terça-feira, 23 de julho de 2024

Atendimento excessivamente personalizado

 

Procuro cada vez mais comprar nas lojinhas pequenas no centro e nas artérias laterais da minha cidade. Se aqui não se aplica o princípio do produtor-consumidor, há por certo outras lógicas, outros produtos, outra forma de encarar o cliente.

Mas às vezes as coisas não correm como esperamos.

Procurando um fato de banho ou um biquini, fiquei encantada com a forma como aquela montra os mostrava. E entrei. Directa a mim a senhora nem me deixou explorar o que havia, primeiro quis logo mostrar que era a proprietária, depois disse que me ia orientar na procura e por certo íamos achar "juntas". Até lhe perdoei o exagero, mas piorou quando ela tirou a fita métrica e sem qualquer aviso começou a tirar-me as medidas. Entrou sem aviso na minha bolha dos 20 cm e logo para medir o peito. Afastei-a não com toda a vontade que desejava e retorqui que sabia o que me servia, não era preciso medir. Ficou chateada e empregou uma qualquer palavra francesa para definir o seu trabalho de apoio, que era a sua missão profissional.

Nada mais correu bem a partir dali. 

Não só não comprei nada, como me esqueci dos óculos escuros e tive que lá voltar. Mas o pior foi a vontade que me ficou de voltar às lojas onde entramos, nos ignoram, provamos o que queremos e ninguém sabe que existimos. Afinal não gosto de atendimento personalizado, ou pelo menos excessivamente personalizado.

~CC~




domingo, 21 de julho de 2024

Chás não chega?!

 

- Então?

- Vou indo

- Tens tratado bem do teu corpo?

- Do meu corpo? Mas agora?

- Sabes bem do que falo, expliquei-te o que fazer, marca consulta novamente.

Estes gurus estão por todo o lado, este combinava o corpo esbelto com uma longa trança. Pelos vistos dava consultas. Qualquer um dá. Os mais pobres vão para os cultos evangélicos com mil e uma nuances. Os mais ricos para os espirituais, se lhes disserem para andarem todo o dia com um cristal no bolso ou para comerem sempre pitaia ao jantar, fazem-no. Antes, pagaram 80 euros por uma consulta. Bem sei que o poder da mente é coisa desconhecida e muito pode. Ainda assim, custa-me a ignorância crédula explorada. 

Fico-me pelos chás e pela militância moderada no grupo das plantas.

~CC~



quinta-feira, 18 de julho de 2024

Perdoem-me todos os outros

 

Pudesse eu ter tempo para escrever tudo o que guardo nos meus olhos e no meu coração. Uma parte ínfima chega aqui. Mas mesmo quando escrevo só para dentro de mim, é enorme o bem que me faz. São desenhos e desenhos de histórias, tantos rostos, tantos diálogos, tantos lugares, tanta dor, tanta felicidade.

Por exemplo, aquele lugar. O túnel debaixo do prédio na cidade cada vez mais turística. Nesse túnel vive alguém que tem uma cama no chão miraculosamente arrumada, uma pilha de t-shirts impecavelmente dobradas e dois pares de sapatos alinhados. Há um saco também, deve conter comida ou utensílios de higiene porque todas as coisas estavam limpas. Uma dignidade tão grande naquele lugar e a confiança em tudo deixar assim na sua ausência. É assim que vivemos, paredes meias com túneis que são casa, mares que são cemitérios e bombas que caem e matam sem sentido. Tragédias que nos arrepiam num minuto e que no outro esquecemos, afogamos a nossa impotência e amortecemos a nossa dor. 

E a tragédia que fica e nos corta o coração muito e muito tempo é sempre a de alguém que conhecemos e a quem chamamos irmão, mãe, amigo/a ou amor. A tua minha amiga, a tua. É a tua que fica a doer-me, perdoem-me todos os outros. Perdoem-me esta imperfeição.

~CC~

domingo, 14 de julho de 2024

Não te demores

 

Tu dizias: não te demores.

E eu aprendi assim a não me demorar, a chegar à praia e entrar logo na água, independemente da sua temperatura para depois secar e me vir embora.

Tu dizias: não te demores

E eu deixei de ir às praias mais longe, onde sabia poder haver trânsito no caminho, onde o estacionamento era incerto, onde o tempo podia não depender de mim.

Tu dizias: não te demores

E eu sabia que não podia fazer refeições demoradas fora, levar livros entusiasmantes em excesso, buscar a beleza noutras cidades próximas, nas feiras, nos festivais.

Estar aqui nos últimos dois anos contigo foi sempre não me poder demorar, esperavas-me para o almoço, para o lanche, para o jantar. 

E agora que posso demorar-me e já não me esperas, já não o sei fazer.

~CC~



sábado, 13 de julho de 2024

Era só para falar dos pássaros do sul

 

De lugar em lugar faço a viagem. 

Em cada um deles já houve um pedaço da minha vida inscrito, o encontro é marcado por essa memória e, contudo, o presente de cada um desses espaços é já outra coisa. Disponho-me a fechar os olhos e caminhar até ao sabor antigo, vejo-me, vejo-o, vejo-os. Depois abro os olhos e encontro a outra que eu sou, os outros que eles são. E das pessoas novas que me apresentam ou que se apresentam, registo pouco. Tenho pena que assim seja, como se a minha capacidade de acolher estivesse diminuída, não obstante a receptividade a todos os diálogos que se constroem e a apreciação do interesse que cada pessoa em si tem. Não há dificuldade em ir e em estar, mesmo quando vou sozinha ou estou com grupos que mal conheço. Mas passar desse limiar, confiar, enlaçar, navegar...nem consigo perceber a facilidade que os outros têm nisso, como do nada tecem a teia e nela se enredam. Em geral eu preciso do tempo longo e envolvente, seja na amizade ou no amor.

Já na conservação dos afectos sou mestre. O gosto que tenho em encontrar os amigos, saber deles, dos filhos, do trabalho, perco-me nessas conversas de revisitação olhos nos olhos, quero acolhê-los no meu abraço.

Por isso me doem as ausências, os lugares apagados, as transformações radicais dos sítios, espaços vedados. 

O meu dedo toca sempre no terceiro andar de certo prédio, não sei quando se apagará essa memória que o corpo tem. Às vezes também eu penso que poderia ser leve e ligeira como uma pena, inclinar-me para essa superficialidade que parece tornar as pessoas felizes. Mas sei que nada em mim é assim, tudo é profundo, denso e grave, tudo o que amo tem que ter consistência. Felizmente também me sei rir e até de mim e da minha gravidade, caso contrário talvez fosse sempre triste.

E isto era só para falar dos pássaros do sul. 

~CC~

 

sábado, 6 de julho de 2024

Cogitação de futuros

 

Ontem fui pela segunda vez entrevistar um pequeno grupo de imigrantes de origem asiática num meio rural de pequena dimensão. Da primeira vez comovi-me. Mas desta segunda vez indignei-me. Vim de lá às 19h30m e deixei a televisão desligada, não fui capaz de ver nada. Fiquei assim um bom tempo no silêncio e triste. Ali está a desordem do mundo no seu pleno. Entre a zanga, a esperança, a gratidão, eles vivem sem futuro, a palavra amanhã não é pronunciável. 

Ajudou-me que a rua também estivesse totalmente silenciosa, durante uma duas horas nada se ouviu, quase parecia o tempo da pandemia. E depois voltou o ruído mas sem festa e adivinhei porquê. Pouco a pouco voltei a mim e esbocei um sorriso com a série do canal 2, vivida num hotel à beira mar. E adormeci. Algum tempo depois acordei com os sinais de ansiedade que de quando em quando me visitam sem nome, sem origem conhecida, sem destino aparente. É a sensação de suor, tremor e falta de ar. É levar até ao limite para não tomar o comprimido e entristecer com cada capitulação que se faz ao químico. Penso no que o poderia substituir. Um quintal para ver as estrelas? Um lugar mais fresco para morar? Alguém a quem ligar? Um tempo sem trabalhar? Voltar com muito mais regularidade ao yoga? Psicoterapia?

Adormeci na cogitação de futuros e acordei mais tarde do que o habitual. E senti-me leve outra vez como as pessoas dizem que pareço estar, há quem diga mesmo que nunca me viu tão feliz, outros tão nova e há mesmo quem, como esta manhã, na loja, peça o segredo.

~CC~


sexta-feira, 5 de julho de 2024

Afinidades

 


Olho para ela demoradamente, vítima do incêndio de há dois anos nestas encostas de Palmela, que percorremos agora com quem anda a proteger cada carvalho, cada sobreiro novo que nasce. Há quem lhe pergunte qual a razão para não terem cortado estas árvores, algumas são só um tronco carbonizado na paisagem. É preciso esperar, disse. Algumas renascem por si, vão à luta.

