que nos confrontamos com os nossos defeitos e os desafiamos. Primeiro, encostar a timidez a um canto. Mas isso é coisa que já me habituei a fazer para este tipo de eventos, verdade que sobretudo se de natureza técnica científica. Segundo, esquecer que toda a vida fui sopinha de massa, ou ainda melhor, saber que é possível melhorar isso, que o treino, a segurança, a vontade, tornam isso algo muito menos perceptível. E assim foi, achei que consegui tão bem, o meu defeito era um defeito tão perfeito que nem se notava. Depois veio o vídeo do evento e, claro, não era bem assim. 

Este defeito nunca desaparecerá completamente, é um defeito perfeito, colou-se a mim para sempre mas consigo pensar nele como um sotaque, incorporado e trabalhado, talvez seja apenas o meu modo de falar. Um defeito perfeito saiu à rua para um dia perfeito.

~CC~