sábado, 13 de abril de 2024

Sopra forte o vento e alto o grito dos pavões

Também ela morava no 20, outro 20.
 

Terra varrida pelo vento. Ela dizia sempre isso, que este era um lugar de vento forte.

Terra lisa de beijos e abraços, pouco a pouco se foi desertificando.

Ainda assim a segurar os laços ténues, os que sobram ou sobraram.

O elevador marcado para o terceiro andar, por hábito da mão, é assim que percebemos que o corpo também regista e ordena. Depois o cérebro corrige. E já corrigiu a curva numa certa rotunda, já não vira em automático para o bairro do quintal com cheiro de goiaba.

O grito dos pavões é aflitivo e contudo parece ter origem amorosa. Desconheço-lhes a idade, sei que a minha parece incapaz de se afligir assim por necessidade de amor, dele ainda há contudo uma inscrição, não sei se mais forte na memória do corpo, se no cérebro ou coração ou nessa junção de todas as partes, dizem que é aí o lugar do eu.

~CC~

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Deixo-te cravos

 

Vou a caminho e comprarei cravos para te deixar. 

Havia tantos no quintal do teu pai, meu avô. É verdade que nem todos eram vermelhos, eram sobretudo mesclados de várias cores, tu acreditavas que o teu pai é que os tinha inventado com misturas de corantes e que antes dele todos eram monocromáticos. Tinhas crenças assim, não valia a pena explicar-te.

Apesar do corte radical das nossas vidas que representou esse Abril de há cinquenta anos, nunca odiaste quem o fez, bem pelo contrário. Claro que lamentavas tudo o que tinha ficado para trás mas compreendias que tinha sido algo inevitável, ainda que te custasse usar a palavra justo.

Posso deixar-te cravos vermelhos porque sabes que são meus e por isso compreenderás a escolha. 

~CC~

terça-feira, 9 de abril de 2024

Apenas e só uma

  


Regresso ao escrutínio que após um ano anterior atípico em que teve carácter praticamente trimestral voltou a ser anual. Deu tempo para a visita se fazer a um novo edifício, ainda a cheirar a novo, pareceu-me excessivamente monumental e com menos verde. Ainda assim reconheceria sempre aquelas linhas tão consonantes com as do vizinho, não obstante a sua beleza senti-o outrora como uma prisão. O aperto de mão idêntico, assim como o meio sorriso, esforço máximo que o clinico consegue, mas após sete anos já lhe perdoei tudo e sei o que posso ou não esperar. 

Acho Abril um mês de esperança e por isso é bom que se mantenha este como aquele em que a visita se faz e que seja apenas e só essa.

~CC~






domingo, 7 de abril de 2024

Tamboril de caril

 

Almocei um tamboril de caril com arroz de coentros. Coloquei a mesa como deve ser. Sentei-me tranquila e com tempo. Ainda bebi meio copo de cerveja-sidra.

Pensarão portanto que cedi por completo à insignificância do que tenho para dizer ou que estou em transição para um blogue de culinária. Quanto ao blogue de culinária, não houvesse trezentos mil e talvez me aventurasse, às vezes a família pede. A sobrinha no dia de Páscoa pediu a receita da lasanha de camarão que acho que inventei. Quanto à insignificância da minha pessoa acho que já disse tudo no post anterior.

Quero dizer-vos da importância da dignidade das pessoas que vivem sozinhas. De como a construir a cada dia. Uma das coisas mais importantes é cozinhar uma refeição completa, não ceder aos cereais, ao pão com queijo, à eterna sopa. Comprar comida, ter comida em casa, fazer comida, colocar a mesa, sentar à mesa, saborear. É verdade que às vezes não apetece e o "só para mim não vale a pena" paira ali algures na cabeça. Eu nem ligo a televisão, fico ali no meu silêncio entre cada garfada, feliz por poder demorar-me. E não acho triste o que tantos acham triste. Talvez por não acontecer sempre, talvez por pensar que se quisesse teria alternativa, talvez por não ter morado bem sozinha e ter por aqui de quando em quando duas borboletas (o A e a A) que muita companhia fazem.

Tamboril de caril com arroz de coentros, ainda pensei arranjar os morangos, mas prefiro a fruta a meio da tarde. O lanche, esse terá amigas.

~CC~




sexta-feira, 5 de abril de 2024

Uma pessoa assim assim

 

Ontem perguntei a uma estudante se podia despedir-me dela com um abraço. Invulgar em mim, desconheço-me ou simplesmente modifico-me. 

Decidiu fazer luto após meses a tentar sobreviver, manter-se à tona. Em três meses perdeu a mãe para o bicho mau. Nunca pensei respeitar alguém que desiste, eu fui treinada para a sobrevivência a todo o custo, para seguir em frente, para empurrar com a barriga. Erros, falhas, fracassos, tudo isso tentei sempre limpar do meu horizonte, batalhar até ao limite do cansaço. Mas hoje tenho consciência de que fui tão longe quanto a minha origem humilde e a precaridade da condição financeira me permitiu e vejo com nitidez mas sem lamentar aqueles que foram mais longe e são mais capazes que eu em tantas coisas no campo profissional. Nunca aprendi línguas como deve ser, nunca fui um às nas tecnologias, sempre me aborreci com referências bibliográficas e manobrei plataformas e folhas de cálculo com alguma dificuldade. Mesmo no uso da língua portuguesa, tenho limitações. Todas estas falhas eram motivos de descontentamento e auto agressão, inaceitáveis.

Mas deixei de me importar, hoje sou capaz de ir ter com uma estudante para a ouvir e lhe dar um abraço, é essa a semente que quero deixar, na certeza que tal não me colocará nunca no topo da carreira.