Olho para esta árvore e sinto uma grande afinidade, apetece-lhe segredar-lhe ânimo e força e dizer-lhe: vais conseguir, nós conseguimos. 

~CC~





segunda-feira, 1 de julho de 2024

Adeus Gigantes

 

O que um pintou, o outro podia cantar.

Deixaram-nos dois gigantes.

Um nas Artes Plásticas, outro na Música.

O primeiro, Manuel Cargaleiro, conheci tardiamente mas foi com absoluto deslumbramento que visitei em Maio o seu museu em Castelo Branco. Foi mesmo o último museu que visitei e perguntei por ele ao guia, disse-me que estava vivo e cognitivamente capaz, embora frágil fisicamente. Teria fotografado quase todas as obras, não fora o tempo não deixar, apetecia-me trazê-las comigo para vê-las depois, saboreá-las.

Fausto Bordalo Dias maravilhou-me ainda adolescente, nos primeiros acordes de Rosalina. E continuei absolutamente maravilhada de disco em disco, tendo visto poucos concertos ao vivo (não era coisa que ele gostasse), apenas um, ao qual junto o último concerto do Zeca Afonso no coliseu. Coloco-o a par do Zeca, no mural dos maiores. Era ainda novo, parte com 75 anos, mas se a doença o tomava de dor, só podemos pensar que a morte deve ser sido apaziguadora. 

Nós, nós é que ficamos cada vez mais pobres. 

Adeus Gigantes.

~CC~





sábado, 29 de junho de 2024

Antibiótico natural

 

No fim da caminhada, ela disse:

- Vou dar-te um antibiótico natural...

Como isto de caminhar com grupos que incluem muitos alternativos me traz sempre grandes surpresas temi pela mezinha que viria...um caldo de urtigas? chá de cardo? iogurtes feitos com vinagre?

Mas ela chegou mais perto e abraçou-me. Achei graça e recebi o abraço...e quando ia deslaçar, ela disse: não, tem que ser 3 minutos para fazer efeito.

Não tenho a certeza se será mesmo um antibiótico natural, mas por certo há coisas piores.

~CC~

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Teimosias

 

- Mas a senhora vai jogar para sexta feira, sabendo que há 216 milhões que podem sair já amanhã?!

(eu já estava irritada porque ela estava a atender uma cliente que só falava bem do senhor mal educado que interrogou a mãe das gémeas, nas suas palavras, o único corajoso daquele parlamento...)

- Há regras sabe, eu só jogo às vezes e só e sempre à sexta feira. É só quando penso muito no Alentejo, aquele onde a GNR em tempos matou uma senhora de nome Catarina e em como gostava de lá morar (olhos fitos na dita cuja cliente).

- A senhora é que sabe mas eu acho que amanhã vai sair em Portugal.

E assim foi, devia ter-lhe pedido também a chave, já que ela falava com os deuses. Assim, o ganho até hoje foi um máximo de doze euros e tal. Enfim, chega para atravessar o rio Sado até Tróia, uma viagem que encareceu ao preço do casino do lado de lá e de quem o governa.

~CC~


domingo, 23 de junho de 2024

Fio de tecer

 

Foto de uma atividade dinamizada pelos estudantes

Foi um ano lectivo difícil, trabalhoso e por vezes sofrido. Houve uma turma da qual gostei quase de imediato e afinal se revelou uma desilusão. Mas dos sonsos, ainda por cima se adultos, não reza grande história. Foi um período demasiado curto para poder inverter a história de um desencontro que não percebi de imediato, como não houve frontalidade para gerir o presente, o futuro irá encarregar-se de me atenuar a dor das coisas que não correm bem. 

E houve outra, de gente bem mais miúda, que após duas aulas me causou desde logo perturbação pelo seu estilo conflitual e por vezes até violento (connosco mas sobretudo entre eles), grande parte deles sem grande interesse em coisa nenhuma, identificando ali problemas que extravasam muito o ensino e a aprendizagem. E com estes fiquei um ano inteiro, muitas vezes interrogando como poderia trilhar o caminho, avançando e invertendo, analisando e enfrentando. Mas houve a verdade, essencial para mim em qualquer relação, a capacidade de dizer olhos nos olhos. E não terminou num oásis de felicidade, nem com todos a dizer que afinal compreendiam e apreciavam o que tínhamos tentado construir com eles durante um ano inteiro, mas grande parte sim. Deixaram mensagens que por vezes me toldaram os olhos de água. A lenta construção das coisas é desde sempre o que me interessa, na profissão, no amor, em tudo. 

É o tempo, com o seu fio de tecer, caso queiramos aprender.

~CC~


quinta-feira, 20 de junho de 2024

O dia mais longo

 

Pudesse eu dançar todo este dia de Solstício de Verão. Pudesse eu fazer prolongar os dias grandes e o entrar tardio da noite. Pudesse eu trazer sempre uma chuva para cortar os dias quentes e sufocantes. Pudesse eu fazer como ontem e comover-me feliz a cada vitória sofrida e prolongada. Pudesse eu dar a mão a alguém sem pensar no que vem a seguir, só porque sim e apetece, tal qual uma criança quando faz um novo amigo na praia. Pudesse eu festejar por muito mais o dia maior do ano, agora interiormente mas quem sabe futuramente correndo atrás dos lugares em que a festa se faz a sério.

Imagino-me assim uma discreta velhota caçadora de festas de Solstício de Verão.

Quem puder, não hesite.

~CC~

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Por onde passa amar um país?!

 

Gosto muito deste país. 

Mas não vibro nem um bocadinho com a selecção de futebol, é-me quase indiferente. Talvez seja uma pessoa estranha, será que há mais por aí?

Prefiro alimentar o meu amor com sardinhas e cerejas. E com esta largueza de horizontes voltada para o mar. Ainda esteja a falhar e muito nas três matérias primas referidas. E claro que há mais.

Por onde passa amar um país?

~CC~


sábado, 15 de junho de 2024

Geografias

 

Passamos anos a trabalhar na mesma instituição usando apenas o cumprimento trivial, com a distância que se parece impor entre quem tem pouco em comum ou julga que tem. Mais ainda, antipatias criadas muitas vezes à conta do que outros nos disseram ou contaram influenciam o modo como vemos ou nos vêm.  Consolidam-se geografias de proximidades e distâncias, tantas vezes sem fundamento.

Até que um dia há uma pequena tempestade e parece que nos vimos pela primeira vez debaixo de uma árvore, de um guarda chuva, de um qualquer abrigo. Há uma mão disposta a agarrar-se a uma outra que nunca agarrou. Não imaginava já poder viver novas geografias de amizade por dentro do trabalho e ao mesmo tempo consolidar outras em jornada de maior cumplicidade. Não imaginava um ano letivo a acabar assim, a dançar debaixo de um sobreiro, acho que sobretudo não imaginava deixar de ter medo de estar aqui, mercê de tantos anos em que a pressão para me fazer sair foi muito grande. Pouco a pouco a gente de mal vai perdendo terreno e a gente do bem vai-se juntando. Fiz bem em resistir para poder chamar casa a este lugar em que se passa mais de metade da nossa vida. Quero continuar a ter coragem para novas geografias.

~CC~


quarta-feira, 12 de junho de 2024

Amolecedores

 

Encaixar os erros como jóias preciosas numa caixinha. Mas os que guardo são os que vejo de olhos bem abertos e às vezes com alguma dor que são mesmo erros meus, não basta que os outros digam, contudo, fico atenta se o dizem, avaliando o peso da verdade. Corrigir torna-se depois um desafio, uma rampa de lançamento, um desígnio. Também guardo outras jóias, as das palavras que dizem coisas boas, aquilo que fiz bem, o que consegui, tantas vezes com esforço. E agora emociono-me quando me dizem coisas dessas, muito mais do que alguma vez aconteceu, penso se isso é sinal da minha força ou da minha fraqueza. Mas também fico mais triste quando me dizem coisas más.

Suspeito da idade ou da Primavera, dois amortecedores da alma.

~CC~



segunda-feira, 10 de junho de 2024

Irmã

 


Não aproveite junho apenas para ir aos Santos Populares ou à Feira do Livro de Lisboa (sem dúvida, dois bons programas), vá também ao Teatro. Este não é certamente um espectáculo fácil de ver, mas também não o é aquilo que se passa nesse lugar do mundo, vejamos como nos vão dizer da dor de existir tanto desencontro feito guerra. 

