quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Bem vindo sejas 2022

 

Será que a Paz começa quando acabam os desejos de ano novo e a antevisão das passas nos enjoa? Ou será que começa aí o desespero, o pessimismo e os nosso passos vagarosos para a morte? 

É a arte de desejar a da paixão que nos move e estimula ou é tão somente ambição desmesurada por um quinhão de felicidade à nossa medida, sinal do egoísmo que a todos corre por dentro? E quando os viramos para o mundo, somos realmente sinceros? Quantas partes de nós estão dispostas a correr por essas metas?

Ou os desejos são as metas que estabelecemos de nós para nós, nesse contrato perigoso em que a fasquia é sempre mais elevada do que aquilo que podemos realmente conseguir? Mas não terá que ser ser sempre assim, quem deseja o que pode alcançar facilmente?

Equaciono três para o meu umbigo:

- Saber desafiar-me e não estagnar, sem correr demasiados riscos nem fazer demasiados sacrifícios.

- Sentir-me amada.

- Manter-me saudável.

Equaciono outros três para todos os umbigos (sim, estou a ver os vossos...)

- Voltar à normalidade, fim da Pandemia

- Passos mais decisivos para a protecção do Planeta.

- Fim do regime Talibã no Afeganistão, se possível, feito pelos próprios afegãos resistentes. Sei que há outros regimes políticos igualmente incumpridores dos mais elementares Direitos Humanos, mas deixem-me reagir ao choque que este me provocou.

Três é um numero de que gosto.

 2022 tem uma certa magia nos números redondinhos, oxalá se cumpra, para todos vós que passam, mesmo que em silêncio, aquele abraço.

~CC~




segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Pudim de laranja (II)

 

Foi a mana mais nova a fazê-lo e não fora a calda de açúcar ter ficado tão pálida, tinha ficado perfeito. Não que eu o adore, como apenas um pouquinho para saber que é Natal. 

Faltaram, contudo, as filhoses com a receita dela, as únicas que como e gosto mesmo. Falta-me a força para as amassar, a paciência para as fritar, a companhia para brincar com a massa, a alegria de as fazermos em conjunto. É assim que as coisas se perdem, alguém sugere comprar, alguém deixa de estar, alguém sente-se incapaz. Esta é uma pequena parte triste, as outras não o foram. A mesa voltou a ser grande, até o nosso rapaz que testou positivo recuperou a tempo.

Ganhei uma almofada de sumaúma, igual a que usei toda a minha infância, embora bem maior que a que então usava e para todo o lado transportava. Até sonhei que era novamente aquela miúda completamente inocente e sozinha entre dois irmãos mais velhos. Era triste e alegre, feliz e infeliz, receosa e aventureira. Tantos anos depois e ainda sou a mesma coisa. Só as ruas mudaram. E sorrio com mais rugas.

~CC~





terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Pudim de laranja

 

Este ano podia nem haver Natal, eu nem daria por isso. Há anos em que sinto essa alegria da época, outros em que não. Foram bons os Natais na aldeia. Foram bons os anos em que inventávamos decorações que se completavam só com a chegada da família, tinham que pintar ou escrever ou montar...e das árvores alternativas que imaginávamos e eram parte desse cenário. E isso acontecia na tua casa, apesar de detestares esta comemoração.

Posso recuar a deslumbramos antigos, os dos espectáculos criados com as meninas, preparados com afinco e alinhamento ou a mais anteriores ainda, ao churrasco no quintal da minha infância. O meu coração já vibrou com a festa.

Este ano nada está nas minhas mãos, nem as comidas. E agradeço que assim seja e muito, não me sinto capaz. Este ano apenas me esforço.

Ainda assim, foi hoje ela a salvar-me, como quem me tira do fundo do poço. Ela, sempre a mais velha e, no entanto, que energia menina. Ela e o seu pudim de laranja, a sublinhar o lugar que as coisas devem ter, os patrimónios que a família constrói ano após ano, muito graças a estes encontros, a este em particular. E foi por ela que sempre fiz Natal, mesmo em anos não.

Pudim de laranja, esse que só o Natal traz.  Uma espécie de resgate da inocência perdida  entre anos e anos de incentivo ao consumo (o mar de prendas junto à árvore e a contagem de quem ganhava mais) e agora os testes à Covid e as restrições pandémicas.

A todos os que passam por esta rua desejo que encontrem também o seu sabor doce, qualquer que ele seja.

~CC~



quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Chamamento

 

Cortar o medo pela raiz, um a um. Custa-me tanto removê-los como tê-los. Mas cada vez que ultrapasso um deles a leveza é tanta que julgo poder voar. 

Se vires algo a brilhar lá à frente e quiseres ir atrás, faz isso, por mais que te custe. Tenho poucas certezas mas uma delas é que a minha vida valerá a pena se ainda sentir um chamamento e for capaz de ir.

~CC~



segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

6 de dezembro

 

Foi um dia emocionante aquele de há dez anos atrás.

O que começou por ser uma obrigação para poder ter emprego acabou por ser uma viagem incrível, mesmo que com momentos de dor. A tese lá está num repositório qualquer, não fora saber que ainda a dão a ler no curso de doutoramento e a o convite ano sim, ano não, para falar sobre ela, e acharia que era mais um nado morto a habitar a imensa estante da literatura cinzenta. E a surpresa do prémio, logo para mim que me achei, naquele lugar em específico, sempre a menina da fila de trás.

Como todas as provas de superação, deixou marcas. A primeira a saber que posso efectivamente superar-me, aventurando-me para muito longe daquilo que eram as outras formações que tinha em vez de ir colocar o pé em terra firme. Uma pequena loucura. Outras marcas positivas: a tua ajuda incondicional, foi certamente, na altura, uma prova de amor; as pessoas que vieram junto, uma trupe de gente que ao longo dos anos consolidou a sua amizade, umas mais, outras menos, ocuparam o meu coração numa altura em que achava que já não faria novos amigos. As marcas menos positivas: definitivamente a academia pura e dura no seu sentido mais clássico não é o meu lugar, falta-lhe aventura, arrojo, deslumbramento. 

~CC~

Nota: obrigada por me lembrares.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Pergunta difícil

 

As noites mais longas de Inverno são difíceis para os mais velhos, a minha mãe baralha as horas e pensa que já é muito mais tarde, sobra-lhe mais tempo e torna-se mais sombria.

Talvez por isso, no tom zangado que os 93 podem ter, me tenha feito a pergunta: o que faço eu aqui? Para que é que estou neste mundo?

Comecei por lhe responder: é uma pergunta que todos podemos fazer a nós próprios. Não foi resposta que a satisfizesse, filosofia a mais. Aos 93 já não se aceita que as perguntas não tenham resposta.

Então cheguei-me bem perto, olhei para ela e ocorreu-me a resposta: estamos aqui para fazer companhia uns aos outros, é para isso que estamos aqui.

Ficou muito calada, quase pensativa...e disse: é verdade, lá isso é verdade.

Vamos ver até quando a resposta lhe servirá.

~CC~



terça-feira, 30 de novembro de 2021

Teoria de Café

 

Gosto das teorias de café. Quando alguém decide que tem algo fantástico para explicar aos outros. Ultimamente já não há muito quem o faça. Antes das influencers, dos livros de auto-ajuda e do comentador especialista ou tudólogo eram estas as filosofias que tínhamos disponíveis para nos apoiar a destrinçar as coisas importantes da vida. O meu pai terá sido certamente um deles, lembro-me de o ver muitas vezes rodeado de pessoas.

Vejamos, como diz o senhor, porque se joga tão mau futebol hoje em dia. Alguma vez se conquistou qualidade sem quantidade? É a pergunta que ele deixa no ar. Os bons teóricos de café fazem perguntas antes de darem a resposta. Ninguém ousa responder, pelo contrário, ficam naquele silêncio de espera. O que fazem hoje as crianças quando o professor falta? Dantes (no seu tempo) a primeira coisa que se procurava era uma bola, agora é um telemóvel. Se não se pratica, como podem despertar talentos?

Embora não seja capaz de ajuizar a relação de causa-efeito estabelecida dada a minha diminuta atenção ao desporto em causa, algo ecoou em mim. Às vezes penso porque tenho tanta necessidade de voltar à Africa, esse apelo. Uma das razões são as crianças, não apenas por serem muitas, andarem em bandos em completa autonomia mas também pelo modo como brincam, pela alegria que nisso depositam. Como dizia o filósofo do café deste sábado, neste país, com tanta coisa bonita, ainda com fraldas já os pais usaram o ecrã do Telemóvel ou do Tablet como se de um brinquedo se tratasse. Contudo, a minha preocupação não incide como a dele na qualidade do futebol, antes na qualidade de outras coisas, nomeadamente na capacidade de entrar em relação.