Vejo no espelho uma pessoa assim-assim, antes seria assustador e agora é confortável. Talvez tenha passado de uma visão anticapitalista do mundo para essa visão aplicada à minha própria condição humana.

~CC~


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Troco campos minados por campos de nuvens ou flores

 

Quando pisamos um terreno minado, é preciso avançar com audácia e cautela. E que difícil é o equilíbrio entre os dois. Vivo muitas vezes assim. São assim os campos profissionais em que muitos de nós se movem. 

E sonho que um dia, ainda em plena terra, poderei caminhar apenas entre nuvens. Ou entre campos de flores. E que não seja demasiado tarde, que ainda possa caminhar com vontade e segurança.

~CC~


sábado, 30 de março de 2024

quinta-feira, 28 de março de 2024

Eu já tudo esqueci

 

Mãe, dizem que é ou vai ser Páscoa.

Mas o que é ela sem ti?

Tu é que tudo sabias sobre o que comer, o que vestir, o que dizer em épocas festivas. Tu é que te importavas com os rituais, mesmo que despidos de fé. Eu já tudo esqueci, só de ti não me esqueci.

~CC~

terça-feira, 26 de março de 2024

É só sobre o incómodo do tempo...

 

A Primavera quis aparecer mas veio cheia de poeira, as plantas e as flores ficaram cobertas dela. Em vez de ficar e nos deixar apreciar a brisa ligeira e o alívio dos casacões, partiu rápido e deixou-nos Inverno de volta. Não era essa a sucessão natural. E aí reside o problema, já não conhecemos o tempo, ele deixou de nos ser confiável. Ele e quase tudo. Já nada parece ser suficientemente seguro, estável, permanente. A volatilidade das coisas traz-nos insegurança e uma dúvida cada vez mais acentuada sobre o nosso futuro e o deste planeta. Podemos encolher os ombros, por certo já cá não estaremos. Mas não fiquem assim tão tranquilos, deixamos cá os nossos filhos e os nossos netos e provavelmente bisnetos, tão humanos como nós. Além disso as tragédias às vezes emergem mais rápido do que pensamos.

Ainda bem que não guardei os casacos nem as camisolas, quem sabe se em Agosto preciso delas. Mas isto é sobre sobre o incómodo do tempo, já por certo sabem que não me dou bem com o frio.

~CC~

domingo, 24 de março de 2024

Abrigo

 

Amizade é lugar de abrigo. 

Nos amigos não mora um laço feito de nervo e sangue, se há sombras elas não doem como no amor ou na família. Vamos e estamos despidos de obrigações e prontos a contar histórias do tempo que ficámos sem nos ver.

Volto a alguns deles por saudade mas também como quem se visita a si mesmo para se encontrar. Devolvem-me quem eu sou.

Outros são novinhos em folha, olhos primeiros. Somos jovens enquanto temos essa coragem de ir ao encontro de quem nos convida para um café, envelhecemos quando nos cansamos e nos inibimos de o fazer, quando deixamos que a impaciência, o medo ou a ausência de curiosidade ganhem. E a falta de tempo, esse mal crónico que nos rouba tanta coisa e que ganha tantas vezes. Perdi várias vezes essa corrida.

Mas a palavra amigo/a é redonda e cheia. Bem diferente de conhecidos ou quase amigos, essas pessoas com quem se troca trivialidades e se passa tempo a dizer (quase) nada, nisso sou de enorme inabilidade. Preciso sempre de avançar para algo que nos diz quem somos e o que sentimos na vida e pela vida. 

Abriguem-me, às vezes faz aqui muito vento.

~CC~




quinta-feira, 21 de março de 2024

O meu primeiro poeta

 

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido…

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
com a minha sede.

José Gomes Ferreira


Era um livro com capa azul e sem nada que revelasse quem era o seu autor, dos muitos que o meu pai deixou para trás quando partiu de Angola e foi para o Brasil, Li-o aos doze anos com a sofreguidão de quem descobre um mundo novo, posso ter tropeçado em algum poema num manual da escola, mas não sabia que existia a poesia e muito menos me tinha ainda encontrado com ela em pleno deslumbramento.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Aprendiz

 

Às vezes uma aula é um campo de batalha e somos encostados à parede como um inimigo. Muita soberba, muita arrogância e muita ignorância. Mas não podemos devolver assim. E custa. Saber sair de lá sem entrar na luta é uma arte e eu sou aprendiz. Se recusamos a guerra e procuramos desarmar em vez de armar, os campos opostos perdem sentido. Pouco a pouco vou conseguindo e cada vez mais.

Como ajuda, voltei às aulas de yoga. Mas meditar é coisa que não consigo e desligar é tudo menos fácil. Aqui nem aprendiz sou, sou quase zero. Tento estancar a minha descrença na espiritualidade e apanhar a parte que eu sei que é boa, aquele bocadinho de paz. 

~CC~

segunda-feira, 18 de março de 2024

Morreu um poeta

 

Morreu mais um poeta e o dia fez-se sombra e há frio dentro do calor. Retiro tempo ao trabalho para ler os seus poemas, era capaz de ficar o dia todo a fazê-lo.

Este poeta era da terra da minha mãe e enchia os seus versos de uma simplicidade aparente, usando muitas vezes a palavra amor, amante e amada. Que belos são os homens que não têm receio destas palavras, agora costumam trocá-las por outras mais leves e menos cheias.

Tenho a certeza que ele gostava de amendoeiras em flor, de gatos e de mar, os seus poemas têm lá dentro essas coisas, são cheios do que o sul deixou nele quando se tornou um homem da cidade.