Tenho duas irmãs e não têm nome de país mas toda a vida lutei que as nossas diferenças se tornassem amor em vez desamor.

~CC~





domingo, 9 de junho de 2024

Vamos votar?!

 

Mãe, já foste votar?

Hoje pela primeira vez, se estivesses entre nós, poderia fazê-lo contigo. Nunca aconteceu por morarmos em locais diferentes. É tão inevitável lembrar-me de ti. É tão bom sentir saudades tuas, são doces e não um grito por dentro, são as saudades de quem se decidiu pelo amor após tantos anos de afastamento. Tanto que me apetecia ligar-te hoje pois quase até ao final da tua vida a lucidez que te acompanhou ainda ditava interesse por estes processos eleitorais, embora muito menos por aquele que hoje se joga, a Europa não era o teu lugar.

Talvez achem estranho misturar amor e decisão na mesma equação. Mas aprendi a fazê-lo, não deixar que o amor seja dor e como tal não amar quando ele comporta lá dentro esse gaz mortífero. Se o amor não é bom, não tem aquele grau de alegria, cumplicidade e desafio, não vou atrás, por mais que vislumbre um brilho nos olhos e me pareça poder arrastar-me. 

Mãe, já foste votar? Faço por não entristecer e te celebrar este domingo, tinhas um sorriso tão bonito.

~CC~


Nota: Conheci ontem pela primeira vez em concerto do Festival Língua Terra, que beleza.


 



sexta-feira, 7 de junho de 2024

E os olhos encheram-se...

 

Os olhos encheram-se de beleza na contemplação do jasmim centenário, rolaram húmidos ante a beleza das rochas e das mãos humanas que com eles privaram em estreita sintonia e por fim pasmaram perante o louceiro que sobrou dentro da casa agora vazia. 








As histórias dos lugares intricadas nas histórias das pessoas são sempre o alento que me faz querer respirar, querer partir, querer ficar. Viajar é guardar lugares dentro de mim para os desdobrar e saborear quando deles preciso. Não há paraíso, mas há paraísos, no entanto, para encontrá-los temos que sair de nós, não moram dentro dos compartimentos fechados em que, se deixarmos, a vida se constrói. Eis o que nunca perdi, salvo nos dias de maior cansaço, a vontade de conhecer, não apenas as paisagens,  sobretudo as vidas que nelas se entranham. 

Nenhuma amarra me prende já, vou sozinha, vou com simples conhecidos, vou com queira acompanhar-me ou quem eu possa acompanhar e sinta que vem por bem, não sei quanto tempo mais a vida me brindará com a sua presença em mim e da morte nada sei nem quero saber.

~CC~




segunda-feira, 3 de junho de 2024

Amores trágicos

 


Portas de Rodão

Em puro contraste com a leveza que actualmente se apregoa como o caminho certo para um amor sem sofrimento, a História está cheia de amores profundos e trágicos.

Deste lado do rio, já conquistado aos mouros, vivia uma rainha cujo rei raramente estava no pequeno castelo, envolto nas muitas batalhas que havia a travar. Aos mouros, do outro lado do rio, não escapava tal solidão e numa das suas incursões levaram-na. Deste lado do rio, a rainha tinha sido raptada, do outro lado do rio a rainha deleitava-se com uma vida mais animada que na sua parca corte. O rei cristão, no seu regresso, depressa decidiu resgatá-la. Como o seu exército era parco para tal empreendimento, optou por se mascarar de mendigo e ir buscá-la. Para sua surpresa, a rainha não quis voltar, dizendo-se mais feliz daquele lado do rio. Uma humilhação que o rei não pode aceitar. Voltou para casa ofendido e rancoroso, decidido a arranjar reforços e voltar para a buscar, já não por amor (se alguma vez foi essa a razão) mas por despeito. E conseguiu. Contudo, no regresso a casa não era o resgaste do amor que estava nas intenções do rei, era a morte da rainha. E assim, decidiu que seria atirada por estas escarpas abaixo até ao rio. Consta que nos sítios onde o seu corpo tocou numa mais cresceu erva.

Curiosamente na capela um pouco abaixo ia celebrar-se um casamento. Espero que na sua história nada desta lenda se repita, ainda que fique sempre curiosa por alguém escolher estes sítios recônditos mas sem dúvida belos para se casar.


Que a sua história possa habitada pela paz do sítio onde se celebra.




Nota 1. Tudo nesta história pode ser verdade ou inventado, mas não fui eu que inventei. Há uma festa que aqui se comemora com base na lenda que referi, mas na verdade não sei qual o motivo, se o resgate da rainha, se a sua morte às mãos do rei cristão. Provavelmente já ninguém sabe.

Nota 2. Se não acredito em amores leves, também não os desejo com este peso, se é que é de amor que esta história trata, suspeito que possa não ser.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Que peso aquela leveza

 

Posso compreender que as pessoas inventem novos modos de viver o amor para além da estreita norma que determina uma casa e um casalinho, preferencialmente um menino e uma menina. Alguns ultrapassaram mais fronteiras que construímos como cimento da relação, tal como a fidelidade. 

Contudo, o que me é dado ver dos novos formatos é pouco entusiasmante, normalmente entra em ruínas ao primeiro embate ou é tão forçado que parece mais um bailado clássico em que evitar cair é o principal.

No outro dia vi lágrimas a esconderem-se na cara de alguém que muito gosto, não podia chorar porque naquela relação livre não havia lugar para o choro, para a tristeza, para a raiva, tinham combinado ser leves. 

Que peso aquela leveza. 

~CC~

domingo, 26 de maio de 2024

Um dia faremos as pazes

 

Eu só queria acolher o vírus da alegria e estava quase a conseguir construir-lhe um lugar dentro do meu coração para ele morar. 

Mas o meu corpo é muito mais plural e decidiu tornar-se o espaço de outros vírus sem tanta nobreza e efeito positivo, sei que ele cede à exaustão de um ano de trabalho por esta altura, sempre por esta altura. Por todo o lado a sua baixa imunidade me mostra uma vulnerabilidade à qual não estou disposta a ceder, pequenas maleitas surgem por todo o lado, causando incómodo e dor.

Está tudo ao contrário. Aos 20 anos eu possuía uma melancolia muito distante da euforia dos da mesma idade e o corpo era uma circunstância ainda assim feliz e capaz de subir montanhas. Agora que eu deixei no sofá da auto-análise o que entupia a minha disposição para a felicidade, o corpo é amiúde um entrave para eu abrir os braços e voar.

Mas também e sei-o bem há corpos piores, mais incapazes, mais difíceis, mais doentes, vejo-os, lido com alguns assim. Ainda assim lido mal com os entraves do meu. 

Um dia faremos as pazes, espero.

~CC~





quinta-feira, 23 de maio de 2024

É doce e arde

 

Cresce a lua até se baloiçar no meu coração, tão bela que estava esta noite. Traz-me tanta luz que até me esqueço que a sua intensidade anda a par com as ondas cada vez mais densas de pólen que me fazem espirrar por dentro dos dias e me trazem os olhos inchados como se tivesse chorado de uma só vez todas as dores que pairaram numa vida.

É assim que a vida tem andado, transbordante e a passar a uma velocidade estonteante. 

Para duas coisas boas, invariavelmente uma má. Para duas pessoas boas, invariavelmente uma má. Proporção nem sempre coincidente com um dia ou uma noite. Às vezes durmo pouco de noite quando o da se cruzou com uma pessoa má. Agora é muitas vezes a mesma pessoa má, ainda assim é do campo profissional e um dia irá esfumar-se, antes assim que ser da vida pessoal.

A Primavera é flor na pele, é doce e arde.

~CC~


domingo, 19 de maio de 2024

Unicórnios

 

Os dias melhores são aqueles em que me deixo ficar apenas mais um bocadinho na esplanada de um café qualquer, espreguiçando o tempo que não tenho.

- Pai, eu nunca vi unicórnios, podemos ir ver?

O pai atrapalhado respondeu: agora vamos ver a exposição dos golfinhos, outro dia vamos ver se há uma de unicórnios. 

Chegue aqui senhor pai...Ou explica à criança que eles, como animais fantásticos, só existem na nossa imaginação como as fadas e os duendes ou então diz à criança que contacte o actual presidente da Autarquia Lisboeta pois é um dos maiores especialistas no assunto, embora ela possa vir a ficar desiludida quando perceber que afinal é qualquer coisa que rima com biliões e não com seres mágicos e alados. Eu, se fosse a si, não estragava tão cedo o mundo infantil.