~CC~




segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Campo de tremocilha


Gosto de tartarugas, do modo como sabem fechar-se na carapaça para se esconder do mundo, nada pode doer ali dentro, escondidas em si desligam de tudo e resistem.

Ao contrário delas, sempre senti a pele exposta, hipersensível, durante anos tive que usar anti- histamínicos para que ela pudesse suportar a aragem do vento, o frio da água, a rugosidade da areia. E ao mesmo tempo tudo me doía cá dentro.

Agora aprendo, sinto que sou capaz de usar a carapaça, não é ainda algo natural, é ainda um acrescento, algo que coloco para me defender, para não doer, para prosseguir. Mas resulta: amortece, defende, filtra. Preciso muito de paz, sinto que é o meu corpo que a pede. Quando começa a doer, fecho os olhos e é como se me deitasse num campo de tremocilha.

~CC~


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Tanto mar

 

Dois minutos depois de a ouvir falar eu já tinha colocado açúcar no meu modo de falar e me tornado uma moderadora muito mais doce. Depois da segunda comunicação em Português do Brasil eu já controlava a ferros o "né" que estava prestes a sair no final de cada frase. Quando acabou, suspeito que os colegas de Lisboa e Portalegre ficaram confusos sobre o lugar em que a moderadora se encontrava, quem era e o que fazia afinal ali. E tudo deve ter ficado pior quando terminei afirmando "um dia quem sabe tomamos um cafézinho juntos". Devia reformar-me antes de confundir lugares, pronúncias e horizontes. 

~CC~


terça-feira, 23 de novembro de 2021

Pesadelo

 

Tive um pesadelo esta noite. Um corpo chegava-se mais e mais a mim dentro da cama e eu afastava-me em total silêncio, queria protestar mas não conseguia, acordei na queda iminente. 

Há muito que me sinto a pele é como uma muralha que ergui, logo eu, que antes estremecia a qualquer toque, chegava a sentir-me febril. 

~CC~

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Sair por aí


Sou uma turista anti turista, enquanto eles fotografam a torre da Quinta da Regaleira, eu perco-me pelos tons de verde, castanho e amarelo desta natureza viva e deslumbrante. Só devemos ir a Sintra no Outono ou no Inverno, só aí podemos aspirar à magia do nevoeiro, da chuva, dos azuis mesclados do céu. Cada lugar tem a sua estação.

Também gosto de flores hibridas, a meio caminho entre flor, cacto e planta. As flores muito belas são sem história, demasiado óbvias, excessivamente conhecidas e facilmente amputadas do seu meio ambiente natural. 

Finalmente parei e respirei e, sobretudo, aspirei a alegria que reside nas promessas que a nós próprios fazemos e raramente cumprimos. E afinal é tão simples sair quase de mãos a abanar, deixar tudo em casa e ir por aí à procura da beleza que resta, saber que ao regressar no dia seguinte somos um coração lavado e brilhante.

~CC~


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Não tarda é Inverno, esse lugar que me assusta.

 

O tempo acelerou vertiginosamente. Mal dou pelos dias, de tal forma são rápidos, as horas nunca me chegam para as tarefas e tenho saudades de caminhar. A cada semana que termina, penso que na próxima será diferente mas há sempre uma emergência a agigantar-se e a interpor-se. Estas noites que de repente começaram a chegar tão precocemente ainda me baralham os sentidos. Não tarda é Inverno, esse lugar que me assusta.

Mas também é verdade que há sempre um momento realmente bonito dentro de cada semana. Na que passou foi com o filme "Três Andares" do Nanni Moretti que é um gigantesco edifício de ternura e redenção. Na terça, os vossos abraços, sempre um aconchego. Ontem, a tertúlia literária em torno do poema do José Luis Peixoto que me ensinou a perdoar todos os livros que emprestei e nunca me devolveram. 

Vou encontrando uma chave e depois outra e abrindo com ela uma coisa e bebendo essa luz.

~CC~




domingo, 14 de novembro de 2021

És já um ser vitorioso e luminoso

 

Um dia talvez possas saber como é o nosso coração poder bater mais forte por outro/a do que por nós mesmos. 

Saberás o que é esse desejo intenso de que tudo lhe corra bem, acompanhado da impotência de nada poder fazer (ou muito pouco) para que tal aconteça. É um contraste quase doloroso entre um bem querer tão absoluto e consciência do limite da nossa intervenção.

Este querer não é apenas do sangue ou do vínculo umbilical, não é apenas a matéria do que o tempo edificou e construiu em relação, é também já o que conquistaste da minha admiração como ser humano que és. Por isso, importa o que vai acontecer, mas ainda assim independentemente do que aconteça, tu já és um ser vitorioso e luminoso, se consideramos que a vitória é persistência, coragem, garra e vontade. O resultado é apenas uma parte, a caminhada é que nos diz.

~CC~


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Digo-me

 

Tenho vindo a adquirir muito lentamente a capacidade de dizer que não, de retroceder, de inverter a marcha.

Uma aprendizagem lenta que tenho a certeza que se adquirida mais cedo teria trazido mais luminosidade à minha vida. Escuto-me e sigo mais a voz que de dentro me diz não queres ir, não vás. As coisas que já fiz por obrigação, muito, muito além desse trivial que é limpar a casa ao fim de semana.

Diz-me o coração para parar e ir espreitar o estuário. É alimento, como pão.

~CC~


terça-feira, 9 de novembro de 2021

Terceira dose

 


A funcionária do centro de saúde em que a mais velha foi tomar a terceira dose não precisou das lições do Almirante para dominar com mestria a fila, as cadeiras, os papelinhos assinados e a ordem de entrada mal a porta do gabinete de enfermagem se abria. As enfermeiras nem vinham cá fora, ela tudo ordenava, sem grandes salamaleques mas com voz audível, bom humor e, sobretudo, competência. Às 11h20 era a hora marcada, tomou-a às 11h25m. Nenhum caos, nenhuma alteração ou confusão, tudo preciso, ordeiro e cordato. Apenas duas senhoras falavam pelos cotovelos, não se viam há dois anos, ela apenas brincou com elas, pedindo para falarem um pouco mais baixo.

Já agora aumentem-lhe o salário, não deve ganhar mais que o ordenado mínimo, sem direito a prémios nem holofotes.

~CC~

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Arrefecimento nocturno


O arrefecimento nocturno parece chegar abruptamente mal o sol desce. O arrepio de frio que traz é o mesmo que se sente naquele minuto que irrompe um dia normal ou mesmo luminoso, uma sombra em que aquilo que nos falta se engradece para se apresentar como um tudo, mesmo que  seja só um pequeno nada. 

Ainda assim é mais fácil vestir o casaco do que preencher aquele buraquinho negro que ficou ali a querer afundar o coração no vácuo.

~CC~

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Abraço

 

Dia de regresso à Catedral da fragilidade maior. Para onde foram as maravilhosas orquídeas? Tudo me parece agora mais despido, menos exuberante, menos luminoso, será que a passos largos se caminha para a tristeza que enche todos os hospitais?

Uma pontinha de saudade do meu médico intensivista, apeteceu-me subir para lhe dar um abraço. Mas contive, se todos o fizessem, que seria dele?! Ficaria afogado em abraços.

Poderia antes tê-lo dado aquele homem perdido, sozinho, confuso. Primeiro fiquei perplexa pois o médico dizia bem alto que tinha que ser operado com urgência, no máximo dentro de uma semana. Só depois percebi que ele nada entendia da nossa língua. Em Londres, em Londres, repetia ele às múltiplas perguntas sobre o cardiologista. Além do mal que o tinha levado até ali, também o seu coração fraquejava. Mesmo assim estava sereno, sem uma lágrima, respondendo a cada questão do médico com voz cordata.

Como é que alguém está sozinho numa situação daquelas? Como é que não há imediatamente alguém que se mobiliza lá dentro para o amparo, o cuidado? Toda a conversa médico-doente se resumiu a dados médicos, percebo a emergência e a incidência, mas o ser humano que vive naquele corpo, a quem pode recorrer? Até compreendo que não seja o médico/a a ligar-se a essa componente, sob pena de se deixar enlear em múltiplos sentimentos que o podem desfocar do essencial, pelo menos aqui, num lugar altamente especializado. Mas cada vez me convenço mais que outros profissionais deviam também residir nos hospitais, desses que podem dar abraços.

~CC~



segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Call Center

 

O último contacto que ligou por parte do banco perguntou-me se eu tinha sonhos e queria concretizá-los. Não é uma forma original de perguntar se preciso de um empréstimo bancário?! Como eu lhe respondi se queria falar de sonhos ou de dinheiro e ele respondeu que estavam ligados, retorquindo eu que não necessariamente, ficámos para ali a falar. 

A moça que ligou esta Sexta indagou se tinha muitos espelhos em casa. Espelhos? A que propósito combinam com uma rede de Internet em permanente baixa? Combinam sim, disse ela, mas as pessoas não sabem. Tinha um sotaque do Norte que achei particularmente engraçado, gosto de sotaques, mostra-me que o país é maior que o meu quintal. Concordou que tendo apenas dois espelhos em casa não devia ser esse o motivo. Ficámos quase amigas.