Foi o bicho maldito, aposto que também militou no calvário dos sem cabelo e mesmo assim perdeu. Só 74 anos. 

~CC~


PS. Adeus Nuno Júdice, prometo ler-te muitas vezes.

domingo, 17 de março de 2024

Renúncia

 

Tão calado, tão reservado. Por isso demorei até te ver. E não me lembro do momento em que os teus olhos estavam a brilhar no encontro dos meus. Depois vi os teus lábios, esses sim, não esqueci. Por algum tempo o desejo de os beijar alumiava os meus dias e ocupava as minhas noites. E lembro aquele jogo em grupo em que cada um tinha que dizer o que tinha encontrado naquele espaço que nos juntava. E tu disseste muito baixinho: o amor. Alguém ficou espantado e perguntou mas não quiseste dizer mais nada, os olhos demoradamente fitos em mim.

E depois renunciámos, acho que primeiro tu, depois eu, ou talvez tenha sido cada um à vez. Às vezes é assim, congelamos o amor, sabemos que não o podemos viver. A impossibilidade reside apenas na certeza de que não poderemos ser felizes sabendo que o fazemos na sombra da tristeza de alguém. Tu e eu erámos assim. Escolhemos a terceira pessoa, a que estava no meio de nós.

~CC~

sábado, 16 de março de 2024

Resistir


Dizia Sebastião da Gama à morte que se ela o viesse buscar não lhe queria dar um morto mas alguém bem vivo para que ela se arrependesse de colher uma flor e uma esperança. Era a sua tentativa de chamar um Deus justo. 

Tento por estes dias lembrar-me disso,  que posso ser a papoila que nasce nos passeios mal a Primavera espreita.

Já as ouviste cantar?! Posso ensinar-te.

~CC~



quinta-feira, 14 de março de 2024

Caixa de bombons (X)

 

A mulher do fato amarelo, muito requintada, com o seu motorista fardado a oferecer-lhe um bombom que tirava do porta luvas. Há publicidades que ficam e esta atravessou os tempos. Não sabemos exactamente porque registamos estas coisas. Eu nunca quis ser como a mulher do fato amarelo e muito menos ter um motorista, a não ser quando as subidas são ingremes, os estacionamentos difíceis e a minha inabilidade me confronta e me incomoda. E no entanto aquele chocolate é todo um fascínio que se foi tornando banal pelas casas do mundo (e não lhe digo o nome, pois não me apetece fazer-lhe publicidade).

Preto por fora e bem no meio uma avelã crocante, algo semelhante ao que a senhora do fato amarelo provava com deleite. À partida a avelã bem disfarçada não parecia existir pelo que a surpresa foi agradável pois em geral adoro frutos secos. Nunca me esqueço de um filme que vi sobre uma tribo afegã que se alimentava praticamente só de nozes. São maravilhas da natureza mas em geral trabalhadas pelo homem que as coloca a secar, antigamente apenas à luz do sol, em grandes mantas ou tapetes colocados no solo. Alguns dão muito trabalho a conseguir, como as amêndoas ou pinhões e há em cada saquinho muito suor. É preciso dizer às crianças que não nascem nas prateleiras dos supermercados assim já prontos a comer.

Este ano falhei as amendoeiras algarvias, houve anos em que fui pela serra para beber da beleza desse branco. No Douro nunca as vi, mas gostava.

Estes bombons sugerem cada viagem...

~CC~



terça-feira, 12 de março de 2024

E agora o dia é teu...

 


Para a história dos momentos mais felizes: o teu nascimento. E nem parece já ter sido há tanto tempo, tal é  a memória viva.

E melhor, ainda hoje me trazes amiúde um sorriso.


~CC~

segunda-feira, 11 de março de 2024

Venha o dia seguinte

 

Ninguém como ela cunhou tão bem o nome do assombro. A banalidade do mal (1). 18% dessa banalidade.

É muito tempo de despolitização a falar e uma overdose de redes sociais.

É desde sempre o que me assusta, a única coisa que verdadeiramente me assusta, normalizar o que não é normal. De resto sempre estiveram aí, mas mais calados, a maltratar as mulheres e a maldizer se ter perdido as antigas colónias portuguesas, a clamar pela pena de morte e pela justiça popular. 

Haja poesia, sabedoria e dia seguinte. Afinal somos 82%

~CC~



(1) Hannat Arendt

sábado, 9 de março de 2024

Dia de reflexão

 

O que eu gosto do silêncio, o tanto que eu gosto.

Enrolo-me na manta depois de um dia intenso de trabalho e sonho que o mundo está em paz.

E que até os beijos, se eles chegassem, seriam como pombas, leves e esvoaçantes, sussurros e murmúrios.

E a felicidade, se ela viesse, seria brisa primaveril com cheiro de jasmim.

~CC~ 

sexta-feira, 8 de março de 2024

quarta-feira, 6 de março de 2024

Apenas sobre flores

 

As flores rosa despertaram da sua letargia uma após uma até a copa se tornar uma mancha de cor contra o céu cinzento. Disseste que os velhotes sabiam que essas árvores floriam sempre antes da Páscoa. Eu não sei, o que aprendi sobre plantas e flores foi a régua e esquadro. Mas agora sei o que elas sentem, as flores.

 Compreendo o seu desejo de emergir, de respirar, de ser.

~CC~

domingo, 3 de março de 2024

Que coisa linda...

 

Que coisa linda ontem me aconteceu.

Entrei num lugar que há muito desejava, parece que já não se chama assim agora, mas para todos é e será sempre o hospital Júlio de Matos. Têm lá dentro a experiência de teatro terapêutico mais antigo do mundo, já lá vão mais de cinquenta anos e o seu fundador, que lhe chamou Teatro dos Sonhos, já não está mais entre nós. Conseguiram, apesar disso, continuar.