~CC~

sábado, 18 de maio de 2024

Lugar de memória

 

Era para ser mais uma pousada, mas venceu o lugar de memória. Se não os tivermos, tudo será ainda mais difícil. 

Tenho sentimentos ambivalentes face às visitas guiadas. Se não tiver ninguém, tenho a sensação de que vagueio sem aprofundar, se tenho um guia, falta-me o deambular, o gastar tempo onde o meu interesse recai. Foi também assim no sábado passado no forte de Peniche, hoje museu da Resistência e Liberdade. 




Há coisas que nós precisamos de ouvir deixando que eles entrem no nosso coração por um lado que só nós sabemos, o passado quando fala connosco tem que ser em diálogo íntimo. E o nosso agradecimento surge quando somos tocados pela dor do outro, esse caminho em que alguns deixaram a própria vida.




Uma cela a fechar-se é para mim um dos piores ruídos que este mundo pode comportar. 

Eu nem fecho portas.

~CC~


quinta-feira, 16 de maio de 2024

Não chegou Maio

 

O vento trouxe o pólen primaveril que se infiltrou na minha exaustão. 

O corpo obrigado pelo dever a levantar-se diariamente parece que irá ali desfazer-se num canto do caminho. Vi o meu rosto no espelho e não o reconheci de tão gasto e cansado.

Sobrou da alegria apenas o casaco de muitas cores e a echarpe rosa e essa pequena chama lenta que nunca me abandona e é por certo o que me ficou do genes maternos e da infância inocente.

Não foi ainda Maio, aquele que me traz os primeiros passeios de pés nus na orla do mar.

~CC~


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Esperança

 


Tenho uma caixinha de esperança.

Não é bem, é quase. Nela deposito todos os brincos que ficaram solitários. Fico à espera que o par apareça algures, que volte para mim. Hoje aconteceu. E era um dos brincos de que mais gostava, quase não queria acreditar que estava outra vez a formar aquele par e que os poderia usar. Um par oferecido, o que em si é também raro. 

Para quem só soube o que era usar brincos aos 42 anos isto tem sabor, fui furar as orelhas com um grupo de adolescentes da família.

~CC~


terça-feira, 7 de maio de 2024

Nada se conserta sozinho

 

Volto às salas de aula dos meninos pequenos no âmbito deste meu ofício que se desmultiplica, o que mais aprecio nele, esta possibilidade de deambular por muitos mundos.

Ainda estou impressionada com o menino de ontem. Costuma ser intempestivo e fazer birras, zangado com a vida. Muito inteligente, astuto, sensível. Vinha de cara amuada logo ao início da manhã e assim esteve, bastante calado ao contrário do que costuma acontecer. A professora chamou-o perto de si e perguntou-lhe o que se passava. E ele chorou pois tinha feito chorar a mãe logo pela manhã, fê-la zangar-se por causa da roupa que queria vestir (um clássico). E pediu para telefonar para casa e pedir desculpa à mãe, caso contrário naquele dia não ia cumprir nenhuma tarefa bem. Só oito anos...e que lição para tantos adultos que não sabem usar a palavra, nem entristecer com a tristeza que nos outros provocam, andam sempre em frente, nunca voltam atrás para reparar nada, acham que tudo se conserta sozinho.

Que se conserve sensível, imune à masculinidade tóxica que parece estar outra vez na moda, é ver como ela grassa entre políticos e figuras públicas.

~CC~


domingo, 5 de maio de 2024

Cuidarei do teu lugar em mim

 

Mais tu

Visto-lhe os casacos que me ficam invariavelmente grandes, pois no fim da vida ela tinha diminuído em altura e em peso, mas não deitava a roupa fora, cuidava dela como ninguém, lavando à mão e separando cada coisa por cores.

É o primeiro dia da Mãe em que não lhe oiço a voz. Era ela quem me prendia a estas convenções, sabendo que delas eu não sou adepta, perdoava-me a falta de fascínio, mas pelo menos o telefonema tinha que existir. Ela gostava muito de rosas e de orquídeas, enquanto eu prefiro as flores do campo e as de jardim, as estrelícias, os girassóis, as flores sem nome ou cujo nome não sei. Sendo duas mulheres tão diferentes, não sei o que nos aproximou tanto nos últimos anos. Talvez tenha sido eu, tardiamente a reconhecer-lhe o esforço de uma vida e o desamparo em que ficou, talvez a sua solidão tenha tocado na minha própria solidão. Dei-lhe a protecção que ela não me deu, perdoando-lhe ausências, omissões e escolhas menos boas. E comecei-lhe a achar-lhe graça, uma coisa fundamental para nos ligarmos a alguém, não é apenas o laço de sangue que o faz.


Mais eu


Cuidarei do teu lugar em mim.

O casaco castanho fica-me tão mal, tu nem deixarias que o usasse, com o teu fino sentido estético. Mas olha, sou eu e sendo assim também me importa que me cubra toda e não tenha que levar o guarda-chuva neste dia em que ela cai amiúde. 

~CC~

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Mais do que...


 

Umas pedras retiradas da terra. Uns paus apanhados pelo campo. A infinita paciência de um artesão. Tenho a certeza de que não lhe chamavam reciclagem, era apenas a lenta sabedoria de aproveitar o que  estava ali à mão. A peça era única e mesmo assim quase sem custo. Tanta coisa deixada para trás, resta saber o que ganhámos, o que aprendemos a fazer, o que construímos. Às vezes penso no que acontecerá quando a tecnologia estourar no centro de qualquer pandemia ou efeito semelhante. O que saberá cada um fazer com as suas mãos?! De salientar que isto não é apenas sobre o outro mas também sobre mim própria, como aliás quase tudo o que escrevemos. Luto para as minhas mãos saberem fazer muito mais coisas do que apenas disparar letras no teclado, luto para dar abraços reais, com cheiro e tudo.

~CC~


quarta-feira, 1 de maio de 2024

1º de Maio, dedico-o às seis Nepalesas

 


Aos quinze anos comecei a trabalhar durante as férias (na altura "grandes") num restaurante. O patrão pagou-me um mês em dinheiro pois no mês a seguir saí de lá para outro trabalho numa roulotte de praia. Nesse mês experimentei o assédio dos clientes e o ainda mais sistemático o do filho do patrão. Tudo se dizia a uma miúda de quinze anos sem posses, era presa fácil. Outras começaram muito mais cedo que eu e foram sujeitas a muito pior, sem opção. Na roulotte já era quase dona do meu tempo e do que fazia e já tinha aprendido a fazer cara feia aos clientes mais inadequados.

Nunca mais deixei de trabalhar desde essa altura, acumulando com os estudos, primeiro naquilo que agora se designa de trabalho parcial, depois no precário e por fim com contrato de trabalho, ainda assim durante muitos anos a termo certo (anual). Sobre assédio e pressão no mundo laboral vi muitas coisas e sob várias formatos e batalhei para não me tornar vítima e muito menos agressora, mas não é fácil. Ao mesmo tempo fui fazendo coisas que me deixavam grata e feliz.

Passamos metade da nossa vida no trabalho e para muitos de nós é uma metade muito dolorosa, seja pelas condições de trabalho, seja pelo vazio que não preenche, seja pela falta de identificação. Quase tudo no mundo do trabalho necessitava de uma revisão profunda. Para já começaria por diminuir o tempo que lá passamos e por mudar para a reforma gradual, em vez de abrupta, quando a saúde já não dá a muitos de nós grandes tréguas.

Este ano tenho em particular no meu coração as seis jovens Nepalesas que entrevistei numa zona rural e recôndita deste país e que trabalhavam num lar de idosos, a sua dignidade, o seu sorriso e a forma como responderam quando lhes perguntei como comunicavam com os idosos e elas usaram a mímica para representar como o faziam.

~CC~

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Aqui na terra

 

É verdade que a Primavera arrefeceu toda a vontade de mar. Mas deixou-me os mergulhos no verde. Que belos se oferecem os campos na sua imensidão de cor e que estonteante ficou o céu raiado de ora branco, ora cinzento, ora azul. Às vezes chove e cheira a terra molhada, ela pulsa, respira e absorve. Pouco a pouco tudo desligo-me das amarras e é como se pudesse finalmente descansar. E tanto que preciso de descansar, o corpo pede, mas a cabeça pede ainda mais.

