sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Das travessias

 

O riacho eu atravessava com grande facilidade, até me sabia bem uma pedrinha ou outra no caminho, num instante alcançava feliz a outra margem. Com o rio a tormenta era um pouco maior, mas com os pés no chão, a correnteza não me atrapalhava o suficiente, até me estimulava. Com o mar tudo se tornou diferente, às vezes tentava mas a meio desistia, mesmo quando fui buscar um barco para alcançar a outra margem, o esforço dos remos cansava-me tanto que não conseguia apreciar o lado de lá. Quando se tratou de atravessar o oceano, bem sabia que podia apanhar um navio, mas era demasiado longe, demasiado esforço, para além de que do lá de lá já ninguém sorria e acenava a incentivar-me, apenas havia uma sombra, difusa na paisagem.

Agora deixo-me ficar aqui em terra, sem travessias, horizontes ou chamamentos. 

Faço café de cafeteira e aconchego-me. Talvez envelheça.

~CC~

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Eixo Norte-Sul

 


Ela marca o seu lugar no Norte, fala com deuses e deusas, veste-se de branco para passear junto ao mar, embala as sementes que deita na horta enquanto recebe conselhos dos mais velhos e tem na cozinha uma chávena de chá e um cheiro a bolachas feitas pelas suas próprias mãos.

Quando chove ela vem para a rua e sorri.

Também nasceu hoje.

~CC~


(Um abracinho bem forte da menina do Sul)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Emparedadas

 

Viviam aqui trinta e três Clarissas emparedadas.

As crianças fazem um trejeito de espanto. Já eu estremeço dentro da palavra. Totalmente impedidas do contacto com seres humanos que viviam fora do convento. 

A guia da visita sugere que o faziam voluntariamente. Mais à frente vamos percebendo que essa escolha seria, contudo, fortemente condicionada. Curiosamente pela abastança e pela pobreza. Os nobres impediam assim a divisão e dispersão da fortuna da família e ganhavam os bons ofícios de Jesus, os mais pobres livravam-se de mais uma boca. Partilhariam mesa de refeitório, mas cada uma com a sua própria loiça. No prato de porcelana de uma, porém, se colocaria, em dias de festa, a mesma carne que na loiça de bairro de outra. Tradicionalmente duas vezes por ano chegaria a cabra, o borrego ou o porco, oferecidos.

A grade do coro alto impede que as vejam quando o padre vem dizer a missa e elas permanecem ali, as 33 juntas num rectângulo pequeno, invariavelmente de pé. Por uma pequena abertura onde só lhes cabe a mão recebem a hóstia. Consagrar o sofrimento a Jesus não impedirá que o sintam, dá-lhe apenas um destino.

Trinta e três mulheres como a idade de Jesus. Contudo, não creio que ele desejasse as mulheres emparedadas. Os não alinhados referem que consagrou Maria Madalena apóstolo como eram os outros. Estremeço mais uma vez, mas desta vez pela comparação com aquelas mulheres lá longe que hoje, como há mais de quinhentos anos, um regime religioso quer emparedar.

~CC~


Bem no centro, a grade do coro alto,


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Outonar

 

Duvidei quando me disse que o pão durava seis dias, não criava bolor. Foi por acaso que parei à porta deles, em todo o Sul não têm uma única loja. Parece que recuperam receitas antigas e usam massa mãe. Contudo, a loja é um mimo moderno. Estas conjugações interessam-me, como é que podemos conjugar coisas, recuperar o bom que perdemos com coisas que a modernidade nos trouxe.

Certo é que já lá vão três dias e o pão parece igual ao primeiro dia. Tem um toque azedo que adoro, o pão tem naturalmente esse sabor, se não lhe acrescentarem açúcar como acontece em muitos, muitos casos. Experimentem olhar para a composição do pão comprado no supermercado. E nem todas as padarias são muito melhores. Fazer pão em casa também é uma boa opção, como aliás fazer quase tudo o que pudermos. Mas falta-nos tempo, às vezes paciência.

Certo é que o pão azedo com o doce de ameixa que a amiga fez e nos trouxe num frasquinho tem todo um outro sabor. Hei-de também experimentar fazer marmelada para combinar com a entrada no Outono. 

~CC~

sábado, 18 de setembro de 2021

As manhãs do Dragão (I)

 

Em quase tudo esta aula foi diferente da anterior.

Não desenhámos animais no relvado.

Mas fiquei fascinada pela forma como as mãos são autênticos poemas que temos que construir, por este bailado lento em que lançamos o corpo no ar azul e o trazemos para dentro de nós.

E o silêncio, o silêncio absoluto em que o grupo consegue estar. Praticamente só mulheres, como sempre.

Emocionei-me, não pensava que tal me acontecesse.

~CC~

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

No meu cinema

 

Dantes, nessa era pré Covid, o meu cinema era só um. Ainda tenho o cartão de cliente, mas agora praticamente sem carimbos. Tenho-me resignado ao cinema em casa, quatro canais de cines têm ofertas que cheguem para o meu tempo disponível.

Nessa pesquisa cheguei a Jojo Rabbit, um filme de 2019 que não cheguei a ver no cinema. É muito bonito, daqueles filmes que não se esquecem como o Cinema Paraíso ou a Vida é Bela, com aquela candura que só a infância e a entrada na adolescência têm. Registei um maravilhoso diálogo (entre tantos que o filme tem) entre uma adolescente e uma mulher, que tendo perdido uma filha daquela idade, lhe diz o quanto gostaria de a ver tornar-se mulher.

"- O que é uma mulher?! Não sei nada sobre isso...é beber vinho?

- Sim, bebes...e champanhe se estiveres feliz. Conduzes um carro se quiseres, tens diamantes, aprendes a disparar uma arma, viajas para Marrocos, arranjas namorados...e fazes com que sofram. Olhas um tigre nos olhos...e confias sem ter medo nas pessoas, ser mulher é isso!

- Como sabes que podes confiar nas pessoas?

- Confiando nelas!

- E todas essas coisas, fizeste-as?

- Não...nunca olhei um tigre nos olhos."

E acrescento eu, assim se vê que ser mulher é uma obra tão maravilhosa quanto inacabada.

~CC~


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Cidade em silêncio

 

A cidade está quieta e vazia, em contraste com outras cidades que hoje pulsam normalmente.

É um silêncio de que gosto tanto.

Outros vazios fazem ruído.

O som das despedidas, por exemplo, é um aceno que fica a ecoar como um zumbindo que só desaparece depois de sobre ele o tempo cair. Às vezes as pessoas choram, quando não o fazem é ainda pior, ou não conseguem ou já não há lágrimas dentro delas, só sombras.

Hei-de ir beber o silêncio do dia de hoje na minha cidade.

~CC~

terça-feira, 14 de setembro de 2021

E gosto de Dragões

 

Acreditei há 10 anos atrás que o meu corpo estava a ganhar peso, a ficar flácido e inevitavelmente feio. Todos me diziam que o exercício era a chave de tudo, uns recomendavam logo máquinas forte e feio, outros caminhadas ou corrida, os mais esotéricos o exercício que juntava corpo e mente e os mais fanáticos e endinheirados um PT à altura.

Pilates era a grande moda, diziam maravilhas. Lá fui. Tinha uma dor tremenda nas costas no final de cada aula mas acreditei que passaria. Mas o pior era mesmo o facto de nos pesarem todas as semanas, como se fossemos gado para levar para a feira, marcavam num cartãozinho o peso, quando alguém perdia um quilo tinha direito a uma maçã afixada num quadro onde todos pudessem ver. Achava aquilo uma devassa e uma coisa ridícula. Pouco durou.

Depois fui em busca do meu interior em posturas mais controladas e amigáveis. Conheci uns três ou quatro professores de Yoga, da primeira só me recordo da sala na penumbra e de como o incenso me fazia lagrimejar e do meu silêncio a cada mantra. Do Yoga meditativo pós doença oncológica nem quero falar, que esforço tremendo para não dormir. Por fim acertei na professora mas não no sistema. É verdade que yoga num ginásio normal não tem velas nem mantras demorados mas o sistema de senhas deita tudo a perder. Se chegamos uma hora antes temos de certeza lugar na aula mas ouvimos uma hora de música de ginásio, trata-se de um impulso motivacional que me desmotiva completamente.Se chegamos 10 minutos antes já estão as vagas ocupadas e podemos fazer o caminho inverso, apesar de pagarmos um valor fixo por mês. O mundo do exercício físico, como em geral o desportivo, está tomado pelo capitalismo mais desenfreado que há.

Resignei-me às caminhadas por iniciativa própria mas sabemos que tudo o que não se socializa mais tarde ou mais cedo acaba por perder-se. Claro que há sempre aquelas pessoas muito disciplinadas que marcam objetivos em post-it na porta do frigorifico. Não é o meu caso, por isso, a minha viagem contínua, agora arranjei um esquema informal com esta arte marcial dos bichos, somos um grupo mas não somos um grupo, ele é um professor mas não é bem o professor. Com o meu coração anarquista é capaz de resultar. E gosto de Dragões.