Assim sendo, desisti de os colocar na lista vermelha dos "não atender". Além de que como tenho visão telefónica, vejo os cubículos dos quais eles ligam por um ordenado por certo baixo, pressionados pelo que nos têm que vender. Embora nessa última parte eu não possa ajudar muito.

~CC~


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Pura poesia

 

A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos

Não deixem fugir se passar perto de vós, não obstante o filme ter asas. Vão sem pressa, prontos para se deslumbrarem por uma história que por ser banal (quantas famílias há no mundo assim?) é ainda mais bela e comovente. Apesar da morte estar sempre a rondar, é uma homenagem à vida e certamente às mães, palavra pequena e tão maior, dita em tantas e tantas línguas.

Os prémios são bons e ela irá certamente ganhá-los, mas merece é cinemas cheios de gente.

~CC~





quarta-feira, 27 de outubro de 2021

...para combinar com o debate parlamentar

 

"A deputada Ana Mesquita sobe à tribuna, leva uma saia vermelha e tem também uns quantos cabelos vermelhos, é a cor do partido."

(ouvido hoje na Antena 1)

Não sei se era poesia, crónica de outfit ou todo um novo modo de relatar os debates parlamentares. Certo é que foi a única coisa que me fez rir entre tanto drama de faca e alguidar e mais uma ida às urnas em agenda. 

~CC~


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Fotossíntese

 

Às vezes doem-me bocados de mim, uma veia  que fica a latejar durante dias, um ombro que parece querer sair do corpo, uma pontada no lado direito que alterna com o lado esquerdo por baixo das costelas. Os ouvidos não suportam gotas de água nem ruído excessivo, tornaram-se mais sensíveis, assim como os olhos que mal o sol desparece teimam em ficar com sombras.

Luto contra o meu corpo para não sucumbir às maleitas que tentam travar-me uma vida em pleno. Mas às vezes acho que não é só com o corpo que travo a maior luta mas também com as dores interiores, mágoas que ficaram e que sobraram das relações, sejam de amor ou amizade, todas elas, com destaque para as mais recentes. Não gosto quando essas mágoas se aprofundam e se tornam rancor, uma espécie de ódio pequenino que é um veneno lento, conheço-lhe o sabor com que me amarga a boca.

Quando me apercebo que o deve-haver está a ganhar espaço, penso em cortar com ele radicalmente, ligando, por exemplo, a um amigo/a que quase nunca liga ou em marcar um café com outro/a que nunca manifestou saudades minhas, não me ligou a saber como tinha sido o resultado de um exame médico ou nada disse no longo Inverno. Ir comentar a um blogue que nunca me visitou ou não visita ninguém. Levar uma prenda a quem não as dá, mesmo que seja uma pequena graça. Creio que isto assenta, talvez na ideia falsa de que a mágoa interior não tem a força do sismo que tudo abala mas a persistência do pequeno sismo que insistentemente vai abalando e destruindo. Nem sequer é generosidade, muito menos o voltar da outra face a quem nos dá a bofetada. É em prol de mim própria. Trata-se de tirar cinco minutos para ser árvore recebendo o sol e fazendo a fotossíntese.

~CC~


sexta-feira, 22 de outubro de 2021

O poder sem rosto

 


Aqueles que na sombra constroem o poder, que nunca expressaram que o desejavam, são, dizem eles, pressionados por massas anónimas que os desejam, os empurram e os apoiam. Quase sempre gente sem ideias, potencialmente maus líderes, pois quem interpreta vontades anónimas e por elas se movimenta, não tem lá dentro um coração a pulsar fortemente por uma ideia de mundo, de país, de instituição.

Tenho assistido muitas e muitas vezes a este poder com rosto alheio.

~CC~

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

São só perguntas

 

O que dói mais?

Deixarmos de amar alguém ou alguém deixar de nos amar? 

E quando acontece é de uma vez só, como um corte, ou vai acontecendo? Ou das duas formas?

Idealmente devia ocorrer ao mesmo tempo, dois barcos afastando-se mais e mais, o mar de permeio a unir e a distanciar, um adeus leve cheio de vento e ternura. Há despedidas assim? Ou há sempre dor, mesmo que amortecida, daquelas que se transportam sem exigir medicação ou consulta?

Eu só estou aqui a perguntar, nada mais. 

~CC~


 


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Há um moinho para o estuário

 


O lugar é belo. Há um moinho para o estuário onde tudo acontece. Não é bem dentro do moinho mas numa casinha de pedra recuperada.

A formadora, uma amiga de muitos anos que investiu a sério na sua formação. Nada como eu, uma salta pocinhas que gosta de espreitar (quase) tudo.

O Sociodrama é um trabalho com o teatro cujo objectivo não é a produção do espectáculo, uma técnica que o usando serve o conhecimento de nós próprios, dos outros e nos coloca a pensar sobre o mundo em que vivemos. Tardes desafiantes para pessoas que se desafiam. 

~CC~


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Lugares amados


 Tanta gente outra vez. Felizes por estarmos juntos, fecharmos os olhos para respirar a beleza, bater as palmas e sentir que o som é forte, outra vez forte.

~CC~

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Daquela cor

 


Se eu pudesse encontrar esta cor que torna as árvores intensas, macias e quentes...pintaria com ela os meus cabelos para combinar inteiramente com este Outono. Mas só conheci pálidas comparações em cabeças ruivas saídas do cabeleireiro, nada que se lhes compare nas matizes, nuances e sombras.

~CC~


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Regresso

 

Pelas dores que sinto com a semana ainda a meio, já sei que o ensino presencial me toma todo o corpo numa vertigem, isso é uma enorme diferença e para melhor. Ainda assim, sinto falta de andar descalça. E a máscara, que sufoco.

~CC~


sábado, 9 de outubro de 2021

As manhãs do Dragão (II)

 

Tomei muitos banhos na cascata, ensaboando cada parte do meu corpo e um dedo de cada vez. Não estava fria a água imaginária.

Depois ele disse que eu era a única que ainda não sabia andar mas hoje ia experimentar. As coisas que uma pessoa pensa que sabe e não sabe. 

E assim foi, colocou-se bem à minha frente para me ensinar a andar. E claro que me atrapalho, andava muito mais depressa que todos os outros, quando dava por mim já tinha ultrapassado o da fila da frente. Como é difícil fazer tudo devagar.

Relativamente à geleia real é que não alcancei, diz que a abelha rainha vive quatro anos, enquanto as outras vivem 90 dias, vejam o poder do alimento. Deve ser uma lição sobre alimentação mas fiquei à margem, ainda reprovo.

No mais esforço-me com gosto, talvez mereça ficar.

~CC~


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Voltar

 

A pressão externa tem dois sentidos inversos.

Dia sim, dia sim, liga-me uma colega a dizer para permanecer em teletrabalho, sou da instituição a única que na lei actual o pode fazer, parece-lhe incrível que podendo eu beneficiar disso me vá potencialmente misturar com um vírus que pode matar. Já a Direcção da instituição aplaudiu sem reservas a minha decisão de voltar, engrossando a fileira dos que dizem que escola só pode ser inteira se for presencial (da qual só em parte faço parte).

Tento traçar o meu próprio caminho entre dois sentidos tão opostos, não me identificando nem com um, nem com outro. É para mim claro que não quero viver com medo, se ele nos protege também nos aprisiona. É também para mim claro que a escola, com as condições atuais de turmas com muito mais de 30 estudantes  é um risco grande (não tenho dúvidas que o Ensino Superior é hoje o novo Ensino Secundário, para onde se vai sem pensar, como caminho que se tem naturalmente que fazer). Há ano e meio que não lecciono presencialmente, o aperto no coração é grande, misto de emoção, de medo, de força.

Tento pensar a primeira vez de qualquer coisa é sempre um arrepio, é frio e é suor. Só depois sabemos.

~CC~


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Des(conversando)

 

Também não me importava de colocar no roteiro dos meus fins de semana uma ida à Gardunha.

Ali na cozinha já há maçãs casanova, as minhas preferidas, como já disse, ainda que elas nada me digam sobre o pecado original. Só posso dizer que se houve pecado e é aí a nossa origem, foi bem dada aquela mordidela na maçã.

A música dos campos de morangos também me parece bem, embora não medrem todo o ano, já alguns que teimam em arrasar com o ciclo das estações. Se calhar também é por isso a água salgada neste Outono tem uma temperatura melhor do que no Verão, o que não sei se me alegra ou se me entristece. É bom se fechar os olhos e não pensar em mais nada, é mau se pensar no futuro, no mar que avançará sem contemplação por esta estreita faixa a que chamamos país.

Os ouriços dos castanheiros são uma obra prima da natureza.

