sexta-feira, 13 de maio de 2022

Temos que voltar lá

 

Depois de três doses da vacina, dois confinamentos e a crença cada vez mais enraizada em todos de que a pandemia já tinha passado, o contágio aconteceu sem percebermos como. O vírus não se instalou apenas no teu corpo já cansado de 93 anos, entrou como uma avalanche.

Por ti farei esse acto irracional. Uma vela de uma descrente num santo que não é santo. Eu serei crente e ele será santo. E poderei novamente ouvir-te dizer que tens saudades minhas, há tão pouca gente a dizê-lo. Com o tempo aprendeste a exprimir essas emoções, coisa que te faltou durante tanto tempo. Eu também tenho saudades tuas, de me fazeres escolher entre a écharpe a, b, c ou d para uma simples saída tua ao café. Faz agora um ano levei-te ao fim da tarde a comer caracóis e meteste conversa com todas as mesas da esplanada, foi uma festa. Temos que voltar lá.

~CC~ 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Anseios

 

Meses amados: Abril, Maio e Junho.

Como me estou a esforçar para vos conjugar com esperança.

~CC~

terça-feira, 3 de maio de 2022

Para sempre meu mestre

 

Tive um mestre quando tinha apenas 16 anos. Um mestre é alguém que nos espanta, nos revira de alto a baixo, nos olha nos olhos, nos faz ver o mundo de outra maneira. Foi cedo demais para tal. Nunca mais consegui encontrar outro que se lhe comparasse. Talvez o tenha procurado em cada professor/a, em cada orientador/a académico, em cada encenador/a, em cada cruzamento na comunidade, na vida. Não devemos ter mestres tão cedo, todos os outros se lhes comparados, são apenas uma imagem. Cedo percebi também que estava longe de ser perfeito, pelo contrário, ele apresentava-se no esplendor da sua imperfeição e isso, contudo, não o diminuía. Se das minhas palavras depreendem que era uma jovem apaixonada, longe disso, a mestria é todo um outro amor que não passa por paixão ou desejo. Era-lhe grata não só pelo que ele me mostrara do mundo, como também pelo que me mostrara de mim própria, sendo que eu, na minha infinita timidez, estava longe dos holofotes dos olhos dele, mas importava-o na justa medida em que todos os jovens daquela sala lhe importavam. Era confortável para mim não ser o centro, isso permitia-me observá-lo melhor.

E tantos anos depois voltei a ouvi-lo, condecorado pelo Presidente da República e senti quase o mesmo maravilhamento adolescente. Diz ele que se levanta cada dia contente por existir, grato por mais um dia de vida. Tal e qual o que eu sinto meu mestre, isso até nos dias maus, imaginem nos dias bons

~CC~



sexta-feira, 29 de abril de 2022

Se eles pudessem dançar

 

O meu pé de chumbo direito diz ao meu pé de chumbo do lado esquerdo que fique parado, um acordo silencioso feito de vergonha. Mas a minha alma, essa coisa que mora cá dentro, essa sempre dançou tão livre, tão livre. Talvez um dia ela possa contaminar um pé e depois o outro e sacudam ambos o receio que os prende ao chão. Se eles pudessem dançar...

~CC~


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Rostos

 

Descubro agora como é o rosto do senhor da mercearia (olha, parece mais novo), que a empregada do café do lado sorri quando nos atende e que a cara da senhora que gere o restaurante de peixe é ainda mais carrancuda do que era de máscara.

E sei que as ruguinhas ao lado dos meus lábios os ajudarão a descobrir a minha real idade, esperando que o sorriso possa compensar alguma desilusão. Isto nos momentos em que me esqueço do perigo e enfrento o mundo tal qual ele era dantes, sem a máscara. Na verdade ainda a levo sempre comigo, pronta a usá-la em sítios em que me sinto desconfortável.

O que é bonito não é ver agora os rostos, bonito é irmos perdendo o medo e o que ele nos congelou em vida e abraços.

~CC~~


domingo, 24 de abril de 2022

Dizê-la sempre!

 


LI-BER-DA-DE

LIBERDADE

 Fico a dizê-la devagar, silaba a silaba, sabe a vermelho, a sal do mar, a cerejas.

Nem sei dizer quanta Primavera tem dentro, o quanto me aquece e o bem que me faz saboreá-la.