~CC~







segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Não há Setembro...

 

Não há Setembro sem uma primeira chuva, uma aragem fresca, uns sapatos fechados. Com o céu mesclado e o anúncio das tempestades chegou a melancolia, quase uma tristeza sobre a pele.

Coloquei Tom Jobim a tocar, na esperança de alojar uma dança, uma alegria no peito, um raio de sol, o coração do carnaval. Mas ele fala excessivamente de amor.

Não é assunto que me apeteça.

~CC~


sábado, 11 de setembro de 2021

Dragões e outros bichos mais

 

Como uma miúda pequena tinha receio da primeira aula. Não me aguentar, não ter jeito, não gostar do orientador/a.

Mas afinal o Chi Kung é uma brincadeira boa, espero que os puristas não me leiam, uso brincar no sentido pleno e cheio da palavra. 

Podemos ser garças, tigres e dragões. Nunca tinha estado num relvado com uma data de dragões, não olhava para os outros, concentrada na minha postura tosca a tentar ser um/a. Ainda não consegui cuspir fogo mas acho que até me daria jeito de quando em quando.

~CC~

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Adeus Senhor Presidente

 

Ele foi o nosso presidente, foi o meu, sem dúvida.

Mas também foi aquele senhor que te deu a cadeira presidencial para te sentares, tu pequenina, com os dois puxinhos mal amanhados feitos por esta mãe tão inapta. E perguntou, já que te sentavas na cadeira, que medidas tomarias como presidente. Não percebeste bem, ficaste calada, com um sorriso tímido.

E no entanto devia haver qualquer coisa mágica naquele assento que fermentou e fermentou, hoje responderias sem receio.

Adeus Senhor Presidente e muito obrigada por tudo. E 25 de Abril sempre!

~CC~


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Letras que voam


 


Há quanto tempo não escrevia um diário. Aqueles cadernos onde nos deixamos inteiros, sem pudor. Não fora essas páginas onde posso escrever sobre a carne viva e em ferida e por certo estaria no divã do especialista ou a viver à conta de pilulas mágicas. Mas cada letra tornada palavra e cada palavra tornada frase é como um pássaro que voa levando um pouquinho da dor. E fico mais leve.

~CC~

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Este céu que me escurece

 

As nuvens, se elas enegrecessem apenas o céu.

Mas não.

Cresceram hoje dentro de mim grandes, grandes, mal me deixando ver o azul que em mim sobra.

E não choveu, nem lá fora, nem aqui no meu peito.

E tão bem que me teria feito. A água arrastaria a zanga e depois disso poderia descansar. 

Obediência é uma coisa que não sei fazer quando não encontro nela uma razão plausível, e a desobedecer sou tão tenaz e dura como uma rocha. E ainda são apenas dois dias de trabalho. Tenho que me salvar, ando a tentar abrir portas e perceber qual delas abre para um campo cheio de estevas.

~CC~

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Tão loura assim?!

 

Domingo na cidade da Ria Formosa, empoleirada a ver os barcos a entrar no canal de acesso à marina, chegam à razão de um de cinco em cinco minutos. Cada um tem uma particularidade, tanto a embarcação como os seus passageiros. É um passatempo que combina bem com um gelado de limão, já que não havia pistachio.

Dois jovens (ou quase) dirigem-se a mim em Inglês mas perguntam se falo Português. Demoro um minuto a processar, normalmente a pergunta não é feita com aquele formato. Será que estou assim tão loura a ponto de me confundirem com uma estrangeira? Ou seria por estar a tirar fotografias com os olhos? 

Dei-lhes a informação que queriam, em português, já que perguntaram se eu o falava, e seguiram caminho. Para a próxima digo que não, que só falo italiano.

~CC~



sábado, 4 de setembro de 2021

Leve

 

A extravagância deste Verão, praticamente a única compra.

Os chinelos de marca, dourados e com cheiro a coco (eterno, dizem).

Não poderei passar o Inverno com eles? Oh, como gostava. Nunca antes os meus pés tinham sido bonitos.


~CC~


PS. Juro que não estou a caminhar para Influencer ou coisa parecida....é apenas a busca da leveza.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Alcomonias

 


As meninas de 4 e 5 anos cantam uma música das Doce no palco, são artistas livres, ninguém as interromperá com críticas ou aplausos. E o sino da igreja a tocar de meia em meia hora deve ser o único que não me incomoda. O senhor que anda de mesa em mesa a avisar do ensaio mais logo detém-se em dúvida a olhar para mim. Percebo-o, não sou daqui mas também não lhe pareço turista. Acerta no meu estatuto. Sei que um dia ele não virá, a aldeia está cada vez mais estrangeira, nesse dia já não virei mais.

Há quem vá para as termas regenerar corpo e alma, eu venho para aqui. Acho que chorei aqui dores várias e recompus-me de notícias más, amores perdidos, horizontes nebulados. Há alguma coisa aqui, um cheiro, um sabor, um ingrediente contido no ar que respiro.

Começou há muitos anos, uma primeira visita em grupo de escola, uma peça representada no interior da igreja com base num livro de um escritor local, que bonito foi. Depois foi o monte da M, um céu inesquecível de estrelas e a água que íamos buscar à fonte. Pouco depois a casa da C, pequenina, mas com aquela mesa no alpendre, com os olhos presos na caruma dos pinheiros e a praia mais adiante, descida ingreme com o mais belo por do sol do país. Agora alugo de quando em quando uma casinha na aldeia, de especial tem zero, mas já a olho como um porto de abrigo. A solidão não dói, por isso talvez não o seja, é apenas a companhia de mim mesma, um tempo só meu. E o trabalho aqui é apenas um part-time, está no lugar exacto em que deveria estar sempre na vida e não no lugar central que ele ocupa. É que ali perto há o mar e isso muda tudo.



~CC~

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Adeus Agosto

Na cidade em que exercemos a profissão é normal nos cruzarmos com aqueles com os quais trabalhamos. Apesar de tudo, pela minha prática de vida itinerante, nem me queixo muito e às vezes até me sabe bem, dá-me raízes que é coisa que me falta.

Mas às vezes há perplexidades. Uma recém diplomada disse-me que tinha feito nova candidatura a uma outra formação e se eu sabia quem era o presidente do júri e os critérios, disse-lhe que eram coisas públicas e onde as podia consultar. Claro que se eram públicas, pelo menos o nome do presidente se poderia saber e disse-lhe.

Ela fez logo cara estranha...que o conhecia sim, tinha sido seu professor. Mas conhecia melhor os filhos pequenos dele, assim como todas as divisões da casa nas quais ele procurava dar aulas sem que a Internet falhasse. Engoli em seco e tomei mais uma vez consciência da tormenta ano e meio de ensino a distância. Acho que nunca avaliaremos bem as consequências. 

E mais uma vez senti a minha própria ambiguidade: a vontade de regresso ao ensino presencial combinada com a ansiedade e o medo das salas pequenas a abarrotar de gente (a maior parte apenas parcialmente interessada em ali estar) e todos só com meio rosto visível. 

Custa-me dizer adeus a Agosto, sempre custou, mas agora mais.

~CC~

sábado, 28 de agosto de 2021

Da medida da cintura

 

Oficialmente de volta ao serviço público de saúde, vulgo SNS. Só coisas boas a dizer, estou a falar a sério.

A consulta durou uma hora e meia (ultimamente no privado era, no máximo, de 10 minutos), devendo-se a extensão à necessidade de construir uma história clinica complexa que estava completamente em branco (a informação do privado não passa para o público) e calma... ninguém estava à espera, uma vez que era a última do dia. Eu já só pensava se ela teria alguém para lhe fazer o jantar ou iria jantar fora e sentia-me mal pelo tempo que lhe estava a gastar por não ter empilhado e datado devidamente os relatórios clínicos anteriores.

A parte melhor ocorreu a meio do tempo. Ela pediu para eu me levantar e tirou a fita métrica do bolso da bata. Perante o meu olhar de admiração, esclareceu que me ia medir a cintura. Pensei mas não disse que não sabia que afinal isto era uma candidatura a modelo. Ela teve graça e disse que era para me fazer o vestido. E depois esclareceu: é que a gordura abdominal é um dos maiores preditores de saúde. E eu fiquei a saber que a julgar pela medida ainda viverei muitos e muitos anos. Agora digam lá se não é bom ter uma médica de família (o resto dos indicadores agora pouco importam, concentro-me neste). 

~CC~

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Para iluminar

 

Estava a tentar classificar os Verões depois da terceira vida, ou talvez quarta, já não sei bem.

