quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Veio pela manhã um cheirinho a goiaba

 

Havia na sala de pilates uma caixa de goiabas. A aula foi assim inebriante, um mergulho na infância e depois, muito mais tarde, na minha idade adulta. 

Elas diziam que cheirava ao seu Brasil, eu dizia que cheirava a Angola, mas bem vistas as coisas,  as goiabas eram portuguesas, um praticante simpático que as trouxe do quintal.

Trouxe uma da caixinha, estavam à disposição dos clientes. Agora estou em dúvida se a devo comer ou deixar o cheiro perdurar e perfumar a cozinha por mais uns dias. É uma luta entre perfume e sabor.

~CC~

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Conversas pequeninas (I)

 

O mar não é o mesmo, não tem o mesmo cheiro, o mesmo murmurar, tão pouco a mesma cor ou a mesma ondulação, não são os mesmos peixes, nem as mesmas conchas que dão à costa. Em cada lugar em que o sinto, sinto-me também diferente ao pé dele. 

Conversei com ele um pouco mais a sul e um pouco mais a norte. Nem num, nem no outro consegui mergulhar. Mas respirei-o e disse-lhe que não se esqueça de mim, agora que voltarei menos vezes, não rareio por falta de amor mas por não ter encontrado (ainda) a forma de o viver em pleno. 

Antecipo saudades. Venha, contudo, a chuva.

~CC~






terça-feira, 22 de setembro de 2026

Equinócios

Equinócio de Outono no Hemisfério Norte é simultaneamente dia do meu nascimento, não obstante ele ter acontecido no Hemisfério Sul. E no Hemisfério Sul começa a Primavera. Nesta constelacào de hemisférios e equinócios, aprecio a folha que fica dourada e o ovo que se parte para deixar sair uma avezinha.

~CC~

domingo, 20 de setembro de 2026

Defeitos Perfeitos (outra vez?!)

 

Ninguém respondeu à questão central que deixei e na qual fiquei a pensar após o espectáculo, no jogo de palavras que o Pina usa: defeito perfeito.

Também para mim é mais fácil pensar no dia perfeito. Mas talvez consiga juntá-los. O convite para ir dizer poesia em voz alta chegou através de um grupo habitual, embora não façamos isso muitas vezes e, muito menos de forma estruturada ou contínua. São coisas que acontecem, quase sempre encaixadas noutras, neste caso uma homenagem a uma escritora muito singular, dona de uma obra que funciona como um puzzle e que não é prosa nem poesia, não é ficção nem é auto ficção, creio que ela já estava muito à frente do seu tempo, até na forma como ligava os entes humanos e não humanos numa única cosmologia: Maria Gabriela Llansol. Era leitura da minha adolescência, nunca mais lá tinha voltado.

Um dia perfeito também pode ser aquele em que nos confrontamos com os nossos defeitos e os desafiamos. Primeiro, encostar a timidez a um canto. Mas isso é coisa que já me habituei a fazer para este tipo de eventos, verdade que sobretudo se de natureza técnica científica. Segundo, esquecer que toda a vida fui sopinha de massa, ou ainda melhor, saber que é possível melhorar isso, que o treino, a segurança, a vontade, tornam isso algo muito menos perceptível. E assim foi, achei que consegui tão bem, o meu defeito era um defeito tão perfeito que nem se notava. Depois veio o vídeo do evento e, claro, não era bem assim. 

Este defeito nunca desaparecerá completamente, é um defeito perfeito, colou-se a mim para sempre mas consigo pensar nele como um sotaque, incorporado e trabalhado, talvez seja apenas o meu modo de falar. Um defeito perfeito saiu à rua para um dia perfeito.

~CC~



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Defeitos perfeitos

 

O que é um dia perfeito?

É um dia em que assistimos a um espetáculo maravilhoso, espantados por haver pessoas capazes de fazer coisas tão bonitas, em equilíbrio de forma e conteúdo.

Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem - Teatro Nacional São João

(eu vi no CCB no último sábado, mas já tinha pensado ir ao Porto para o ver)

E um defeito perfeito? Será um dos que queremos disfarçar ou um do qual gostamos muito? Ou outra coisa qualquer? Arrisquem...

(a brincar de Manuel António Pina, porque era esse poeta que sabia chorar mas também rir...alguns dos seus poemas sabem a gelado e a gargalhadas).

~CC~