~CC~



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Estranho mundo

 

Ainda estranho o mundo como ele é agora.

No dia dos meus anos a primeira mensagem de parabéns que recebi foi do banco, pouco passava das oito. Recebi dois postais por e.mail, um do sindicato, outro da presidência da minha instituição. Só os mais chegados ligaram e ouvi-lhes a voz, grande parte da família usou apenas o whatsapp. Três ou quatro lojas ofereceram-me vales de aniversário desde que lá adquirisse um bem de x valor. Somos cada vez mais um lugar na rede, potencialmente um comprador/a de alguma coisa.

Não é de admirar que cresçam os retiros, não fosse essa paz ela própria paga a peso de ouro,  alumiada a velas e adornada com cânticos místicos e eu lá estaria.

~CC~

sábado, 2 de outubro de 2021

Outubro

 

Outubro deu-me uma mão suave, salvando-me da corrente.

Nunca achei tão doce a sua luz dourada, seja no jardim ou junto ao mar. Preciso que o frio chegue devagar e que a chuva não bata forte. Se a transição for lenta, irei habituar-me e também eu largarei mágoas, saberei estar limpa e nua para enfrentar o futuro. Preciso da sabedoria das caducifólias.



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Dia de cinema

 

No regresso ao meu querido cinema.

O homem repete-se mas achamos sempre graça. 

E desta vez a homenagem aos filmes e realizadores da sua vida, nessa pintura a preto e branco dentro do filme, é de uma grande candura. Foi o que mais gostei, talvez pelo desafio em reconhecê-los, confesso não adivinhei todos, mas uma parte significativa sim. 

Além disso, há outra coisa nele muito interessante. Ele acha que um homem pode ser feio e desajeitado e atrair mulheres pelo brilhantismo da sua capacidade intelectual, é temática repetida em muitas das suas obras. Parece-me bem. Tenho pena que não crie também mulheres assim, são sempre lindas e meio tolas ou vítimas. 

~CC~

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Saldo incerto

 

Eu e esta casa estivemos sós durante muitos dias neste último ano e meio. Contei pelos dedos das mãos as vezes em que jantei ou almocei aqui com alguém. O mundo abria-se sobretudo por um écran, primeiro com gosto, depois com cada vez menos. Cheguei a um ponto que quase odiava ter que levantar a tampa do portátil. 

Nestes últimos dias abri a porta várias vezes, entrou aqui mais do que uma pessoa. Abracei-as, perdi o medo dos abraços

Depois as pessoas vão e a casa ainda lhes guarda memória e gosto de a sentir assim.

Ainda há alguns amigos que me falta abraçar, anseio fazê-lo, preciso de ter a certeza que não os perdi com a pandemia. Não sei se as pessoas já se permitem fazer saldos ao que perderam ou ganharam. O meu saldo é ainda incerto e não sei se algum dia o acertarei. 

~CC~


sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Das travessias

 

O riacho eu atravessava com grande facilidade, até me sabia bem uma pedrinha ou outra no caminho, num instante alcançava feliz a outra margem. Com o rio a tormenta era um pouco maior, mas com os pés no chão, a correnteza não me atrapalhava o suficiente, até me estimulava. Com o mar tudo se tornou diferente, às vezes tentava mas a meio desistia, mesmo quando fui buscar um barco para alcançar a outra margem, o esforço dos remos cansava-me tanto que não conseguia apreciar o lado de lá. Quando se tratou de atravessar o oceano, bem sabia que podia apanhar um navio, mas era demasiado longe, demasiado esforço, para além de que do lá de lá já ninguém sorria e acenava a incentivar-me, apenas havia uma sombra, difusa na paisagem.

Agora deixo-me ficar aqui em terra, sem travessias, horizontes ou chamamentos. 

Faço café de cafeteira e aconchego-me. Talvez envelheça.

~CC~

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Eixo Norte-Sul

 


Ela marca o seu lugar no Norte, fala com deuses e deusas, veste-se de branco para passear junto ao mar, embala as sementes que deita na horta enquanto recebe conselhos dos mais velhos e tem na cozinha uma chávena de chá e um cheiro a bolachas feitas pelas suas próprias mãos.

Quando chove ela vem para a rua e sorri.

Também nasceu hoje.

~CC~


(Um abracinho bem forte da menina do Sul)

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Emparedadas

 

Viviam aqui trinta e três Clarissas emparedadas.

As crianças fazem um trejeito de espanto. Já eu estremeço dentro da palavra. Totalmente impedidas do contacto com seres humanos que viviam fora do convento. 

A guia da visita sugere que o faziam voluntariamente. Mais à frente vamos percebendo que essa escolha seria, contudo, fortemente condicionada. Curiosamente pela abastança e pela pobreza. Os nobres impediam assim a divisão e dispersão da fortuna da família e ganhavam os bons ofícios de Jesus, os mais pobres livravam-se de mais uma boca. Partilhariam mesa de refeitório, mas cada uma com a sua própria loiça. No prato de porcelana de uma, porém, se colocaria, em dias de festa, a mesma carne que na loiça de bairro de outra. Tradicionalmente duas vezes por ano chegaria a cabra, o borrego ou o porco, oferecidos.

A grade do coro alto impede que as vejam quando o padre vem dizer a missa e elas permanecem ali, as 33 juntas num rectângulo pequeno, invariavelmente de pé. Por uma pequena abertura onde só lhes cabe a mão recebem a hóstia. Consagrar o sofrimento a Jesus não impedirá que o sintam, dá-lhe apenas um destino.

Trinta e três mulheres como a idade de Jesus. Contudo, não creio que ele desejasse as mulheres emparedadas. Os não alinhados referem que consagrou Maria Madalena apóstolo como eram os outros. Estremeço mais uma vez, mas desta vez pela comparação com aquelas mulheres lá longe que hoje, como há mais de quinhentos anos, um regime religioso quer emparedar.

~CC~


Bem no centro, a grade do coro alto,


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Outonar

 

Duvidei quando me disse que o pão durava seis dias, não criava bolor. Foi por acaso que parei à porta deles, em todo o Sul não têm uma única loja. Parece que recuperam receitas antigas e usam massa mãe. Contudo, a loja é um mimo moderno. Estas conjugações interessam-me, como é que podemos conjugar coisas, recuperar o bom que perdemos com coisas que a modernidade nos trouxe.

Certo é que já lá vão três dias e o pão parece igual ao primeiro dia. Tem um toque azedo que adoro, o pão tem naturalmente esse sabor, se não lhe acrescentarem açúcar como acontece em muitos, muitos casos. Experimentem olhar para a composição do pão comprado no supermercado. E nem todas as padarias são muito melhores. Fazer pão em casa também é uma boa opção, como aliás fazer quase tudo o que pudermos. Mas falta-nos tempo, às vezes paciência.

Certo é que o pão azedo com o doce de ameixa que a amiga fez e nos trouxe num frasquinho tem todo um outro sabor. Hei-de também experimentar fazer marmelada para combinar com a entrada no Outono. 

~CC~

sábado, 18 de setembro de 2021

As manhãs do Dragão (I)

 

Em quase tudo esta aula foi diferente da anterior.

Não desenhámos animais no relvado.

Mas fiquei fascinada pela forma como as mãos são autênticos poemas que temos que construir, por este bailado lento em que lançamos o corpo no ar azul e o trazemos para dentro de nós.

E o silêncio, o silêncio absoluto em que o grupo consegue estar. Praticamente só mulheres, como sempre.

Emocionei-me, não pensava que tal me acontecesse.

~CC~

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

No meu cinema

 

Dantes, nessa era pré Covid, o meu cinema era só um. Ainda tenho o cartão de cliente, mas agora praticamente sem carimbos. Tenho-me resignado ao cinema em casa, quatro canais de cines têm ofertas que cheguem para o meu tempo disponível.

Nessa pesquisa cheguei a Jojo Rabbit, um filme de 2019 que não cheguei a ver no cinema. É muito bonito, daqueles filmes que não se esquecem como o Cinema Paraíso ou a Vida é Bela, com aquela candura que só a infância e a entrada na adolescência têm. Registei um maravilhoso diálogo (entre tantos que o filme tem) entre uma adolescente e uma mulher, que tendo perdido uma filha daquela idade, lhe diz o quanto gostaria de a ver tornar-se mulher.

"- O que é uma mulher?! Não sei nada sobre isso...é beber vinho?

- Sim, bebes...e champanhe se estiveres feliz. Conduzes um carro se quiseres, tens diamantes, aprendes a disparar uma arma, viajas para Marrocos, arranjas namorados...e fazes com que sofram. Olhas um tigre nos olhos...e confias sem ter medo nas pessoas, ser mulher é isso!

- Como sabes que podes confiar nas pessoas?

- Confiando nelas!

- E todas essas coisas, fizeste-as?

- Não...nunca olhei um tigre nos olhos."