Arrumando-os em bons e maus, como quem classifica numericamente a temperatura, a velocidade do vento, a possibilidade de chuva. O parâmetro meteorológico, sem dúvida a ter em conta na classificação de qualquer Verão afigura-se muito insuficiente para dizer da felicidade neles contida. Analiso outros, para concluir o que já sabia, este está abaixo da média.

Contudo, no horizonte, há possibilidade de Verão em Dezembro. Cada um faz o que pode para se iluminar.

~CC~


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Da gaveta branca

 

Primeira limpeza superficial da gaveta da doença.

Nem um terço das facturas foram para o lixo, desisti. Terei que lá voltar mais tarde.

Não quero apurar os valores e perceber quantas viagens deixei de fazer, quantos lugares lindos ficaram por conhecer, quantas cidades, quantos museus, quantos campos de girassóis.

Estou viva sim, nunca deixarei de o festejar. Mas deixem-me lamentar um pouco, quando já não choramos ainda nos resta um suspiro ou outro, um gemido.

~CC~

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

É a família dela

 


Aos 93 anos mantém, nos seus olhos quase cegos, uma luz que é a réstia da sua vontade de viver, e é uma luz que ainda ilumina.

Não tenho dúvidas que a minha força é a herança da força dela. Mais que justo que seja o seu nome a encabeçar o grupo da família.

~CC~

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (XIX)

 

Silly Season era o seu nome. 

Tudo leve, nada sério, notícias sem importância, muito cor de rosa. Quase é possível ter saudades dessa inocência das festas de espuma dos anos oitenta (muito embora nos anos oitenta eu as detestasse).

Este ano, a acrescentar ao boletim diário de mortos e hospitalizados via vírus, há mais mortos, mais dor, mais tristeza.

Incêndios, sismos e agora o Afeganistão. 

Tudo é triste na história dos últimos vinte anos deste país. Mas a minha alma feminina está simplesmente gelada. Se é verdade que nenhuma religião trata bem as mulheres, é também verdade que nos países laicos elas têm em geral a protecção do Estado, coisa que ali desapareceu. E uma coisa é querer viver dentro dos limites dessa religião e aceitá-la, outra é simplesmente não ter outra opção, ser condicionado, não ser livre. Os que os legitimam com base na agora suposta moderação do seu discurso têm obviamente interesses nisso.

Todos estes anos fiz questão de começar uma das aulas de uma determinada cadeira com o discurso da Malala na ONU. Este ano acho que será a primeira aula de todas as minhas cadeiras.

~CC~

Por ora, o melhor que li sobre o assunto.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VIII)


No Km 142 os girassóis secaram todos. 

Tento que o mesmo não me aconteça e rego-me com o resto da água de garrafa que sobrou do dia abrasador. Tento não pensar num planeta sem água potável, pois isso causa-me um grande aperto no coração. E este Verão ele já teve apertos que chegue, tenho de o preservar.

~CC~




sábado, 14 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VII)

 

Um destes dias cheguei à praia e não tinha a toalha. Feitas as contas ao tempo disponível, não valia a pena voltar para trás. Eu até podia sentar-me na areia sem qualquer problema mas não estava a ver como me deitar após o banho, mesmo caminhando, não ia secar completamente. Aluguei um toldo e uma cadeira, coisa que há anos não fazia. Tinha alguma curiosidade em perceber como era, como me sentia.

Experiência detestável a de ter que ficar confinada a um lugar entre outros lugares e demasiado longe do mar. 

Percebi melhor o que já sabia. Gosto da areia, das algas, das pedras. Gosto de mudar de sitio quando os vizinhos não me agradam ou simplesmente porque a maré subiu ou desceu. Não gosto de concessionários nem de pagar para estar na praia. Privatizaram mais e mais os lugares e agora as pessoas que levam o seu chapéu de sol têm que se apinhar nas faixas estreitas que sobram.

E à medida que me penso num novo ano (muitos somos assim, começa em Setembro, não em Janeiro), penso como passei tanto tempo longe do mar, como tem sido isso possível.

E marco para mim própria, nesse novo ano, uma caminhada matinal junto ao mar, todos os domingos, exceptuando os de chuva.

~CC~

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VI)

 

Como será um amormómetro?

Inventaram-se medidas para tudo, menos para isto. 

Aposto que com tantas aplicações no presente, a juntar a outras situadas no futuro que já actuam com base em fluídos químicos e amostras celulares, também inventarão qualquer coisa do género, provavelmente tão destinada a falhar como as que já têm sido tentadas com base em semelhanças, gostos e estilos de vida comuns.

Ainda actuo à moda antiga, o tacteamento interior assemelha-se à costura, à manufactura, exige tempo, paciência, alguma dor.

Ainda assim acho que os mal amados usam todos as mesmas palavras e reconhecem-se entre si.


~CC~




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VI)

 

No Verão da Era Covid não é mais possível ir a um espectáculo, cinema, almoçar ou jantar em esplanada sem marcação prévia.

Habituei-me a fazê-lo sem muito esforço.

Mas o que fazes no dia anterior pode ser não possível no dia seguinte. Não por mim, se nada houver que à séria me atrapalhe, sou constante nos meus desejos e preferências, não me conheço grandes mudanças de humor ou apetites. Sou do gostar, do querer.

Mas por duas vezes, por outras pessoas, tive que desmarcar. E do outro lado da linha um grande agradecimento, como se o habitual fosse as pessoas simplesmente não aparecerem. Da última vez perguntei se o meu procedimento não era o habitual. E confirmou-se, não, não é. À conta disso duplicam-se lugares vazios em coisas que muito mais poderiam usufruir, sobretudo se são gratuitas e nada foi cobrado pela reserva.

O respeito pelo outro não veio junto com as máscaras.

~CC~




segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (V)

 

Cada vez há menos pessoas a ler livros na praia e nas esplanadas em redor. Lembro-me de ser um utensílio quase igual a uma toalha de banho. Vê-se algumas pessoas com revistas, mas a maior parte lê apenas o écran do telemóvel. E não é pelo peso, os livros são cada vez mais leves e os de bolso transportam-se mesmo bem.

Hoje, na esplanada, apenas eu tinha um livro e lia. Mas não foi a primeira vez. A sensação é a de sermos uma espécie em vias de extinção, mais uma.

~CC~



sábado, 7 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (IV)

 

Muitas vezes me perguntei pela razão do monopólio das bolas de berlim nas praias portuguesas como bolo de praia. É certo que se diversificaram em massas e recheios, numa panóplia para todos os gostos, mas não se acrescentaram queques, bolos de arroz, palmiers...

Até que ouvi no outro dia, em plena praia: framboesas, caixa de framboesas a 2 euros!

E à minha frente passou o vendedor com as caixinhas, juro que não sonhei.

~CC~




sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (III)

 

A senhora está bem?

Mas que diabo podia ver em mim aquele miúdo que nem vinte anos tinha, como podia saber que tinha feito o caminho da praia a deixar que as lágrimas me escorressem pelo rosto. 

É verdade que talvez fosse a única mulher sozinha num bar de praia às 7 da tarde. Mas será que isso era condição de infelicidade? Tantas tinham sido às vezes que o tinha feito sem um resquício de dor. Além disso já tinha limpo os olhos e não sobrava nada ou será que sim, que ainda se via algures a tristeza lá dentro.

Voltou mais vezes, pelo menos umas três, sempre com muito cuidado, muita ternura. Se a comida estava boa, se tudo estava bem comigo e quando saí, ainda veio desejar que tivesse um resto de dia bom. Claro que não tinha tido coragem de lhe dizer que a comida era mesmo má e que mal a tinha conseguido engolir, não sei se pela qualidade, se pelo que restava das lágrimas, se pela suspeita que ele sabia tudo o que se passava comigo.

Fiquei a pensar se agora dão formação de coaching aos empregados de mesa ou se há miúdos naturalmente bons e sensíveis. Certo é que me distraiu plenamente de mim própria.

~CC~



terça-feira, 3 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (II)

 

Na cidade velha o calor faz-nos andar pela sombra. Esta parte da cidade é o lugar que mais fala comigo. Se vier cá e não andar pela cidade velha é como se não tivesse vindo.

Dantes não havia quase ninguém, a praia chamava todos.

Agora há gente, a maior parte não habita esta cidade.

Dantes distinguia-os pela altura, cor do cabelo e dos olhos. Agora distingo-os por não usarem máscara.

~CC~


sábado, 31 de julho de 2021

Crónicas de Verão (I)

 

Vi passar o primeiro, um iate branco de grande dimensão, a uma distância razoável da costa.

Vi passar o segundo, bem perto, um barco à vela, como num desenho de infância.

Vi passar o terceiro, uma traineira de pesca, ainda tão distante mas tão perto que ouvia o seu ruído.