Não há renovação se não sairmos do mesmo lugar, se não partirmos de quando em quando das casas que habitamos, esses lugares que são casulos e nos guardam e protegem, são também os lugares que nos criam as rotinas, os vícios, nos prendem às obrigações. Nem é de viajar que se trata, não é esse frenesim que de tudo tomou conta como se não houvesse lugar que não pudéssemos conhecer à face da terra. Para mim é apenas olhar-me noutros espelhos, contemplar o céu de um outro prisma, reparar que as borboletas têm outro voar e a vegetação muda. Com a distância o que dói e incomoda, dói sempre menos, seja qual o quadrante do corpo em que a dor se situa, nem todas se instalam dentro de nós como incuráveis.

Pausa é pousar ao de leve numa das cores do arco-íris e sentir a bênção do silêncio que habita a noite.

~CC~


quarta-feira, 24 de abril de 2024

Somos Livres

 



Todos têm uma canção. Esta foi das primeiras que aprendi e liguei a Abril. É boa de trautear e popular. E era das que a minha mãe cantava.

Todos têm uma palavra amada, estimada, guardada como um tesouro.

Gosto mesmo da palavra liberdade, gosto ainda mais da minha liberdade, estimo-a, pratico-a, sinto-a. Ao longo da vida senti as pequenas ameaças. Mas agora parecem crescer, já não em torno de mim, mas em torno de todos nós.

Por isso o cravo do LD tocou-me.

 Biblioteca de Palmela


E que bonito isto.

Descemos amanhã a avenida?!

retirado daqui: https://www.tndm.pt/pt/odisseia-nacional/pecas/25-de-abril-de-1974/


~CC~


segunda-feira, 22 de abril de 2024

A minha poesia

 

Aquele sorriso, ano e meio a trabalharmos juntas. Um 19 bem merecido. E atrás dessa classificação miúdos que viram tanta coisa no quadro da Guernica, que discutiram o que era a guerra, que encontraram espaço para falar da Ucrânia e da Rússia, coisas que só superficialmente lhes entram em casa e sobre as quais ninguém fala com eles. O trabalho final da tese tem lá dentro tudo isso. 

Dizem-me que trabalho muito. Senti-o as vezes sem conta como uma crítica. E muitas vezes não soube o que responder. 

Mas hoje ocorre-me dizer que formo pessoas para formarem outras pessoas e que empregar muito do meu tempo nisso não é certamente uma coisa negativa, bem pelo contrário, é essa a minha obra. Do registo disso pouco haverá, pouco se dirá, pouco se escreverá. Mas pouco importa, é a minha poesia.

~CC~


domingo, 21 de abril de 2024

Não me quero perder


 Caldas da Rainha, Portugal


A maior parte das pessoas tem medo do seu envelhecer externo, dos cabelos brancos, das rugas, das pregas por baixo dos braços e em torno dos lábios, de tudo o que significa a decadência do corpo. Nessa matéria, a diminuição da mobilidade é o que me assusta mais.

Mas o que me assusta mesmo é o que vejo acontecer por dentro das pessoas. Um envelhecer feito de desatenção ao outro, um excessivo centralismo nas necessidades do próprio, a diminuição da empatia e da consideração pelo que os outros sentem ou fazem. Por outro lado, quando o analiso, parece-me que provavelmente essas pessoas sempre foram assim e essas características só se acentuaram com a idade. Mas acentuaram-se, de repente apenas eles estão no centro do mundo e torna-se difícil dizer-lhes que existimos por dentro da carne, temos sangue, suor, lágrimas, vidas muito cheias de tudo, tão cheias de coisas que lhes poderíamos contar, caso nos pudessem ouvir. Mas já não querem, isto se algumas vez quiseram. Vou buscar às vezes algo para lhes dar ao cerne da bondade que me habita, mas como não sou só bondade, às vezes não consigo.

Gostava de envelhecer atenta aos outros e às suas necessidades, com capacidade de escuta activa. Ontem vi um bebé que não devia ter mais de dois meses e estava ao meu lado num evento público, ao colo da sua cuidadora (a mãe estava em palco) todo ele era desejo de relação, ele sorria, olhava atento e tentava chamar a nossa atenção. Uma maravilha de ser humano na pequenez da sua existência. Onde nos perdemos? Não me quero perder.

~CC~



quinta-feira, 18 de abril de 2024

Todos juntos no palco do teatro

 


Houve partes muito difíceis, fechei os olhos e apetecia-me tapar os ouvidos. Os relatos da tortura nas prisões da pide causaram-me mal estar, enjoo. Nas partes mais arrepiantes duvidei mesmo que pudesse ser assim. Mas no final a encenadora (Teresa Sobral) chamou-os, os que prestaram depoimentos e tinham estado ali todo o tempo, bem no meio de nós. E o menino que aparece abraçado pela sua mãe presa, os olhos baixos, esse menino é um dos actores da peça. Mas foi com a alegria que chorei, com aquelas imagens de um povo em festa, a comoção de ter sido possível e ter sido tão bonito. Eu era só uma miúda, lá longe num quintal, a seguir os carreiros que as formigas enormes faziam. A primeira consciência que tive da desigualdade foi contudo ali, as meninas negras da escola perguntavam se podiam vir comigo e apanhar as mangas caídas por baixo da enorme árvore e eu abria-lhes em segredo o portão, pedindo para não fazerem muito barulho.

~CC~

terça-feira, 16 de abril de 2024

Tão belo como cruel o mundo.

 

Alentejo amado.

Lugar de tapetes alternados de flores amarelas, brancas, lilases. Terra a perder de vista.

Altas estevas nos lugares da serra, imagino perder-me entre elas, dissolver-me.

Céu imenso de azul, mais logo alaranjado e depois pleno de estrelas.

Bebo-te a beleza como um elixir de vida. Volto a sonhar com a casa branca com a chaminé grande e uma inscrição de números a condizer com o século passado. Isso tudo com a consciência cada vez mais plena de nunca vir a acontecer. 

E como a vida não é apenas um postal ilustrado nem um sonho eternamente adiado, lá estão as fileiras de oliveiras alinhadas a perder de vista, parentes distantes daquelas que um dia conhecemos como livres e dispersas na paisagem. Tão belo como cruel o mundo.

~CC~


sábado, 13 de abril de 2024

Sopra forte o vento e alto o grito dos pavões

Também ela morava no 20, outro 20.
 

Terra varrida pelo vento. Ela dizia sempre isso, que este era um lugar de vento forte.

Terra lisa de beijos e abraços, pouco a pouco se foi desertificando.

Ainda assim a segurar os laços ténues, os que sobram ou sobraram.

O elevador marcado para o terceiro andar, por hábito da mão, é assim que percebemos que o corpo também regista e ordena. Depois o cérebro corrige. E já corrigiu a curva numa certa rotunda, já não vira em automático para o bairro do quintal com cheiro de goiaba.

O grito dos pavões é aflitivo e contudo parece ter origem amorosa. Desconheço-lhes a idade, sei que a minha parece incapaz de se afligir assim por necessidade de amor, dele ainda há contudo uma inscrição, não sei se mais forte na memória do corpo, se no cérebro ou coração ou nessa junção de todas as partes, dizem que é aí o lugar do eu.

~CC~

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Deixo-te cravos

 

Vou a caminho e comprarei cravos para te deixar. 

Havia tantos no quintal do teu pai, meu avô. É verdade que nem todos eram vermelhos, eram sobretudo mesclados de várias cores, tu acreditavas que o teu pai é que os tinha inventado com misturas de corantes e que antes dele todos eram monocromáticos. Tinhas crenças assim, não valia a pena explicar-te.

Apesar do corte radical das nossas vidas que representou esse Abril de há cinquenta anos, nunca odiaste quem o fez, bem pelo contrário. Claro que lamentavas tudo o que tinha ficado para trás mas compreendias que tinha sido algo inevitável, ainda que te custasse usar a palavra justo.

Posso deixar-te cravos vermelhos porque sabes que são meus e por isso compreenderás a escolha. 

~CC~

terça-feira, 9 de abril de 2024

Apenas e só uma

  


Regresso ao escrutínio que após um ano anterior atípico em que teve carácter praticamente trimestral voltou a ser anual. Deu tempo para a visita se fazer a um novo edifício, ainda a cheirar a novo, pareceu-me excessivamente monumental e com menos verde. Ainda assim reconheceria sempre aquelas linhas tão consonantes com as do vizinho, não obstante a sua beleza senti-o outrora como uma prisão. O aperto de mão idêntico, assim como o meio sorriso, esforço máximo que o clinico consegue, mas após sete anos já lhe perdoei tudo e sei o que posso ou não esperar. 

Acho Abril um mês de esperança e por isso é bom que se mantenha este como aquele em que a visita se faz e que seja apenas e só essa.