E acrescento eu, assim se vê que ser mulher é uma obra tão maravilhosa quanto inacabada.

~CC~


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Cidade em silêncio

 

A cidade está quieta e vazia, em contraste com outras cidades que hoje pulsam normalmente.

É um silêncio de que gosto tanto.

Outros vazios fazem ruído.

O som das despedidas, por exemplo, é um aceno que fica a ecoar como um zumbindo que só desaparece depois de sobre ele o tempo cair. Às vezes as pessoas choram, quando não o fazem é ainda pior, ou não conseguem ou já não há lágrimas dentro delas, só sombras.

Hei-de ir beber o silêncio do dia de hoje na minha cidade.

~CC~

terça-feira, 14 de setembro de 2021

E gosto de Dragões

 

Acreditei há 10 anos atrás que o meu corpo estava a ganhar peso, a ficar flácido e inevitavelmente feio. Todos me diziam que o exercício era a chave de tudo, uns recomendavam logo máquinas forte e feio, outros caminhadas ou corrida, os mais esotéricos o exercício que juntava corpo e mente e os mais fanáticos e endinheirados um PT à altura.

Pilates era a grande moda, diziam maravilhas. Lá fui. Tinha uma dor tremenda nas costas no final de cada aula mas acreditei que passaria. Mas o pior era mesmo o facto de nos pesarem todas as semanas, como se fossemos gado para levar para a feira, marcavam num cartãozinho o peso, quando alguém perdia um quilo tinha direito a uma maçã afixada num quadro onde todos pudessem ver. Achava aquilo uma devassa e uma coisa ridícula. Pouco durou.

Depois fui em busca do meu interior em posturas mais controladas e amigáveis. Conheci uns três ou quatro professores de Yoga, da primeira só me recordo da sala na penumbra e de como o incenso me fazia lagrimejar e do meu silêncio a cada mantra. Do Yoga meditativo pós doença oncológica nem quero falar, que esforço tremendo para não dormir. Por fim acertei na professora mas não no sistema. É verdade que yoga num ginásio normal não tem velas nem mantras demorados mas o sistema de senhas deita tudo a perder. Se chegamos uma hora antes temos de certeza lugar na aula mas ouvimos uma hora de música de ginásio, trata-se de um impulso motivacional que me desmotiva completamente.Se chegamos 10 minutos antes já estão as vagas ocupadas e podemos fazer o caminho inverso, apesar de pagarmos um valor fixo por mês. O mundo do exercício físico, como em geral o desportivo, está tomado pelo capitalismo mais desenfreado que há.

Resignei-me às caminhadas por iniciativa própria mas sabemos que tudo o que não se socializa mais tarde ou mais cedo acaba por perder-se. Claro que há sempre aquelas pessoas muito disciplinadas que marcam objetivos em post-it na porta do frigorifico. Não é o meu caso, por isso, a minha viagem contínua, agora arranjei um esquema informal com esta arte marcial dos bichos, somos um grupo mas não somos um grupo, ele é um professor mas não é bem o professor. Com o meu coração anarquista é capaz de resultar. E gosto de Dragões.

~CC~







segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Não há Setembro...

 

Não há Setembro sem uma primeira chuva, uma aragem fresca, uns sapatos fechados. Com o céu mesclado e o anúncio das tempestades chegou a melancolia, quase uma tristeza sobre a pele.

Coloquei Tom Jobim a tocar, na esperança de alojar uma dança, uma alegria no peito, um raio de sol, o coração do carnaval. Mas ele fala excessivamente de amor.

Não é assunto que me apeteça.

~CC~


sábado, 11 de setembro de 2021

Dragões e outros bichos mais

 

Como uma miúda pequena tinha receio da primeira aula. Não me aguentar, não ter jeito, não gostar do orientador/a.

Mas afinal o Chi Kung é uma brincadeira boa, espero que os puristas não me leiam, uso brincar no sentido pleno e cheio da palavra. 

Podemos ser garças, tigres e dragões. Nunca tinha estado num relvado com uma data de dragões, não olhava para os outros, concentrada na minha postura tosca a tentar ser um/a. Ainda não consegui cuspir fogo mas acho que até me daria jeito de quando em quando.

~CC~

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Adeus Senhor Presidente

 

Ele foi o nosso presidente, foi o meu, sem dúvida.

Mas também foi aquele senhor que te deu a cadeira presidencial para te sentares, tu pequenina, com os dois puxinhos mal amanhados feitos por esta mãe tão inapta. E perguntou, já que te sentavas na cadeira, que medidas tomarias como presidente. Não percebeste bem, ficaste calada, com um sorriso tímido.

E no entanto devia haver qualquer coisa mágica naquele assento que fermentou e fermentou, hoje responderias sem receio.

Adeus Senhor Presidente e muito obrigada por tudo. E 25 de Abril sempre!

~CC~


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Letras que voam


 


Há quanto tempo não escrevia um diário. Aqueles cadernos onde nos deixamos inteiros, sem pudor. Não fora essas páginas onde posso escrever sobre a carne viva e em ferida e por certo estaria no divã do especialista ou a viver à conta de pilulas mágicas. Mas cada letra tornada palavra e cada palavra tornada frase é como um pássaro que voa levando um pouquinho da dor. E fico mais leve.

~CC~

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Este céu que me escurece

 

As nuvens, se elas enegrecessem apenas o céu.

Mas não.

Cresceram hoje dentro de mim grandes, grandes, mal me deixando ver o azul que em mim sobra.

E não choveu, nem lá fora, nem aqui no meu peito.

E tão bem que me teria feito. A água arrastaria a zanga e depois disso poderia descansar. 

Obediência é uma coisa que não sei fazer quando não encontro nela uma razão plausível, e a desobedecer sou tão tenaz e dura como uma rocha. E ainda são apenas dois dias de trabalho. Tenho que me salvar, ando a tentar abrir portas e perceber qual delas abre para um campo cheio de estevas.

~CC~

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Tão loura assim?!

 

Domingo na cidade da Ria Formosa, empoleirada a ver os barcos a entrar no canal de acesso à marina, chegam à razão de um de cinco em cinco minutos. Cada um tem uma particularidade, tanto a embarcação como os seus passageiros. É um passatempo que combina bem com um gelado de limão, já que não havia pistachio.

Dois jovens (ou quase) dirigem-se a mim em Inglês mas perguntam se falo Português. Demoro um minuto a processar, normalmente a pergunta não é feita com aquele formato. Será que estou assim tão loura a ponto de me confundirem com uma estrangeira? Ou seria por estar a tirar fotografias com os olhos? 

Dei-lhes a informação que queriam, em português, já que perguntaram se eu o falava, e seguiram caminho. Para a próxima digo que não, que só falo italiano.

~CC~



sábado, 4 de setembro de 2021

Leve

 

A extravagância deste Verão, praticamente a única compra.

Os chinelos de marca, dourados e com cheiro a coco (eterno, dizem).

Não poderei passar o Inverno com eles? Oh, como gostava. Nunca antes os meus pés tinham sido bonitos.


~CC~


PS. Juro que não estou a caminhar para Influencer ou coisa parecida....é apenas a busca da leveza.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Alcomonias

 


As meninas de 4 e 5 anos cantam uma música das Doce no palco, são artistas livres, ninguém as interromperá com críticas ou aplausos. E o sino da igreja a tocar de meia em meia hora deve ser o único que não me incomoda. O senhor que anda de mesa em mesa a avisar do ensaio mais logo detém-se em dúvida a olhar para mim. Percebo-o, não sou daqui mas também não lhe pareço turista. Acerta no meu estatuto. Sei que um dia ele não virá, a aldeia está cada vez mais estrangeira, nesse dia já não virei mais.

Há quem vá para as termas regenerar corpo e alma, eu venho para aqui. Acho que chorei aqui dores várias e recompus-me de notícias más, amores perdidos, horizontes nebulados. Há alguma coisa aqui, um cheiro, um sabor, um ingrediente contido no ar que respiro.

Começou há muitos anos, uma primeira visita em grupo de escola, uma peça representada no interior da igreja com base num livro de um escritor local, que bonito foi. Depois foi o monte da M, um céu inesquecível de estrelas e a água que íamos buscar à fonte. Pouco depois a casa da C, pequenina, mas com aquela mesa no alpendre, com os olhos presos na caruma dos pinheiros e a praia mais adiante, descida ingreme com o mais belo por do sol do país. Agora alugo de quando em quando uma casinha na aldeia, de especial tem zero, mas já a olho como um porto de abrigo. A solidão não dói, por isso talvez não o seja, é apenas a companhia de mim mesma, um tempo só meu. E o trabalho aqui é apenas um part-time, está no lugar exacto em que deveria estar sempre na vida e não no lugar central que ele ocupa. É que ali perto há o mar e isso muda tudo.