E de todos eles, era no terceiro que escolhia ir, passar uma noite à pesca no mar. Devia ter sido na companhia do meu avó, que conheci já mestre terra, depois do terceiro naufrágio.

~CC~

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Peixinho pequeno é para deixar no mar


 Eis um princípio que se podia aplicar a múltiplas coisas em muitas situações.

As meninas que na praia brincavam com a rede de apanhar peixinhos pequenos. Com que prazer diziam que iam apanhá-los. Mas uma contou que no último dia um deles tinha morrido dentro do seu balde e o tinha enterrado e feito um funeral. Nem percebia que tinha sido ela a causar aquela morte que depois tinha transformado num ritual humano. Algures, na sua educação, já lhes deviam ter explicado que os peixes pequeninos são para deixar dentro de água, é tão bom vê-los a nadar na transparência do mar, senti-los a debicarem as nossas pernas. A avó, alheia às meninas, usou todo o seu tempo para o telemóvel, mas foi ela mesma que se zangou com elas quando resolveram apanhar lixo com o camaroeiro, uma actividade, sem dúvida, muito mais preciosa.

O ambiente grita de dor mas uma parte significativa da humanidade está surda e é egoísta. 

~CC~


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Aqui, coração cheio.


Aqui é certamente um dos meus lugares favoritos, não sei explicar como certos sítios nos sabem ao nosso próprio nome. No primeiro confinamento fecharam o caminho e fiquei a respirar muito pior, não é só a doença que nos rouba pedaços aos pulmões. Aqui, coração cheio.

~CC~


domingo, 25 de julho de 2021

É outra vez Domingo

 

Lembro-me deles por ser novamente domingo, mas já foi há uma semana.

Deviam ser entre sete a dez. Calculo-lhes também as idades, entre 10 e 14. Chegaram com umas caixas e umas garrafas de gasosa de litro que passavam de mão em mão. Ocuparam a entrada dos prédios, a sombra dos varandins.  Nesse dia estava calor. Cantaram, riram, comeram e beberam. Ouvia-lhes as gargalhadas. Todos sem máscara. Devem ter tido receio de ocupar um jardim público, só isso explica esta escolha. Ou talvez ser um sitio central na cidade, bem servido de transportes públicos, creio que não moravam por aqui.

Por fim ouvi os parabéns a você, uns dez minutos depois desapareceram como chegaram.

É assim que se faz a festa dos adolescentes pobres da minha cidade em tempos de pandemia.

~CC~




quinta-feira, 22 de julho de 2021

Pequena e transitória, mas ainda assim...

 

Hoje tenho na minha boca o sabor das pequenas revoluções. E é como o gelado da fruta verdadeira, deixa o seu sabor leve e fresco durante algum tempo e até nos parece que com ele virá a mudança, aquela que fica. Mas não sou tão inocente assim. Por isso, só espero para saber o modo transformarão a vitória em derrota e os carrascos em vítimas.

Mas hoje, só hoje, ainda saboreio, ainda rio, ainda festejo a democracia.

~CC~

terça-feira, 20 de julho de 2021

Tapar e mostrar

 

As norueguesas do andebol de praia querem vestir-se mais, ter o direito de não exibir o seu corpo, colocado como isco para patrocínios. Não poderem tapar um bocadinho da perna é uma coisa anedótica.

Durante anos e anos as mulheres lutaram para o poderem mostrar o seu corpo, destapá-lo como bem quisessem. Enfrentaram o preconceito, a maledicência e até houve mesmo quem as culpasse nessa exposição por ofensas sexuais que pudessem vir a sofrer.

Mas no fundo não são lutas diferentes, é só a mesma, o mesmo direito. Estou tanto com umas como com as outras.

~CC~




domingo, 18 de julho de 2021

Coisas de um domingo de calor

 

Poderei chamar-lhes um mal do mundo, ou dois.

Negatividade sem saída nem nada de construtivo que aponte outra coisa ou mínimo futuro, nenhuma ideia de felicidade, quer para si, quer para os outros. São os becos sem saída, pessoas que são assim. Estamos com eles e não há um comentário bom, um elogio, uma luz no seu sorriso.

Positividade sem realismo, falsa ingenuidade e felicidade artificial, alicerçadas em teorias do tudo e do nada, se é que se lhe podem chamar teorias, a maior parte das vezes são apenas conjecturas e em nada ajudam à mudança de aspectos decisivos para o mundo e para a própria vida de quem as acarinha. Nem sempre são tontos felizes ou se tem que ser tonto para se ser feliz. Estamos com eles, passa uma borboleta, e é um sinal divino qualquer. 

Não há um modelo de se ser, é verdade. Também não há uma só solução para um mundo melhor.

Mas há coisas que ajudam a viver e outras que não. 

No outro dia tinha um saco com maçãs no supermercado, o saco rompeu-se e as maçãs espalharam-se pelo chão. Houve um senhor que as apanhou uma a uma e ainda foi buscar outro saco e mo devolveu assim, tudo arrumadinho, com uma explicação: sabe, estes sacos agora já não são de plástico, são mais frágeis, não coloque mais que 3 ou 4 maçãs. Achei extraordinário, a atitude, a explicação prospectiva, a generosidade. Nem lhe fixei o rosto, mas a atitude sim.

~CC~




sábado, 17 de julho de 2021

Horta dos Eremitas

 


Desinteresso-me às vezes do mundo, até me dá vontade de me esconder dele e que o seu ruído não possa alcançar-me.

Talvez fosse esse o sentimento mais forte de quem criou na Serra d´Ossa a Horta dos Eremitas. Curiosamente não é uma horta pois nessa há que cuidar, trabalhar, amparar. É só um lugar com árvores junto a um ribeiro, talvez se deixassem ficar por ali, escondidos como às vezes eu desejo.

Como prefiro meditar com os olhos abertos, deixo-me ir, céu adentro, tentando encontrar-me nos abraços doces das árvores.

~CC~




terça-feira, 13 de julho de 2021

Grande amor


 Alentejo, três amores. Um deles, sem dúvida, um grande amor, o próprio Alentejo.

~CC~

sábado, 10 de julho de 2021

Erros meus...

 

Sei que não sou imune à fúria mas controlo-a geralmente bem. E se me domina e me faz inchar o peito e levantar a voz, vem depois uma grande tristeza. Quando julgo ter aprendido quais os conflitos que valem a pena e os que não valem, deixo-me por vezes levar para uma má escolha. Reconheço, contudo, esse dano no interior do próprio corpo e tinha prometido não o deixar maltratar, afinal preciso tanto dele.

~CC~

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Flor amarela

 



Seis anos depois do dia um.

Sete anos se contarmos com aquele em que ainda tentaste outra coisa, mas nem a perspectiva de nos tornares os sorrisos bonitos te convenceu.

Tenho a íntima convicção de que escolheste bem, hoje muito mais do que no dia um, foi isso que me foste mostrando. Estou feliz. No ano dois as coisas complicaram-se tanto que julguei não poder chegar aqui para assistir. E no entanto, sem deixares de estar lá, não perdeste sequer esse ano, estudavas ao meu lado na cama do hospital, outras vezes pousavas os cadernos e víamos filmes. Diz o Fausto que "foi por ela", digo eu que também "foi por ela". É a minha flor amarela, que todo o futuro possa ser dela.

~CC~


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Ainda agora chegou e já está a partir

 

Cinco minutos de dia a menos são cinco alfinetadas na minha alegria, anunciam que o Verão ainda agora começou e já começou a partir. Verifiquem se já não começámos a ter a visita da noite mais cedo.

Ainda precisava de ter aquela sensação de praia até às oito da noite. Parece que vem aí calor, quem pode, é deixar-se ficar a ver o sol em mergulho vagaroso, é tão bom.

~CC~



terça-feira, 6 de julho de 2021

Duetos (II)

 

Comprei uma cafeteira Louboutin, isto é, vermelha por fora e metal por dentro, é linda mas foi barata, por isso como imaginam a marca é um mero devaneio. 

Faz-me uma certa vontade de combinar café com cerejas ou com melancia, coisa que talvez passe depois desta alucinação veranil de cansaço.

~CC~



sábado, 3 de julho de 2021

Duetos (I)

 

A senhora pediu um café com um perna de pau.

Fiquei ali a vê-la a alternar bebericar um golinho de café e dar uma dentadinha no gelado, alheia a tudo e a todos.

Há gente feliz ou que tenta sê-lo.

~CC~


segunda-feira, 28 de junho de 2021

Ainda assim

 

Quantos banhos de sal noutros anos já teria tomado no término do mês das cerejas?

Este ano as cerejas foram muito poucas e banhos de mar nenhum.

Não sei a quem culpar.

O governo é sempre uma boa hipótese. Sobra ainda o tempo (que vento este...), a pandemia, e por fim eu mesma. 

A última hipótese é ainda assim a mais problemática.

~CC~

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Onde estás?

 

São os pequenos sinais.