~CC~






domingo, 7 de abril de 2024

Tamboril de caril

 

Almocei um tamboril de caril com arroz de coentros. Coloquei a mesa como deve ser. Sentei-me tranquila e com tempo. Ainda bebi meio copo de cerveja-sidra.

Pensarão portanto que cedi por completo à insignificância do que tenho para dizer ou que estou em transição para um blogue de culinária. Quanto ao blogue de culinária, não houvesse trezentos mil e talvez me aventurasse, às vezes a família pede. A sobrinha no dia de Páscoa pediu a receita da lasanha de camarão que acho que inventei. Quanto à insignificância da minha pessoa acho que já disse tudo no post anterior.

Quero dizer-vos da importância da dignidade das pessoas que vivem sozinhas. De como a construir a cada dia. Uma das coisas mais importantes é cozinhar uma refeição completa, não ceder aos cereais, ao pão com queijo, à eterna sopa. Comprar comida, ter comida em casa, fazer comida, colocar a mesa, sentar à mesa, saborear. É verdade que às vezes não apetece e o "só para mim não vale a pena" paira ali algures na cabeça. Eu nem ligo a televisão, fico ali no meu silêncio entre cada garfada, feliz por poder demorar-me. E não acho triste o que tantos acham triste. Talvez por não acontecer sempre, talvez por pensar que se quisesse teria alternativa, talvez por não ter morado bem sozinha e ter por aqui de quando em quando duas borboletas (o A e a A) que muita companhia fazem.

Tamboril de caril com arroz de coentros, ainda pensei arranjar os morangos, mas prefiro a fruta a meio da tarde. O lanche, esse terá amigas.

~CC~




sexta-feira, 5 de abril de 2024

Uma pessoa assim assim

 

Ontem perguntei a uma estudante se podia despedir-me dela com um abraço. Invulgar em mim, desconheço-me ou simplesmente modifico-me. 

Decidiu fazer luto após meses a tentar sobreviver, manter-se à tona. Em três meses perdeu a mãe para o bicho mau. Nunca pensei respeitar alguém que desiste, eu fui treinada para a sobrevivência a todo o custo, para seguir em frente, para empurrar com a barriga. Erros, falhas, fracassos, tudo isso tentei sempre limpar do meu horizonte, batalhar até ao limite do cansaço. Mas hoje tenho consciência de que fui tão longe quanto a minha origem humilde e a precaridade da condição financeira me permitiu e vejo com nitidez mas sem lamentar aqueles que foram mais longe e são mais capazes que eu em tantas coisas no campo profissional. Nunca aprendi línguas como deve ser, nunca fui um às nas tecnologias, sempre me aborreci com referências bibliográficas e manobrei plataformas e folhas de cálculo com alguma dificuldade. Mesmo no uso da língua portuguesa, tenho limitações. Todas estas falhas eram motivos de descontentamento e auto agressão, inaceitáveis.

Mas deixei de me importar, hoje sou capaz de ir ter com uma estudante para a ouvir e lhe dar um abraço, é essa a semente que quero deixar, na certeza que tal não me colocará nunca no topo da carreira.

Vejo no espelho uma pessoa assim-assim, antes seria assustador e agora é confortável. Talvez tenha passado de uma visão anticapitalista do mundo para essa visão aplicada à minha própria condição humana.

~CC~


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Troco campos minados por campos de nuvens ou flores

 

Quando pisamos um terreno minado, é preciso avançar com audácia e cautela. E que difícil é o equilíbrio entre os dois. Vivo muitas vezes assim. São assim os campos profissionais em que muitos de nós se movem. 

E sonho que um dia, ainda em plena terra, poderei caminhar apenas entre nuvens. Ou entre campos de flores. E que não seja demasiado tarde, que ainda possa caminhar com vontade e segurança.

~CC~


sábado, 30 de março de 2024

quinta-feira, 28 de março de 2024

Eu já tudo esqueci

 

Mãe, dizem que é ou vai ser Páscoa.

Mas o que é ela sem ti?

Tu é que tudo sabias sobre o que comer, o que vestir, o que dizer em épocas festivas. Tu é que te importavas com os rituais, mesmo que despidos de fé. Eu já tudo esqueci, só de ti não me esqueci.

~CC~

terça-feira, 26 de março de 2024

É só sobre o incómodo do tempo...

 

A Primavera quis aparecer mas veio cheia de poeira, as plantas e as flores ficaram cobertas dela. Em vez de ficar e nos deixar apreciar a brisa ligeira e o alívio dos casacões, partiu rápido e deixou-nos Inverno de volta. Não era essa a sucessão natural. E aí reside o problema, já não conhecemos o tempo, ele deixou de nos ser confiável. Ele e quase tudo. Já nada parece ser suficientemente seguro, estável, permanente. A volatilidade das coisas traz-nos insegurança e uma dúvida cada vez mais acentuada sobre o nosso futuro e o deste planeta. Podemos encolher os ombros, por certo já cá não estaremos. Mas não fiquem assim tão tranquilos, deixamos cá os nossos filhos e os nossos netos e provavelmente bisnetos, tão humanos como nós. Além disso as tragédias às vezes emergem mais rápido do que pensamos.

Ainda bem que não guardei os casacos nem as camisolas, quem sabe se em Agosto preciso delas. Mas isto é sobre sobre o incómodo do tempo, já por certo sabem que não me dou bem com o frio.

~CC~

domingo, 24 de março de 2024

Abrigo

 

Amizade é lugar de abrigo. 

Nos amigos não mora um laço feito de nervo e sangue, se há sombras elas não doem como no amor ou na família. Vamos e estamos despidos de obrigações e prontos a contar histórias do tempo que ficámos sem nos ver.

Volto a alguns deles por saudade mas também como quem se visita a si mesmo para se encontrar. Devolvem-me quem eu sou.

Outros são novinhos em folha, olhos primeiros. Somos jovens enquanto temos essa coragem de ir ao encontro de quem nos convida para um café, envelhecemos quando nos cansamos e nos inibimos de o fazer, quando deixamos que a impaciência, o medo ou a ausência de curiosidade ganhem. E a falta de tempo, esse mal crónico que nos rouba tanta coisa e que ganha tantas vezes. Perdi várias vezes essa corrida.

Mas a palavra amigo/a é redonda e cheia. Bem diferente de conhecidos ou quase amigos, essas pessoas com quem se troca trivialidades e se passa tempo a dizer (quase) nada, nisso sou de enorme inabilidade. Preciso sempre de avançar para algo que nos diz quem somos e o que sentimos na vida e pela vida. 

Abriguem-me, às vezes faz aqui muito vento.

~CC~




quinta-feira, 21 de março de 2024

O meu primeiro poeta

 

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera,
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido…

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
com a minha sede.

José Gomes Ferreira


Era um livro com capa azul e sem nada que revelasse quem era o seu autor, dos muitos que o meu pai deixou para trás quando partiu de Angola e foi para o Brasil, Li-o aos doze anos com a sofreguidão de quem descobre um mundo novo, posso ter tropeçado em algum poema num manual da escola, mas não sabia que existia a poesia e muito menos me tinha ainda encontrado com ela em pleno deslumbramento.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Aprendiz

 

Às vezes uma aula é um campo de batalha e somos encostados à parede como um inimigo. Muita soberba, muita arrogância e muita ignorância. Mas não podemos devolver assim. E custa. Saber sair de lá sem entrar na luta é uma arte e eu sou aprendiz. Se recusamos a guerra e procuramos desarmar em vez de armar, os campos opostos perdem sentido. Pouco a pouco vou conseguindo e cada vez mais.

Como ajuda, voltei às aulas de yoga. Mas meditar é coisa que não consigo e desligar é tudo menos fácil. Aqui nem aprendiz sou, sou quase zero. Tento estancar a minha descrença na espiritualidade e apanhar a parte que eu sei que é boa, aquele bocadinho de paz. 

~CC~

segunda-feira, 18 de março de 2024

Morreu um poeta

 

Morreu mais um poeta e o dia fez-se sombra e há frio dentro do calor. Retiro tempo ao trabalho para ler os seus poemas, era capaz de ficar o dia todo a fazê-lo.

Este poeta era da terra da minha mãe e enchia os seus versos de uma simplicidade aparente, usando muitas vezes a palavra amor, amante e amada. Que belos são os homens que não têm receio destas palavras, agora costumam trocá-las por outras mais leves e menos cheias.

Tenho a certeza que ele gostava de amendoeiras em flor, de gatos e de mar, os seus poemas têm lá dentro essas coisas, são cheios do que o sul deixou nele quando se tornou um homem da cidade.

Foi o bicho maldito, aposto que também militou no calvário dos sem cabelo e mesmo assim perdeu. Só 74 anos. 