Não, não fui ver um espectáculo, fui estar com eles, em todo o pleno sentido da palavra, o que implica fazer junto. Comigo, o meu pequeno grupo de mestrandos. Uma das melhores manhãs da minha vida. Estão lá dentro pessoas como tu e como eu, as fronteiras são tão ténues entre o que nos equilibra e os que nos desequilibra.

Foi desagradável andar no gelo e maravilhoso andar no campo de flores. E quando chegou a caixa articulada, o nosso objecto cénico, não quis entrar lá para dentro por me lembrar um caixão e uma prisão, mas o meu pequeno grupo (entre os quais um residente jovem recente e uma mulher residente há muito tempo) ensinou-me que afinal podia ser um barco e que até podia voar nele.

~CC~


sexta-feira, 1 de março de 2024

Todos contam

 


Dar de beber à desventura (Fado Bicha)

Não é que goste muito deste estilo de música, mas a letra tem imensa piada, oiçam bem. E nesta luta, que já nem chamo pela Democracia mas pela dignidade humana, tudo e todos contam.

~CC~


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

29

 

Aproveitem-no bem, só há de quatro em quatro anos.

Façam dele um dia bom.

Para mim basta-me sentar um bocadinho à janela de um café bonito.

~CC~

Café " A Brasileira" (Braga)

(E já agora, o que é um dia bom para vós?)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Caixa de bombons (IX)

 

Fui uma adolescente sem dinheiro nenhum, vivendo um pouco de trabalhos avulsos mas sobretudo beneficiada pela generosidade dos meus amigos, do meu namorado e dos seus pais. Salvaram-me a vida em bens e muitos almocinhos, mas não me davam propriamente dinheiro. Por isso quando comecei a receber os meus primeiros ordenados, pude gastar dinheiro em doces, coisa que antes não podia comprar.

 A minha paixão eram as fatias fininhas de laranja cobertas de chocolate que havia em Benfica, no Califa. Descobri-as por acaso e tornei-me quase viciada, comprava uns saquinhos e ia comendo durante o dia. Felizmente os caminhos do Califa deixaram de se impor quase todos os dias, caso contrário o meu nível de glicémia teria ditado uma futura consulta para diabetes.

Muito tempo mais tarde descobri que estas fatias de laranja cobertas de chocolate ou de açúcar eram praticamente um doce típico desta cidade sadina a que um dia decidi chamar casa.

Este bombom é uma versão refinada desse sabor. Um chocolate preto com creme de laranja nada doce e umas casquinhas muito fininhas do fruto em versão crocante. Soube-me assim a casa, no justo equilíbrio que eu gostaria que a minha vida fosse, essa combinação da aceitação do que já fui, do que sou e do que ainda quero ser.

~CC~



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

No escurinho do Cinema

 

Nome improvável de me chamar, país igualmente. Fui porque alguém me soprou é bom.

Vidas passadas é um filme coreano.

Cada vez gosto mais de cinema de geografias mais desconhecidas e os coreanos ultimamente têm sido a minha maior surpresa.

É belo, de uma delicadeza tocante. É sobre amor, desencontro, renúncia. É também sobre identidade(s), essas fronteiras onde nos moldamos numa língua, numa geografia, num modo de ser. E sobre esse hibridismo dos seres que atravessam fronteiras, fazem casamentos mistos, amadurecem em lugares múltiplos, fruto de experiências que não eram aquelas que a família deixava antever.

Belos actores que por certo não caminharão em nenhuma passadeira vermelha à luz de holofotes.

Apeteceu-me muito chorar como a actriz chora no final. esse choro em soluços que ela deixou para trás quando se tornou adulta. Mas saí a correr do cinema e não chorei.

~CC~


domingo, 25 de fevereiro de 2024

O meu coração

 

O coração é esse lugar.

Um lugar que podemos abrir e deixar esvoaçar. Um lugar que podemos fechar e agarrar bem à terra. Dois movimentos importantes, ambos essenciais para não sofrermos. 

O meu coração, ainda sou dona dele, consigo fazê-lo bater como quero, não me foge.

~CC~

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Esse mar

 

Quando a falta de tempo me rouba ao que é importante, zango-me um bocadinho. Ainda assim tentarei banhar-me um pouco nestas águas.

~CC~

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Caixa de bombons (VIII)

 

Esta caixa de bombons é como a vida, nem tudo nela é perfeito.

Este bombom tinha aparência que me suscitou desconfiança, formato de coração embrulhado em papel vermelho brilhante. Ainda assim, nada nos ficarmos pelas aparências. Vamos lá prová-lo.

Infelizmente era mesmo muito doce, cheio de caramelo por dentro, enjoativo. Fez-me lembrar quando nos cabeleireiros que frequentava havia revistas cor de rosa e eu lhes pegava, ao fim da terceira página já estava enjoada, para além de não conhecer nem metade das personagens (agora já vou sempre ao mesmo e não tem revistas). Não sei se pediria ao chocolateiro para tirar este da caixa, afinal a vida tem coisas imperfeitas. E mais, estou certa que não gostar deste me vai fazer gostar mais de algum que a caixa terá para mim. 

~CC~

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Riso amarelo

 

Como é que em pleno século XXI se ridiculariza um político homem por chorar em público? É certo que ao humor tudo se permite e nada se cobra. Não se pode nem deve proibir, mas não se pode ignorar os efeitos. Eu pensaria duas vezes numa coisa chamada masculinidade tóxica e não contribuiria para tal, por muito dinheiro que ganhasse com as gargalhadas que faria soltar. É riso amarelo.