~CC~




sexta-feira, 22 de abril de 2022

Novas habitantes

 

Comprei-as muito baratas no supermercado, como se conseguisse trazer a Primavera ansiada para dentro de casa.

Bárbara perdeu todas as flores numa semana e ficou nua perante o meu olhar que vigia cada hipótese de botão. Zélia aguentou melhor a mudança e deixou-me assistir ao modo como um botão se vai lentamente abrindo para deixar emergir as pétalas rosa e os filamentos amarelos, que suprema beleza. Nos raros momentos em que em vez de estar sozinha me sinto só, falo com elas. E não, elas não me respondem, como tal sei que ainda não enlouqueci, mas não posso prometer-vos nada. Na verdade gostava de saber se gostam dos nomes que lhes coloquei, mas a mim também não me perguntaram nada e causaram-me este conflito entre um primeiro nome próprio detestado e um segundo nome próprio amado. 

É a primeira vez que cuido de orquídeas, dizem que são de feitio difícil.

~CC~


quarta-feira, 20 de abril de 2022

(Des)caminhos





E eu fui. Mas gostava de continuar a ir e a ir e a ir. Contudo, tive que voltar.
O que descobri é que todos os caminhos são descaminhos e por isso me são desejados. Sempre adorei trabalhar, em que lugar me perdi então, pergunto-me. Talvez no do excesso.
~CC~

 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Coisas de aves (II)


Beleza inscrita para sempre num certo dia de Dezembro, tão longe daqui, tão perto de mim. 
Tanto que gostaria de ter visto a ave que saiu daqui.
~CC~

 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Coisas de aves

 

Achamos que estamos preparados, o trabalho interior começou há muito, um lento processo em que sabes que a partida do outro é um voo há muito começado, tão proporcional ao voo que tu própria iniciaste. Eram linhas antes cruzadas, agora apenas paralelas próximas.

Contudo, quando o vês voar cada vez mais pleno, cada vez mais longe, encantado por tudo o que esses voos lhe trazem de luz e novidade, sabes que demorará afinal mais do que esperavas para chegar ao nível zero da dor. Mas anseias lá chegar e sabes que chegarás, concede-te esse tempo. É aquele lugar em que já não choras, ainda não consegues sorrir. Nesse limbo, nesse interstício, nesse quase lugar, também tu podes ensaiar voos pequenos, talvez um dia consigas que o teu bater de asas toque ao de leve o coração de alguém. É assim nas coisas pequenas que as coisas grandes acontecem.

~CC~

 

domingo, 10 de abril de 2022

Rituais

 

A idade, o peso dela pode tornar-nos subitamente leves.

Jamais antes deixaria que um jovem de vinte anos, com um rabo de cavalo louro e modos doces me fizesse experimentar a diferença entre cuidados de corpo e de rosto, usando a minha mão esquerda para um e direita para outro. A princípio pensei que ele fosse apenas espalhar creme e não toda uma gama de cuidados que levou cerca de 15 minutos para cada mão. E as explicações demoradas mas muito técnicas, o cuidado em escolher cada aroma que eu gostava, mais uns elogios que devem constar de qualquer brevet de vendedor. 

Uma pessoa finge que acredita porque a velhice nos tolda a razão e nos faz necessitar de mimos adicionais, deve ser assim que nos tornamos oficialmente pessoas de uma certa idade. E é assim também que gastamos dinheiro em coisas fúteis e inúteis, ainda que muito aromáticas e macias.

Espero apenas ter acrescentado alguma coisa ao seu salário, a mim os cremes não me farão mal, até porque mais de metade do tempo foi de propaganda ao veganismo da marca.


~CC~

terça-feira, 5 de abril de 2022

Bem lhe peço ao ouvido

 

Tenho-lhe dito e repetido que preciso de estar com a mãe velhota que já mal consegue falar comigo ao telefone. Tenho-lhe pedido que me deixe em paz pois agora há uns dias em que posso sair daqui e mergulhar no perfume alentejano das estevas, molhar os pés na ria, caminhar com cheiro de mar. 

Tenho implorado que venha mais tarde, tão mais tarde que já se tenha esquecido definitivamente de mim. Oxalá esse vírus, tão mutante, tão rebaptizado, tão resistente seja sensível aos meus pedidos e não precise de nenhuma das minhas células para se reproduzir e se eternizar neste século estranho em que vivemos.