~CC~


PS. Adeus Nuno Júdice, prometo ler-te muitas vezes.

domingo, 17 de março de 2024

Renúncia

 

Tão calado, tão reservado. Por isso demorei até te ver. E não me lembro do momento em que os teus olhos estavam a brilhar no encontro dos meus. Depois vi os teus lábios, esses sim, não esqueci. Por algum tempo o desejo de os beijar alumiava os meus dias e ocupava as minhas noites. E lembro aquele jogo em grupo em que cada um tinha que dizer o que tinha encontrado naquele espaço que nos juntava. E tu disseste muito baixinho: o amor. Alguém ficou espantado e perguntou mas não quiseste dizer mais nada, os olhos demoradamente fitos em mim.

E depois renunciámos, acho que primeiro tu, depois eu, ou talvez tenha sido cada um à vez. Às vezes é assim, congelamos o amor, sabemos que não o podemos viver. A impossibilidade reside apenas na certeza de que não poderemos ser felizes sabendo que o fazemos na sombra da tristeza de alguém. Tu e eu erámos assim. Escolhemos a terceira pessoa, a que estava no meio de nós.

~CC~

sábado, 16 de março de 2024

Resistir


Dizia Sebastião da Gama à morte que se ela o viesse buscar não lhe queria dar um morto mas alguém bem vivo para que ela se arrependesse de colher uma flor e uma esperança. Era a sua tentativa de chamar um Deus justo. 

Tento por estes dias lembrar-me disso,  que posso ser a papoila que nasce nos passeios mal a Primavera espreita.

Já as ouviste cantar?! Posso ensinar-te.

~CC~



quinta-feira, 14 de março de 2024

Caixa de bombons (X)

 

A mulher do fato amarelo, muito requintada, com o seu motorista fardado a oferecer-lhe um bombom que tirava do porta luvas. Há publicidades que ficam e esta atravessou os tempos. Não sabemos exactamente porque registamos estas coisas. Eu nunca quis ser como a mulher do fato amarelo e muito menos ter um motorista, a não ser quando as subidas são ingremes, os estacionamentos difíceis e a minha inabilidade me confronta e me incomoda. E no entanto aquele chocolate é todo um fascínio que se foi tornando banal pelas casas do mundo (e não lhe digo o nome, pois não me apetece fazer-lhe publicidade).

Preto por fora e bem no meio uma avelã crocante, algo semelhante ao que a senhora do fato amarelo provava com deleite. À partida a avelã bem disfarçada não parecia existir pelo que a surpresa foi agradável pois em geral adoro frutos secos. Nunca me esqueço de um filme que vi sobre uma tribo afegã que se alimentava praticamente só de nozes. São maravilhas da natureza mas em geral trabalhadas pelo homem que as coloca a secar, antigamente apenas à luz do sol, em grandes mantas ou tapetes colocados no solo. Alguns dão muito trabalho a conseguir, como as amêndoas ou pinhões e há em cada saquinho muito suor. É preciso dizer às crianças que não nascem nas prateleiras dos supermercados assim já prontos a comer.

Este ano falhei as amendoeiras algarvias, houve anos em que fui pela serra para beber da beleza desse branco. No Douro nunca as vi, mas gostava.

Estes bombons sugerem cada viagem...

~CC~



terça-feira, 12 de março de 2024

E agora o dia é teu...

 


Para a história dos momentos mais felizes: o teu nascimento. E nem parece já ter sido há tanto tempo, tal é  a memória viva.

E melhor, ainda hoje me trazes amiúde um sorriso.


~CC~

segunda-feira, 11 de março de 2024

Venha o dia seguinte

 

Ninguém como ela cunhou tão bem o nome do assombro. A banalidade do mal (1). 18% dessa banalidade.

É muito tempo de despolitização a falar e uma overdose de redes sociais.

É desde sempre o que me assusta, a única coisa que verdadeiramente me assusta, normalizar o que não é normal. De resto sempre estiveram aí, mas mais calados, a maltratar as mulheres e a maldizer se ter perdido as antigas colónias portuguesas, a clamar pela pena de morte e pela justiça popular. 

Haja poesia, sabedoria e dia seguinte. Afinal somos 82%

~CC~



(1) Hannat Arendt

sábado, 9 de março de 2024

Dia de reflexão

 

O que eu gosto do silêncio, o tanto que eu gosto.

Enrolo-me na manta depois de um dia intenso de trabalho e sonho que o mundo está em paz.

E que até os beijos, se eles chegassem, seriam como pombas, leves e esvoaçantes, sussurros e murmúrios.

E a felicidade, se ela viesse, seria brisa primaveril com cheiro de jasmim.

~CC~ 

sexta-feira, 8 de março de 2024

quarta-feira, 6 de março de 2024

Apenas sobre flores

 

As flores rosa despertaram da sua letargia uma após uma até a copa se tornar uma mancha de cor contra o céu cinzento. Disseste que os velhotes sabiam que essas árvores floriam sempre antes da Páscoa. Eu não sei, o que aprendi sobre plantas e flores foi a régua e esquadro. Mas agora sei o que elas sentem, as flores.

 Compreendo o seu desejo de emergir, de respirar, de ser.

~CC~

domingo, 3 de março de 2024

Que coisa linda...

 

Que coisa linda ontem me aconteceu.

Entrei num lugar que há muito desejava, parece que já não se chama assim agora, mas para todos é e será sempre o hospital Júlio de Matos. Têm lá dentro a experiência de teatro terapêutico mais antigo do mundo, já lá vão mais de cinquenta anos e o seu fundador, que lhe chamou Teatro dos Sonhos, já não está mais entre nós. Conseguiram, apesar disso, continuar.

Não, não fui ver um espectáculo, fui estar com eles, em todo o pleno sentido da palavra, o que implica fazer junto. Comigo, o meu pequeno grupo de mestrandos. Uma das melhores manhãs da minha vida. Estão lá dentro pessoas como tu e como eu, as fronteiras são tão ténues entre o que nos equilibra e os que nos desequilibra.

Foi desagradável andar no gelo e maravilhoso andar no campo de flores. E quando chegou a caixa articulada, o nosso objecto cénico, não quis entrar lá para dentro por me lembrar um caixão e uma prisão, mas o meu pequeno grupo (entre os quais um residente jovem recente e uma mulher residente há muito tempo) ensinou-me que afinal podia ser um barco e que até podia voar nele.

~CC~


sexta-feira, 1 de março de 2024

Todos contam

 


Dar de beber à desventura (Fado Bicha)

Não é que goste muito deste estilo de música, mas a letra tem imensa piada, oiçam bem. E nesta luta, que já nem chamo pela Democracia mas pela dignidade humana, tudo e todos contam.

~CC~


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

29

 

Aproveitem-no bem, só há de quatro em quatro anos.

Façam dele um dia bom.

Para mim basta-me sentar um bocadinho à janela de um café bonito.

~CC~

Café " A Brasileira" (Braga)

(E já agora, o que é um dia bom para vós?)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Caixa de bombons (IX)

 

Fui uma adolescente sem dinheiro nenhum, vivendo um pouco de trabalhos avulsos mas sobretudo beneficiada pela generosidade dos meus amigos, do meu namorado e dos seus pais. Salvaram-me a vida em bens e muitos almocinhos, mas não me davam propriamente dinheiro. Por isso quando comecei a receber os meus primeiros ordenados, pude gastar dinheiro em doces, coisa que antes não podia comprar.

 A minha paixão eram as fatias fininhas de laranja cobertas de chocolate que havia em Benfica, no Califa. Descobri-as por acaso e tornei-me quase viciada, comprava uns saquinhos e ia comendo durante o dia. Felizmente os caminhos do Califa deixaram de se impor quase todos os dias, caso contrário o meu nível de glicémia teria ditado uma futura consulta para diabetes.

Muito tempo mais tarde descobri que estas fatias de laranja cobertas de chocolate ou de açúcar eram praticamente um doce típico desta cidade sadina a que um dia decidi chamar casa.

Este bombom é uma versão refinada desse sabor. Um chocolate preto com creme de laranja nada doce e umas casquinhas muito fininhas do fruto em versão crocante. Soube-me assim a casa, no justo equilíbrio que eu gostaria que a minha vida fosse, essa combinação da aceitação do que já fui, do que sou e do que ainda quero ser.

~CC~



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

No escurinho do Cinema

 

Nome improvável de me chamar, país igualmente. Fui porque alguém me soprou é bom.

Vidas passadas é um filme coreano.

Cada vez gosto mais de cinema de geografias mais desconhecidas e os coreanos ultimamente têm sido a minha maior surpresa.

