quinta-feira, 18 de abril de 2024

Todos juntos no palco do teatro

 


Houve partes muito difíceis, fechei os olhos e apetecia-me tapar os ouvidos. Os relatos da tortura nas prisões da pide causaram-me mal estar, enjoo. Nas partes mais arrepiantes duvidei mesmo que pudesse ser assim. Mas no final a encenadora (Teresa Sobral) chamou-os, os que prestaram depoimentos e tinham estado ali todo o tempo, bem no meio de nós. E o menino que aparece abraçado pela sua mãe presa, os olhos baixos, esse menino é um dos actores da peça. Mas foi com a alegria que chorei, com aquelas imagens de um povo em festa, a comoção de ter sido possível e ter sido tão bonito. Eu era só uma miúda, lá longe num quintal, a seguir os carreiros que as formigas enormes faziam. A primeira consciência que tive da desigualdade foi contudo ali, as meninas negras da escola perguntavam se podiam vir comigo e apanhar as mangas caídas por baixo da enorme árvore e eu abria-lhes em segredo o portão, pedindo para não fazerem muito barulho.

~CC~

terça-feira, 16 de abril de 2024

Tão belo como cruel o mundo.

 

Alentejo amado.

Lugar de tapetes alternados de flores amarelas, brancas, lilases. Terra a perder de vista.

Altas estevas nos lugares da serra, imagino perder-me entre elas, dissolver-me.

Céu imenso de azul, mais logo alaranjado e depois pleno de estrelas.

Bebo-te a beleza como um elixir de vida. Volto a sonhar com a casa branca com a chaminé grande e uma inscrição de números a condizer com o século passado. Isso tudo com a consciência cada vez mais plena de nunca vir a acontecer. 

E como a vida não é apenas um postal ilustrado nem um sonho eternamente adiado, lá estão as fileiras de oliveiras alinhadas a perder de vista, parentes distantes daquelas que um dia conhecemos como livres e dispersas na paisagem. Tão belo como cruel o mundo.

~CC~


sábado, 13 de abril de 2024

Sopra forte o vento e alto o grito dos pavões

Também ela morava no 20, outro 20.
 

Terra varrida pelo vento. Ela dizia sempre isso, que este era um lugar de vento forte.

Terra lisa de beijos e abraços, pouco a pouco se foi desertificando.

Ainda assim a segurar os laços ténues, os que sobram ou sobraram.

O elevador marcado para o terceiro andar, por hábito da mão, é assim que percebemos que o corpo também regista e ordena. Depois o cérebro corrige. E já corrigiu a curva numa certa rotunda, já não vira em automático para o bairro do quintal com cheiro de goiaba.

O grito dos pavões é aflitivo e contudo parece ter origem amorosa. Desconheço-lhes a idade, sei que a minha parece incapaz de se afligir assim por necessidade de amor, dele ainda há contudo uma inscrição, não sei se mais forte na memória do corpo, se no cérebro ou coração ou nessa junção de todas as partes, dizem que é aí o lugar do eu.

~CC~

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Deixo-te cravos

 

Vou a caminho e comprarei cravos para te deixar. 

Havia tantos no quintal do teu pai, meu avô. É verdade que nem todos eram vermelhos, eram sobretudo mesclados de várias cores, tu acreditavas que o teu pai é que os tinha inventado com misturas de corantes e que antes dele todos eram monocromáticos. Tinhas crenças assim, não valia a pena explicar-te.

Apesar do corte radical das nossas vidas que representou esse Abril de há cinquenta anos, nunca odiaste quem o fez, bem pelo contrário. Claro que lamentavas tudo o que tinha ficado para trás mas compreendias que tinha sido algo inevitável, ainda que te custasse usar a palavra justo.

Posso deixar-te cravos vermelhos porque sabes que são meus e por isso compreenderás a escolha. 

~CC~

terça-feira, 9 de abril de 2024

Apenas e só uma

  


Regresso ao escrutínio que após um ano anterior atípico em que teve carácter praticamente trimestral voltou a ser anual. Deu tempo para a visita se fazer a um novo edifício, ainda a cheirar a novo, pareceu-me excessivamente monumental e com menos verde. Ainda assim reconheceria sempre aquelas linhas tão consonantes com as do vizinho, não obstante a sua beleza senti-o outrora como uma prisão. O aperto de mão idêntico, assim como o meio sorriso, esforço máximo que o clinico consegue, mas após sete anos já lhe perdoei tudo e sei o que posso ou não esperar. 

Acho Abril um mês de esperança e por isso é bom que se mantenha este como aquele em que a visita se faz e que seja apenas e só essa.

~CC~