Mas que anda muito, muito próximo anda, sem dúvida esteve aqui em casa. E até lhe contei do estudo para o qual me convidaram sobre as pessoas que em dois anos de pandemia não tinham tido a doença, é que seria fantástico participar.

~CC~


domingo, 3 de abril de 2022

Como distinguir hoje as classes sociais:)

 

Tinha 250 cápsulas de café da Delta oferecidas e apenas uma máquina da dita marca para o evento.

Com a pandemia e o bar por longos períodos fechado, sabia que nos gabinetes dos docentes, as máquinas de café se tinham multiplicado. Contudo, não podia entrar nos mesmos, muito menos perguntar um a um quem as tinha. Dirigi-me assim aos funcionários, sempre aqueles que conhecem melhor que ninguém todos os cantos à casa.

Ora, segundo eles, os professores não têm máquinas de café dessa marca, só de marcas melhores, mais finas e conhecidas. Ora, eu que tenho uma máquina de café da Delta em casa, descobri assim a que mundo afinal pertencia. E trouxe a máquina de casa.

~CC~

quinta-feira, 31 de março de 2022

Quantofrenia

 

Ela veio comigo até ao carro, bem bonito estava, lavadinho, parecia novo após a inspecção e os seus estafados oito anos de vida.

E disse em voz baixa: vai receber o questionário de satisfação, já sabe a escala vai até dez. Mas só pode preencher o 9 ou o 10. A principio nem percebi, mas depois ri-me. Mas ela falava mesmo a sério: e depois virá o telefonema da oficina e já sabe, é a mesma coisa. E digo-lhe uma coisa, se quiser dar oito, não atenda. Aí fiquei incrédula, será que despedem os que têm menos que 8?

E depois de muita insistência, lá atendi a oficina, a conversa a mesma, mas agora com 4 questões e a dita escala. Por mim tudo bem, 10 a tudo. Do outro lado, a mesma ansiedade: por favor, no questionário responda igual. Eu já nem queria acreditar,  disse-lhe que se fosse para ela fazer uma viagem de férias até ao Índico, dava 11 a tudo...mas creio que já não me ouviu, também deve haver um cronómetro a medir cada telefonema. 

Mas há alguém que acredite e se guie por esta maldita quantofrenia que tudo invadiu? Como viver neste mundo de "likes"? Eu já não sei. Tenho tantas saudades do quintal da minha infância, com terra, bolas de sabão feitas com canas de mamoeiro, flores com cola natural que pendurava no nariz, tudo a passar pelos meus cinco sentidos.

~CC~




segunda-feira, 28 de março de 2022

Só crianças

 


O menino chegou da cidade mais martirizada da Ucrânia, bem acompanhado pelo seu pai e pela sua mãe que rapidamente o levaram para a escola. A professora lembrou-se daquela menina russa que já antes tinha chegado e já dominava o português, poderia talvez traduzir, caso se compreendessem. E compreendiam, aliás às mil maravilhas, crianças quase felizes por estarem juntas. Se não se introduzir nenhum pauzinho na engrenagem eles serão só crianças estrangeiras, mais unidas pelo que é comum do que por aquilo que é diferente e estão longe, muito longe do desentendimento e do sofrimento que alguns governantes, apenas supostamente em nome dos seus povos, fizeram de mal. 

~CC~

domingo, 27 de março de 2022

Coisas de formiga com asas

 

Pergunto-me muitas vezes a razão para este trabalho claramente em excesso que em determinadas alturas me conduz à exaustão.

Atendendo à quantofrenia que nos mede a carreira académica em publicações e projetos internacionais, pouco se importando com a qualidade do trabalho pedagógico, pouco a pouco deixei de me importar com ela, já nem discuto nem me importo com subidas ao topo, fico doente só de pensar nas horas gastas a fazer o Currículo Vitae e deixo-o desactualizar com ameaça iminente de penalização.

Mas há um gosto que nunca me tiraram. Ver acontecer algo que junta as pessoas à roda da mesa da comunidade e saber que fui eu que o moldei entre as minhas mãos. Mesmo sabendo que em pontos é uma miséria.

~CC~

segunda-feira, 21 de março de 2022

Primeiro encantamento

 

Para ele foi um primeiro poema e para mim também um dos primeiros a acordar este deslumbramento pela poesia. 