~CC~

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Adeus Agosto

Na cidade em que exercemos a profissão é normal nos cruzarmos com aqueles com os quais trabalhamos. Apesar de tudo, pela minha prática de vida itinerante, nem me queixo muito e às vezes até me sabe bem, dá-me raízes que é coisa que me falta.

Mas às vezes há perplexidades. Uma recém diplomada disse-me que tinha feito nova candidatura a uma outra formação e se eu sabia quem era o presidente do júri e os critérios, disse-lhe que eram coisas públicas e onde as podia consultar. Claro que se eram públicas, pelo menos o nome do presidente se poderia saber e disse-lhe.

Ela fez logo cara estranha...que o conhecia sim, tinha sido seu professor. Mas conhecia melhor os filhos pequenos dele, assim como todas as divisões da casa nas quais ele procurava dar aulas sem que a Internet falhasse. Engoli em seco e tomei mais uma vez consciência da tormenta ano e meio de ensino a distância. Acho que nunca avaliaremos bem as consequências. 

E mais uma vez senti a minha própria ambiguidade: a vontade de regresso ao ensino presencial combinada com a ansiedade e o medo das salas pequenas a abarrotar de gente (a maior parte apenas parcialmente interessada em ali estar) e todos só com meio rosto visível. 

Custa-me dizer adeus a Agosto, sempre custou, mas agora mais.

~CC~

sábado, 28 de agosto de 2021

Da medida da cintura

 

Oficialmente de volta ao serviço público de saúde, vulgo SNS. Só coisas boas a dizer, estou a falar a sério.

A consulta durou uma hora e meia (ultimamente no privado era, no máximo, de 10 minutos), devendo-se a extensão à necessidade de construir uma história clinica complexa que estava completamente em branco (a informação do privado não passa para o público) e calma... ninguém estava à espera, uma vez que era a última do dia. Eu já só pensava se ela teria alguém para lhe fazer o jantar ou iria jantar fora e sentia-me mal pelo tempo que lhe estava a gastar por não ter empilhado e datado devidamente os relatórios clínicos anteriores.

A parte melhor ocorreu a meio do tempo. Ela pediu para eu me levantar e tirou a fita métrica do bolso da bata. Perante o meu olhar de admiração, esclareceu que me ia medir a cintura. Pensei mas não disse que não sabia que afinal isto era uma candidatura a modelo. Ela teve graça e disse que era para me fazer o vestido. E depois esclareceu: é que a gordura abdominal é um dos maiores preditores de saúde. E eu fiquei a saber que a julgar pela medida ainda viverei muitos e muitos anos. Agora digam lá se não é bom ter uma médica de família (o resto dos indicadores agora pouco importam, concentro-me neste). 

~CC~

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Para iluminar

 

Estava a tentar classificar os Verões depois da terceira vida, ou talvez quarta, já não sei bem.

Arrumando-os em bons e maus, como quem classifica numericamente a temperatura, a velocidade do vento, a possibilidade de chuva. O parâmetro meteorológico, sem dúvida a ter em conta na classificação de qualquer Verão afigura-se muito insuficiente para dizer da felicidade neles contida. Analiso outros, para concluir o que já sabia, este está abaixo da média.

Contudo, no horizonte, há possibilidade de Verão em Dezembro. Cada um faz o que pode para se iluminar.

~CC~


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Da gaveta branca

 

Primeira limpeza superficial da gaveta da doença.

Nem um terço das facturas foram para o lixo, desisti. Terei que lá voltar mais tarde.

Não quero apurar os valores e perceber quantas viagens deixei de fazer, quantos lugares lindos ficaram por conhecer, quantas cidades, quantos museus, quantos campos de girassóis.

Estou viva sim, nunca deixarei de o festejar. Mas deixem-me lamentar um pouco, quando já não choramos ainda nos resta um suspiro ou outro, um gemido.

~CC~

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

É a família dela

 


Aos 93 anos mantém, nos seus olhos quase cegos, uma luz que é a réstia da sua vontade de viver, e é uma luz que ainda ilumina.

Não tenho dúvidas que a minha força é a herança da força dela. Mais que justo que seja o seu nome a encabeçar o grupo da família.

~CC~

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (XIX)

 

Silly Season era o seu nome. 

Tudo leve, nada sério, notícias sem importância, muito cor de rosa. Quase é possível ter saudades dessa inocência das festas de espuma dos anos oitenta (muito embora nos anos oitenta eu as detestasse).

Este ano, a acrescentar ao boletim diário de mortos e hospitalizados via vírus, há mais mortos, mais dor, mais tristeza.

Incêndios, sismos e agora o Afeganistão. 

Tudo é triste na história dos últimos vinte anos deste país. Mas a minha alma feminina está simplesmente gelada. Se é verdade que nenhuma religião trata bem as mulheres, é também verdade que nos países laicos elas têm em geral a protecção do Estado, coisa que ali desapareceu. E uma coisa é querer viver dentro dos limites dessa religião e aceitá-la, outra é simplesmente não ter outra opção, ser condicionado, não ser livre. Os que os legitimam com base na agora suposta moderação do seu discurso têm obviamente interesses nisso.

Todos estes anos fiz questão de começar uma das aulas de uma determinada cadeira com o discurso da Malala na ONU. Este ano acho que será a primeira aula de todas as minhas cadeiras.

~CC~

Por ora, o melhor que li sobre o assunto.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VIII)


No Km 142 os girassóis secaram todos. 

Tento que o mesmo não me aconteça e rego-me com o resto da água de garrafa que sobrou do dia abrasador. Tento não pensar num planeta sem água potável, pois isso causa-me um grande aperto no coração. E este Verão ele já teve apertos que chegue, tenho de o preservar.

~CC~




sábado, 14 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VII)

 

Um destes dias cheguei à praia e não tinha a toalha. Feitas as contas ao tempo disponível, não valia a pena voltar para trás. Eu até podia sentar-me na areia sem qualquer problema mas não estava a ver como me deitar após o banho, mesmo caminhando, não ia secar completamente. Aluguei um toldo e uma cadeira, coisa que há anos não fazia. Tinha alguma curiosidade em perceber como era, como me sentia.

Experiência detestável a de ter que ficar confinada a um lugar entre outros lugares e demasiado longe do mar. 

Percebi melhor o que já sabia. Gosto da areia, das algas, das pedras. Gosto de mudar de sitio quando os vizinhos não me agradam ou simplesmente porque a maré subiu ou desceu. Não gosto de concessionários nem de pagar para estar na praia. Privatizaram mais e mais os lugares e agora as pessoas que levam o seu chapéu de sol têm que se apinhar nas faixas estreitas que sobram.

E à medida que me penso num novo ano (muitos somos assim, começa em Setembro, não em Janeiro), penso como passei tanto tempo longe do mar, como tem sido isso possível.

E marco para mim própria, nesse novo ano, uma caminhada matinal junto ao mar, todos os domingos, exceptuando os de chuva.

~CC~

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VI)

 

Como será um amormómetro?

Inventaram-se medidas para tudo, menos para isto. 

Aposto que com tantas aplicações no presente, a juntar a outras situadas no futuro que já actuam com base em fluídos químicos e amostras celulares, também inventarão qualquer coisa do género, provavelmente tão destinada a falhar como as que já têm sido tentadas com base em semelhanças, gostos e estilos de vida comuns.

Ainda actuo à moda antiga, o tacteamento interior assemelha-se à costura, à manufactura, exige tempo, paciência, alguma dor.

Ainda assim acho que os mal amados usam todos as mesmas palavras e reconhecem-se entre si.


~CC~




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (VI)

 

No Verão da Era Covid não é mais possível ir a um espectáculo, cinema, almoçar ou jantar em esplanada sem marcação prévia.

Habituei-me a fazê-lo sem muito esforço.

Mas o que fazes no dia anterior pode ser não possível no dia seguinte. Não por mim, se nada houver que à séria me atrapalhe, sou constante nos meus desejos e preferências, não me conheço grandes mudanças de humor ou apetites. Sou do gostar, do querer.

Mas por duas vezes, por outras pessoas, tive que desmarcar. E do outro lado da linha um grande agradecimento, como se o habitual fosse as pessoas simplesmente não aparecerem. Da última vez perguntei se o meu procedimento não era o habitual. E confirmou-se, não, não é. À conta disso duplicam-se lugares vazios em coisas que muito mais poderiam usufruir, sobretudo se são gratuitas e nada foi cobrado pela reserva.

O respeito pelo outro não veio junto com as máscaras.

~CC~




segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (V)

 

Cada vez há menos pessoas a ler livros na praia e nas esplanadas em redor. Lembro-me de ser um utensílio quase igual a uma toalha de banho. Vê-se algumas pessoas com revistas, mas a maior parte lê apenas o écran do telemóvel. E não é pelo peso, os livros são cada vez mais leves e os de bolso transportam-se mesmo bem.

Hoje, na esplanada, apenas eu tinha um livro e lia. Mas não foi a primeira vez. A sensação é a de sermos uma espécie em vias de extinção, mais uma.