É belo, de uma delicadeza tocante. É sobre amor, desencontro, renúncia. É também sobre identidade(s), essas fronteiras onde nos moldamos numa língua, numa geografia, num modo de ser. E sobre esse hibridismo dos seres que atravessam fronteiras, fazem casamentos mistos, amadurecem em lugares múltiplos, fruto de experiências que não eram aquelas que a família deixava antever.

Belos actores que por certo não caminharão em nenhuma passadeira vermelha à luz de holofotes.

Apeteceu-me muito chorar como a actriz chora no final. esse choro em soluços que ela deixou para trás quando se tornou adulta. Mas saí a correr do cinema e não chorei.

~CC~


domingo, 25 de fevereiro de 2024

O meu coração

 

O coração é esse lugar.

Um lugar que podemos abrir e deixar esvoaçar. Um lugar que podemos fechar e agarrar bem à terra. Dois movimentos importantes, ambos essenciais para não sofrermos. 

O meu coração, ainda sou dona dele, consigo fazê-lo bater como quero, não me foge.

~CC~

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Esse mar

 

Quando a falta de tempo me rouba ao que é importante, zango-me um bocadinho. Ainda assim tentarei banhar-me um pouco nestas águas.

~CC~

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Caixa de bombons (VIII)

 

Esta caixa de bombons é como a vida, nem tudo nela é perfeito.

Este bombom tinha aparência que me suscitou desconfiança, formato de coração embrulhado em papel vermelho brilhante. Ainda assim, nada nos ficarmos pelas aparências. Vamos lá prová-lo.

Infelizmente era mesmo muito doce, cheio de caramelo por dentro, enjoativo. Fez-me lembrar quando nos cabeleireiros que frequentava havia revistas cor de rosa e eu lhes pegava, ao fim da terceira página já estava enjoada, para além de não conhecer nem metade das personagens (agora já vou sempre ao mesmo e não tem revistas). Não sei se pediria ao chocolateiro para tirar este da caixa, afinal a vida tem coisas imperfeitas. E mais, estou certa que não gostar deste me vai fazer gostar mais de algum que a caixa terá para mim. 

~CC~

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Riso amarelo

 

Como é que em pleno século XXI se ridiculariza um político homem por chorar em público? É certo que ao humor tudo se permite e nada se cobra. Não se pode nem deve proibir, mas não se pode ignorar os efeitos. Eu pensaria duas vezes numa coisa chamada masculinidade tóxica e não contribuiria para tal, por muito dinheiro que ganhasse com as gargalhadas que faria soltar. É riso amarelo.

~CC~


Nota: isto é extensivo a qualquer político que chore, como é às políticas que vão a uma discoteca dançar, ou aos que dão um beijo em público... nada tem a ver com a cor partidária ou simpatias afins.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Tenho aqui um grito preso na garganta

 

A nível profissional nunca consegui fazer coisas por ser obrigada a fazê-las, sem encontrar sentido ou desígnio. Creio que é a única coisa que me revolta e me deprime, sendo que alterno entre o estado de raiva e o de tristeza.  O maldito império da burocracia digital veio para ficar, há-de esmagar o ser humano. 

Tenho aqui um grito preso na garganta.

~CC~

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Também foi preciso amor

 

Sete anos depois ainda sinto a angústia colada à pele. O frio da sala do bloco cirúrgico é diferente de todos os outros, o tremor que ele traz também. O coração salta-nos no peito e a tensão sobe até que a droga faz efeito e sumimos dentro de nós. Entrei era dia, acordei era noite cerrada. A alegria de estar viva, ainda que muito adormecida, depois de dez horas num outro mundo desconhecido, é algo inesquecível. Ainda que depois disso tudo tivesse corrido inesperadamente mal. Mas aí já foi a batalha dia a dia, coisa a coisa, dor a dor, quase sempre consciente, muitos dias imóvel e depois reaprender tudo; a andar, a comer, a tomar banho e, sobretudo, a rir. 

Não soube de mim durante muito tempo, era outra eu, o corpo sofreu mudanças substanciais, algumas pessoas passavam por mim na rua e não me cumprimentavam, não me reconheciam. Se assim foi comigo, imagino como será com pessoas que passam por mudanças corporais ainda mais abruptas, que perdem ou danificam alguma parte (mais) visível do seu corpo. É viver num território estranho mas esse território somos nós próprios.

Mas cheguei aqui, sete anos depois. E quando olho no espelho, pareço mais eu, uma mistura entre aquela que entrou para a sala de operações e a que de lá saiu. Também foi preciso amor. Aquele que temos que sentir por nós, ainda que muitas vezes ele tenha estado num nível muito abaixo do desejável. Todo o sofrimento, mesmo o que se infiltra nas coisas pequenas dos dias,  me pareceu depois mais intolerável, mais injusto, mais desnecessário. A história está contada por inúmeras pessoas, está longe de ser só minha, é a de todos os que sobrevivem. Queremos luz, leveza, carinho, confiança, ligações indestrutíveis para levar connosco até ao fim da vida. E mesmo quando não temos tudo isso, agarramos com muita força o que temos e continuamos a vir à tona de água, respirando, respirando sempre. Afinal ganhámos uma nova vida, não a podemos desperdiçar na sombra da noite.

~CC~




terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Outro Carnaval


Vê-los a caminhar em andas por aquele empedrado era perceber que se pode desafiar quase tudo na vida. E o modo como brincavam com cada coisa, cada pessoa, cada pormenor da própria arquitectura da aldeia era uma inspiração. Uma senhora da aldeia, já com alguma idade perguntou-lhe: não quer voltar quando eu estiver a caiar a casa, dava-me jeito alguém tão alto...que belo diálogo.

E neste cruzamento bem humorado e respeitoso entre as pessoas da terra e os visitantes decorreu toda a festa. Não havia garrafas de cerveja ou copos ao abandono pelas ruas, nem caixotes de lixo a deitar por fora, nem aparelhagens com um som tão alto que não deixariam descansar quem queria  É preciso pensar cada coisa que fazemos e isto aqui parece estar a ser feito. Eram as crianças que entoavam as modas, mercê do trabalho que tem estado a ser feito com o cante alentejano entre os municípios e as escolas. 

Isto é um outro Carnaval, não é só em Podence que se faz a diferença.

~CC~

Nota: O Entrudanças é organizado pela Associação PédeXumbo.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Paz

São Pedro das Cabeças, Alentejo.

Outrora duras batalhas se travaram aqui, mas agora é um lugar que só me inspira Paz. 

~CC~


 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Parece que é Carnaval

 


De músicas ditas de Carnaval, nunca gostei. Também nunca fui de máscaras. Ainda no outro dia alguém me disse que era frontal em excesso, eu que pensava já ter abandonado essa contundência, afinal há algo que fica sempre agarrado à pele.

Como tal, deixo-vos a música de alguém que volta diferente do que já foi, ainda que já fosse interessante, é agora melhor.

~CC~





quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Caixa de Bombons (VII)

 

Apanhada pela gripe, os bombons não me sabem a nada agora. Mas tenho os apontamentos de cada sabor, laborioso trabalho de degustação a que me dedico. Infelizmente o sete, já consumido, pelo sabor a ginjinha, seria agora talvez adequado. Embora me fizesse lembrar Óbidos, era um ginja mais suave, menos acentuado do que essa invenção que se vende por lá em copos de chocolate, se não era tradição, passou a ser, afinal o que não falta são reinvenções.

Pode parecer estranho mas Óbidos foi justamente o meu tema de conversa com a moça brasileira mais nova lá do painel, era loura e branquinha, usava uma boina lilás e estava encantada, direi mesmo deslumbrada, com a possibilidade de ir a Óbidos. Queria ir para Lisboa e de Lisboa para lá e foi difícil explicar-lhe que se estávamos a norte de Lisboa, ela não precisava de ir a Sul para descer mais a Norte, mas eu faria certamente figuras muito mais infelizes lá no imenso país dela. Ela não queria ir por causa do chocolate, da ginja, ou de ser uma vila medieval muito bonita....mas por haver lá uma igreja cheia de livros! 

É verdade, dizia eu, achando-lhe muita graça. Aquele deslumbramento quase infantil por uma coisa diferente, inovadora, na senda de uma mudança do mundo, era tal qual o que eu sentia na idade dela. Agora custa-me mais deslumbrar-me assim mas não quero envelhecer ao ponto de achar que já sei e já vi tudo, quero ainda guardar dentro de mim aquele gritinho infantil que ela emitia sem pudor ao falar da sua nova catedral.

~CC~