Canção


Tinha um cravo no meu balcão;
     veio um rapaz e pediu-mo:
     - mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
    veio um rapaz e pediu-mo:
     - mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
     só não dei o coração;
     mas se o rapaz mo medir    

     - mãe, dou-lho ou não?

Eugénio de Andrade - Primeiros poemas.



domingo, 20 de março de 2022

Por estes dias...

 

Quando é que um sumo compal pequeno, bebido num café, passou a custar 1,75 euros? E um cappuccino 2,75 euros? Achava que na minha cidade os preços nunca iam subir como em Lisboa ou no Porto.  

Conversava eu com a empregada sobre o preço do dito sumo quando entrou um rapaz dos seus vinte anos. Perguntou se vendia uma dose de batatas fritas e qual o preço (batatas mesmo, não de pacote). Ela espreitou para a fritadeira lá dentro e disse que sim, que as podia fritar. E ele almoçou uma dose de batatas fritas e um copo com água.

Calei-me imediatamente com o preço do compal e do cappucino, até me envergonhei por consumir estes bens de que na realidade pouco preciso. Apeteceu-me dizer-lhe que podia pagar algum acompanhamento das batatas mas não tive coragem, é a dúvida de como ajudar sem ferir a dignidade de alguém ou ser intrusiva.

~CC~


quinta-feira, 17 de março de 2022

Poeira laranja

 

Com a idade os olhos ficaram cada vez mais secos, às vezes tenho de deitar-lhes lágrimas compradas na farmácia, algo absolutamente estranho, supostamente deviam produzi-las por si próprios, há tanto motivos possíveis.

Mas a minha luta centra-se no coração, ele é que não pode mesmo secar, tem que sobrar nele o dom de se emocionar. Às vezes olho-o e pouco se parece com o passarinho frágil da adolescência, esse que estremecia com a aragem, agora é vê-lo quase indiferente às poeiras laranja que atravessam os mares para nos poisar sobre as casas. 

E não há olhos que se atravessem no caminho que o façam estremecer. E nem posso culpar a poeira laranja.

~CC~

terça-feira, 15 de março de 2022

Primeira necessidade?!

 

Óleo?!

Há anos que não compro tal produto.

Hoje estava em grande destaque no supermercado como bem de primeira necessidade, como se fosse essencial à nossa alimentação. O que é me anda a escapar? O que é que não ando a consumir e afinal devia?

No trajecto para o sul, vejo olivais e olivais a perder de vista, pelos vistos azeite não nos falta. É o que consumo, penso que a meu bem, do país e da sustentabilidade (ainda que os olivais de cultura intensiva também possam matar o resto e nos caiba controlar isso).

Somos todos um pouco loucos, ou não?! Caso contrário não se iria esgotar o óleo porque alguém disse que não se produzia cá e iria rarear.

~CC~


sábado, 12 de março de 2022

março, 12

 

Não estava ansiosa naquela noite, sentia-me calma. Sabia que chegarias no dia seguinte, as pessoas diziam que a jornada costumava ser longa, mas tu quiseste nascer ainda de manhã, ali perto do meio dia, querias vir para almoçar.

Ainda hoje sinto a mesma calma quando te sei a dormir aqui em casa, a acordar depois de mim. Nesses dias é como se tudo regressasse a um lugar primordial e certo, como se a desordem do universo se atenuasse e eu fosse, sobretudo, e ainda, a tua mãe.

Depois vem a outra tarefa, a de aceitar a partida como elemento essencial de uma identidade outra, tecida de células que de nós tanto se alimentaram como se diferenciaram, incorporando do mundo o seu próprio vento, suor e riso. Saber que não faremos os caminhos mas que se pudéssemos iríamos enchê-los de flores para que todo o caminhar fosse suave, cheiroso e belo. Uma parte grande do amor é vontade de protecção, o outro, no seu oposto, saber conceder a liberdade que permitirá a quem amamos arriscar, perder, ganhar, porventura sofrer. E o amor é também ser tão feliz com a felicidade do outro que ela é nossa também.

Estou aqui ainda, foste e és parte integrante da força de lutar pela vida.

~CC~




quarta-feira, 9 de março de 2022

Convocatória

 

Precisamos outra vez de cravos.

Para estancar as espingardas e parar os tanques.

Que passem de mão em mão e encham os colos das mulheres e enfeitem os sorrisos dos homens.