~CC~



sábado, 7 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (IV)

 

Muitas vezes me perguntei pela razão do monopólio das bolas de berlim nas praias portuguesas como bolo de praia. É certo que se diversificaram em massas e recheios, numa panóplia para todos os gostos, mas não se acrescentaram queques, bolos de arroz, palmiers...

Até que ouvi no outro dia, em plena praia: framboesas, caixa de framboesas a 2 euros!

E à minha frente passou o vendedor com as caixinhas, juro que não sonhei.

~CC~




sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (III)

 

A senhora está bem?

Mas que diabo podia ver em mim aquele miúdo que nem vinte anos tinha, como podia saber que tinha feito o caminho da praia a deixar que as lágrimas me escorressem pelo rosto. 

É verdade que talvez fosse a única mulher sozinha num bar de praia às 7 da tarde. Mas será que isso era condição de infelicidade? Tantas tinham sido às vezes que o tinha feito sem um resquício de dor. Além disso já tinha limpo os olhos e não sobrava nada ou será que sim, que ainda se via algures a tristeza lá dentro.

Voltou mais vezes, pelo menos umas três, sempre com muito cuidado, muita ternura. Se a comida estava boa, se tudo estava bem comigo e quando saí, ainda veio desejar que tivesse um resto de dia bom. Claro que não tinha tido coragem de lhe dizer que a comida era mesmo má e que mal a tinha conseguido engolir, não sei se pela qualidade, se pelo que restava das lágrimas, se pela suspeita que ele sabia tudo o que se passava comigo.

Fiquei a pensar se agora dão formação de coaching aos empregados de mesa ou se há miúdos naturalmente bons e sensíveis. Certo é que me distraiu plenamente de mim própria.

~CC~



terça-feira, 3 de agosto de 2021

Crónicas de Verão (II)

 

Na cidade velha o calor faz-nos andar pela sombra. Esta parte da cidade é o lugar que mais fala comigo. Se vier cá e não andar pela cidade velha é como se não tivesse vindo.

Dantes não havia quase ninguém, a praia chamava todos.

Agora há gente, a maior parte não habita esta cidade.

Dantes distinguia-os pela altura, cor do cabelo e dos olhos. Agora distingo-os por não usarem máscara.

~CC~


sábado, 31 de julho de 2021

Crónicas de Verão (I)

 

Vi passar o primeiro, um iate branco de grande dimensão, a uma distância razoável da costa.

Vi passar o segundo, bem perto, um barco à vela, como num desenho de infância.

Vi passar o terceiro, uma traineira de pesca, ainda tão distante mas tão perto que ouvia o seu ruído.

E de todos eles, era no terceiro que escolhia ir, passar uma noite à pesca no mar. Devia ter sido na companhia do meu avó, que conheci já mestre terra, depois do terceiro naufrágio.

~CC~

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Peixinho pequeno é para deixar no mar


 Eis um princípio que se podia aplicar a múltiplas coisas em muitas situações.

As meninas que na praia brincavam com a rede de apanhar peixinhos pequenos. Com que prazer diziam que iam apanhá-los. Mas uma contou que no último dia um deles tinha morrido dentro do seu balde e o tinha enterrado e feito um funeral. Nem percebia que tinha sido ela a causar aquela morte que depois tinha transformado num ritual humano. Algures, na sua educação, já lhes deviam ter explicado que os peixes pequeninos são para deixar dentro de água, é tão bom vê-los a nadar na transparência do mar, senti-los a debicarem as nossas pernas. A avó, alheia às meninas, usou todo o seu tempo para o telemóvel, mas foi ela mesma que se zangou com elas quando resolveram apanhar lixo com o camaroeiro, uma actividade, sem dúvida, muito mais preciosa.

O ambiente grita de dor mas uma parte significativa da humanidade está surda e é egoísta. 

~CC~


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Aqui, coração cheio.


Aqui é certamente um dos meus lugares favoritos, não sei explicar como certos sítios nos sabem ao nosso próprio nome. No primeiro confinamento fecharam o caminho e fiquei a respirar muito pior, não é só a doença que nos rouba pedaços aos pulmões. Aqui, coração cheio.

~CC~


domingo, 25 de julho de 2021

É outra vez Domingo

 

Lembro-me deles por ser novamente domingo, mas já foi há uma semana.

Deviam ser entre sete a dez. Calculo-lhes também as idades, entre 10 e 14. Chegaram com umas caixas e umas garrafas de gasosa de litro que passavam de mão em mão. Ocuparam a entrada dos prédios, a sombra dos varandins.  Nesse dia estava calor. Cantaram, riram, comeram e beberam. Ouvia-lhes as gargalhadas. Todos sem máscara. Devem ter tido receio de ocupar um jardim público, só isso explica esta escolha. Ou talvez ser um sitio central na cidade, bem servido de transportes públicos, creio que não moravam por aqui.

Por fim ouvi os parabéns a você, uns dez minutos depois desapareceram como chegaram.

É assim que se faz a festa dos adolescentes pobres da minha cidade em tempos de pandemia.

~CC~




quinta-feira, 22 de julho de 2021

Pequena e transitória, mas ainda assim...

 

Hoje tenho na minha boca o sabor das pequenas revoluções. E é como o gelado da fruta verdadeira, deixa o seu sabor leve e fresco durante algum tempo e até nos parece que com ele virá a mudança, aquela que fica. Mas não sou tão inocente assim. Por isso, só espero para saber o modo transformarão a vitória em derrota e os carrascos em vítimas.

Mas hoje, só hoje, ainda saboreio, ainda rio, ainda festejo a democracia.

~CC~

terça-feira, 20 de julho de 2021

Tapar e mostrar

 

As norueguesas do andebol de praia querem vestir-se mais, ter o direito de não exibir o seu corpo, colocado como isco para patrocínios. Não poderem tapar um bocadinho da perna é uma coisa anedótica.

Durante anos e anos as mulheres lutaram para o poderem mostrar o seu corpo, destapá-lo como bem quisessem. Enfrentaram o preconceito, a maledicência e até houve mesmo quem as culpasse nessa exposição por ofensas sexuais que pudessem vir a sofrer.

Mas no fundo não são lutas diferentes, é só a mesma, o mesmo direito. Estou tanto com umas como com as outras.

~CC~




domingo, 18 de julho de 2021

Coisas de um domingo de calor

 

Poderei chamar-lhes um mal do mundo, ou dois.

Negatividade sem saída nem nada de construtivo que aponte outra coisa ou mínimo futuro, nenhuma ideia de felicidade, quer para si, quer para os outros. São os becos sem saída, pessoas que são assim. Estamos com eles e não há um comentário bom, um elogio, uma luz no seu sorriso.

Positividade sem realismo, falsa ingenuidade e felicidade artificial, alicerçadas em teorias do tudo e do nada, se é que se lhe podem chamar teorias, a maior parte das vezes são apenas conjecturas e em nada ajudam à mudança de aspectos decisivos para o mundo e para a própria vida de quem as acarinha. Nem sempre são tontos felizes ou se tem que ser tonto para se ser feliz. Estamos com eles, passa uma borboleta, e é um sinal divino qualquer. 

Não há um modelo de se ser, é verdade. Também não há uma só solução para um mundo melhor.

Mas há coisas que ajudam a viver e outras que não. 

No outro dia tinha um saco com maçãs no supermercado, o saco rompeu-se e as maçãs espalharam-se pelo chão. Houve um senhor que as apanhou uma a uma e ainda foi buscar outro saco e mo devolveu assim, tudo arrumadinho, com uma explicação: sabe, estes sacos agora já não são de plástico, são mais frágeis, não coloque mais que 3 ou 4 maçãs. Achei extraordinário, a atitude, a explicação prospectiva, a generosidade. Nem lhe fixei o rosto, mas a atitude sim.

~CC~




sábado, 17 de julho de 2021

Horta dos Eremitas

 


Desinteresso-me às vezes do mundo, até me dá vontade de me esconder dele e que o seu ruído não possa alcançar-me.

Talvez fosse esse o sentimento mais forte de quem criou na Serra d´Ossa a Horta dos Eremitas. Curiosamente não é uma horta pois nessa há que cuidar, trabalhar, amparar. É só um lugar com árvores junto a um ribeiro, talvez se deixassem ficar por ali, escondidos como às vezes eu desejo.

Como prefiro meditar com os olhos abertos, deixo-me ir, céu adentro, tentando encontrar-me nos abraços doces das árvores.

~CC~




terça-feira, 13 de julho de 2021

Grande amor


 Alentejo, três amores. Um deles, sem dúvida, um grande amor, o próprio Alentejo.

~CC~

sábado, 10 de julho de 2021

Erros meus...