~CC~


Nota: isto é extensivo a qualquer político que chore, como é às políticas que vão a uma discoteca dançar, ou aos que dão um beijo em público... nada tem a ver com a cor partidária ou simpatias afins.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Tenho aqui um grito preso na garganta

 

A nível profissional nunca consegui fazer coisas por ser obrigada a fazê-las, sem encontrar sentido ou desígnio. Creio que é a única coisa que me revolta e me deprime, sendo que alterno entre o estado de raiva e o de tristeza.  O maldito império da burocracia digital veio para ficar, há-de esmagar o ser humano. 

Tenho aqui um grito preso na garganta.

~CC~

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Também foi preciso amor

 

Sete anos depois ainda sinto a angústia colada à pele. O frio da sala do bloco cirúrgico é diferente de todos os outros, o tremor que ele traz também. O coração salta-nos no peito e a tensão sobe até que a droga faz efeito e sumimos dentro de nós. Entrei era dia, acordei era noite cerrada. A alegria de estar viva, ainda que muito adormecida, depois de dez horas num outro mundo desconhecido, é algo inesquecível. Ainda que depois disso tudo tivesse corrido inesperadamente mal. Mas aí já foi a batalha dia a dia, coisa a coisa, dor a dor, quase sempre consciente, muitos dias imóvel e depois reaprender tudo; a andar, a comer, a tomar banho e, sobretudo, a rir. 

Não soube de mim durante muito tempo, era outra eu, o corpo sofreu mudanças substanciais, algumas pessoas passavam por mim na rua e não me cumprimentavam, não me reconheciam. Se assim foi comigo, imagino como será com pessoas que passam por mudanças corporais ainda mais abruptas, que perdem ou danificam alguma parte (mais) visível do seu corpo. É viver num território estranho mas esse território somos nós próprios.

Mas cheguei aqui, sete anos depois. E quando olho no espelho, pareço mais eu, uma mistura entre aquela que entrou para a sala de operações e a que de lá saiu. Também foi preciso amor. Aquele que temos que sentir por nós, ainda que muitas vezes ele tenha estado num nível muito abaixo do desejável. Todo o sofrimento, mesmo o que se infiltra nas coisas pequenas dos dias,  me pareceu depois mais intolerável, mais injusto, mais desnecessário. A história está contada por inúmeras pessoas, está longe de ser só minha, é a de todos os que sobrevivem. Queremos luz, leveza, carinho, confiança, ligações indestrutíveis para levar connosco até ao fim da vida. E mesmo quando não temos tudo isso, agarramos com muita força o que temos e continuamos a vir à tona de água, respirando, respirando sempre. Afinal ganhámos uma nova vida, não a podemos desperdiçar na sombra da noite.

~CC~




terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Outro Carnaval


Vê-los a caminhar em andas por aquele empedrado era perceber que se pode desafiar quase tudo na vida. E o modo como brincavam com cada coisa, cada pessoa, cada pormenor da própria arquitectura da aldeia era uma inspiração. Uma senhora da aldeia, já com alguma idade perguntou-lhe: não quer voltar quando eu estiver a caiar a casa, dava-me jeito alguém tão alto...que belo diálogo.

E neste cruzamento bem humorado e respeitoso entre as pessoas da terra e os visitantes decorreu toda a festa. Não havia garrafas de cerveja ou copos ao abandono pelas ruas, nem caixotes de lixo a deitar por fora, nem aparelhagens com um som tão alto que não deixariam descansar quem queria  É preciso pensar cada coisa que fazemos e isto aqui parece estar a ser feito. Eram as crianças que entoavam as modas, mercê do trabalho que tem estado a ser feito com o cante alentejano entre os municípios e as escolas. 

Isto é um outro Carnaval, não é só em Podence que se faz a diferença.

~CC~

Nota: O Entrudanças é organizado pela Associação PédeXumbo.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Paz

São Pedro das Cabeças, Alentejo.

Outrora duras batalhas se travaram aqui, mas agora é um lugar que só me inspira Paz. 

~CC~


 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Parece que é Carnaval

 


De músicas ditas de Carnaval, nunca gostei. Também nunca fui de máscaras. Ainda no outro dia alguém me disse que era frontal em excesso, eu que pensava já ter abandonado essa contundência, afinal há algo que fica sempre agarrado à pele.

Como tal, deixo-vos a música de alguém que volta diferente do que já foi, ainda que já fosse interessante, é agora melhor.

~CC~





quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Caixa de Bombons (VII)

 

Apanhada pela gripe, os bombons não me sabem a nada agora. Mas tenho os apontamentos de cada sabor, laborioso trabalho de degustação a que me dedico. Infelizmente o sete, já consumido, pelo sabor a ginjinha, seria agora talvez adequado. Embora me fizesse lembrar Óbidos, era um ginja mais suave, menos acentuado do que essa invenção que se vende por lá em copos de chocolate, se não era tradição, passou a ser, afinal o que não falta são reinvenções.

Pode parecer estranho mas Óbidos foi justamente o meu tema de conversa com a moça brasileira mais nova lá do painel, era loura e branquinha, usava uma boina lilás e estava encantada, direi mesmo deslumbrada, com a possibilidade de ir a Óbidos. Queria ir para Lisboa e de Lisboa para lá e foi difícil explicar-lhe que se estávamos a norte de Lisboa, ela não precisava de ir a Sul para descer mais a Norte, mas eu faria certamente figuras muito mais infelizes lá no imenso país dela. Ela não queria ir por causa do chocolate, da ginja, ou de ser uma vila medieval muito bonita....mas por haver lá uma igreja cheia de livros! 