Que gritem lá paz como outrora fizeram aqui, impedindo o derramamento de sangue.

Que venha novamente a Primavera. Que se convoque e apresente a esperança.


~CC~

terça-feira, 8 de março de 2022

De uma mulher para outra e para outra...



 TESTAMENTO


Vou partir de avião 
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos.

Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com a voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais do que um horário certo
Ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas

Preparem a minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrante
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.

Ana Luísa Amaral



domingo, 6 de março de 2022

Da sua dor

 


Ela vê com os seus olhos de visão reduzida a guerra que chega a durar quase o tempo integral de um noticiário e abana a cabeça com a desilusão de quem já muito viu. Mas depois chora porque não consegue andar ligeira como gostaria e arrasta os pés e se desequilibra no vazio da sua idade. É assim a dor de cada um, algo que, contudo, comparamos, mostrando quão pequena é quando comparada com outra. E há nessa comparação toda a justiça e injustiça. Justiça porque a consciência de que não estamos sós no mundo é importante, fundamental para relativizar o umbigo com o qual vivemos. Injustiça porque a dor de cada um é parte da sua intimidade e não pode ser julgada.

Por isso mesmo digo também a mim própria, não é fácil estar aqui e viver a sua fragilidade progressiva mas é muito mais difícil estar noutros lugares, aqueles em que se deixa para trás tudo aquilo a que se chamava casa.

~CC~



terça-feira, 1 de março de 2022

Gigante

 

Como bem nos mostrou Nelson Mandela odiar nunca é a solução.

Faz-nos falta alguém assim, um gigante.

~CC~


domingo, 27 de fevereiro de 2022

Pela Paz, sempre!

 

Sim, também estou triste, muito.

O que dizer mais quando parece que tudo já se disse e mais de metade foi excessivo, inadequado e padecemos de um ruído que nos torna quase incapazes de racionalizar o que quer que seja?

Abomino a guerra, esta e todas as outras que se vão passando no silêncio do mundo. Eu nem acredito que os exércitos sejam um instrumento de paz, como tantos defendem. Todo o dinheiro que aí se usa é mal gasto, sou pacifista até à medula.

Repito, estou triste e muito.

~CC~

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Das vidas outras (II)

 

Um domingo. A estação de comboios da cidade está quase parada, talvez por isso reparo neles.

Quinze anos talvez.

Saem de mãos dadas, dois adolescentes comuns, modestamente vestidos, nada que os distinga. Mas na saída ele pede-lhe que rode sobre si própria, numa pirueta de bailarina, ela nem saia tem, mas as calças de ganga parecem voar, assim como os cabelos. E ele apanha-a depois da pirueta e agarra-a num abraço e depois num beijo inclinado, à filme.

Que belos quinze anos.

~CC~


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

De mim

 

Tanto tempo para conseguir esta infinita sensação de liberdade. Não foi fácil despir-me das amarras pois há nelas também conforto e segurança.

Não fora o peso do trabalho e seria finalmente o pássaro ou o golfinho, inspirando o ar para sorrir a cada volta pela curva da nuvem ou do rio.

~CC~

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Das vidas outras

 

Todos têm o telefone dela e sabem que podem ligar. Disseram-no tantas vezes que me impressionaram.

E ela parecia uma menina frágil, um olhar tímido e doce, cara lavada, roupa de conforto, voz calma.

Mas houve um momento que me olhou nos olhos e senti-lhe a força.

Que falta fazem estas lideranças sabiamente democráticas.

Espero que ela tenha a quem ligar também. Até os bons lideres, ou sobretudo esses, precisam de uma mão no rosto, uma brisa suave.

E vai tão mal o mundo cheio de homens que na liderança são o contrário do que esta mulher é.

~CC~



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A mais bela

 

Digam lá se não é a mais bela canção de amor de todos os tempos. Se não, digam...digam lá que outra. Vai em versão masculina e feminina, não consigo saber de qual gosto mais.




Este dia.

Faz cinco anos e isso dá-me vontade de chorar. Mas devia era ser Suzanne e rodopiar, inventando outra vez a vida, essa que ganhei quando podia ter perdido.