Diz ela que agora vive com as pessoas mais antigas, nunca se lembrou tanto do pai, da mãe, dos amigos da mocidade. Não sei realmente onde os guardou tanto tempo pois durante muitos e muitos anos nunca a ouvi sequer mencioná-los.


E eu às vezes já tenho momentos assim, logo eu que nunca tive tempo para o passado nem interesse nesse vasculhar das pessoas que já passaram pela minha vida. Sempre achei que se o vento as levou, ele próprio as traria, se fosse caso disso. Nunca perdi um minuto a procurar por alguém, nem mesmo quando a Internet abriu essa caixa de pandora onde muitos mergulharam a fundo.


Mas por vezes, por um minuto, até em coisas do dia a dia, salta uma memória de alguém e com isso uma pena misturada com um ligeiro toque de saudade. Fico a pensar porque não o ou a vi mais, por onde anda e se estará bem. E depois passa, a vida anda muito mais depressa.


~CC~


terça-feira, 22 de junho de 2021

Km 141

 


O mais belo campo de girassóis, como há muito não via, marcou encontro comigo ao Km 141 da autoestrada, sentido Sul-Norte.

~CC~


sábado, 19 de junho de 2021

Intervalo para bailado


Fiquei algum tempo a vê-las desfilar devagar no céu, que belo bailado. Se fechasse os olhos, continuavam a dançar dentro de mim. E pouco depois vi pela primeira vez uma cegonha negra, que majestosa é.

~CC~


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Junho

 

O ferro matinal provoca uma agonia manhã dentro. 

À tarde melhoro e tenho saudades de tudo, sobretudo de ter tempo, de ler, do mar e do cheiro do campo. 

Junho é mês limite, teste à minha capacidade de manter o bom humor e o quinhão de esperança que permite ver futuro.

~CC~


domingo, 13 de junho de 2021

Coloque uma flor

 

É isto.

Uma parede pode estar velha, acabada, gasta. 

Em não havendo tinta, possibilidade de reparo e restauro, há sempre flores.

Dantes não ia a este café e agora vou. 

E de vez em quando ponho uns brincos ou um colar, quem sabe um dia compro um batom.

~CC~


quinta-feira, 10 de junho de 2021

País

 

As memórias antes dos cinco são ténues.

Mas estou certa que entre os seis e os dez saí muitas vezes do carro para ficar de pé enquanto o meu pai fazia continência e os adultos cantavam o hino, eu sabia meia dúzia de frases ensaiadas à força na escola e não tinha nenhum gosto em cantá-las. Era um ritual estranho que a qualquer momento podia acontecer ou então eu não percebia as razões pelas quais acontecia, havia invariavelmente uma bandeira a subir num mastro e um nome de um sítio chamado Portugal ao qual diziam que também pertencíamos, ou pelo menos eram de lá os avós que não conhecia. 

Mais tarde, muito mais tarde percebi que para o meu pai seria apenas o sítio onde viria morrer, regressou como os elefantes regressam depois de uma longa jornada, quando já não têm força para caminhar. Com ele aprendi a amar outros continentes e países que não este, já velho ainda o desdenhava, caracterizando-o como um lugar em que se todas as mesas num café estiverem ocupadas, ninguém convida alguém que está a beber ou a comer em pé para se sentar na sua mesa. 

Nem no leite materno (que não bebi) nem nas palavras paternas que bebi maravilhada até à adolescência encontrei o caminho para gostar deste país, tive que fazer um trilho longo, solitário, com muitas curvas e curvinhas. Só depois de voltar á terra em que nasci, já nos quarenta, é que percebi que afinal o nosso lugar não é forçosamente aquele em que nascemos e vivemos a infância, por mais que isso nos deixe marcas. Hoje sinto que pertenço aqui, que é bom ter um país para pertencer.

~CC~

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Destes dias

 

Aqueles momentos.

Em que o cansaço se extrema a ponto do desmaio quase acontecer, a que se junta a emoção de mais grupo de estudantes a partir. É assim que sabemos o lugar em que mais uma ruga irá começar a desenhar-se. Não obstante o riso irromper por vezes, como ontem quando a administrativa me perguntou se estava à espera para a consulta materno-infantil. Claro que respondi que as avós não costumam frequentá-las, mesmo quando usam um vestido largo.

~CC~


sábado, 5 de junho de 2021

Biblioteca

 

Vejo-te aqui entre os seis e os nove anos. Vejo o que na altura lias e o que lês agora. E vejo-me a mim, as partes em que estava mais feliz do que agora e aquelas em que agora estou mais. Todo este lugar respirava a nossa inocência, era aliás tão inocente como nós. Agora ergue-se um hotel ali no canto, é um luxo a erguer-se entre as casinhas brancas e azuis. Lembro-me de não haver lojas sequer. Agora as túnicas mais baratas custam cerca de 200 euros. Dizem que é assim que os lugares se desenvolvem mas é assim que eles morrem também. Sobrou a nossa biblioteca de pedra, não sei quanto tempo ficará. No meu coração sei que ela durará muito.




quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pronta

 

A minha voz já não treme. Não desvio o olhar. Já não me interessa se gostam ou não de mim. Perdi todo o receio de desagradar e de correr riscos, pelo contrário tenho um imenso gosto em enfrentar os poderes instalados, de desmontar os jogos de bastidores, de colocar em causa o que tem que ser posto em causa, de incomodar, de desarrumar. Sei bem agora qual é o meu lugar e o que vim aqui fazer. Demorou, custou e doeu. Estou devidamente preparada para perder, agora só me falta quem queira perder comigo.

Há lá melhor coisa do que um feliz grupo de perdedores. 

~CC~



domingo, 30 de maio de 2021

Passeio de Domingo

 










Pela minha aldeia de adopção e lugares circundantes, entre a natureza, a escultura, a pintura ou tão simplesmente maravilhada com as bermas dos passeios bordadas pelo vermelho das papoilas pujantes.

Tal como fez o Xilre, uma homenagem a tantos passeios de domingo da Luísa (533?!), sobretudo a última foto, amarelo sol como pontua no seu quintal. Mas aqui sem o azul do seu mar. 

(e coitadito do meu TM, um exemplar que não se presta a grandes fotos).

~CC~



sábado, 29 de maio de 2021

Já convive comigo

 

Andei a fugir-lhe um ano inteiro com êxito para agora, numa simples picadinha de menos de um minuto, deixar que o vírus me conheça e me domine o corpo que está mortiço, dorido e meio febril.

Espero assim que se e quando o bicho papão quiser causar maleitas maiores, se accione rapidamente a batalha e a respectivo domínio e expulsão sem turbulência de maior, o meu corpo precisa tanto de paz.

~CC~





quinta-feira, 27 de maio de 2021

Barriguinha dourada

 


Finalmente uma publicidade a biquínis em que a modelo tem uma barriguinha, em vez de ser lisa e escorreita. Também tem pele mulata e uma bela cabeleireira afro. São lindos os dois atributos mas não estão ao meu alcance, já a barriguinha é atributo que já possuo. A publicidade positiva é, sem dúvida, um incentivo a dourá-la este ano.

~CC~


terça-feira, 25 de maio de 2021

Assobia

 

A extrema dificuldade de mudar as coisas. A forma como as organizações fingem ter princípios mas eles não ordenam na verdade as coisas, são apenas uma patine. O poder manobra sempre, sobretudo para manter os incapazes e impedir os capazes.

A vida não me cansa mas algumas coisas da vida sim, muito. E para me poupar por vezes apetece-me desistir, calar-me. Não sei é se vou a tempo de ser essa pessoa calada, ou a assobiar para o lado (ensina-me Carlão).

~CC~


domingo, 23 de maio de 2021

Comunidade

 

Ontem foi um dia especial.

Dei dois abraços a pessoas com as quais não vivo, usando, claro, máscara. Não resisti. Uma antiga aluna minha e um colega que se tem vindo a tornar também num amigo. E senti uma água levezinha a chegar aos olhos. A comoção passou rápido, mas o sorriso que cresceu para dentro ainda perdura.

~CC~



quinta-feira, 20 de maio de 2021

Ódios de estimação (3)

 

Países com direito de veto nas Nações Unidas. 


(porém, não quero o seu fim, como muitos já defendem)


~CC~

terça-feira, 18 de maio de 2021

Amores de perdição (3)

 

Um grãozinho de loucura, daquela mansa que às vezes nos deixa perplexos mas não magoa.



~CC~

sábado, 15 de maio de 2021

Um poema em seis andamentos (dois)

 

Do Poema "Diário" de Francisca Camelo.

2.

