domingo, 19 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVIII)

 

Hoje seria passeio de protesto, estava planeado.


 

Porém a dor de cabeça, seguida de dores articulares intensas, ligeira dor de garganta e muito cansaço instalaram-se como algo que não consigo designar correctamente e espero que passe nos 3/5 dias estipulados para não ter que procurar profissional específico para algo tão pouco específico. 

O meu coração esteve lá.

~CC~



 


sábado, 18 de julho de 2026

Seis pistácios e um gelado

 

Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.

O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.

Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho  de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.

~CC~

domingo, 12 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVII)

 

No último dia de estadia em Barcelona, consegui finalmente visitar o mercado mais conhecido da cidade. A variedade e tipologia dos presuntos e dos múltiplos fritos é o seu traço cultural mais original, ilustrando de forma clara que os mercados resistem à globalização, não obstante uma ou duas bancas de frutos secos iguais às que se encontram em todo o lado.

Entrar no mercado da minha cidade é assim viajar por si só na história, metade do espaço é ocupado pelas bancas de peixe e é lá que se respira o que é esta pertença ao lugar. É também prova de que é possível que o deslumbramento não seja uma coisa volátil e exclusiva da primeira vez, que possa acontecer uma e outra vez, sempre que levamos os olhos da alma a passear. Saio com os sacos repletos de beleza e os bolsos mais vazios mas também com um contentamento que estou longe de sentir quando saio de um supermercado. E nem me importo com os dez minutos que esperei porque o vendedor discorreu longamente sobre o tamanho descomunal das cerejas com o casal que estava à minha frente, apenas aguçou a minha vontade de as provar.

Poderão considerar que isto não é bem um passeio, mas se caminho, apanho sol, vejo cores e trago renovação e ainda resisto, isto deve se poder classificar nesta categoria. Perto de vós há certamente um mercado, não o deixem morrer, nem transformar-se num gigantesco recinto de restaurantes e casas de comida de uma cadeia qualquer,  uma coisa é poder comprar-se um acepipe, outra é transformar todos os mercados à imagem do Mercado da Ribeira (uma mostra de bancas de chef promovida por uma revista de Turismo).

~CC~


sexta-feira, 10 de julho de 2026

As meninas Gaudi

 

É verdade que as construções de Gaudi são abraço intenso entre arte e natureza, um desafio permanente ao equilíbrio das formas e uma ode às cores do universo, uma oração à capacidade onírica, um conto de fadas, ogres e de monstros entrelaçados nos nossos sonhos, um retrato de como as emoções circulam em nós. Tudo em absoluto contraste com a cama modesta e minimalista em que o arquitecto dormia e com o abrigo em que se escondeu, por fim, na Sagrada Família, em fusão com a excentricidade do templo que queria erguer. Infelizmente os apontamentos imersivos, feitos à medida do turista, com poesia fácil e efeitos de inteligência artificial,  estragam o que queremos ver e sentir só por nós. 

Assim, a minha imersão mais bela e genuína aconteceu com duas meninas, gémeas, saídas do universo Gaudim, banhando-se na praia, em frente à Barcelonete. Vestidas como dois seres fantásticos, fatos de banho rosa, azul e branco, com brilho ligeiro, toucas cor de rosa com longa crista de bicho, óculos de mergulho pretos, elas não eram bem seres humanos, mas quase animais marinhos. As meninas entravam na água, mergulhavam e emergiam em longos bailados exóticos, enquanto a jovem mãe (suponho) as fotografava com desvelo. Quando a mãe desistiu das fotografias, a festa tornou-se mais livre, mais surpreendente e mais autêntica, contudo nenhuma delas se livrou da vestimenta, como se a tivessem incorporado no seu modo de ser. Entre os seus mergulhos e as ondas do muro do pátio principal do parque Guel tudo se alinhava nessa homenagem ao mediterrâneo que eu própria senti pela primeira vez.

~CC~ 

domingo, 5 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVI)

Desta vez o voo, aquele desejo de não ir. E ao mesmo tempo de ir.

Depois o deslumbramento de uma nova cidade, de um outro país. Barcelona, quase quarenta anos depois.

É uma cidade vibrante e resistente e os habitantes querem que ela lhes pertença. Pela segunda vez não consegui bilhetes para a Sagrada família, pela segunda vez não me importei, o que eu mais gosto nos lugares são os lados avessos ou os monumentos incríveis que estão nos rodapés dos guias turísticos. 

Amanhã o roteiro desvia-se para a universidade, deve ser também um coração que bate com força mas não venho com a capacidade de me entregar o suficiente a essa vibração.

Mas a cidade e a companhia lavaram-me de outros cansaços. Doem-me os pés de tanto caminhar e os olhos estão cheios de beleza, metade da pele já se renovou, a outra metade é uma obra demorada.

~CC~