~CC~




domingo, 13 de fevereiro de 2022

Nossos irmãos

 

A escola situava-se na margem sul, não muito longe de Lisboa. A turma era constituída por 70% de crianças oriundas do Brasil ou, se nascidas cá, com sotaque vincado do português do Brasil. Decifrar um pequeno texto do manual do 4º ano demorou mais de uma hora, as crianças não entendiam metade das palavras que ele continha. A professora era paciente, explicando cada palavra, ainda que o método fosse tradicional, era ela que explicava tudo. Os miúdos eram óptimos, queriam mesmo entender tudo. Pensei na minha bolha e em como cada um tem uma. Não supunha a existência de tal realidade, não com aquela força. O que se terá passado para esta nova vaga migratória ter tomado tal força? Houve um tempo contrário, talvez há cerca de dez anos, em pleno tempo da Troika,  já erámos nós a ir.

Lembrei-me como há tantos anos atrás um pedido de uma torrada e um sumo de laranja tinha, no Rio de Janeiro, deixado o empregado a olhar para mim atónito, como se eu tivesse falado Francês. Eu que cresci na grande vaga das telenovelas brasileiras e que mesmo sem ser grande fã, também vibrei com algumas personagens, entendo tudo o que dizem. Não sei em que momento nos deixámos de perceber, de nos atrair, de nos querer, mas tenho a estranha sensação que isso aconteceu, não obstante estas vagas para cá e para lá do Atlântico. Usámos a palavra irmão e agora parece que ela não desperta na nossa boca, muito menos chega com o sorriso de antes.

~CC~




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A frase agarrada a mim

 

Não vos acontece uma frase, um título de um livro, uma palavra andar agarrada a vós, infiltrando-se em tudo?!

Está a acontecer-me com "O tempo, esse grande escultor". E creio que não é pela escritora, que li, sem me deslumbrar. A frase é que é magnifica.

Embora esse escultor que é o tempo teime em esmagar-me. Não pelas rugas, pela deformação do corpo, pelo esgotamento da energia...é mais por me faltar em horas e minutos a cada dia que finda. As longas listas de coisas em que só em metade marco um certo, a indicar que está feito. A vã promessa a cada ano que não será assim. Um dia conseguirei. E esta frase não andará agarrada a mim, será outra, mais leve.

~CC~


sábado, 5 de fevereiro de 2022

No escurinho do cinema

 

Tenho praticado pouco este bom escurinho.

Mas no último domingo passei a tarde num escurinho destes mesmo que não seja bem um cinema. Trata-se do ciclo: um pintor, um filme. O filme da matiné era "Seráphine".  Para quem acha que a arte só nasce em determinadas classes sociais e o estilo se adquire no trabalho com os mestres, esta mulher é um exemplo do contrário. Trata-se de uma mulher só, muito pobre, já na meia idade, uma criada a servir em casas de campo. Pinta talvez para não enlouquecer e falar com os anjos e depois enlouquece por pintar, pela pintura lhe ter derrubado os muros que a continham. A actriz é de uma excelência tão grande que para mim ela é aquela mulher, não a imagino a fazer outros papéis.

Para quem tem plataformas de filmes, pode encontrá-lo com facilidade e passar com ele uma bela tarde ou noite. 

Fiquei com muita vontade de usar finalmente os lápis que me deste, levá-los para o campo e traduzir estevas em telas.

~CC~




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Tanta saudade

 

Aquela fase do cansaço extremo, trabalhando de sol a sol, como uma formiguinha. Tantas saudades do mar.


~CC~

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Talvez ler-te um poema...

 

Eras de Direita numa escola de Esquerda, eras Católico numa escola predominantemente Ateia. Disseram-me para não gostar de ti e disseram-te para não gostares de mim. E, contudo, como me recebeste bem, como me amparaste, ajudaste e me deslumbraste com o teu modo de ser e de dar aulas. Gostámos afinal um do outro, livres de estereótipos e de intrigas. Senti a tua falta quando pediste a reforma no tempo certo mas sei que não paraste, que andavas para lá e para cá entre Cabo Verde e Portugal, por certo cativando alunos.

Há cerca de um mês pedi o teu telefone, não cheguei a ligar e agora já não o posso fazer. 

Quando for à Meia Praia, mesmo sem saber rezar, hei-de falar contigo, talvez ler-te um poema. 

~CC~

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

As noites do Dragão

 

Não, não vou falar da noite eleitoral de ontem...para múltiplos significados, análises e opiniões há por aí blogues de sobra (mas também já houve mais...). E as sondagens? O povo português continua a ser surpreendente e a teimar em não alinhar com elas. E os comentadores pagos a peso de ouro que acertam tudo ao lado?!