 

Sei que não sou imune à fúria mas controlo-a geralmente bem. E se me domina e me faz inchar o peito e levantar a voz, vem depois uma grande tristeza. Quando julgo ter aprendido quais os conflitos que valem a pena e os que não valem, deixo-me por vezes levar para uma má escolha. Reconheço, contudo, esse dano no interior do próprio corpo e tinha prometido não o deixar maltratar, afinal preciso tanto dele.

~CC~

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Flor amarela

 



Seis anos depois do dia um.

Sete anos se contarmos com aquele em que ainda tentaste outra coisa, mas nem a perspectiva de nos tornares os sorrisos bonitos te convenceu.

Tenho a íntima convicção de que escolheste bem, hoje muito mais do que no dia um, foi isso que me foste mostrando. Estou feliz. No ano dois as coisas complicaram-se tanto que julguei não poder chegar aqui para assistir. E no entanto, sem deixares de estar lá, não perdeste sequer esse ano, estudavas ao meu lado na cama do hospital, outras vezes pousavas os cadernos e víamos filmes. Diz o Fausto que "foi por ela", digo eu que também "foi por ela". É a minha flor amarela, que todo o futuro possa ser dela.

~CC~


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Ainda agora chegou e já está a partir

 

Cinco minutos de dia a menos são cinco alfinetadas na minha alegria, anunciam que o Verão ainda agora começou e já começou a partir. Verifiquem se já não começámos a ter a visita da noite mais cedo.

Ainda precisava de ter aquela sensação de praia até às oito da noite. Parece que vem aí calor, quem pode, é deixar-se ficar a ver o sol em mergulho vagaroso, é tão bom.

~CC~



terça-feira, 6 de julho de 2021

Duetos (II)

 

Comprei uma cafeteira Louboutin, isto é, vermelha por fora e metal por dentro, é linda mas foi barata, por isso como imaginam a marca é um mero devaneio. 

Faz-me uma certa vontade de combinar café com cerejas ou com melancia, coisa que talvez passe depois desta alucinação veranil de cansaço.

~CC~



sábado, 3 de julho de 2021

Duetos (I)

 

A senhora pediu um café com um perna de pau.

Fiquei ali a vê-la a alternar bebericar um golinho de café e dar uma dentadinha no gelado, alheia a tudo e a todos.

Há gente feliz ou que tenta sê-lo.

~CC~


segunda-feira, 28 de junho de 2021

Ainda assim

 

Quantos banhos de sal noutros anos já teria tomado no término do mês das cerejas?

Este ano as cerejas foram muito poucas e banhos de mar nenhum.

Não sei a quem culpar.

O governo é sempre uma boa hipótese. Sobra ainda o tempo (que vento este...), a pandemia, e por fim eu mesma. 

A última hipótese é ainda assim a mais problemática.

~CC~

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Onde estás?

 

São os pequenos sinais.


Diz ela que agora vive com as pessoas mais antigas, nunca se lembrou tanto do pai, da mãe, dos amigos da mocidade. Não sei realmente onde os guardou tanto tempo pois durante muitos e muitos anos nunca a ouvi sequer mencioná-los.


E eu às vezes já tenho momentos assim, logo eu que nunca tive tempo para o passado nem interesse nesse vasculhar das pessoas que já passaram pela minha vida. Sempre achei que se o vento as levou, ele próprio as traria, se fosse caso disso. Nunca perdi um minuto a procurar por alguém, nem mesmo quando a Internet abriu essa caixa de pandora onde muitos mergulharam a fundo.


Mas por vezes, por um minuto, até em coisas do dia a dia, salta uma memória de alguém e com isso uma pena misturada com um ligeiro toque de saudade. Fico a pensar porque não o ou a vi mais, por onde anda e se estará bem. E depois passa, a vida anda muito mais depressa.


~CC~


terça-feira, 22 de junho de 2021

Km 141

 


O mais belo campo de girassóis, como há muito não via, marcou encontro comigo ao Km 141 da autoestrada, sentido Sul-Norte.

~CC~


sábado, 19 de junho de 2021

Intervalo para bailado


Fiquei algum tempo a vê-las desfilar devagar no céu, que belo bailado. Se fechasse os olhos, continuavam a dançar dentro de mim. E pouco depois vi pela primeira vez uma cegonha negra, que majestosa é.

~CC~


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Junho

 

O ferro matinal provoca uma agonia manhã dentro. 

À tarde melhoro e tenho saudades de tudo, sobretudo de ter tempo, de ler, do mar e do cheiro do campo. 

Junho é mês limite, teste à minha capacidade de manter o bom humor e o quinhão de esperança que permite ver futuro.

~CC~


domingo, 13 de junho de 2021

Coloque uma flor

 

É isto.

Uma parede pode estar velha, acabada, gasta. 

Em não havendo tinta, possibilidade de reparo e restauro, há sempre flores.

Dantes não ia a este café e agora vou. 

E de vez em quando ponho uns brincos ou um colar, quem sabe um dia compro um batom.

~CC~


quinta-feira, 10 de junho de 2021

País

 

As memórias antes dos cinco são ténues.

Mas estou certa que entre os seis e os dez saí muitas vezes do carro para ficar de pé enquanto o meu pai fazia continência e os adultos cantavam o hino, eu sabia meia dúzia de frases ensaiadas à força na escola e não tinha nenhum gosto em cantá-las. Era um ritual estranho que a qualquer momento podia acontecer ou então eu não percebia as razões pelas quais acontecia, havia invariavelmente uma bandeira a subir num mastro e um nome de um sítio chamado Portugal ao qual diziam que também pertencíamos, ou pelo menos eram de lá os avós que não conhecia. 

Mais tarde, muito mais tarde percebi que para o meu pai seria apenas o sítio onde viria morrer, regressou como os elefantes regressam depois de uma longa jornada, quando já não têm força para caminhar. Com ele aprendi a amar outros continentes e países que não este, já velho ainda o desdenhava, caracterizando-o como um lugar em que se todas as mesas num café estiverem ocupadas, ninguém convida alguém que está a beber ou a comer em pé para se sentar na sua mesa. 

Nem no leite materno (que não bebi) nem nas palavras paternas que bebi maravilhada até à adolescência encontrei o caminho para gostar deste país, tive que fazer um trilho longo, solitário, com muitas curvas e curvinhas. Só depois de voltar á terra em que nasci, já nos quarenta, é que percebi que afinal o nosso lugar não é forçosamente aquele em que nascemos e vivemos a infância, por mais que isso nos deixe marcas. Hoje sinto que pertenço aqui, que é bom ter um país para pertencer.

~CC~

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Destes dias

 

Aqueles momentos.

Em que o cansaço se extrema a ponto do desmaio quase acontecer, a que se junta a emoção de mais grupo de estudantes a partir. É assim que sabemos o lugar em que mais uma ruga irá começar a desenhar-se. Não obstante o riso irromper por vezes, como ontem quando a administrativa me perguntou se estava à espera para a consulta materno-infantil. Claro que respondi que as avós não costumam frequentá-las, mesmo quando usam um vestido largo.

~CC~


sábado, 5 de junho de 2021

Biblioteca

 

Vejo-te aqui entre os seis e os nove anos. Vejo o que na altura lias e o que lês agora. E vejo-me a mim, as partes em que estava mais feliz do que agora e aquelas em que agora estou mais. Todo este lugar respirava a nossa inocência, era aliás tão inocente como nós. Agora ergue-se um hotel ali no canto, é um luxo a erguer-se entre as casinhas brancas e azuis. Lembro-me de não haver lojas sequer. Agora as túnicas mais baratas custam cerca de 200 euros. Dizem que é assim que os lugares se desenvolvem mas é assim que eles morrem também. Sobrou a nossa biblioteca de pedra, não sei quanto tempo ficará. No meu coração sei que ela durará muito.




quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pronta

 

A minha voz já não treme. Não desvio o olhar. Já não me interessa se gostam ou não de mim. Perdi todo o receio de desagradar e de correr riscos, pelo contrário tenho um imenso gosto em enfrentar os poderes instalados, de desmontar os jogos de bastidores, de colocar em causa o que tem que ser posto em causa, de incomodar, de desarrumar. Sei bem agora qual é o meu lugar e o que vim aqui fazer. Demorou, custou e doeu. Estou devidamente preparada para perder, agora só me falta quem queira perder comigo.

Há lá melhor coisa do que um feliz grupo de perdedores. 

~CC~



domingo, 30 de maio de 2021

Passeio de Domingo

 










Pela minha aldeia de adopção e lugares circundantes, entre a natureza, a escultura, a pintura ou tão simplesmente maravilhada com as bermas dos passeios bordadas pelo vermelho das papoilas pujantes.

Tal como fez o Xilre, uma homenagem a tantos passeios de domingo da Luísa (533?!), sobretudo a última foto, amarelo sol como pontua no seu quintal. Mas aqui sem o azul do seu mar. 

(e coitadito do meu TM, um exemplar que não se presta a grandes fotos).

~CC~