"antes de ingerir
a primeira dose de atmosfera
devíamos ler a bula
sobre os efeitos secundários
mais frequentes:
10 em 10 utilizadores
sofrerão de náuseas
fraqueza e indigestão
um ou dois tipos de abuso
(por vezes simultaneamente)
normalmente segue-se a falta de libido
e alguma solidão asfixiante
(consulte o seu médico
se esta se prolongar
após a morte)
1 em cada 1000 utilizadores
poderá eventualmente
vir a ser feliz
mas não foi ainda possível
comprovar esses efeitos"


E façam um bom uso farmacológico.

~CC~



quinta-feira, 13 de maio de 2021

Ódios de estimação (2)

 

Trinta minutos dedicados pelos jornais televisivos a festejos associados à vitória de um clube de futebol (qualquer que seja).

Mas acrescento-lhe mais: concursos de talentos a toda a hora e de toda e qualquer coisa, pior(es) se com votação do público.

~CC~



terça-feira, 11 de maio de 2021

Amores de perdição (2)

 

"Caneta que escreve canções não assina cheques"


Fausto Bordalo Dias

(entrevista RTP 1)

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Um poema em seis andamentos (um)

 

Há coisas que nunca me cansam, pelo contrário, a sua prática aumenta a minha energia, dispara-me o coração, dá-me vida. Uma delas é descobrir poesia e poetas novos, isto é, não apenas novos e para mim desconhecidos mas admiráveis.

Eis o poema "Diário" de Francisca Camelo, são seis andamentos, deixo-vos o primeiro.

1.

perguntei-lhe
se me queria beijar
beijos pequenos
pelo meu corpo inteiro
povoar a minha pele de amor
ele respondeu
quero rebentar-te toda.


(Do livro "A importância do pequeno almoço")

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Amores de perdição

 

Blogues (singulares, autênticos, despreocupados), livros de ficção, lugares com alma.

Gosto muito dos blogues que trilham os seus caminhos sem olhar aos vizinhos do lado, que não querem mais nada de que um espaço seu com janela para o mundo, que não têm outros objectivos que não seja dizer de si, dispensando-nos de nos quererem mudar ou ao mundo.

Gosto de livros que contam uma boa história, estas modas de misturas entre o ficcional, não ficcional, documental, ensaio e mais sei lá o quê não me convencem. Se em todas as histórias há um lado pessoal?! Sim, claro. Tal como no que escolhemos para almoçar ou jantar. Eu que me considero pouco clássica, pouco conservadora, quase sem pátria nem chão, gosto de livros de histórias.

Dos lugares, gosto de um lugar que tem uma identidade própria, quase impossível de encontrar noutro sítio. Assim sendo, antipatizo com cadeias de supermercado, lojas de franchising, sucursais e afins. Por mim ainda ia à modista, só comprava artesanato e ia ao campo apanhar flores. É evidente que não chego a tal, não tempo tempo e já não há modo de fazer essa vida. Mas ainda deliro com uma boa sopa de cação, um caminho de estevas, a carrinha do pão e o amolador que passa na minha rua sem que julgasse tal possível. 

~CC~





quarta-feira, 5 de maio de 2021

Ódios de estimação

 


Influencer(s), livros de auto-ajuda, roteiros turísticos.


Ou seja, pessoas que sabem o que as coisas são, isto é, como deve ser a vida delas e a dos outros todos a caminho de uma suposta ideia de felicidade que também dominam. São capazes de prever o destino de uma pessoa, uma família ou mesmo o que acontecerá a cada um depois da sua morte. Acreditando que como elas dizem a minha energia se materializará num outro ser vivo, só peço que não seja numa barata. O referido bicho também entra nos meus ódios de estimação.

~CC~

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Cuidado com a guilhotina...

 

Isto está animado, uma verdadeira batalha de classes, num tempo que isso já saiu de moda.

Mas só lhe digo Isabela, a menina deixe-se ficar nessa fragilidade alva, apoiada num tamborete como se fosse o seu rei protector e ainda vai ver que lhe acontece o mesmo que à Maria Antonieta. Até os mimos se acabam mais depressa do que supõe.

Isto foi o que a Suculenta me soprou, dizendo que a alface vive ali ao pé dela enquanto lhe der jeito para a luta, não sei é se ela conhece o termo inclusão, tenho a sensação que não...mas hei-de perguntar-lhe.

~CC~

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Apresento as minhas armas na batalha das orquídeas.

 

Orgulhosas e belas, todas elas.

E devidamente baptizadas: Efélide, Isabela e Violeta.

Sem dúvida uma aristocracia vegetal puro sangue.

Que tenho eu para mostrar? Nenhuma orquídea, aliás nenhuma flor.

Ainda pensei ir à batalha com o loureiro (de vaso) que já morreu e renasceu umas três vezes. É coisa para enfrentar a realeza.

Mas prefiro este mistério, umas suculentas, filhas de outras que por já cá andaram. E nesse transplante aconteceram coisas estranhas, como nascerem da terra uns protótipos de alfaces. Ora eu nunca semeei alfaces, nem comprei terra. Só vos digo, deixem lá essas belezas de lado, por aqui há povo, grito e espanto. 




Ah, isto não vale? Têm que ser orquídeas?! Então, rumo à Bastilha...

~CC~




sábado, 1 de maio de 2021

Maio, meu querido Maio

 

Comecei ontem a ver o Tempo dos Operários no Canal 2, entrando assim apenas no 2º episódio. Belíssimo documentário, pois não é apenas instrutivo e didáctico mas humano e por vezes divertido, não obstante focar realidades tão duras.

Ontem maravilhei-me com os bonequinhos que os metalúrgicos faziam por baixo da mesa, sendo que o "por baixo da mesa" tem aqui um carácter magnifico de resistência, o que o patrão não vê nem é capaz de controlar, é um elefante de várias peças feito a várias mãos ou um motociclo ou uma galinhola. Há, em cada um daqueles homens duros, calejados e explorados, um menino que não morreu, que tem vontade de brincar, que ri com a vida. É esse trabalhador que festejo hoje, o que guardou dentro de si uma força que ninguém é capaz de ver e que ainda o faz sonhar, conquistar, avançar. É Maio em cada um deles, com M maiúsculo como sempre o hei-de escrever.

~CC~



quinta-feira, 29 de abril de 2021

domingo, 25 de abril de 2021

E assim se juntaram duas Primaveras

 

Houve várias tentativas de derrubar o regime denominado de Estado Novo.

Mas tenho para mim que não foi um acaso ser em Abril, assim juntaram-se duas Primaveras.

Nunca as ruas foram (são) assim tão bonitas.

~CC~


sábado, 24 de abril de 2021

Desilusão, talvez a primeira.

 

Ele saltava o muro mas eu saltava mais vezes.

O meu quintal era caótico, tinha duas grandes mangueiras, muita terra livre e bichos ocasionais.

O dele tinha cimento, uma enorme gaiola cheia de pássaros, muitos vasos com flores, nenhuma terra, algumas árvores pequenas que não recordo se davam frutos. O quintal dele era lavado com água e lixivia, cheirava sempre a limpo e a organização.

Eles eram dois irmãos, um deles sempre adoentado, o outro vibrando de saúde, olhos esverdeados e caracóis, sorriso pronto, muita vontade de brincar aos médicos.

Um dia o irmão doente quis saltar o muro com o irmão para o meu quintal. Tudo correu absurdamente mal, a queda, os gritos das nossas mães, e o menino que por causa da queda ficou cada vez mais doente. Nunca mais espreitámos por cima do muro, ora um chamando, ora o outro chamando. Uns tempos mais tarde as portas e as janelas fecharam-se, nunca mais os vi, nem a ninguém da família. Não sei se pensei que o menino doente tinha morrido ou se morreu mesmo, mas achei que tinha a culpa também tinha sido minha.

E do meu amigo nunca mais nada soube. Tinha sete ou oito anos, a desilusão de amor, talvez a primeira.

~CC~




quarta-feira, 21 de abril de 2021

Volte sempre

 

A primeira ida a uma loja.

Como é que ficaram tão simpáticos?

Desejaram-me resto de bom dia, boa semana e volte sempre.

~CC~



segunda-feira, 19 de abril de 2021

Novos atletas

 

Eram homens e mulheres muito solitários os que no tempo da Rosa Mota e do Carlos Lopes saiam ao entardecer, treinavam a sério e com um objetivo profissional, por isso eram muito poucos.

No crepúsculo deste último Domingo eram mais, muito mais e de todos os tipos e feitios, ninguém a parecer-me capaz de se lançar na maratona. É impressionante como a Pandemia trouxe as pessoas à rua para caminhar, correr e andar de bicicleta, quase as únicas actividades que não lhes foram vedadas. Eu se pudesse caminhava mais, muito mais, mas não queria viciar-me, certas pessoas fizeram-no, tal como antes em relação ao ginásio. Talvez porque para mim caminhar não é mexer o corpo ou puxar por ele mas é sempre andar de nariz no ar, observar, respirar.