Mas por causa da noite de ontem, hoje sinto-me a precisar de uma noite do Dragão, ou seja, de uma aula de Chi Kung.

Com o evoluir da pandemia e apesar da pena que sinto por tal alteração, as manhãs tornaram-se noites e o ar livre e depois o ginásio passaram a ser a janela online pela qual o professor espreita. A mudança foi-me difícil e demorei mais a conseguir, dentro de casa, desligar-me.

Na última aula finalmente fui onda do mar, bocadinho de espuma, gaivota planando. Finalmente deixei que o meu corpo se transformasse num bocado de natureza, parte de um universo maior, gota entre gotas. Abracem-se, pediu ele no fim. Mas não havia ninguém para abraçar. O esforço teve que ser maior.

~CC~





terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Os que não...

 

Para os académicos eu sou uma "pessoa do terreno", para as "pessoas do terreno" eu sou uma académica. Isto costuma ser apenas um sussurro, alguma coisa que não me é dita claramente, olhos nos olhos. Ontem, disseram-me com toda a clareza, talvez escudados pelo écran do teletrabalho, curiosamente depois pediram-me desculpa, como se me tivessem ofendido. Calei-me, explicar seria sempre muito complicado, demorado, até penoso. 

Esta questão de não pertença é um espinho cravado na minha pele há muitos e muitos anos. Umas vezes dói-me, outras nem por isso. Talvez haja um limbo, um não lugar, uma terceira via onde nos iremos encontrar, nós, os que não pertencem.

~CC~

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Manual para pessoas que vivem sozinhas (I)

 

Aí vão os primeiros três conselhos:


1. Não deixes acumular a loiça no lava loiças para além da dimensão do próprio.

2. Não deixes de pôr a mesa e comer com faca e garfo, evita a colher, o prato de sopa e o sofá.

3. Tenta vestir roupa de sair todos os dias, mesmo que mantenhas sempre as pantufas/chinelos.


Querem ajudar? Tentemos chegar às 12.


~CC~

Inspirado no Manual para mulheres de limpeza, de Lucia Berlin.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

As minhas mãos

 

O trabalho intelectual não tem forma, matéria palpável, cor ou cheiro. Angustia-me isso algumas vezes, é um pó que parece desparecer ao primeiro sopro. Tantas horas para isto, um quase nada.

Quereria ter aprendido a fazer coisas com as mãos, ver que elas seriam capazes de arranjar coisas, costurar roupas, fazer bordados, amassar pão, girar a roda de oleiro, arrancar ervas daninhas. Circunscritas ao trabalho doméstico e culinário, como me parecem desaproveitadas.

Antes da pandemia ainda lhes dava uso em pele alheia, usando-as para tocar, afagar e abraçar. Agora cada vez menos. Vai sobrar-me em mãos o que me excede na cabeça.

~CC~

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Da Maldita...

 

Às vezes lembro-me dela, da maldita.

Soube que estava mesmo mal quando a pessoa que profissionalmente mais me detesta me ligou várias vezes. Nunca consegui atender. Se atendesse era para lhe dizer que não ia, nem queria morrer, podia parar de me ligar.

Soube que a doença estava quase vencida quando ela voltou a ser quem era, espetando aqui e ali uma farpa, fechando portas que eu queria abrir, minando caminhos que eu poderia trilhar. Soube então que estava viva, que ia viver mais uns anos.

É verdade que ninguém deseja inimigos e eu também não mas são eles que nos dão sinais inequívocos e precisos deste tipo.

~CC~

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Outros lugares

 

Há os lugares onde o sol se põe, invadindo com a sua beleza o nosso corpo por inteiro. Mas há também lugares virtuais, passamos por lá por saber que existe atrás deles uma pessoa singular, que nos agarra, enriquece, emociona e/ou diverte ou todas essas coisas. Dantes, faziam-se listas dos blogues do ano, coisa que parece ter desaparecido, não que sinta a falta desses prémios, selos ou distinções, sou mesmo avessa a eles. Apenas sinto vontade de lhes agradecer por existirem e lhes pedir desculpa por ainda não os ter colocado ali, junto das outras ruas do meu bairro (o tempo, sempre a fugir para outras prioridades).