É verdade, dizia eu, achando-lhe muita graça. Aquele deslumbramento quase infantil por uma coisa diferente, inovadora, na senda de uma mudança do mundo, era tal qual o que eu sentia na idade dela. Agora custa-me mais deslumbrar-me assim mas não quero envelhecer ao ponto de achar que já sei e já vi tudo, quero ainda guardar dentro de mim aquele gritinho infantil que ela emitia sem pudor ao falar da sua nova catedral.

~CC~


sábado, 3 de fevereiro de 2024

Notas de viagem (III)

 

A vida nos lugares em que há outras pronúncias e se comem outras coisas, ditas típicas. A diferença aqui a norte é que estas coisas não são assim tanto para turista ver e levar,  as pessoas daqui consomem-nas mesmo como suas, parte do seu sangue e, quem sabe, ingrediente do seu próprio sotaque. Antes tinha receio de ser do Sul, achava que nos detestavam aqui. Mas agora os ódios são todos conduzidos para mais além.

Os empregados do comércio, nas superfícies maiores e mais centrais, são invariavelmente brasileiros como lá no Sul, parecem absorver o sotaque e os costumes e sabem dizer-me o que são todos os salgados e todos os doces com a mesma mestria de quem aqui nasceu. Mas ali nos pequenos comércios, de natureza familiar, em que o filho e a filha ainda saem da escola e vão ajudar os pais, os clientes fazem o mesmo discurso adverso que lá no Sul, esse discurso que cresce como bola de neve e nos parece submergir numa onda sem precedentes de ódio aos emigrantes (excepção aos brancos e ricos). Há que desconstruir com calma e alguma compreensão, pois se colocarmos na nossa voz tanta raiva como eles colocam, não chegaremos lá. 

Aqui no congresso eram também três vezes mais brasileiros do que portugueses e participei numa mesa em que era a única portuguesa, sendo este evento passado em Portugal, é verdade que se estranha e exige de nós esforço para que nos entendam. E estranha-se de várias maneiras, desde logo pela festa que em tudo é colocada, pelas muitas fotos, abraços e modo pouco académico de comunicar. Mas depois há que que colocar a cabeça a funcionar, estaríamos mais sem eles? Seria melhor? O que se ganharia? Talvez seja só diferente, talvez os lugares sejam hoje diferentes. Provavelmente lá no Mato Grande do Sul, a nossa foto conjunta estará a ser mostrada à família e haverá um dedo sobre o meu rosto a apontar-me como a única portuguesa. Já a mim, não me ocorreu sequer pedir-lhes a foto ou o contacto, preservar o que é diferente é-me ainda assim essencial.

~CC~



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Notas de viagem (II)

 

As viagens inspiram-me receio, não sou hábil a estacionar e muito menos a conduzir em cidades desconhecidas. Tenho medo do cansaço dos longos trajectos quando ele se mistura com o meu próprio cansaço. Luto arduamente contra todos os meus receios, sempre assim foi, as vitórias nem sempre são retumbantes mas as pequenas vitórias também nos alimentam. 

E o perigo existe em todo o lado. Tropecei à noite numa das saliências de uma descida mal iluminada e raspei as mãos e os joelhos no cimento, o sangue era mais assustador do que a dor. A minha linha da vida na palma da mão esquerda tem agora uma ferida no meio, só quero é que a minha própria vida não se interrompa, já que as feridas visíveis e invisíveis dela fazem parte. A seu tempo sarará esta e as outras e delas restará apenas a memória da dor e, espero eu, linhas de futuro.

~CC~

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Notas de viagem (I)

 

Queria entrar no "74" que em letras grandes e luminosas tem escrito apenas "Camélias". Imagino o autocarro a terminar num espaço com camélias rosas, brancas, violetas e quiçá azuis, os meus olhos ficariam inundados da sua beleza e deixariam de estar assim secos como ultimamente andam.

Mas sei que a minha carreira terá que ser o "24" , são 14 paragens e 15 minutos para chegar a um lugar mais pintando de cinzento. Ainda assim, não são todos os congressos que abrem com poesia, pelo que este já está de parabéns. E com um nome belíssimo Sindicato da Poesia – Só três sílabas.

~CC~

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Caixa de bombons (VI)

 

Este bombom ficou nos lugares cimeiros da escala.

Todo ele era Tiramisu, um doce do qual gosto bastante mas nunca faço, nunca fiz.

Itália é sem dúvida um dos meus países favoritos no mundo. Fui três vezes. Mas voltava outras tantas. Desta vez rumaria aos lugares de Elena Ferrante, essa itália pobre, suja, viscosa, barulhenta, mas dizem que também bela. Talvez seja um lugar igual a ela, preso no seu labirinto, ela escreve o mesmo livro sempre, com muitas variantes.

Quem leu os livros? Quem quer vir? Não, não é para ir já amanhã, está algures inscrito numa energia agora submersa no meu cansaço, espero recuperar.

~CC~

domingo, 28 de janeiro de 2024

Eis a maravilha

 

JP Simões cantou José Mário branco durante uma hora e 15m. 

Nunca o tinha visto em modo tão central, nem tão próximo. Deixem-me delirar, acho que cantou para mim, não digo só para mim para não delirar em excesso.

Eis a maravilha da vida a acontecer.

~CC~

sábado, 27 de janeiro de 2024

Samba matinal

Quem canta?! Quem me trazia um samba ao pequeno almoço?! Era do prédio em frente. Trabalharam o sábado inteiro na pintura do prédio, empoleirados naqueles andaimes de segurança duvidosa, cobertos pela rede verde que os disfarça no seu interior. 