O que eu ainda nunca tinha visto e vi este Domingo era um casal a correr e simultaneamente a empurrar o carrinho do bebé, assim satisfeitos, estrada fora...

~CC~


sábado, 17 de abril de 2021

Ciclo

 

Sinto que o meu coração ardeu tanto que já não é possível atear nele fogo, queimaram-se no meu corpo muitas células em discussões, ciúmes, desconfiança ou simplesmente no desgosto do outro em mim. Fez-me mal a paixão e sempre que se transformava em amor e depois em amizade, quis sempre voltar ao início do ciclo, com saudades de vibrar, balançar e abanar.

Agora sinto o seu bater compassado, embala-me o corpo como uma morna, naquele sabor doce e quase desinteressado, numa mão que se dá, num abraço que se estreita. Não sei se estou a caminho da paz, mas às vezes é o que parece.

~CC~



quinta-feira, 15 de abril de 2021

Fazer parte

 

Diz que vários colegas o aconselharam a não se envolver nos órgãos de gestão da instituição, não só isso por isso ser um poço de chatices mas pelo tempo que lhe roubaria ao estudo. 

Não os ouviu e ainda bem. Assim, pude eu ouvi-lo dizer o quanto essa experiência o enriqueceu, o mudou, o preencheu. 

Fiquei com a sensação que tinha sido tão ou mais importante que o próprio curso. E ainda concluiu que com o menor tempo que tinha conseguiu ter resultados escolares tanto ou melhores do que aqueles que o tinham muito mais. Agora o termo fazer parte não significa para ele apenas o lugar sentado na sala, a resposta às questões dos docentes, a classificação colocada numa pauta, um canudo que porá na prateleira e que lhe pode abrir a porta para uma carreira que o mais certo é começar nos 500 euros. Quando me cruzo com esta gente jovem que aprendeu a ter voz, fico com esperança. Oxalá o futuro não os enfie numa espelunca cinzenta ou num lugar distante, a milhares de quilómetros deste país.

~CC~


terça-feira, 13 de abril de 2021

A temperatura certa

 

Desligar-me é uma arte cuja prática para mim foi muito tardia na vida. Ainda hoje é difícil. Atraída pelo Budismo, fui sempre no essencial o seu contrário.

Mas já consigo deixar que a pressão contida num mail de trabalho fique a esvaziar-se sozinha na caixa. Deixo que baixe a temperatura, que arrefeça, só depois respondo. Certas coisas precisam de estar mornas, a quente valem de mais, a frio já não valem nada.

E contei dez anos, parece-me ainda tanto para deixar de receber estas missivas de alta intensidade que tenho que responder à morna temperatura.

~CC~

sábado, 10 de abril de 2021

Se me procurarem...

 

Que belos os campos de estevas, puxavam-me para eles em todo o seu esplendor, e não obstante o rumo estar definido até ao local mais a sul, só me apetecia parar e perder-me neles, dissolver-me. Pensei gravar  uma mensagem de voz: não estou, tornei-me flor.

~CC~

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Pouco que é muito

 

Dias que começam e acabam rapidamente sem que dê conta do tempo a passar. E isto apesar deles terem crescido tanto. Enrolam-se uns nos outros e quando me apercebo já é sexta e sei que no fim de semana as tarefas mudarão apenas um pouco de tipo e intensidade. Quando consigo uma manhã ou meia tarde para mim própria sinto-me grata e quase feliz. Nunca conseguirei explicar porque trabalho tanto. E muito menos responder à pergunta que a miúda fez aos oito anos: porque ganhas tão pouco? 

Apenas me satisfaz saber que o pouco chegou para construir a minha independência, ou seja construir tudo do zero, sem heranças, ajudas familiares, partilha de orçamento ou de qualquer bem a nível conjugal. Bem colocado o título daquele filme "este país não é para velhos", a maior parte não o é, nem para mulheres que querem viver sozinhas e não têm qualquer outro suporte financeiro que aquele que ganham por mês como assalariadas, muitas até podem ter essa aspiração mas não conseguem. Não duvidem que esse é o motivo para muitas não abandonarem casamentos há muito fracassados, casas dos pais nas quais já não se sentem bem, apartamentos co-partilhados por muito mais gente.

Afinal o meu pouco é muito. 

~CC~


sábado, 3 de abril de 2021

As minhas mãos

 

Poucas ou nenhumas coisas nos faltaram em termos alimentares para consumir no segundo confinamento. Nem o pão falhou. Afinal, apesar do camuflado do gestor do programa de vacinação, esta guerra é completamente diferente das outras. Como tal, é fácil sair e comprar um folar, há por todo o lado à venda. Mas as minhas mãos não têm grandes dotes, não sabem costurar, bordar, não são dadas à bricolage ou ao cabeleireiro, até usar uma pinça lhes custa. Por isso, antes que elas sejam instrumentos que apenas sabem pousar nas teclas do computador, vou usá-las hoje para amassar e amanhã para pintar. Sonho um dia usá-las para plantar e colher, mas isso tarda.

~CC~

quinta-feira, 1 de abril de 2021

quarta-feira, 31 de março de 2021

Terapia

 

Voltei ao lugar de abrigo do primeiro desconfinamento.

Vou ao quintal e só vejo verde, a serra, o terreno cheio de oliveiras e castanheiros, o canto dos pássaros todo o dia.

Como o mar, este verde é um ansiolítico para mim.

Só a natureza me acalma, me transporta, me dá esperança.

~CC~


segunda-feira, 29 de março de 2021

Deslumbre

 

A propósito da frase inocente de uma adolescente face ao seu mentor nesse programa para mim tão atraente quanto repulsivo em que se cantam canções pela noite dentro (oh, mas isso era toda uma discussão sobre prós e contras). Disse-lhe ela: é a pessoa mais maravilhosa que eu conheci. 

Teremos mestres? Hoje pouco reconheço tal devoção ou mesmo simples admiração ou sequer reconhecimento nos jovens com os quais trabalho. Creio que não há deslumbre e é raro que um ser humano reconheça num outro o que ele tem para lhe ensinar ou o que lhe ensinou. A grande rede (Internet) parece ser o grande mestre.

Perguntei-me pelos meus mestres. É verdade que também nunca fui de admirações intensas e muito menos de seguir pessoas, correntes, sequer vestir a camisola das escolas ou academias por onde passei, pelo contrário, fiz cada grau académico em escolas diferentes e com pessoas diversas em quase tudo. Recusei com custos o percurso linear em que nos ligamos a uma persona académica. No entanto, sou capaz de reconhecer pessoas com as quais aprendi coisas, me mostraram caminhos, me trouxeram outros horizontes. Estavam elas próprias em diversos contextos. E apesar de acontecer menos agora, sim, há ainda alguns deslumbramentos que me acontecem. E por deslumbramento não falo nos minutos em que fico a olhar para a Maria João Pires a tocar piano, esse também acontece, esse reconhecimento do valor do outro, do seu talento. O deslumbramento a que aqui me refiro é aquele que acontece na relação que tecemos com alguém com quem nos cruzamos efectivamente, alguém que nos dá a mão de e nos leva a olhar a Oliveira que sempre vimos com um olhar diferente ou pelo menos de outros ângulos.

~CC~



sábado, 27 de março de 2021

Essência

 

Brincar ao faz de conta. Ouvir e contar histórias.

É esta a essência de tudo o que é humano.

E onde está? 

No teatro, esse lugar hoje em festa.

~CC~





quinta-feira, 25 de março de 2021

Armário dos Improváveis (4)


Devo ter pensado quando o comprei que ia fazer uma magnífica moamba para dez, à imagem das mesas do quintal da minha infância.

Afinal nunca o abri. Não sei quando voltaremos a sentar-nos dez à mesa e ainda por cima dez com gosto por quiabos. Mais certo é passar de prazo de validade.

~CC~





terça-feira, 23 de março de 2021

Vem Primavera

 

Antes eu sabia o que era o cansaço.

Não, antes disto, eu não sabia verdadeiramente o que era o cansaço. Este é diferente, pesado como chumbo, contrai o corpo, mingua a alma, esgota-me a voz. Hoje alguém disse a outro: só te conheço pelos quadradinhos. Malditos quadradinhos.

Por isso a única chamada que me anima tem de ser verde e azul, anseio por deitar-me na relva, na areia da praia, sonho que em mim própria nascem asas e flores.

Vem Primavera e mergulha-me em ti, inebria-me, faz-me esquecer.

~CC~

domingo, 21 de março de 2021

Pedra mole (3)


Ligava Olissipo a Salácia, passando por Cetóbriga, foi neste último lugar que lhe apanhei o troço de 3 Km, sempre a subir, de um lado a Arrábida e no fim do troço, o Sado.

Está a nascer em mim uma paixão: encontrar estes trilhos de pedras durante anos escondidos, apagados, ainda hoje difíceis de encontrar.

