segunda-feira, 30 de outubro de 2023

As pequeninas descobertas

 


Descubro o sabor amendoim-caramelo, claro que do fazedor de gelados, noutros lugares deve ser enjoativo.

Descubro outra vez como é bom acordar num dia de sol depois de tanta chuva, tudo lavado e luminoso.

Descubro que apesar da intensidade do trabalho consigo dormir, noutras ocasiões não.

Treino mais e mais o perdão e percebo que consigo.

Descubro que consigo fazer cedências, deixar que lhe comprem rosas brancas e amarelas quando as queria vermelhas, dizem que tal cor não é adequada à ocasião.

Mas por dentro eu sou sempre rubra como as árvores de Benguela.

~CC~

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A primeira gargalhada

 

Habitualmente eu era uma pessoa que acordava sempre bem disposta, embora nem sempre adormecesse com o mesmo estado de espírito. Há uns meses essa alegria desapareceu subitamente, afundada por pesos vários. Houve o curto intervalo das férias na Grécia, luz poderosa que fez recuperar esse ânimo. Depois regressou a tristeza, cada vez maior, cada vez mais funda. Tinha momentos bons, até com a minha mãe em plena doença, momentos em que me ria com ela e por ela.

Tenho consciência que estou numa lenta recuperação de mim e à procura de uma outra cartografia sem auto estrada para o sul. Ontem acordei pela primeira vez bem disposta, mas adormeci cansadíssima.

Mas hoje ri-me com gosto. Recebi o meu primeiro certificado de "novas tendências de cozinha". Devidamente comprovado por aquela agência do Estado que tudo certifica. Finalmente estou pronta para a vida.

~CC~


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Vadiando

 

O que eu gosto desta rua! 

Esta critica tão suave quanto corrosiva que está aqui bem patente.

Como não posso comentar, trago-a inteira para aqui.

~CC~

domingo, 22 de outubro de 2023

Manhã de Domingo

 


Estranho a longa fila à entrada do café num domingo de manhã. Haverá assim tantos cafés fechados? 

Afinal é a fila do jogo, ou melhor, das raspadinhas. Pessoas de todos os géneros e idades, predomínio de mulheres que já passaram da meia idade. Compram uma e raspam e depois voltam. Uma das senhoras totalizou dez euros em raspadinhas de 2 euros, ou seja, voltou e voltou. Curioso é que este não é um jogo de grupo, são apostadores solitários, eles e os cartões que raspam e raspam.

Que sonhos alimentam? Que ilusões lhes venderam? O que lhes falta? 

Qualquer coisa neles é muito mais triste que a minha tristeza que, se comparada, até parece alegria.

~CC~


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

É a noite que temo

 

Com chuva, com vento, saio pela noite de Outono. Ainda agora era dia, ainda agora era Verão. E agora a noite parece chegar abruptamente e com ela o vasto silencio da ausência. E de repente já não é a ausência dela, são todas as ausências. E já não é a morte dela, são todas as mortes, mesmo aquelas que estão do outro lado do mundo.

Já não há o que me segure neste sofá onde o silêncio foi sempre tão bem vindo, onde a solidão nunca teve tal nome porque estava comigo e dentro de mim e com todo o mundo fora de mim.

É preciso sair, é preciso ver gente, é preciso ouvir vozes, é preciso não deixar que a tristeza venha afogar-me dentro do escuro. Na luz do dia tudo me arrasta e me leva e me puxa para o sol, é a noite que temo, é no seus braços que moram os fantasmas. 

Um dia voltarei a aninhar-me aqui ou noutro lado, enrolada numa manta, capaz de ler um livro e de sonhar futuros.

~CC~

terça-feira, 17 de outubro de 2023

Água

 

Veio a chuva lavar-me o rosto. Entre o doce e o salgado é tudo água.

~CC~


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Venho falar das tuas mãos

 

Venho falar das tuas mãos mãe, essas que fizeram as roupas que muitas de nós hoje trazem vestidas (viste, não as deitámos fora como tanto receavas), essas mãos que deram injecções, fizeram pizzas, muitos pudins de laranja para o natal...e por fim aprenderam também a fazer festas.

Desta última vez, quando cheguei ao hospital disseste: a minha menina! São aquelas palavras que nunca mais ninguém me dirá, uma saudade imensa que fica...mas logo depois: vai buscar o andarilho e vamos para a cozinha! Eras assim, uma força, uma vontade de viver...

Por isso eu sei bem a herança que me deixaste, nem casas, nem dinheiro, nem outros bens, a herança que me deixaste é a coragem, é essa que eu espero saber honrar.  Obrigada mãe.

~CC~

sábado, 7 de outubro de 2023

Mulher-Vida-Liberdade

 




Narges Mohammadi
Condenada a 31 anos de prisão e 154 chicotadas.

Não sei se se trata de Paz, mas de Direitos Humanos certamente.

~CC~


terça-feira, 3 de outubro de 2023

Mergulho fora de pé

 

De vez em quando aventuro-me. Na água pouco, pelo que é de outros mergulhos que vos falo.

Decidi frequentar um lugar em que o tema central são fermentados, kombuchas, bebidas vegetais feitas em casa e coisas afins. Não enlouqueci, apenas quis saber como podia cozinhar os muitos vegetais que comecei a receber semanalmente  numa bonita caixa de cartão de uma courela próxima. Não imaginava que estava a entrar num culto, com todas as regras que os mesmos implicam. As duas primeiras aulas foram puro proselitismo, ia desistindo por ser incapaz de mexer a comida muito, muito lentamente, deixando nela amor, não acreditar que os produtos lácteos conduzem as mulheres à inveja umas das outras ou considerar que comer ananás é pecado por vir do outro extremo do mundo (curiosamente os cajus são permitidos, vá lá perceber-se). Felizmente depois das duas primeiras aulas vieram as receitas e algumas parecem-me bem interessantes. Mas chegou também o grupo de whatsapp cheio de bons dias repletos de corações, as fotografias de qualquer produção doméstica, as muitas fotos das sessões. Mas não era suposto sermos diferentes ou alternativos?!

Bom, descobri que aqui a alternativa não significa fazer ondas, despejar baldes de tinta por aí ou enrouquecer em manifestações avenida abaixo, aqui é só ficar quieto, pensar em paz e amor e sobretudo não tocar em carne.

Decididamente mergulhei fora de pé mas não me vou afogar, assim espero.

~CC~