São todos brasileiros, tal como as senhoras que me atendem no café do lado, as que foram cuidadoras da minha mãe e as que agora são cuidadoras da minha amiga. Que seria deste país sem eles, será que aqueles que os querem expulsar estão prontos para ocupar os seus lugares? Quererão, como aqueles que chegam do sudoeste asiático, ir para os campos de madrugada apanhar o tomate e os morangos, regressando também já de noite? Quererão mudar as fraldas das pessoas idosas, dar-lhes comer à boca e mal dormir de noite? Estes e outros trabalhos que exigem esforço, paciência, horários incómodos. 

Em cada brasileiro que oiço pela manhã no seu samba corrido, oiço também um fado cantado por um português que algures no mundo abriu uma padaria.

~CC~





sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Fazer a mala

 

Depois de muitos e muitos anos de mala aviada fim de semana sim, fim de semana não e às vezes mais que isso, vejo com agrado o depósito de gasóleo a esvair-se mais lentamente (pois, ainda não tenho um eléctrico). Mas não só, também o enraizamento local é agora outro, assim como as mudanças a nível profissional que me possibilitam trabalhar com gente mais crescida, que só ao fim de semana está disponível. 

Contudo, às vezes tenho saudades da estrada, das estevas, da itinerância. Uma parte de mim está sempre com vontade de ir a algum lado, acordar noutro sítio e beber café num outro lugar. É também um sentimento que cresce à medida que o Inverno se despede mais. Fazer uma mala, um pesadelo para tantos, a mim nunca me custou.


~CC~


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Caixa de bombons (V)

 

Nunca teria escolhido prová-lo, não fora fazer parte integrante da caixa. Tal qual como rejeitamos algo ou nos atraímos ao primeiro olhar. A sua apresentação em chocolate branco fez-me respirar fundo, à partida seria excessivamente doce. E era. Contudo, uma cambiante interna tornou-o interessante. Sabia a framboesa, era rosa no interior, um rosa suave e acetinado. Havia nele uma promessa de Primavera, de luz e de sol. Foi um bom prenúncio para estes dias que se avizinham. E tanto que eu gosto de frutos vermelhos e de Primavera. 

Controlar a rejeição à partida ou o seu inverso também se pode aplicar a outras áreas da minha vida, sempre segui muitos esses primeiros impulsos, considerando-me uma avaliadora instintiva e dotada. Não que o primeiro olhar não tenha valor, mas não tem todo o valor. 

~CC~

domingo, 21 de janeiro de 2024

No escurinho do cinema

 

Folhas Caídas é a Finlândia desconhecida de todos nós. Um lugar escuro e triste onde se bebe em excesso e os menos escolarizadas estão tão à mercê do Capitalismo selvagem como em qualquer lugar do Sul. 

Este é o subtexto e é tão importante como o texto.

No texto está o amor, como ele pode escapar por coisas tão ínfimas, como o desencontro se infiltra dentro do encontro, a tristeza dentro da alegria e o desespero dentro da esperança. No fim, apesar de tudo, não vence a solidão. E isso chega para aquecer uma noite de Inverno. 

~CC~

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Caixa de bombons (IV)

 

Chocolate preto e por dentro um creme verde escuro e fresco. Ligeiramente parecido com aqueles que, em adolescente, era capaz de consumir metade da caixa, mas este evidentemente com uma assinatura mais personalizada, mais distinta. Nessa altura não sabia dosear, entre a aflição da pobreza e a dor de existir, não conseguia evitar o excesso.

Noite de pirilampos na Arrábida. Aquela sensação de calor no crepúsculo que se desfaz numa noite fresca e húmida. Depois as mil luzinhas que se acendem. Este bombom era dessa natureza, fresco, travo amargo, textura suave. Não podia comer dois pois o outro não seria igual a este. Valorizar cada coisa efémera como única está a ser uma grande aprendizagem. 

~CC~

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Dia mais triste do ano

 

A tristeza é uma pele que visto com agrado e sem medo. Dentro dela fico a nadar como quem o faz num lago pouco profundo e amigável, olhando para o céu cinzento e interrogando cada uma das suas nuvens e matizes. Dentro dela há uma chávena de chá que bebo devagar e se houver lágrimas misturo-as com essas ervas para as absorver dentro de mim. Deixo-a estar comigo por saber que me guia, me aconselha, me orienta. Às vezes ela é só minha, é a ausência de palavras que fazem falta: casa, amor, viagem. Outras vezes ela é a tristeza do mundo, é a ausência de palavras como: paz, habitação, comida. Como estar sempre feliz? Como desejar só a felicidade? Vejo-os a caminhar com esses novos mestres, artificies do bem estar que substituíram as igrejas nessa promessa. Não os quero acompanhar. Chove, é Inverno, as casas estão frias, o dinheiro nunca se poupa, os alimentos encareceram, os amigos telefonam menos, não há possibilidade de banhos de mar. Estar triste é da natureza das coisas e da minha natureza. Permanecer triste, sempre triste, isso sim é já outra coisa.

 


Nota: Vem isto a propósito de ter ouvido na rádio que hoje é o dia mais triste do ano.

domingo, 14 de janeiro de 2024

A planta carnuda de Z.

 


Está ali a crescer a olhos vistos a planta que Z me deu para a tosse. Foi muito clara: as folhas são muito carnudas, esmaga-as com um garfo e recolhe a seiva que delas escorrer e depois toma-a como se fosse um xarope. Já lá vai um ano, sei que foi nesta data por ter trazido Z a uma aula minha com a mesma temática que ontem leccionei, desta vez sem a sua presença e senti-lhe a falta. Z nunca foi à escola mas sabe tudo sobre plantas e aprendeu a fazer contas vendendo-as no mercado. A sua estufa é construída com paus e bocados de plástico e alberga mais de 50 espécies para todas as maleitas, com o cultivo e venda de plantas alimentou três filhos.