Quem diria que o meu coração ainda tinha este lado mole, de inspirações súbitas e ocasionais mas que se vão demorando, ficando.

~CC~





sexta-feira, 19 de março de 2021

Entre choros e sorrisos

 

Há muito que não fazia ninguém chorar com apenas uma pergunta:

- E o seu pai, como está?

E ela desabou num choro, abandonando a cadeira do atendimento, há um minuto atrás sorria.

Há 8 anos que nos conhecemos. Todos me tinham negado tratamento e dito que era impossível. Mas ele disse-me que não havia impossíveis. Era um homem alto, forte, já de idade e não tinha um sorriso bonito como hoje é obrigatório nos dentistas actuais. Era até um pouco feio, desconjuntado na sua bata pequena demais.

Eu simplesmente tinha pavor de ir ao dentista. Ao longo da vida apenas um com um magnifico sentido de humor me tinha feito parar por lá durante um ano, ano e meio. Quando quis voltar, já o consultório não existia.

E depois este, faz oito anos, dava-me sempre um beijinho na testa como se eu fosse uma miúda.

Esclerose lateral amiotrófica, conseguiu ela pronunciar, depois de ter limpado os olhos.

Também fiquei triste e tive saudade daquele beijinho da testa, não obstante ter sido atendida por um dentista novo, bonito, profissional, e com um sorriso magnifico.

~CC~







quarta-feira, 17 de março de 2021

Sabe bem

 

As pessoas andam estranhamente felizes e voltaram a meter conversa umas com as outras.

No passeio de Domingo, de meia hora para cá e para lá no qual levei pacientemente a mais velha com a sua bengala em passinhos lentos, cruzei-me com crianças, ciclistas, famílias, pessoas que passeavam os seus cães. Quase todos tiveram uma palavra para com ela e ficou longamente a falar com o senhor que, à porta de uma habitação antiga, regava os alguidares com alfaces e alho francês.

Quem me vendeu ontem o café parecia explodir de alegria e comentou: sentimos tanta falta, não foi?! A caixa do supermercado insistiu para eu ir tirar à máquina o talão de descontos, coisa que nunca faço, e na qual fui pacientemente ajudada pelo segurança, como lhe fiz a vontade, não deixou de me dizer: sabe que ficou com 18 euros no cartão, é dinheiro...

Pode até ser o meu olhar. Pode ser por pouco tempo. Mas sabe tão bem.

~CC~

sexta-feira, 12 de março de 2021

Da Bósnia com amor


Amarelas como os girassóis dos quais gostas.

Mas mais resistentes. Vivem uma parte do tempo debaixo de água, suportando uma boa dose de sal. Ainda assim esperam por aquelas horas em que o sol vem acarinhá-las e sorvem-no. Permanecem bravias, impossíveis de apanhar para colocar numa jarra, não se acomodam, mas sabem adaptar-se.

O agridoce não enjoa e é das misturas que as coisas mais belas se alimentam.

Deve ser por isso que apesar de teres nascido na popular maternidade Alfredo da Costa, tirada a ferros e com Índice de Apgar 7, vieste afinal da Bósnia, essa terra de resistência.

~CC~




quinta-feira, 11 de março de 2021

Pedra mole (2)


 Tento sempre voltar a um lugar no qual fui feliz.

(Calçadinha Romana, São Brás de Alportel)

segunda-feira, 8 de março de 2021

Flores

 

Acabem com as rosas, calma, não as destruam.

Mas olhem bem nos olhos da mulher que amam e descubram que flor há lá dentro, depois comprem-lhe essa ou, ainda melhor, uma planta em que ano após outro essas flores possam aparecer como se fossem beijos.

E muita atenção, a flor pode mudar, as mulheres crescem, amadurecem, complexificam-se.

Escolham qualquer dia para lhes dar uma flor, querem que seja este, também pode ser. Há lá coisa que pareça mais frágil e seja mais forte do que uma flor.

~CC~

sexta-feira, 5 de março de 2021

Pedra mole


Uma obra com a tua marca.

Imagino que o meio é o meu coração, uma espécie de pedra amolecida pelo carinho que sinto por ti.

~CC~



quinta-feira, 4 de março de 2021

Armário dos improváveis (3)


 

Que será? Não cheguei a provar, ficaram lá esquecidas por mais de um ano e agora o prazo de validade já não me permite usar a escala de 1 a 10.

Maldita curiosidade que me anima no acto de compra e que se desvanece depois da entrada do armário.

~CC~


segunda-feira, 1 de março de 2021

Também eu


Nos lugares dos pescadores de rio, onde eles passam os domingos a lavar os barcos, a pintar, a conversar. O estuário cheira a água lodosa, os caminhos têm erva alta, buracos e poças de água, há caracóis e muita salicórnia. E os cães mergulham na água nadando plenamente felizes. Desfeitos sonhos grandes, vidas imaginárias, coisas que poderia ter, agradecendo o que a vida me dá, também eu sou feliz. 

~CC~


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Todo um mistério.

 

Comecei por a achar uma mulher invulgarmente alta.

Depois reparei melhor e ouvi-lhe a voz, sem dúvida um homem louro, de cabelo comprido, rosto jovem e bonito, parecia um anjo.

Queria despachar uma encomenda para a Rússia. O proprietário da papelaria perguntou-lhe se era álcool. A pergunta pareceu tão estranha quanto a resposta: sim, acho que tem álcool, mas são perfumes.

Perfumes de Portugal para a Rússia, todo um mistério.

~CC~


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Saudades

 

As saudades que eu tenho dela chegam-me com cheiro. É um cheiro a bebé como se ela nunca tivesse crescido. É um cheiro a Primavera, como se só tivesse estado com ela nessa estação. É um cheiro a praia, como se todas as horas boas que vivemos tivessem por perto o mar.

~CC~


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Armário dos improváveis (1)

 

Abominável o chá com orégãos.

Muito aceitáveis, quase bons, os croquetes de alcachofra.

~CC~

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Solidão, solidões...

 

Lendo a crónica de Alberto Manguel sobre o confinamento, detive-me num pormenor que me fez lembrar também a minha adolescência. Ele diz que aos seis anos, em Paris, atirou pela janela alguns dos bonitos e caros vestidos da mãe.  Tinha crescido entregue aos cuidados da ama,  raramente vendo a mãe, mulher de embaixador e dedicada às obrigações que então ditava a carreira diplomática do marido, o que implicava vestir-se e maquilhar-se a preceito para brilhar nos muitos eventos em que tinha que comparecer. Fez-me pensar na solidão dos ricos e de como ela é tão diferente da solidão dos pobres.

Morei durante toda a adolescência e já no início da idade adulta numa das mais afamadas urbanizações de gente rica da periferia de Lisboa, na altura considerada inovadora em termos urbanísticos, talvez pela dimensão em altura dos prédios e do número de assoalhadas dos apartamentos. Eu morava na única rua dos pobres, a maior parte retornados, tinham ocupado as casas nos idos anos de 1975 e 1976. A minha rua dava por si só um romance. O contraste entre a minha vida e a de algumas das minhas amigas de outras ruas dessa urbanização era gritante. Uma delas tinha uma mãe que nunca acordava antes do meio dia, a empregada que entrava em casa às 8h tinha ordem para até essa hora o silêncio ser a regra, a mãe deitava-se tarde, não raro recebia amigos e a rotina da empregada começava por limpar os cinzeiros com beatas e os copos de uísque. A mãe não trabalhava porque não precisava e era uma mulher culta, mas o seu interesse pelas filhas resumia-se a que soubessem falar línguas, coisa que as obrigada amiúde a praticar à hora do almoço e a um questionário cerrado sobre as classificações escolares. O pai sumia-se em infinitas viagens, trabalhava muito e era bastante ausente, apesar de muito simpático. A solidão daquelas miúdas numa casa cheia e com uma mãe em casa era bastante estranha para mim, mas podia senti-la, uma espécie de revolta que a mais velha (e a minha amiga) acalentava, aproveitando para tecer aqui e ali um desafio, coisas que sabia não serem aceites na classe social a que pertencia (acho que  foi a primeira a quem vi calças de ganga rotas).

Se me deparo muito com a solidão dos mais pobres, até em termos profissionais, sei que a solidão atravessa todas as classes sociais, mas a sua espessura e os seus contornos são tão diferentes que parece que o seu plural é mais certo que o seu singular.

E no entanto é ainda solidão o que une o Manguel, um menino de seis anos, filho de embaixadores, ao cuidado de uma ama, com aquele menino, da mesma idade, que numa escola do Seixal acordava numa casa vazia e de tudo cuidava sozinho, até da irmã que ia para a creche, pois a mãe saia de madrugada para limpar escritórios em Lisboa, antes da entrada dos funcionários.

Gostaria de escrever um ensaio sobre a solidão, perdão, solidões (mas que mal fica a palavra no plural).

~CC~