Erva Príncipe, da Bea

A Faca não corta o fogo, da Flor

Não mudes nunca, da SJ

Atravessado, do Manel Mau-tempo.

Peregrinatio, de Homo Viator.

Imprecisões, é de um colectivo, mas é a Alexandra a sua alma (só é pena que faça longas ausências).

Têm a delicadeza de nos responder aos comentários e/ou de nos visitar e para mim a reciprocidade e a interacção são importantes, embora respeite quem não a quer ter.

E ultimamente a Linda Blue, mesmo sem comentários e sem visitas, às vezes passava lá, agora passo com regularidade para ver como ela está e verifico mais uma vez que o humor é um dos ingredientes mais importantes da grande e longa batalha, ela usa-o ainda mais e melhor do que aquilo que eu fiz. Quem é que coloca o nome de Natércia a uma peruca?! Só mesmo a Linda que é mesmo linda.

Agora não desapareçam nem mudem todos para o Twiter ou FB ou qualquer outra coisa dessas. É que ainda tenho saudades destes:

Miss Smile

Cuca, a Pirata

O sítio das pequenas coisas

Palmier Encoberto

~CC~


domingo, 9 de janeiro de 2022

Inscrição


 



Poderei ver mil coisas novas e quero vê-las, ainda assim não perderei o amor pelas antigas, pelos lugares inscritos na vida, aqueles a que sempre voltarei.

~CC~



quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Inundados, aturdidos, atolados...

 

O meu mail institucional deixou de comunicar com o exterior, só aceita comunicações de endereços internos, assim como todas as plataformas onde entro com a palavra passe da instituição. Isto dura há mais de um mês, acarretando-nos dificuldades que até agora não imaginávamos. Fomos atacados por mails fraudulentos, algumas pessoas entraram nesses links e ficámos a constar de uma lista negra, os informáticos mal conseguem passá-la para cinzenta.

Parece que também a SIC e o Expresso foram alvo de piratas informáticos. Alguém consulta um site, por exemplo de comparação de preços de um produto e a seguir recebe uma chamada de um vendedor de uma dessas empresas. Se vir a publicidade de um novo automóvel, durante semanas receberei publicidade de automóveis, dessa marca e de outras. Se sair de um restaurante pedem-me imediatamente que o classifique com estrelas. Enquanto trabalho, inúmeras notificações de notícias vão chegando, ainda que sejam de um jornal minimamente credível, são incomodativas. Um colega contou que anda sempre com o GPS do TM desligado, mesmo assim recebeu informação via google a dizer onde tinha estado no fim de semana. Há pessoas que nunca mais ligaram, nunca mais lhes ouvi a voz, só as vejo escrever em "grupos" de whatsapp, outras já nem escrevem, só colocam bonecos.

Estamos inundados, aturdidos, atolados, controlados, tontos. Não se aguenta mais. 

Ainda voltaremos a escrever cartas, postais e telegramas. 

Ou iremos curar-nos para retiros de silêncio numa montanha qualquer. Eu já ia.

~CC~


terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Bairro

 

"Já tenho as suas bolachas".


(É isto o bairro, e não é por saberem quem sou, onde trabalho ou que títulos académicos possuo, nunca lhes falo disso. É apenas por voltar com alguma regularidade ao lugar onde se diz bom dia, se arredondam os trocos e sabem daquilo que gostamos)

~CC~

domingo, 2 de janeiro de 2022

Destino(s)

 

Depois da grande viagem não saciei a fome, pelo contrário, é como comermos algo que nos sabe bem, o sabor fica gravado na memória mas nunca saciado. Além disso, cada vez que supero uma coisa que receio, fico muito mais corajosa, alimentada pela força que aquilo me deu. E superados os dilemas que sinto no binómio "o turismo mata, o turismo alimenta". Mas mais uma vez senti que aquilo que aprendi indo é insuperável, não há livros ou filmes que o substituam.

A única coisa boa do uso do alfabeto grego no baptismo das variantes do vírus maldito é que me recordou que nunca fui à Grécia. Mas não posso ficar na margem das coisas, essa grande dificuldade do turismo de massas, mostrarem-nos as coisas em vez de nos deixarem descobrir. Pelo menos que fique a meio termo. Tenho de pensar bem, para além de alimentar o mealheiro. Venham daí sugestões dos viajantes.

~CC~


sábado, 1 de janeiro de 2022