Nunca fiz o que Z me recomendou mesmo tendo tido tosse e vendo outros amigos e familiares com tosse. Não o fiz porque a minha conexão com a natureza não é a mesma que a dela e tenho receio de apanhar coisas e comer, sem lavar e esfregar para que brilhem como as que aprendi a ver como comestíveis no supermercado ou dentro de xaropes. Fico ali a olhar para a planta como uma espécie de adorno, enquanto Z as ama mas sabe cortá-las, esmagá-las, espalhá-las sobre a pele, os olhos, torná-las gotas, seivas e remédios.  É dela a sabedoria e eu sou só uma má aprendiz. 

~CC~


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Caixa de Bombons (III)

 

Completamente branco por fora e por dentro. O creme tinha um ligeiro sabor a amêndoa amarga. Este, a ser uma região, seria Algarve. Também por isso por me fazer lembrar a minha mãe no que nela era desejo de beleza e luxo, não obstante ser filha de pescador da vila Cubista, era mulher de muitas peles. Era excessivo este bombom, em requinte e em doçura. Ficaria bem num salão de baile de um clube de ricos de uma capital de província, entre risos sussurrados e promessas de amor.

~CC~

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Assobiando...

 

Maravilhosos os trabalhos que os estudantes de uma turma hoje partilharam comigo e com os colegas, três escritas tão diferentes, três modos de dizer absolutamente singulares. Tão simples, só ler em voz alta o que se escreveu, sem efeitos nem rodriguinhos. Só me lembrava do Sebastião da Gama e da sua alegria infantil quanto a aula era "boa", também eu vinha quase a assobiar...e não era para o lado, era ali bem no centro do meu coração.

Que pena a escola não ser só isto e estarmos obrigados a tantas outras coisas com tão pouco interesse.

~CC~

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Caixa de bombons (II)

 

Plenamente negro por fora, contudo, à primeira dentada, revelou um interior branco, ligeiramente amargo, talvez whisky. Delicioso como o primeiro.

Vi-me, branca por fora, quantas vezes negra por dentro. Não negra de sombrio, doença ou morte mas negro de brilho, dança, calor, terra mãe. 

Duas peles juntas, negra e branca, branca e negra. Ou rósea, que não há peles brancas. Que bonita é a diferença e como seria monótono se tudo fosse de tom único. E há ainda quem não saiba olhar, apreciar, amar isso.

~CC~

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Caixa de bombons (I)

 

Às vezes um blogue opera pequenos milagres. Foi assim que este ano recebi uma caixa de bombons de grande qualidade, numa embalagem muito bonita e com 29 diferentes possibilidades de prova. Destas futilidades também se alimenta a vida. 

Fiquei hesitante por onde começar, ainda pensei ao acaso, escolher um ali do meio, da terceira fila...mas embora não me considere uma pessoa por aí além muito organizada, os outros dizem que sim. E de facto escolhi o primeiro da primeira fila como se fosse uma menina de colégio, coisa que nunca fui.

Escolha tão feliz. Sabor chocolate, canela, café e avelã. Chegou África com o bombom, voltei a S. Tomé, às enseadas de mar ameno e quente e ao calor húmido colado à pele. Voltei ao centro daquela floresta de mil verdes onde provei cacau, as sementes estão envolvidas numa espécie de polpa algodão que as envolve e que é doce e podemos retirar e comer. Ver as coisas na natureza é para mim uma espécie de deslumbramento existencial. Bela viagem num bombom.

Obrigada!

~CC~


sábado, 6 de janeiro de 2024

Elevador para um e (talvez) um cão

 

Cumprimentei os vizinhos, embora me parecessem recém chegados, em geral conheço quase todos. Abrimos em conjunto a porta do parqueamento que dá acesso ao elevador, eu primeiro, cedi-lhes passagem e chamei o elevador. Eles mantiveram-se a quase um metro do elevador, sorrindo com simpatia mas mantendo aquela distância física. Quando o elevador chegou não se mexeram, perguntei-lhes se não queriam subir. Mas podemos?! Podem, claro! E enquanto subíamos foram contando que as pessoas agora preferem andar de elevador sozinhas e aqui mesmo no prédio já lhes disseram isso, então eles nunca se aproximam. O elevador é grande e dá para quatro pessoas bem pesadas. Será que foi isto que nos sobrou da pandemia? Ou já antes preferíamos a companhia dos cães à dos humanos, como é agora tão frequente acontecer? 

Os animais domésticos são servis, obedientes, dependentes, não contestam e gostam incondicionalmente dos seus donos. Parece-me que os seres humanos têm cada vez mais dificuldade em viver em relações em que estas premissas não existem. Acabamos no elevador para um ou para um e o seu cão.

~CC~

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Regresso

 

Como são difíceis estes regressos, em janeiro ainda tenho turmas novas para conhecer e tenho apenas três semanas para o fazer.

O melhor da profissão que tenho é que me proporciona conhecer sempre novas pessoas, há sempre alguém no grupo, que tento que não seja apenas uma massa humana, que tem uns olhos grandes, curiosos e atentos. Mas também há sempre alguém no grupo que nada vê e não quer ver nada, por mais que isso ainda me desafie, também me cansa. 

Mas não há trabalhos, nem profissões perfeitas, a não ser a da Paula Moura Pinheiro, claro, a única que sempre invejei, nem precisava da câmara atrás, a mim bastava-me só a visita guiada

~CC~